Segunda-feira, 15 de Junho de 2020

A História da Foto: mergulho na Mantiqueira

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Tchibum: mergulhei dentro de um rio congelado e ainda tinha 400 km pela frente (foto: Mario Bock)

O dia que fiquei pelado no meio do mato no inverno de 1987

Confesso que sou apaixonado pela serra da Mantiqueira. Sempre que tenho algum teste de moto que inclui viagem nem penso duas vezes e coloco a proa rumo à Mantiqueira. Lá tem tudo que gosto: estradas de terra, trilhas para caminhar, o complexo da Pedra do Baú, Campos do Jordão, São Bento do Sapucaí, pinhão, lareira e frio, muito frio!

Por isso toda vez que um teste incluísse estradas de terra, intercaladas com asfalto, eu já preparava os mapas da Mantiqueira e nem precisava muito esforço pra convencer a equipe, porque todo paulistano que se preze gosta daquela região.

Na revista Duas Rodas tínhamos uma editoria batizada de Aventura-Teste, era a melhor parte da revista, tanto para nós que produzíamos quanto para quem lia. Era a chance de viajar de moto sem gastar, nada luxuoso, mas super divertido e aprazível. E foi num dia qualquer de agosto de 1987 que surgiu a pauta de fazer uma Aventura-Teste com as três maiores motos trail vendidas na época: a Honda XLX 350R, a Agrale Dakar 30.0 e a Yamaha DT 180N. Imagine que nossa maior trail era uma 350cc.

Como de costume o fotógrafo escalado foi o super competente e companheiro de roubadas Mário Bock. O terceiro elemento foi nosso “Kowalski”, o faz-tudo, Gilson Gomes, conhecido no mundo fora de estrada como Cuém-Cuém (não me pergunte porquê). Vale a pena abrir um parágrafo para explicar quem era (e ainda é, porque tá vivo) Gilson Gomes.

O cara entrou na editora para ser nosso motoboy. Mas em pouco tempo descobrimos que por trás daquele disfarce de menino inocente estava um super-piloto com super poderes mesmo. Gilson, a quem eu chamava de “Loco y Pazzo”, foi piloto de bicicross, de motocross e se especializou em manobras radicais muito antes de isso virar moda. Reza a lenda que ele ajudou a treinar o AC Farias, o primeiro brasileiro campeão mundial de wheeling. Bom, não precisou muito para que ele fosse alçado à condição de nosso piloto de teste radical. Ele empinava qualquer moto: de CG 125 à Gold Wing. As melhores fotos de wheeling naquela época era com o Gilson ao guidão. Além disso nós dois tínhamos uma sintonia perfeita nas fotos em dupla. Fizemos fotos saltando juntos, empinando, nose wheeling etc. A gente nem precisava olhar um pro outro, fazia tudo na mais perfeita combinação.

Eu, na XLX e o Gilson, na XT 600, uma dupla sintonizada nos saltos. (foto: Mario Bock)

Então tínhamos três motos de uso misto, três motociclistas, sendo dois com experiência em fora de estrada e um fotógrafo que nunca tinha viajado por trilhas. Coube a mim o roteiro e fui nos meus arquivos buscar mapas e referências. Eu sempre guardava as planilhas de enduro e consegui juntar uma planilha do Enduro das Montanhas com uma do Enduro da Independência para criar um roteiro de São Paulo ao Rio de Janeiro usando mais de 80% de estradas de terra. Sim, você já viu isso antes. Minha obsessão compulsiva era fazer uma viagem de SP ao Rio, de moto, só por estradas de terra. Tentei várias vezes ao longo da vida mas só consegui uma vez... de carro 4x4! E lá fomos nós tentar mais uma vez. Agora tinha de dar certo!

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Combinamos de sair bem cedo de SP porque nosso plano era começar na trilha em Mairiporã (SP), passar por Campos do Jordão (SP) e pernoitar em Visconde de Mauá (RJ). Como nenhuma aventura tem graça sem um componente natural comprometedor, depois de semanas de um “veranico” em SP, chegou uma frente fria bem na noite anterior. A temperatura caiu uns 20 graus de um dia pro outro e marcamos a partida pontualmente às cinco da manhã, devidamente pasteurizados pela diferença de temperatura.

Para chegar em Mairiporã pela estrada Fernão Dias, temos de passar por um túnel batizado de Túnel da Mata Fria. Pensa num nome adequado! O sol até saiu, mas parecia lâmpada de geladeira porque só iluminava, mas não esquentava nada. Foi assim que chegamos no primeiro trecho de trilha. Como nada é tão ruim que não possa piorar – como você já está cansado de ler – choveu na véspera e o que era uma trilha fácil se transformou num mar de lama.

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Sem experiência no fora-de-estrada o Mario Bock caiu duas vezes em 200 metros. (Foto: Tite)

Não precisou mais do que 200 metros para o Mário cair duas vezes e mostrar que nossa pretensão de rodar 450 km naquele dia estava seriamente ameaçada. Sem experiência em fora-de-estrada o Mário estava com muita dificuldade e decidimos que ele deveria pilotar a DT 180 por ser mais leve e ter pneus melhores na terra. Não melhorou muito e nosso rendimento quilométrico estava tão baixo que optamos por cortar esse trecho de trilha e voltar pra estrada de terra.

Melhorou muito até chegarmos à barragem da represa de Mairiporã. Vimos que dava para colocar as motos numa passarela para fazer a foto que foi a abertura da matéria. Foi um baita sufoco porque tivemos de subir e descer um lance de escada com as motos, mas o Gilson subia até parede. Pra ele tudo parecia muito fácil.

