Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

Com qual roda eu vou?

Nova Saveiro Cross: bonitinha, mas não cabe moto...

Existem dúvidas que perseguem a humanidade desde a invenção do motor a combustão interna. Por exemplo: comprar uma moto esportiva para chegar ao delírio máximo de prazer nas curvas de qualquer serra, mas sofrer no trânsito e nas ruas esburacadas, ou comprar uma moto de uso misto para ganhar conforto na cidade e nos buracos, mas perder o prazer de fazer curva. Oh, dúvidas. Comprar um prático scooter, ou uma moto 125 cc utilitária?

Estou vivendo um desses momentos de dúvida que nos persegue ad eternum. Com o sucesso (graças a Deus) do meu curso de pilotagem SpeedMaster senti necessidade de uma forma de transportar a moto para Piracicaba (interior de SP, onde se realiza o curso). E bateu uma das dúvidas mais cabeludas: comprar uma picape, uma carreta ou alugar carreta quando necessário? Carreta x Picape, um dilema que assola boa parte dos motociclistas.

Já tive os dois: uma carreta para três motos e uma picape Ford Ranger 1997 (4 cilindros) pela qual eu era ardorosamente apaixonado. Gastava pra caramba (a gasolina!), mas eu nem ligava. Foi a época em que corri no campeonato brasileiro de motovelocidade e a necessidade me fez procurar um veículo para transportar a moto e mais toda tralha agregada. Como a Ranger tinha capacidade para três pessoas eu podia ainda viajar nos finais de semana com minhas duas filhas, que eram pequenas, nos finais de semana de papai separado. Elas também curtiam e aprenderam a dirigir nesta picapona. 

Picaponas: boas quando estão carregadas, mas vazias pulam mais que cabrito 

Só que elas cresceram – e muito! – sim, porque apesar de a gente não aceitar isso, os filhos crescem. Levar três adultos na cabine começou a ficar desconfortável, voltei a usar um carro “normal” e adquiri uma carreta para levar a moto de corrida. Na condição de ex-dono de picape e carreta fiz uma espécie de teste comparativo (absolutamente pessoal) entre as duas opções. Vamos lá! 

Para começar eu não compraria uma picape grande. Como elas são projetadas para levar muito peso (entre 700 e 1.000 kg), a suspensão é calibrada para esta carga. Quando rodam vazias tornam-se desconfortável e pulam demais nas ruas paulistanas cheias de lombadas e buracos. Porém, com a caçamba mais longa e larga é possível levar duas ou até três motos, mesmo com a tampa traseira fechada. A opção no momento é por uma picape pequena, porque tem a suspensão mais equilibrada entre carga e conforto. 

Aqui faço um parêntese. Um grande golpe da indústria automobilística é medir a caçamba de suas picapes em litros e não em cm ou polegadas. Para conseguir o status de “maior caçamba da categoria” alguns projetistas lançam mão de uma gambiarra técnica e aumentam cada vez mais a linha de cintura da caçamba, de forma até a dificultar a visão traseira do motorista. Veja a Montana, por exemplo, a caçamba é tão alta que se colocar uma tampa por cima quase vira uma van! Como ninguém leva água em picape, essa medição em litros torna-se uma enorme bobagem. O que vale para quem vai transportar coisas normais como moto, geladeira, colchões, telhas etc são as medidas internas da caçamba, como largura, altura, comprimento e diagonal, em centímetros, obviamente. 

No aspecto puramente métrico, a maior caçamba entre as picapes pequenas é da Ford Courier, que tem praticamente as mesmas dimensões da caçamba da Ranger. Só que para ganhar espaço de carga, os projetistas da Ford fizeram uma cabine muito apertada. Não sou nenhum gigante, mas prefiro um pouco mais de espaço para regular o banco. Na época da Ranger eu sentia falta de um pouco mais de espaço para inclinar o banco e para levar pequena bagagem no interior da cabine. Sou radicalmente contra aqueles baús de plástico colocados na caçamba para levar bagagem, porque ocupam o espaço destinado à moto. Não existe um meio-baú, o que dificulta a equação de espaço bagagem+moto. O que pesa contra a Courier é o estilo feio e antiquado demais. Parece que estou olhando para um carro argentino dos anos 80! 

Em termos de estilo, a Montana e a nova Saveiro (cabine simples) me agradam mais. Só que a VW pisou na bola fortemente ao incluir o protetor de caçamba como item de série. Não sobrou espaço pra uma moto esportiva! A única solução é retirar o protetor de caçamba. E olha que na equipe de projetistas dessa Saveiro tem um motociclista praticante, fanático, dono de uma bela Ducati! Além disso, esse motor 1.6 VW não me anima muito. Se tivesse uma opção 2.0 seria perfeita! 

Montana: cabe moto esportiva e fora-de-estrada, mas deve ser substituída pela picape Agile 

Sobraram a Fiat Strada e a Montana, ambas com duas opções de motor: o fraco e econômico 1.4 ou o forte e beberrão 1.8. Como existe uma especulação forte sobre a picape Agile ainda em 2010, não é a hora de comprar uma Montana. Já a Fiat que mais me interessaria seria a Locker, porque também dou minhas saidinhas no fora de estrada, mas essa versão só existe na inútil cabine dupla e na cabine estendida. Não entendo porque essa versão não foi criada também na configuração cabine simples! Seria perfeita (também). 

