Segunda-feira, 14 de Setembro de 2020

Grande Prêmio de San Marino: avanti Italia!

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Que corrida, amigos! Franco liderou da largada à chegada! (Foto: MotoGP.com)

Das quatro categorias os pilotos italianos venceram em três

Dois dias antes da sétima etapa do mundial de motovelocidade ninguém sabia ainda se as corridas seriam transmitidas pela FoxSports. Eu já estava em depressão profunda quando recebi um whats na sexta-feira às 11:30 confirmando a transmissão. Porém minha escala só saiu no sábado às 19:30. Pense num nervoso. Vou detalhar os bastidores no final!

O Grande Prêmio de San Marino, disputado domingo (13) na bela Riviera de Rimini, em Misano, teve de tudo: Eric Granado fez uma corrida difícil depois de largar em último e terminar em 10º. John McPhee largou em 17º e foi o único não-italiano a vencer no fim de semana. Luca Marini engatou um ponto morto no meio da curva, mesmo assim venceu na Moto2. E Franco Morbidelli conseguiu sua primeira vitória na MotoGP, tornando o quinto vencedor diferente nas seis etapas da MotoGP do estranho ano de 2020.

MotoE: castigo

Tudo bem, é regulamento: se exceder os limites da pista sofre punição. Como na MotoE os pilotos só tem uma volta para fazer a classificação, se perder essa volta fica sem tempo. Foi o que aconteceu com Eric Granado. O brasileiro fez a melhor volta da super-pole, mas excedeu o limite da pista em questão de centímetros. Foi obrigado a largar em último e conseguiu uma bela recuperação para chegar em 10º. Ele ficou enroscado no pelotão e não conseguiu se livrar, porque tinha equipamento para brigar por posições melhores.

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Corrida paciente de Eric Granado na MotoE (Foto: MotoGP.com)

Segundo o paulista: “Infelizmente é muito difícil fazer uma corrida de recuperação em apenas sete voltas, que é a duração das corridas da Moto-E, em função da durabilidade das baterias das motos elétricas. Tentei passar o máximo de pilotos possível. Encontrei no caminho um grupo que estava em um ritmo mais lento que o meu e perdi muito tempo com eles”, comentou o jovem brasileiro de 24 anos. “Hoje o importante era marcar pontos e terminar o mais na frente possível. Claro que estou chateado, não é o que eu esperava. Ontem, com o tempo que virei, era para ter largado da pole position, mas nem tudo sai sempre como a gente espera”.  

A corrida foi vencida pelo atual campeão Matteo Ferrari, depois de largar em quarto também por causa de punição. Ferrari fez a pole de fato, mas como ele foi considerado culpado pelo acidente com Eric Granado na segunda prova de Jerez e perdeu três posições. Foi o tempero que precisava para deixar a corrida ainda mais apimentada com os seis primeiros se pegando até o final das sete voltas.

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Pega sensacional nas sete voltas da MotoE. (Foto: MotoGP.com)

Temos de entender a MotoE ainda como um grande laboratório. Muita coisa já melhorou, mas ainda está longe de ser uma moto de competição com o mesmo carisma das motos com motor a combustão. A bateria pesa uma enormidade, quase como se o piloto tivesse um bujão de gás entre as pernas. Mexe com o centro de massa e deixa a moto mais complicada nas frenagens. Além disso o motor elétrico não tem câmbio, nem embreagem. Na largada é difícil modular o acelerador para não empinar. Podemos colocar pelo menos mais uma temporada completa para ver os rumos da categoria.

Quanto ao Eric, acredito mesmo que ele receba convite para a Moto2, dessa vez em uma equipe decente. Ele carimbou esse passaporte nas duas últimas provas de 2019 e nas duas primeiras de 2020. Só não está mais bem colocado por causa da traulitada do Matteo Ferrari. O bom é que ele está motivado e a equipe é de qualidade.