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A gente fazia qualquer coisa por uma boa foto, até subir escada! (foto: Mario Bock)

Vi que dava para cortar caminho e chegar numa estrada asfaltada, mas no meio do caminho tinha um riozinho bem estreito. Poderia dar uma bela foto com a moto espirrando água. Fizemos as fotos e eu tive a péssima ideia de colocar a DT 180 numa ilhota no meio do rio. Só não imaginava que naquele trecho o córrego tinha quase 1,5m de profundidade e a DT naufragou solenemente, comigo junto! E a gente tinha ainda mais 400 km pela frente!

Afogador

Se você nunca mergulhou num rio de moto e tudo saiba que é bem desconfortável. Mas pode piorar se a temperatura ambiente for de 60C e a água parecer vir diretamente da Sibéria para a sua cueca. Eu não conseguia me levantar, mas ouvia o Gilson rolando de rir ao longe enquanto o Mário continuava fotografando tudo aquilo. Quando finalmente consegui empurrar a DT pra fora do rio, como um crocodilo gordo e congelado, veio a má notícia: não era só a minha cueca que estava encharcada, mas também o filtro de ar da moto, o carburador, o sistema elétrico, embreagem, cárter, tanque de gasolina e tudo mais que podia entrar água. E fazia apenas uma hora e meia que estávamos viajando.

Decidimos nos dividir em duas tarefas: o Gilson e o Mário cuidariam da moto e eu cuidaria de não morrer de frio. Tirei toda roupa (mesmo!) para colocar roupas secas. Lembra que colocamos o Mário na DT 180? Pois então, foi a mala dele que afundou comigo e com isso salvei minhas roupas que estavam no bagageiro da XLX 350. Antes de vestir minhas roupas secas tentei fazer xixi, mas com a água naquela temperatura eu precisava de uma pinça.

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Motorzinho travado e freios inundados: essa DT deu trabalho. (fotos: Mario Bock)

O Gilson colocou a DT na vertical até sair água pelo escapamento. Drenou a água do filtro de ar, retirou a vela, acionou o pedal de partida e saía água por todo lado. Trocamos a gasolina do tanque e adicionamos um pouquinho de óleo 2T direto para evitar eventual travamento. Terminada toda essa operação a DT pegou na primeira pedalada! Eita moto imparável! O motor da DT é impressionante de resistente. Mas calma, leia até o fim.

Revi o roteiro e decidimos evitar as trilhas – e os rios – optando por estradas de terra. Meu capacete, minhas botas e luvas estavam molhados e a sensação térmica era que eu estava com blocos de gelo em cada membro do corpo. À medida que subíamos para Campos do Jordão a temperatura caía (mais!!!) e comecei a tremer descontroladamente. De tempos em tempos tínhamos de parar para fazer fotos e eu aproveitava para colocar as luvas no motor da moto pra tentar secar. Mesmo assim senti que estava ficando perigoso ter uma hipotermia porque meu queixo batia que nem uma castanhola.

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Era só o Gilson olhar pra mim pra começar o rally de velocidade. (Foto: Mario Bock)

Mesmo evitando as trilhas a média horária era muito baixa porque enquanto eu e o Gilson conseguíamos pilotar a 70 até 80 km/h na terra, o Mário não passava de 40 km/h. Tomei a decisão de pernoitar em Campos do Jordão, que representava 1/3 do percurso para aquele dia, mas eu não queria passar uma noite na estrada com aquele frio. Para completar o quadro de desespero, a Agrale começava a dar sinais de superaquecimento sem nenhum motivo aparente.

Quebradeira

Na época pré-celular não tinha como simplesmente sentar num banco de praça e reservar um hotel. Ou usávamos o orelhão (telefone público para os millennials) ou tínhamos de bater de porta em porta perguntando se havia vaga. Para nossa sorte eu tinha (e ainda tenho) um amigo dono de hotel em Campos do Jordão e fomos direto em busca de banho quente e lareira.

Na manhã seguinte nossas motos estavam cobertas de gelo. Isso mesmo: gelo! Mesmo sendo apaixonado por montanha, acho que gelo combina muito bem com uísque. Não gosto de gelo no banco da moto e muito menos na minha bunda. Passar a noite ao relento sob temperatura abaixo de zero não fez bem para a Honda XLX 350R que resistiu a todas as nossas tentativas de ligar no pedal de partida. Para quem nunca ligou uma XLX 350 não faz ideia de como aquele pedal de partida é traiçoeiro. Representa uma ameaça real à canela e muitas sucumbiram à essa missão.

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Pra fazer essa foto o Mario se enfiou dentro de um buraco. (foto dele mesmo)

Por ter as pernas mais longas coube ao Gilson tentar milhares de pedaladas e... nada! Até que partimos para a solução técnica mais profissional do momento e soltamos ela na ladeira para enfim pegar no tranco. Mas aquela dificuldade era um mau presságio.

Se o primeiro dia foi um sufoco e rodamos apenas 250 km sendo que menos de 50 km por asfalto, no segundo tudo foi bem melhor. A começar pelo sol um pouco mais generoso. Talvez até demais, porque perto do meio dia o motor da Agrale começou a literalmente nos encher o saco. A temperatura ficava acima de 90 graus, às vezes passava de 100 até 120, mas não achávamos onde estava o problema. Para completar o freio dianteiro da DT 180 simplesmente baixou tanto que não dava mais regulagem.

Mesmo assim seguimos o roteiro passando por trilhas com lindas paisagens, fotos belíssimas que, infelizmente foram publicadas em preto e branco e até o Mário já estava mais à vontade nas estradas de terra.

