Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Vida corrida - TPL - Tensão Pré Corrida

(Rio 40 graus... que dor de barriga! Foto: Donini)

 

Nos 22 anos que participei de competições motorizadas nunca tive problemas de insônia ANTES das corridas. Só depois! Mas já vi de tudo quanto é tipo de piloto. Desde aqueles que não dormem durante todo o fim de semana de corrida, até aqueles que cochilam no cockpit antes da largada.
 
Creio que nos dias atuais os equipamentos e os circuitos evoluíram tanto que o piloto já não pensa muito sobre acidentes e suas conseqüências. No motociclismo e Fórmula 1 dos anos 70 os acidentes terminavam em graves lesões e muitos eram fatais. Acredito que naquela época a véspera de um domingo de corrida deveria deixar o piloto em permanente tensão.
 
Todo piloto que deseja ser rápido precisa ter um bom acompanhamento físico e psicológico. No automobilismo a força física ficou em segundo plano, diante de tantas facilidades como direção com assistência hidráulica e câmbio semi-automático. Mas no motociclismo a força física ainda é essencial. Nesta série “Vida Corrida” já comentei sobre a importância da preparação física. Sem resistência física e tonicidade muscular um piloto perde concentração por absoluto cansaço. Mas ainda não comentei sobre a preparação psicológica.
 
Já vi casos de piloto que estavam tão desequilibrados antes da corrida que optaram por simplesmente não correr! Aquele infinito período de tempo entre o fiscal exibir a bandeira verde no fim do grid de largada e o diretor de prova acender a luz verde a tensão é tão grande que pode se ver no ar, misturada à fumaça dos escapamentos.
 
Um bom piloto tem ao seu lado alguém que lhe dê o suporte psicológico nestes momentos que chamo de tensão pré-largada. Pode ser o chefe de equipe, o preparador físico, a namorada, mãe, filho etc. O importante é ter alguém ao lado nestas horas.
 
No entanto, o que ajuda muito é desenvolver rituais. A arte da pilotagem é o domínio de rituais. Na pista, o trabalho do piloto se resume a fazer as mesmas ações várias vezes. Freia, vira, acelera. Freia, vira, acelera. Em cada curva, a cada volta, durante 40 voltas. É um adestramento semelhante ao dos animais. A concentração é vital para repetir sempre o ritual, sem ficar pensando na vida...
 
Planejamento
 A melhor forma de evitar a TPL é planejar cada ação durante o fim de semana de corrida. Lembre-se que corridas são como jogo de xadrez: quem conseguir antecipar as jogadas do adversário se dá melhor. Para fazer um planejamento eficiente é preciso envolver toda a equipe.
 
Um bom piloto – com uma boa equipe – precisa conhecer seus adversários. Precisa saber a personalidade de cada um e como reagem nas disputas. Uma corrida é tão cheia de alternativas que um bom piloto poderia sobreviver com sucesso no mundo corporativo.
 
Um dos meus professores, o americano Fred Spencer, costumava dizer que temos de “mentalizar a corrida antes de ir para o grid de largada”. Ou seja, o piloto precisa fazer vários exercícios mentais para prever as mais diferentes situações. Se fizer uma boa largada, por exemplo, executa um plano. Mas se largar mal é preciso ter um plano alternativo já devidamente guardado na cabeça. Se largar na frente do pelotão é uma situação, se largar no meio é outra e se largar lá atrás não existe outro plano que não inclua uma tremenda dose de arrojo.
 
Nas minhas primeiras corridas de kart sempre larguei entre os cinco primeiros. Isso me dava muita segurança porque sabia que estava ao lado de bons pilotos que não cometiam erros infantis. Mas... já tive problemas no treino e tive de largar no meio e até em ÚLTIMO!
 
Como havia uma limitação rigorosa de peso e eu perdia até 2 kg por dia, já tive de largar em último por chegar na vistoria com ridículos 200 gramas a menos do limite. Depois dessa lição passei a tomar um litro de água antes de cada pesagem (e ainda empurrava um misto quente goela abaixo).
 
Largar na frente tem a vantagem de conhecer profundamente cada piloto, afinal são 22 etapas largando ao lado, na frente ou atrás dos mesmos caras! Mas quando se larga ao lado de estranhos é preocupante, mesmo assim pode-se tirar muito proveito. E aprendi a jogar em cima dos erros e inexperiência dos outros. Posso dizer que é muito mais tenso correr com desconhecidos. Por isso não gosto de provas de kart indoor com pessoas estranhas.
 
Minha estratégia de “final de pelotão” era largar pela parte de fora da curva. O raciocínio é simples: depois da largada sempre tem uma curva (dãããã!). Todo mundo se espreme para o lado interno da curva para impedir a passagem de quem vem atrás. E fica um corredor enorme e vazio na parte de fora. No kartódromo de Interlagos a largada é antes de um curvão de alta para a direita. Todo mundo se amontoava pra direita, enquanto eu ultrapassava um monte de gente pela esquerda. É arriscado porque tem mais sujeira e sempre tem um espírito de porco que percebe a manobra e decide vir pra cima.
 