Moto3: McPheeeeeeee

É a categoria mais equilibrada do mundial. Marcas diferentes de motores e quadro, mas isso não muda nada. Só de ver o que aconteceu na classificação ilustra esse equilíbrio: do primeiro, Ai Ogura, ao 17º, John McPhee, a diferença foi de menos de um segundo. Sei que é repetitivo explicar isso, mas a posição de largada na motovelocidade é menos importante do que no automobilismo. Mais ainda na Moto3, porque a pista de San Marino tem longas retas que permite pegar vácuo. Se o piloto consegue essa ajuda pode subir 10 posições. Ou perder!

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Baixinho, magrinho, mas gigante na pilotagem, assim é John McPhee. (MotoGP.com)

Narrar a Moto3 é para matar de enfarte. Não tem 500 metros de pista sem que esteja um piloto ultrapassando outro. Já antes da largada dava para apostar em qualquer um dos 20 primeiros colocados no grid de largada. O argentino Gabriel Rodrigo é sempre um candidato a vitória, mas alguma coisa nele o faz perder ritmo no quarto final. Não é pneu, porque a Moto3 não consome pneu. Não é motor, porque motores 250 quatro tempos não perdem rendimento ao longo da corrida. Só pode ser emocional. Um caso mais para divã do que técnico.

O líder, Albert Arenas chegou a estar em terceiro. Se terminasse nessa posição abriria mais de 30 pontos de vantagem. Mas ficou embolado com os seis primeiros colocados e acabou sendo tocado de leve, perdeu a linha da curva, entrou na sujeira e... pimba! Caiu. Pra piorar seu domingo o vice líder do campeonato, John McPhee fez uma última volta de gênio para cruzar em primeiro. Não é incomum um piloto largar abaixo de 15º lugar e vencer. Este ano isso já aconteceu na Moto2 com o Tatsuta Nagashima. O pódio na Moto3 foi completado pelos japoneses Ai Ogura e Tatsuki Suzuki. Com a segunda corrida sem marcar pontos o espanhol Arenas continua liderando, mas a diferença caiu para apenas cinco pontos para Ogura.

Nesta corrida eu cometi um erro imperdoável. Comentei em cima do narrador oficial, que perdeu a concentração e não viu a bandeirada. Foi 100% erro meu e já me penitenciei por isso. Aliás essa transmissão aconteceu de tudo, leia os bastidores no final.

Moto2 Covid nele

Dois desfalques na Moto2: Jorge Martin, que testou positivo para Covid-19 e Remy Gardner que largaria na pole-position, mas caiu no warm-up e quebrou o pé esquerdo. Cair no warm-up é atestado de salame, porque esse treino não serve para definir nada, apenas para checar se está tudo em ordem com a moto e a com a pista. Não é para baixar tempo! Confesso que eu já caí no warm-up uma vez e meu chefe de equipe quase comeu meu fígado! Nunca mais aconteceu...

Antes mesmo de as motos alinharem para o grid todos os pilotos da Moto2 subiram uma posição na largada. Assim, a primeira fila ficou tutti a casa, com três pilotos italianos: Luca Marini, Marco Bezzecchi e Enea Bastianini. Largaram e chegaram nesta ordem, algo bem raro de se ver nesta categoria.

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Los três amigos: Marini, Bezzecchi e Bastianini. (MotoGP.com)

Mas, lendo assim, parece que foi entediante. Na verdade Marini e Bezzecchi trocaram de posições várias vezes. Numa delas Marini foi reduzir de segunda para primeira marcha mas entrou no ponto-morto! Quase perdeu a curva, conseguiu segurar em ainda venceu a prova. Bastianini também quase foi pro chão, deu uma salvada à Marc Márquez, fez um sprint final emocionante, mas não conseguiu superar Bezzecchi. Esse neutro falso é mais comum de acontecer do que se imagina e a moto perde rotação e estabilidade. O piloto precisa pensar rápido para deixar a moto em pé, esperar a rotação cair e voltar para a trajetória. Isso custa quase 1,5 segundo na volta. Quando não sai da pista!