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Dos quase 1.000 km rodados cerca de 700 foi por estradas de terra. (Foto: Mario Bock)

Todas as motos em teste apresentaram algum problema. As três ficaram sem carga de bateria. Além disso, a DT 180 começou a “bater saia” e não sabíamos avaliar se o problemas foi decorrente do mergulho ou porque exageramos no período de amaciamento. Eu retirei a moto na Yamaha com apenas 7 km rodados e no dia seguinte já estava fritando nas trilhas. O freio dianteiro dela ficou péssimo provavelmente por ter enchido de água, mas segundo a fábrica o sistema a tambor era “resistente a água e poeira”, hum, sei. E a Agrale foi um festival de problemas: ficou sem bateria, o motor esquentava demais e o freio dianteiro também era apenas uma referência simbólica. A XLX 350 só era difícil de ligar, especialmente pela manhã, mas tínhamos o Gilson pra pedalar.

Neste percurso de Campos a Mauá eu e o Gilson, sem combinar nada, começamos a apertar o ritmo. Ele pilota muito mais que eu, mas eu não queria ficar na poeira dele. Fizemos um raid de velocidade que nem dois malucos, parando só nas encruzilhadas para esperar o Mário Bock. Como a viagem foi durante a semana não passava nenhum carro por horas seguidas e isso foi um estímulo pra esse “pega” saudável. O Gilson descobriu que conseguia manter o motor da Agrale em 80 graus se mantivesse a 6.000 RPM o que era fácil para a experiência dele, mas somente depois de muito tempo percebemos a origem do problema: uma pedrada tinha causado um pequeno furo no radiador.

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Foto da capa em Visconde de Mauá (Foto: Mario Bock)

Chegamos em Visconde de Mauá ainda com luz do sol, fizemos uma bela foto que foi pra capa e nos hospedamos numa pousada. O plano no dia seguinte era descer até Angra dos Reis e de lá voltar para São Paulo pela Rio-Santos, completando o itinerário de montanha-mar. Na teoria o plano era perfeito e até tranquilo, se o destino não tivesse mais uma vez se colocado no nosso caminho na forma de um Monza!

Acordamos cedo e as motos estavam novamente cobertas de gelo e de problemas. Além da nossa bagagem tínhamos de levar uma garrafa de água para completar o radiador da Agrale. Aquela moto já estava dando nos meus nervos! O trecho entre Mauá e Penedo é uma serra deliciosa. Naquela época ainda era de terra (hoje é asfaltada) e o engenheiro que construiu deve ter cobrado a empreitada por curva. Tipo “me paga um conto de Réis por curva que tudo bem”. Ficou milionário! Tem mais curva que um intestino delgado!

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Decidi pilotar a Agrale nesse trecho, mantendo um olho na estrada e outro no termômetro do radiador. Quando chegou a parte sinuosa olhei pro Gilson, que olhou pra mim e começou outro rally dos desesperados. Sem poder passar de 6.000 RPM eu trocava tanto de marcha que perdia a conta. Fomos assim até que numa curva fechada, tipo das que não tem fim, o motorista de um Monza ficou olhando pra paisagem, entrou na contramão e me acertou em cheio. Ou melhor, eu acertei! Consegui frear um pouco, a moto ficou de lado, foi em direção ao logotipo da gravatinha e quando percebi que ia bater soltei tudo e me joguei no capô do carro, parando com o capacete a um palmo do para-brisa.

Na hora senti que algo de errado não estava certo com meu pé esquerdo. O motorista desceu pedindo desculpa, uma mulher gritava achando que “matamos o motoqueiro” e, mais uma vez quando tudo parecia que não podia piorar chegou o Mário Bock pagando esporro geral achando que eu era o culpado e pedindo desculpas ao motorista.

O relatório de danos não apontava nada de errado com a Agrale, um amassado no capô do Monza e um pé esquerdo dolorido. Nas minhas andanças (e tombaços) no fora-de-estrada aprendi uma coisa: se perceber que machucou o pé não tire a bota! Porque se tirar e o pé inchar nunca mais vai conseguir vestir. Além disso a bota de trilha funciona como um imobilizador muito eficiente.

Analisando a situação decidi abortar o trecho de litoral – que prometia altas fotos – e retornar direto pela Via Dutra. Depois do acidente virei pro Gilson e implorei:

– Nada de correr, tá! Vai começar o trecho de descida da serra até Penedo, vamos descer com as motos desligadas pra não fritar o motor da Agrale. Não pode ligar o motor, OK?

O Gilson concordou, começamos a descer a serra com os motores deligados e não precisou nem de cinco minutos pra começar o racha mais louco do mundo porque nenhum dos dois queria frear pra não perder velocidade. Sem poder contar com o motor pra controlar as saídas das curvas quase passamos reto em várias curvas. Ou seja, quem pega o vírus da velocidade nunca se cura!

Chegamos milagrosamente vivos na Via Dutra e dei graças por estar com a XLX 350, porque o motor quatro tempos tinha mais retomada e não precisava trocar tanto de marchas. Fiquei rodando em última marcha a maior parte do tempo. Tudo caminhava para um final feliz quando do nada a DT parou de funcionar. Diagnóstico: travou o motor! Mesmo acrescentando óleo 2T direto no tanque ela não aguentou nosso ritmo ralizeiro.

Deixamos a moto numa praça de pedágio e conseguimos chegar em nossas casas quase inteiros.

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XLX 350R, obviamente a melhor das três no asfalto. (Foto: Mario Bock)

No dia seguinte fui no hospital pra conferir os danos e constatou-se uma fratura no dedão, mais uma pra coleção! O lado bom da fratura de dedo é que não precisa fazer nada além de mancar e esperar.