Normalmente esta estratégia funcionava, mas já me dei mal duas vezes porque os caras que largam atrás nem sempre estão levando aquilo a sério. São pilotos que correm apenas por diversão e têm nada a perder. Esses pilotos detestam quando alguém os ultrapassa muito fácil ou de forma quase humilhante e na curva seguinte te jogam para fora da pista. Por isso, ao largar entre estranhos é preciso ter atenção dobrada nas primeiras voltas, estudar e analisar os adversários e só então partir para a recuperação das posições. Nestas duas vezes que me tiraram da pista consegui terminar entre os três primeiros colocados, alterando o plano de corrida conforme o andamento da prova e o tipo de adversário.
 
Outra característica dos pilotos do meio do pelotão é se desconcentrar na iminência de uma ultrapassagem. Basta colar no sujeito e infernizar a vida dele que uma hora – geralmente antes do que a gente espera – ele acaba errando e deixa caminho livre. Já entre os primeiros essa tática é bem menos eficiente porque ali todo mundo sabe suportar a pressão.
 
Conhecer seus adversários é o primeiro passo para uma estratégia de corrida. Isso implica saber não apenas como ele se comporta na pista, mas que tipo de regulagem prefere fazer no seu equipamento. Se ele tem mais saída de curva, freia muito dentro da curva, se tem mais velocidade final, como faz as curvas de alta, as seqüências de “S” etc.
 
No campeonato de motovelocidade eu competi contra um piloto que não conseguia ser tão rápido em curvas para a direita. Tirei proveito disso e fazia as ultrapassagens sempre nas curvas para a direita e me defendia nas curvas para a esquerda. Foi assim o ano inteiro! E no campeonato eu terminei na frente dele.
 
A noite anterior
Como nunca tive problemas de Tensão pré-corrida minha única preocupação era me alimentar bem, ingerir líquidos em quantidades amazônicas e pensar na corrida 24 horas por dia. Não sei qual a razão, mas o campeonato brasileiro de motovelocidade é disputado nas cidades mais quentes do Brasil! Se ainda fosse campeonato de surfe!
 
Não existe pior companhia para uma viagem do que um piloto. Durante os três anos que disputei o brasileiro de motovelocidade fiz muitas viagens de picape com a namorada. Ela sofria porque se eu já sou um cara de poucas palavras, nos dias pré-corrida fico mudo, só pensando no acerto da moto, tipo de gasolina, previsão do tempo, giclagem, relação de câmbio, calibragem de pneus, nos adversários, na pista, etc.
 
Na minha adolescência kartista eu chegava mesmo a fazer jejum sexual para não atrapalhar a concentração. Depois que cresci vi que isso é uma grande bobagem e se existe a possibilidade de morrer no dia seguinte é melhor ir pro céu bem alimentado!
 
Uma corrida em especial ficou muito marcada pela tensão pré-largada. Aliás, literalmente marcada! Corrida no Rio de Janeiro sempre é certeza de um calor saariano. E encontrar amigos que moram na Cidade Maravilhosa. Alguns deles nem cogitam a possibilidade de eu recusar um convite para jantar. Assim, lá fui eu – acompanhado da namorada – a uma genuína cantina italiana no Leblon. Os cariocas que me desculpem, mas cantina está para o Rio assim como a marinha está para Minas Gerais. Não combinam!
 
Eis que acordo no domingo de corrida com uma sensação esquisita. Mais precisamente na região do estômago. Clinicamente conhecida como gastroenterocolite, ou gieca, não havia dúvida que estava era mesmo com uma diarréia! Das brabas. Líquido saindo em abundância, literalmente.
 
Para isso eu não tinha planejamento, mas quem foi pai sabe como diminuir os efeitos nefastos de uma diarréia. A caminho do autódromo comprei uma dúzia de côco e um pacote de fralda geriátrica. Passei a manhã na base da água de côco e cocô em água! O warm-up foi o mais tenso da minha vida. Não podia relaxar de forma alguma sob risco de condenar meu macacão. A largada seria pontualmente ao meio dia. No Rio 40 graus!
 
Nestas horas é preciso saber administrar a crise. Tomei mais água de côco e fui para a largada pensando apenas em sobreviver. Já no alinhamento a primeira crise: água de côco é diurética e precisei achar um cantinho pra fazer xixi diante da arquibancada! Quem se importa com uma questão tão pequena (nada a ver com a anatomia, tá?)
 
Na corrida meu principal adversário quebrou e precisei apenas manter a concentração, sobretudo em certos músculos inferiores, para terminar as 20 voltas ileso. Meu estilo de pilotagem já é bem carenado, sem sair muito da moto, dessa vez nem arriscava tirar o traseiro do banco nem em curva de baixa. Um sufoco que não desejo nem ao meu melhor inimigo.
 
Importante é estar preparado para tudo e este planejamento é a melhor forma de encarar a TPL. Enquanto a mente se mantém ocupada com o planejamento não sobra espaço para divagações nem sentimentos como insegurança. Nos minutos antes da largada o piloto precisa se preocupar apenas com a corrida e planejar mentalmente a largada, as primeiras voltas, a estratégia e a condição física. Recomendo a prática da Yoga para ajudar no relaxamento antes da largada, assim como um bom cochilo em algum lugar calmo do box.
 
Depois é só subir na moto e colocar todo planejamento em prática.

 

 

publicado por motite às 20:38
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