Pode-se entregar o prêmio de “piloto do dia” para o inglês Sam Lowes. Ele foi punido por ter causado uma forte colisão no GP da Estíria e obrigado a largar dos boxes. Fez uma corridaça e terminou em oitavo a apenas 16 segundos do vencedor. Imagine se ele largasse na posição normal. Com o pódio 100% italiano a Moto2 lembrou um campeonato italiano. Difícil mesmo foi entender o que os três falaram na entrevista do paddock antes do pódio. O dialeto “anglo-italiânico” desafia qualquer tradutor simultâneo. Esta foi outra surpresa: eu fui escalado para fazer a tradução simultânea sem saber de nada, quase enfartei parte 2.

Com este resultado Luca Marini se isolou na liderança do campeonato e praticamente sacramentou sua subida para a MotoGP em 2021. Atrás dele estes dois mesmo: Bezzecchi e Bastianini.

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MotoGP, a primeira de Franco

Morbido em italiano significa macio, fofo. Este é o apelido de Franco Morbidelli, piloto romano de 26 anos, da Yamaha, que teve uma vida difícil. Nunca contou com muita verba para correr de moto, mesmo assim foi campeão na extinta categoria Super Stock até ser “adotado” pela academia VR 46 de Valentino Rossi. Foi campeão mundial de Moto2 em 2017 e em 2018 estreou na MotoGP. Agora que já sabe quem é, veja o que ele fez.

Antes de comentar a corrida uma observação: o Franco Morbidelli nasceu em ROMA, capital da ITÁLIA, portanto não tem nada de “ítalo-brasileiro”. Ele é tão ITALIANO quanto Valentino Rossi e meu avô Renato. Só que vocês passaram anos ouvindo uma manifestação ufanista que tentou colocá-lo como mezzo brasiliano. Já aviso: isso no jornalismo chama-se “pachequismo”, quando tenta levantar alguma coisa verde-amarela só pra efeitos de marketing nacionalista. Jornalistas sérios não fazem isso, OK? A diferença entre patriotismo e ufanismo é que o patriota quer um país melhor; o ufanista quer que o país dele seja melhor do que os outros. Punto e basta!

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Aquele sorriso de quem sabe que está no topo do mundo: Franco Morbidelli. (MotoGP.com)

Sobre o capacete dele. Foi a primeira vez em anos que ele correu sem as bandeiras do Brasil e da Itália. Justamente na prova que conseguiu sua primeira vitória. Coincidência? Não, na verdade ele usou o capacete como forma de chamar a atenção para a igualdade de etnias. Ele é filho de uma pernambucana negra que foi para Itália trabalhar como cabelereira (até hoje). Ele nasceu mulato, cabelos encaracolados e com mais cara de brasileiro do que italiano (parece meu irmão jovem). Por isso diz que sentiu muito preconceito por causa da sua origem afro. Decidiu fazer disso uma bandeira e escreveu a palavra “igualdade” em vários idiomas e pintou a cara dele como personagem do filme “Faça a coisa certa” do cineasta negro Spike Lee.

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Mensagem no capacete do piloto Franco: igualdade! (MotoGP.com) 

Morbido fez uma largada perfeita, assumiu a ponta na primeira curva e desapareceu na frente dos outros. A Yamaha tem uma característica do motor quatro cilindros em linha que a torna rápida no contorno das curvas. Por outro lado, os motores V-4 conseguem frear mais dentro da curva e acelerar antes. Quando um piloto de Yamaha se isola no primeiro lugar tem mais facilidade para abrir uma folga, mas se enroscar com as motos com motores V-4 fica difícil ultrapassar e fugir deles. Pode reparar: as três vitórias da Yamaha foram com o piloto se isolando na frente.