A reportagem completa foi publicada com todos esses detalhes que contei aqui. Pior: no fim do texto eu escrevi: “Voltamos pra casa e fizemos as considerações gerais sobre as três fora-de-estrada. Começando pela Honda XLX 350R, que batizamos de ‘Rainha do Asfalto e dos Estradões’... da Agrale 30.0, batizada de ‘Rainha das Oficinas’ (todo mecânico acha linda e adora mexer)... a DT 180, batizada de ‘Rainha das Trilhas’”.

Nenhum fabricante contestou, a Yamaha foi buscar a DT 180 na praça de pedágio e não me jurou de morte. A Agrale não suspendeu a publicidade na revista e a Honda não nos chamou para uma reunião de “ajuste editorial”. Hoje em dia as consequências de um relato desses seria equivalente a uma crise ministerial. Naquela época as motos davam problemas mesmo, era normal e nossos testes serviam para os fabricantes melhorarem seu produtos. Logo depois a Yamaha lançou a DT 180 com freio dianteiro a disco. A Honda substituiu a XLX 350R pela Sahara com partida elétrica e a Agrale, bem, a Agrale pararia a produção de motos dois tempos.

Nenhum jornalista perdeu o emprego, nenhum assessor de imprensa convocou um comitê de gerenciamento de crise, nada disso. Não sei como o jornalismo especializado chegou nesse ponto quando comentar que não gostou do som da buzina parece uma enorme grosseria e falta de empatia com os fabricantes. As motos melhoraram muito, certamente. Acho que é quase impossível uma moto apresentar problemas numa viagem de 1.000 km. Até brinco que ficou chato testar motos hoje em dia porque dá tudo certo! Os tempos de Aventura-Teste ficaram no passado, hoje o mais honesto seria chamar de “passeio-teste”.          

publicado por motite às 02:22
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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

Faiscando pelas lavras de Diamantina

 

Nunca publiquei no Motite qualquer texto que não fosse de minha autoria. Mas tive de abrir uma exceção primeiro porque esse Octavio Tostes é aquele tipo de jornalista que eu chamo de "jornalista de raiz", o cabra escreve bem pacas. Segundo porque é uma tentativa de fazer do Motite um blog mais efetivo e com conteúdo mais variado. 
Delicie-se, literalmente, com esse saboroso relato de uma viagem de moto simples, tranquila e sem pretensões aventurescas!

 

 

Faiscando nas lavras de Diamantina

Texto e fotos: Octavio Tostes

                       

Para a galera do StradaS Moto Clube

 

O prato fundo de ágata branca serve comida mineira na Venda do Chico, restaurante sombreado no quilômetro 743 da Fernão Dias, sentido BH. É sábado, hora do almoço na viagem de São Paulo a Diamantina. Meu amigo Ulisses e eu começamos a bordejar de motocicleta a região da Estrada Real, primeiro caminho do Brasil no tempo do ouro e dos diamantes.


Foi diante um prato desses, conta Ulisses, que saquei porque os mineiros são discretos (ou dissimulados). Ágata é leve, não quebra e quem faísca não grita o que achou na lavra. Escuto e desconfio, enquanto misturo, uma por vez, pimenta malagueta, cumari e habanera ao arroz com feijão, mandioca, costelinha, couve, lingüiça e angu que me devolvem a infância na fazenda entre Palma (MG) e Miracema (RJ), na zona da mata mineira.




Na saída, o disco de arado anunciando com capricho leitoa caipira para viagem reviveu meu pai. Ele falava com gosto de uma placa de trânsito improvisada que proibia estacionar carro de boi em frente à prefeitura de Palma. O mijo dos animais deixa um cheiro muito forte, explicou meu irmão Pedro, fazendeiro, quando conferi com ele esta lembrança para lapidá-la aqui.


Ao manobrar no cascalho, comentei esse é o chão que mais respeito, o mais fácil de beijar, arrematou Ulisses. Não imaginávamos quanto aquela conversa fiada era profética.  Na chegada a Tiradentes, a estação de trem, clara, lambrequins rendilhando o telhado, me enterneceu. Comprei uma pomada pilotar 500 quilômetros em 10 horas assa tanto quanto cavalgar.




No café da manhã na pousada, Beth Samos, dona de salão em Belzonte, ex-trilheira de moto e agora jipeira solitária, garante que a estrada vicinal para Diamantina está boa. Valeu, Beth. Curvas suaves, quando a moto deita, parece surfe ou capoeira. O motor canta, passando por pastos, vacas e trem que apita. Coronel Xavier Chaves, Lagoa Dourada, São Brás do Suaçuí, as cidades recendem a torresmo, domingo e para chegar com dia, riscamos BR 040 acima.


Não deu para entrar em Cordisburgo, o berço de Guimarães Rosa ficou para a próxima. Retões, solão, miragem, sertão azul acachapante. Quando atravessávamos a paisagem de granito já perto de Diamantina, o sol era uma enorme laranja cadente. Descer de moto as ladeiras de pedra capistrana da cidade de Chica Silva e Juscelino Kubitschek foi pisar em ovos escorregadios. Caía a noite.




A pousada Relíquias do Tempo é um museu para viajantes. Oferece o café da manhã em torno do fogão a lenha, com bolos, geléias, sequilhos, pão de sal e de queijo, sabores da minha avó mineira. Subimos e descemos ladeiras contemplando igrejas e casario. À tarde, na poltrona de madeira do jirau, fumei um charuto ao lado da jabuticabeira.