As picapes com cabine estendida têm caçamba pequena demais e não cabe a moto. Por uma questão de legislação de trânsito (correta, por sinal) não é permitido rodar com a tampa traseira aberta. Algumas picapes têm a tampa traseira removível (Courier e Montana), as outras (Fiat Strada e VW Saveiro) têm a tampa fixa. Segundo um executivo da VW a tampa fixa é necessária no Brasil por um motivo mais do que óbvio: evitar o roubo!!! E eu sei de vários donos de Montana que tiveram a tampa surrupiada. Ê, Brasilzão! 

Nos EUA existe um acessório, uma espécie de pára-choque envolvente de alumínio, para encaixar sobre a tampa, com suporte para a placa e iluminação do veículo. Não entendo como nenhuma empresa brasileira não fez isso! Esse pára-choque é tão genial que também serve como rampa para colocar e tirar a moto da caçamba! 

A solução brasileira é retirar a tampa da caçamba e usar uma tela para evitar que a carga se espalhe pela estrada. Já usei esse expediente e funcionou muito bem, além de ser legal, porque as luzes e a placa continuam visíveis. 

E a carreta?

Outra opção é manter um carro normal e adotar a carreta. Tem a vantagem de manter um carro confortável, com espaço para quatro ou cinco pessoas mais carga. Porém as desvantagens são muitas: 

1 - É preciso espaço para guardá-la na garagem, estacionamento etc. Alguns condomínios nem sequer admitem o estacionamento de carreta. 

2 - Exige licenciamento. Não se paga nem um centavo, mas a burocracia é a mesmo de um carro: tem de renovar licenciamento e ao vender é preciso fazer a transferência. Um verdadeiro pé no saco! Bastaria um documento de posse e pronto, mas não, a administração pública tem de nos encher o máximo possível! 

Para esses dois primeiros itens a minha atual solução que é alugar apenas quando necessário. Os valores variam de R$ 70 a R$ 120 conforme o tamanho e o tempo de uso. Mas as desvantagens continuam: 

3 – Paga-se mais pedágio. Como o pedágio é cobrado por eixo, a carreta significa 50% a mais na conta do pedágio. Como as operadoras das rodovias ganharam alforria para cobrar quando, quanto e onde quiser está a festa da arrecadação. Aliás, “pedágio” é um assunto para próxima coluna... 

4 – Exige manutenção. Mesmo se rodar pouco precisa trocar os pneus que ficam velhos e ressecados. Se a roda não for a mesma do carro ainda é preciso providenciar um estepe. Sim, já tive um pneu de carreta furado e posso dizer que é um inferno! 

5 – Dificulta as manobras e estacionamento. Quando me hospedo em hotel tenho de perguntar antes se tem garagem que possa manobrar uma carreta. Mesmo assim passei por várias situações embaraçosas, sobretudo quando tive de me hospedar em um motel e a carreta ficou atrapalhando meio mundo! Manobrar com uma carreta é uma arte. Cada vez que enfrento essa situação admiro ainda mais os camioneiros. Para dar ré, com a moto na carreta é mais fácil, mas quando está vazia é preciso se balizar pelos espelhos laterais e pensar tudo ao contrário: pra ir à esquerda precisa virar o volante pra direita e vice-versa. Na maioria das vezes desengato a carreta e manobro no braço mesmo... 

6 – A velocidade do carro fica limitada. Passar de 100 km/h com uma carreta presa atrás é uma atividade extremamente radical. Quando a carreta é nova e bem construída, até passa alguma segurança, mas se for velhinha ou mal balanceada, chacoalha mais do que minhoca em asfalto quente! 

7 – Duas alegrias. Só tem uma coisa que deixa um dono de carreta mais feliz do que no dia em que comprou: vendê-la! Em termos de liquidez, uma carreta é tão encalhada quanto um Alfa Romeo 164 de oito válvulas. 

8 – Preço do aluguel. Basta alugar 10 vezes uma carreta (a R$ 120,00) para investir a mesma verba da compra de uma nova. 

9 – Rendimento fora-de-estrada. Como costumo fazer algumas aventuras nas montanhas, eventualmente acompanhado de uma moto fora-de-estrada, uma carreta mostra-se pior do que uma picape pequena ou média, sobretudo nas subidas com piso escorregadio. 

10 – Especificidade. A carreta exclusiva para motos não serve para transportar outras coisas. Aquela minha última carreta foi devidamente transformada em uma carreta de carga (chamada de fazendeira) para transportar também material de construção, a geladeira da sogra, colchões e tudo que você nem imagina! Uma carreta fazendeira é mais versátil do que uma específica para motos. 

Chega! Porque mesmo após toda essa análise eu continuo em dúvida: picape x carreta? Se você que está me lendo puder me ajudar nesta decisão mande seu depoimento. Ainda estou na fase de avaliação, falta testar algumas picapes pra tomar a decisão final.

publicado por motite às 19:43
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