Excelente largada de Valentino Rossi que pulou para segundo e conseguiu se defender dos ataques insanos do inconstante Jack Miller na melhor Ducati até o momento. Durante boa parte da prova estes três se distanciaram dos demais: as Suzuki de Alex Rins e Joan Mir e a Ducati do convalescente Francesco Bagnaia. Até metade da prova os três primeiros se mantiveram nas suas posições, mas Miller começou a perder ritmo, enquanto Bagnaia e as Suzuki começavam a escalar posições.

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Foi a terceira vez que tocou o hino italiano no domingo. (MotoGP.com)

Num desempenho heroico Bagnaia superou Rossi e foi para cruzar em segundo. Para Valentino seria a chance de finalmente alcançar o 200º pódio da carreira, mas Joan Mir arrancou essa chance na última volta! Nas tradicionais brincadeiras, Rossi pintou comprimidos de Viagra no capacete, meio que sugerindo que estava “turbinado”!

A vitória gigantesca de Morbidelli serviu para lavar a alma da Yamaha depois das duas provas decepcionantes na Áustria. Por outro lado as KTM sumiram na etapa de Rimini e as Honda, bem, para a Honda é melhor esquecer que houve 2020. E não pense que a volta de Marc Márquez vai levar a moto de volta ao topo do pódio. Neste período que a marca oficial ficou sem seu principal piloto as outras equipes estão evoluindo. Com um Alex Márquez estreante e Stefan Bradl como piloto reserva não dá para esperar uma melhora no equipamento.

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Um acidente com lesão nunca será algo a comemorar, mas a ausência do Marc Márquez deu um equilíbrio tão grande na categoria que Andrea Dovizioso, sexto colocado, saiu líder do campeonato, seis pontos à frente de Fabio Quartararo. Falando nele, caiu, levantou, até desistir de vez e viu a liderança do mundial escapar das suas mãos. Pelo menos ainda está em segundo, seis pontos à frente de Jack Miller.

Bastidores: pânico na geral

Essa etapa foi a mais confusa e tensa desde que a Fox assumiu as transmissões. Primeiro fomos pegos de surpresa com a notícia de quebra de contrato com a Dorna. O Brasil corria o risco de ficar sem sinal da MotoGP. Foi preciso que a Disney entrasse em cena e fizesse um acordo diretamente com a Dorna para garantir o sinal. Isso foi oficializado na sexta-feira às 11:30 da manhã. Imagine meu nervosismo! Fomos salvos pelo Mickey!

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Tem mais: o Téo José que já estava mandando super bem foi embora para o SBT fazer a Taça Libertadores de Futebol. (E dizem a Fórmula 1, que vai sair da Globo no final do ano). Tudo isso mexeu demais comigo porque bateu uma baita insegurança de transmitir com uma pessoa que eu não conhecia. O Hamilton Rodrigues já transmitiu motovelocidade nos anos 80, mas tenta imaginar o que é transmitir um torneio com 100 nomes diferentes, pronúncias diferentes e com uma telinha de 14 polegadas! Claro que ia ser um tiro no escuro.

Pensa que acabou? Dei aula no sábado o dia todo, sob um sol de 40ºC em Piracicaba. Falando mais que o homem da cobra, entrando e saindo do ar-condicionado. Adivinha o que aconteceu com a minha garganta? Virou uma pelota de BomBril. Já sabia que minha voz estaria um lixo no domingo. Como nada é tão ruim que não possa piorar coloquei o despertador para tocar às 3:30, mas esqueci de incluir o DIA!!!

Acordei de susto às 4:30 com a equipe toda já linkada para a transmissão!!! Não tive tempo de aquecer a voz, nem tomar café. Entrei no ar com a voz de uma múmia que saiu do sarcófago depois de 2.000 anos. E foi assim até o fim. Parecia que tinha um gato entalado na minha garganta.