Carmem, a dona da pousada, contou com entusiasmo que comprou dos tios o casarão do século XVIII onde morara seu avô e, com o marido, se dedica a preservar ali a memória da região. Descreveu peça por peça a sala com reportagens, fotos, cartões, um pijama e o violão autografado pelo seresteiro JK. Depois,  a sala com a maquete de um garimpo, peças ainda da escravidão, bateias, instrumentos de lapidação e fotos do sogro e do pai dele, diamantários – negociantes de gemas.

    

O tombo profetizado na Venda do Chico aconteceu no início da volta. A estradinha de terra entre Datas e Congonhas do Norte era costela no meio e cascalho nas beiradas. Íamos a 20, 30  por hora quando Ulisses caiu. Catei assustado o freio dianteiro e beijei o chão também. Ele trincou um dos ossos da perna, mas a gente só soube pela chapa em São Paulo.


Entre o susto e a chegada na sexta seguinte, houve mais acontecências. Sabedoria de preta velha na Serra do Cipó, heroísmo do amigo em passar marcha com o calcanhar ao longo de mil quilômetros – seu pé esquerdo não dobrava - , sossego em Monte Verde, goiabada com queijo, achados que talvez seja melhor guardar por ora. Há sempre dias sem assunto e parece acertado mesmo não alardear toda pepita que se leva no embornal.


 

 

publicado por motite às 13:51
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

O que nos leva para a estrada

(Pode ser até com garupa... Foto: Hugo Yamamoto)

 

Muita gente nem precisa, mas alguns motivos pra apenas viajar de moto

 

No dia 1º de maio de 1994, logo após a batida forte do Ayrton Senna no muro de Imola, percebi que a situação era grave. Assim que pediram o helicóptero tive certeza que era grave. Vi a corrida até o fim com os olhos na TV e os ouvidos na Rádio Jovem Pan, foi quando realmente soube que o desfecho caminhava para algo terrível. Da mesma forma que uma criança esconde o rosto e acha que ficou invisível, pensei que se desligasse todos os meios de comunicação a notícia não me atingiria. E a única forma de fazer isso foi sair de moto.

 

Peguei a moto e fui pra estrada sem rumo e longe de qualquer notícia, queria curtir as curvas do interior de São Paulo para não pensar em mais nada, apenas sentir o vento no corpo. Logo em seguida descobri que muitos motociclistas usam a moto com o propósito de rodar a esmo, sem direção, nem objetivo, só esvaziar a alma. Percebi ainda que existem vários motivos que nos leva à essa função desestressante da moto. Algo como um divã de analista, mas com várias vantagens como menor custo (apenas a gasolina), mais gostoso (não precisa chorar bem ficar deitado e ninguém culpa tua mãe) e muito, mas muito mais divertido!

 

Por isso enumerei alguns motivos que podem levar um motociclista à estrada com a finalidade exclusiva de relaxar a mente e esquecer a vida. Veja se você já não passou por isso:

 

1)    Você gastou 1.500 reais em um capacete importado super style e uma semana depois a loja começou uma liquidação e vendeu o mesmo capacete por 500 reais!

 

2)     Para impressionar a gatita que acabou de conhecer você oferece a ela o capacete caríssimo que acabou de comprar. E ela deixa cair bem na quina da calçada.

 

 

3)    Finalmente você conseguiu poupar a grana pra comprar a moto do seus sonhos, e um mês depois a fábrica lança uma versão muito melhor, mais avançada, linda e pelo mesmo preço!

 

4)    Você encontra uma caixa de pílula anticoncepcional e entrega à sua esposa, mas ela esclarece que não é dela. E a única outra mulher da casa é sua filhinha de 17 anos querida do seu coração, que ainda ontem você carregava no colo.

 

5)    Você foi promovido para um cargo de muito mais responsabilidade, mais trabalho, com 10 estagiários sob sua gerência, mas o salário continuou o mesmo.

 

6)    Sua esposa acabou de bater o carro, mas felizmente tem seguro. Mas descobre que a habilitação de motorista dela está vencida há dois meses!

 

7)    Sua filha querida do coração passa a noite fora, alegando que dormiu na casa da Marcelinha, a mesma amiga que ligou às duas da manhã perguntando pela sua filha!

 

8)    Duas gatas maravilhosas mudam para a casa geminada à sua e na primeira oportunidade que você se aproxima descobre que elas namoram. Entre elas! E uma delas ainda te convida pro futebolzinho de quarta no time no qual ela joga de zagueira.

 

9)    Seu pai, aos 84 anos, decide deixar tudo que tem para os filhos: um monte de conta atrasada!

 

10) Sua namorada te troca por um cara mais novo, mais forte, mais rico, mais bonito e com uma moto bem maior que a sua!

 

11) Aquela sua prima do interior, gatíssima, safada, sósia da Xuxa avisa que vai passar uns dias na sua casa. E traz o namorado junto.

 

12) Seu filho chega em casa saltitante e diz que teve a primeira experiência sexual. Animado, você diz “senta aí e conta como foi!”. E ele responde: “pô, pai, só que não tô conseguindo sentar!”

 

13) Você esquece o Messenger aberto e foi tomar banho. Sua esposa aproveitou e mandou apenas um “oi” para uma tal Vanessexy. Quando saiu do banho viu a tela do PC partida ao meio.

 

14) É seu primeiro dia de trabalho em uma multinacional e você pergunta para uma secretária “quem é aquele cara ridículo de terno xadrez?” e ela revela: “é seu gerente e meu namorado!”

 

15) Finalmente aquela gata mega sexy aceita o convite pra passar o fim de semana no seu apê na praia. E ela está “naqueles dias”!

 

16) O São Paulo está na final da copa Libertadores da América contra um time argentino e bem na hora do Rogério Ceni cobrar a falta acaba a luz no seu bairro, sem previsão de restabelecer.

 

17) A sua colega de pós-graduação diz que você é um coroa charmoso, em ótima forma e vai te apresentar alguém muito especial: a mãe dela!

 

18) Cede seu lugar no metrô a uma moça fofinha e ainda explica todo simpático “as grávidas têm prioridade”, e ela amarra a cara e diz “mas eu não estou grávida”!

 

19) Resolve gastar uma nota preta num salão de beleza masculino para ficar com a cara do Gianecchini e sai com a cara do Renato Aragão.

 

20) Paga uma de gatinho, calça justa e camiseta descolada em uma rave e encontra seus três filhos e todos os amigos dele!

 

21) Move mundos e fundos para conseguir uma credencial para o GP Brasil de Fórmula 1 na ala vip e acorda domingo com uma tremenda gastroenterocolite (popular diarréia).

 

22) Encontra seu chefe na praia e comenta “que gracinha a sua filha” e descobre que é a amante dele.

 

23) Reencontra seu chefe algumas semanas depois em uma festa da empresa e comenta “nossa como sua mãe é conservada” e descobre que é a ESPOSA dele.

 

24) Depois de perder o emprego você descobre que sua ex-empresa foi fechada porque não depositava o fundo de garantia dos empregados, inclusive o seu.

 

25) Acorda num domingo de sol radiante e decide levar sua namorada para um agradável passeio de moto, mas a chama pelo nome da sua ex.

 

26) Os pais de sua namorada te convidam para um almoço de domingo e servem dobradinha. E você odeia dobradinha!

 

27) Para diminuir o mal estar seu sogro te convida para ver o jogo de futebol na TV e você explica que odeia futebol, que é tudo marmelada, com resultados arranjados e só então descobre que o sogrão é juiz de futebol dos quadros da FIFA.

 

28) Você acorda de manhã e descobre que seu rothweiller devorou os alforjes de couro caríssimos de sua Harley idem.

 

29) Na hora de colocar o cachorro de castigo descobre que suas botas de couro de jacaré também foram dilaceradas.

 

30) O cachorro morre de indigestão!

 

31) Você vota no PMDB para prefeitura da sua cidade, mas quem assume é um histérico do PFL e não faz diferença nenhuma, porque quem manda na cidade é o PCC.

 

32) Esquece o dia do aniversário de casamento. Pela última vez!

 

 

publicado por motite às 13:44
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Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Um fim de semana perfeito

(Moto, sol, curvas e montanha, tudo di bão! Foto: Tite)

 

Um fim de semana perfeito começa na sexta-feira com a previsão do tempo anunciando sol e temperatura amena nos dias seguintes. Entenda-se por amena, em maio, algo em torno de 6 a 15 °C. Ótimo para escalar montanhas de rocha, bom para curtir o friozinho da serra, mas bem desconfortável para quem pretende viajar à noite... de moto!

 

Foi com a temperatura descendo que nem elevador que preparei todo o equipamento de escalada, mais saco de dormir, ajeitei tudo na BMW F 650GS (a de dois cilindros, viu?) e me mandei pra São Bento do Sapucaí, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Peguei a estrada à noite e o vento a 140 km/h provocava a sensação térmica de um freezer, com direito a pingüim e tudo.

 

No meio da Carvalho Pinto, parado na cabine do pedágio, percebi que a mocinha tremia de frio. Falei pra ela: “pega aqui” e ela obedeceu, sem cerimônia. Pegou delicadamente (percebi que ela tinha uma aliança na mão esquerda) e fez “ahh, que delícia”. Tudo bem, era só a manopla aquecida da BMW. Saí da cabine pensando quanto sofri na minha infância motociclística, entre 15 e 18 anos, quando viajava à noite, por estradinhas de terra, evitando a fiscalização, sob um frio congelante sem um décimo de equipamento que dispomos hoje. Roupa térmica por baixo, balaclava, casacos de material sintético, botas, luvas e até manopla aquecida.

 

Quando viajei de moto na Itália, em pleno outono, descobri que frio é uma sensação relativa. Tudo depende da qualidade e quantidade de equipamento colocado sobre o corpo. Fico feliz de ter à disposição uma bela quantidade de bons equipamentos e penso como meu avô sofria pilotando moto nos anos 50 com casaco de couro, bota de equitação, capacete aberto e cachecol de lã! E olha que nem existia o aquecimento global!

 

O fim de semana perfeito continua com um céu tão estrelado que perde-se a conta da quantidade de estrelas cadentes. Pouca gente gosta de viajar de moto à noite. Eu não me importo, desde que tenha uma ótima viseira de capacete, através da qual posso olhar mais o céu do que o asfalto. Viajo a 100/120 km/h para poder olhar o máximo possível as estrelas, sem a menor pressa de chegar. Evito parar e uso a velha e conhecida almofada de gel para a bunda não reclamar dos 220 km apoiado nela sem refresco. Graças à esta almofada pode-se viajar horas a fio sem massacrar a coluna.

 

Para deixar o final de semana ainda mais perfeito, a estrada precisa ter curvas. Muitas! Com asfalto bom e sem tráfego. Foi assim que encontrei a serra de Campos de Jordão e depois a estradinha com mais curvas que um intestino delgado que liga Santo Antônio do Pinhal a São Bento do Sapucaí. Curvas e mais curvas, com visibilidade perfeita, pneus bons e nada de guarda!!!

 

(Aquele pico ao fundo é o Bau. Eu estou na Ana Chata. Foto: Belê)

 

A arte do auto-controle

A idéia era escalar sábado à tarde e domingo de manhã para conseguir voltar a São Paulo antes do pôr do sol. Saiu tudo exatamente à perfeição. O tempo ideal, com sol forte, temperatura média de 19°C, uma bela rocha de sólido granito de uns 180 metros e a companhia de ninguém menos que André Berezoski, mais conhecido por Belezinha, campeão brasileiro de escalada esportiva e um dos melhores escaladores do Brasil. Escalada é como jogar tênis: quanto melhor for seu parceiro, mais se evolui no esporte. Escalar com um campeão é como um curso grátis! Para lembrar uma história envolvendo esse atleta clique aqui.

 

(O campeão e mestre André Berezoski, Belezinha. Foto: Tite)

 

Ao contrário do que se imagina, a escalada não tem tantos riscos, desde que obedecidas as normas de segurança, claro. Neste aspecto sou tão xiita quanto na moto e faço até back-up do back-up nos itens de segurança.

 

Escalar é uma atividade que exige absoluta concentração. A subida é feita usando apenas as mãos e pés, protegido por uma corda de 60 metros com 9,5 mm de diâmetro. Durante a escalada não dá pra pensar em mais nada além dos movimentos e aderência. É uma relação peso x potência semelhante à das motos. Se o escalador é pesado tem de ser forte. Se não tiver tanta força é essencial ser leve. Os escaladores esportivos são como as motos esportivas: leves e potentes. Eu estou no meio termo entre quase magro e quase forte, por isso consigo subir sem tanto esforço, curtindo cada segundo, cada metro de paisagem, a vegetação, os insetos e lagartos e até o cheiro do líquen da rocha, que fica impregnado no equipamento por dias seguidos. Um verdadeiro perfume! Comparando com as motos, sou como uma big trail, pesada, com torque em baixa, mas não muito veloz.

 

(Na parada, esperando o Belê. Foto: Belê!)

 

O complexo do Baú é uma grande formação rochosa na divisa dos municípios de São Bento do Sapucaí e Campos do Jordão. É composto por três picos: Bauzinho, Baú e Ana Chata. Fizemos a via Peter Pan, na Ana Chata, considerada fácil, especial para iniciantes, para terminar cedo e conseguir realizar outro dos grandes prazeres do fim de semana: comida mineira! Essa via tem aproximadamente 150 metros, com ótimas agarras. Só que tem uma caminhada de aproximação que fica íngreme e cansativa nos últimos 30 minutos de um total de 90.

 

De volta do cume da Ana Chata conseguimos ainda pegar o terceiro grande prazer do escalador (o primeiro é atingir o cume e segundo é tirar a apertada sapatilha): o terceiro é comer! Muito!!! O nosso restaurante favorito é o Taipa que serve a tradicional comida mineira, mantida em forno de lenha, devidamente acompanhada de pingas da região e cerveja. Muita!!! Depois de ingerir algo perto de 3.897 calorias nosso organismo volta ao normal.

 

Dor de cabeça

Na noite de sábado uma persistente dor de cabeça ameaçou meu fim de semana perfeito. Normalmente dor de cabeça após esforço físico é sinal de falta de alimentação correta. Nessa escalada eu tinha levado duas barras de cereal e comi apenas uma. Não consigo comer nada quando estou nas montanhas, às vezes forço uma barrinha ou então uva passa.

 

Mas a verdadeira origem dessa dor constante e metálica foi descoberta quando desfiz a mochila de escalada e percebi que durante as quase três horas de extremo esforço físico eu havia ingerido apenas meia garrafa de água. De uma garrafa de meio litro! Ou seja, durante todo esforço de caminhar, escalar e voltar eu tinha consumido apenas 250 ml de água, o equivalente a um copo de requeijão!

 

Esse problema foi resolvido com a ingestão de mais de 1,5 litro de água e um comprimido de dipirona pra garantir. Perfeito! Meu fim de semana estava a salvo.

 

O fim de semana ideal também precisa de uma festa e tivemos uma para celebrar o aniversário das gêmeas escaladoras Juliana e Gabi, com direito a churrasco e cerveja. Muita carne e muita cerveja. Adeus dor de cabeça...

 

(O objetivo é chegar lá em cima. Só o cume interessa! foto: Tite)

 

F-1 e via ferrata

O domingo de um fim de semana perfeito começa às sete da manhã, com o sol forte, friozinho e o ótimo café da manhã da pousada Canto Verde, com biscoitos caseiros e um bolo de cenoura, coberto de chocolate digno de comer ajoelhado. Ainda assisti a primeira hora do GP de Mônaco de F-1 enquanto arrumava minha mochila para mais uma escalada, mas dessa vez diferente.

 

Existe um tipo de escalada chamada de “via ferrata”. Ela é comum na Europa, sobretudo na Itália e consiste de uma via de escalada em rocha auxiliada por algum tipo de suporte que pode ser uma escada de metal ou uma espécie de corre-mão de aço chumbado na rocha. No Brasil pode-se encontrar esse tipo de via no Rio de Janeiro, no morro da Urca e a via do CEPI, no Pão de Açúcar, uma das mais famosas e visitadas. No Estado de São Paulo as vias ferratas mais conhecidas estão no Baú, com as escadas da face norte e face sul, construídas em 1950 e mantidas até hoje.

 

(Esta é a via ferrata do Baú. Foto: Tite)

 

Por ser aparentemente uma escalada simples e fácil, essas vias ferratas são campeãs de acidentes e mortes. Muito mais por desinformação do que por imprudência. Nós, escaladores, só entramos nestas vias com equipamento básico de segurança. Já os turistas sobem tão despreparados que é comum termos de resgatar alguém em pânico, com tornozelo inchado, com insolação, hipotermia, atacado por abelha ou vespa ou arrebentado por uma queda de alguns metros.

 

Foi minha primeira via ferrata, porque nunca fui fã desse tipo de escalada. Até que curti bastante porque o dia estava muito lindo. Dessa vez levei três litros de água e tomei tudo! Só não consigo comer nada nestas escaladas, até uma simples bolacha desce atravessado.

 

Para completar esta escalada perfeita encontrei amigos escalando vias que eu nem conhecia e aproveitei pra tirar fotos. O cume do Baú estava repleto de turistas, por isso fiquei pouco tempo. A vista lá em cima vale cada gota de suor.

 

(Amigo escalando as falésias do Baú. Foto: Tite)

 

Esta tarde perfeita terminou com mais uma refeição rica em calorias, desta vez no restaurante Pedra do Baú, com vista privilegiada da pedra do Baú. Serve a mesma comida mineira, com doces, pinga etc. Carne de porco, farofa e torresminho, quem resiste?

 

(No cume do Baú. Foto: Gasparzinho)

 

Este fim de semana perfeito terminou com o retorno para São Paulo, pelas centenas de curvas, abençoado por um fim de tarde maravilhoso e ainda a lua crescente, quase uma unha, despontando no horizonte recortado por montanhas.

 

Nem os quatro pedágios infernizantes da volta foram capazes de atrapalhar este fim de semana. E ainda chego em casa e encontro meu grande amor com cheirinho de banho! O que mais um homem pode querer da vida?

 

Outro fim de semana igual a este!

 

(Para encerrar o fim de semana: o amor da minha vida. Foto: Tite)

 

 

* Se você se interessou por escalada, quer dicas de hospedagem, restaurantes ou mesmo fazer um curso de escalada em rocha, basta me escrever no tite@speedmaster.com.br

publicado por motite às 19:02
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Sábado, 23 de Agosto de 2008

Turista acidentado

Agora que descobri essa facilidade de postar vídeos, você poderá acompanhar algumas das minhas andanças pelo mundo...

 

Começando pela itália, em 2005, uma viagem molhada pra caramba!

 

 

 

publicado por motite às 03:20
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Nas estradas da vida

(Lago Salado, Peru - foto: Tite)

 

Um dos maiores benefícios da minha profissão é estar em constante movimento. Antes de ser jornalista eu nem sequer conhecia o Rio de Janeiro. Hoje eu tenho carimbo de mais de 30 países em meus passaportes e rodei por todos os cantinhos do Brasil.

 

Muitas dessas viagens foram feitas montado em motos. Por mais absurdo que pareça uma parcela muito pequena das viagens foram a passeio. Mais de 90% foram a trabalho. Por isso nem me queixo muito de não ter acumulado uma fortuna em grana. Porque sei que acumulei um tesouro ainda maior em experiência de vida. Mais do que experiência, renderam o livro "O Mundo É Uma Roda" (sim, é propaganda...), que é a materialização de um sonho antigo.

 

Uma das viagens mais marcantes foi para o Peru (dessa foto aí de cima). Viajei 21 dias, partindo de Lima e encerrando em Puerto Maldonado. Às vezes eu fazia o percurso de moto, outras de ônibus ou de Toyota 4x4. Os trechos de moto foram os mais incríveis, claro.

 

A temperatura variava muito no mesmo dia, começando em 5ºC pela manhã até chegar a 30ºC ao meio-dia. À noite baixava de zero...

 

Quando saímos pela manhã um dos peruanos nos advertiu para tomar cuidado com as poças d'´água, sem dar mais detalhes. Começamos a enfrentar um trecho montanhoso com uma sequência infernal de curvas, sempre em estradas precárias de terra e muitas pedras. Pilotando uma KTM 350 dois tempos eu tomava maior cuidado com as poças e desviava de todas elas. Até que numa curva mais rápida eu pensei:

 

- Mas que cazzo, poça d'água é igual em qualquer lugar do mundo...

 

Decidi acelerar e não desviar da poça. Assim que a roda dianteira entrou naquilo que eu imaginava ser água a frente foi embora e levei um tombaço, a uns 90 km/h!

 

Sem entender nicas, levantei a moto e fui olhar a p*** de poça d'água assassina mais de perto. Claro como um cristal, percebi que não era água, mas GELO!!! Natural, já que a temperatura à noite naqueles 2.500 m de altitude congelava tudo. E as poças só descongelavam perto das 10 da manhã...

 

Esse não foi o único tombo do dia... Eu ainda cairia dentro de um rio gelado (naturalmente), molhando todas as minhas roupas... Imagine o que é pilotar sob baixa temperatura, com as calças molhadas... Pra fazer xixi eu precisava de uma pinça!

 

(como se vê na foto, o rio recebe água do degelo daqueles picos nevados ao fundo)

 

Quando eu pensava que tudo de pior já tinha acontecido nesse trecho... furou o pneu!

 

+    +    +

 

Achei uma piada do destino o comentário do Kimi Raikkonen sobre a punição do Hamilton. No GP anterior, em mônaco, o mesmo Raikkonen estampou a traseiro do pobre (literalmente) Vettel e tirou o 4º  lugar da modesta equipe India Corse.

 

Aqui se faz, aqui se paga, Kimi!!!

 

+    +     +

 

E aviso aos maníacos de plantão: a foto da mulher rendeira é da MINHA mulher, a genuína dona Tita... mais resPEITO com ela...

 

Mais uma caixinha...

 

 

Nossa, essa foto é de dar arrepios mesmo...

publicado por motite às 23:27
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