Pensa que acabou? O microfone do Edgard Mello Filho pipocou o tempo todo. Era um problema de conexão e não conseguimos resolver. Por isso ele ficou mais quieto do que o normal e jogaram a peteca no meu colo com a voz de múmia. Tive de alongar os comentários com aquele gato entalado na garganta. Tentei resolver durante a transmissão bebendo café quente, mas o café esfriou...

Falando em calor, meu escritório devia estar uns 30ºC e não pude ligar o ar para não vazar o som, nem azedar a garganta. Eu suava mais que tampa de marmita, nervoso e cagado de arara.

Pensa que acabou? Quando acabou a corrida da MotoE, os pilotos foram para o parc fermée (mais chique em francês) para dar as entrevistas. O Dominique Aergeter (pronuncia-se éguetah) terminou de falar e ficou aquele silêncio constrangedor; cri...cri...cri e nada! Até que assumi a tradução e vou contar uma coisa: os tradutores simultâneos deveriam ganhar uma fortuna, porque é difícil pra cacete elevado ao quadrado. Principalmente os pilotos italianos que falam um inglês propositalmente incompreensível. Aquilo não é sotaque, é o tal nacionalismo exacerbado porque conheci centenas de executivos italianos que falam inglês impecável. O Nicolò Canepa foi meu instrutor em Mugelo e ele fala perfeitamente, não é aceitável que uma pessoa que passa a maior parte da vida em um ambiente de âmbito internacional fale inglês com essa pronúncia de uma criança de quatro anos!

Na hora da MotoGP eu passei a batata quente pro Alexandre Barros que morou na Itália e Espanha e sabe esses dialetos todos!

Pensa que acabou? Você sabe que estamos transmitindo cada um em sua casa. O link depende da qualidade da internet de cada um e neste domingo a bruxa se soltou de vez. O áudio do Edgard deu pau e meu vídeo também. Para corrigir tivemos de dar refresh na página, o popular F5 várias vezes. Só que isso custa uns 10 a 20 segundos sem imagem. Imagine ficar 20 segundos sem imagem na Moto3!!! Isso se repetiu várias vezes e foi o que me fez acreditar que o Fabio Quartararo caiu de novo. Não vi a informação de replay na tela! Foi o segundo pênalti do dia.

Quer saber: ficar das 5 às 10 da manhã falando sem parar ao vivo, cometer dois erros foi até café pequeno. Teve mais incidentes: o louco do meu cachorro acordou e começou a pular em cima de mim querendo passear. Tudo bem se ele não pesasse 35 kg!

Domingo que vem tem mais, na mesma pista!

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Ele só pensa em passear!

 

 

 

publicado por motite às 13:49
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Domingo, 26 de Julho de 2020

Maratona Titânica: os bastidores da etapa de Jerez (de novo) da MotoGP

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Monstruosa perfromance de Fabio Quartararo outra vez. (Foto: MotoGP)

Uma jornada épica

Toda vez que eu encontrava com o Fausto Macieira perguntava "e aí? como é acordar às seis da manhã e ficar seis horas no ar?". E ele corrigia na hora "seis não, eu acordo às quatro porque temos de começar uma hora antes"...

Pois, amigos, hoje foi minha vez de acordar as TRÊS da manhã para começar os trabalhos às 4:00 e estar no ar às 4:55 até às 10:20!!! Posso afirmar: o Fausto é um herói! Porque no caso dele ainda tinha de sair de casa e ir até a Rede Globo, do outro lado do Rio de Janeiro, de motoca, ainda no escuro. 

Não sei se perceberam, mas estamos transmitindo cada um de sua casa e vou contar um pouco mais dos bastidores. A transmissão propriamente começa no sábado. Eu não comento os treinos porque tenho de dar aulas aos sábados, mas a rotina começa jánna sexta-feira pontualmente às 18:00 hrs, quando temos um reunião online para testar os equipamentos e alinhar as pautas. Novamente eu fui o cagado da vez: meu microfone deu pau! E pau em Mac é sempre mais complicado do que em PC. Os engenheiros da FoxSports entraram em ação e ficamos nada menos do que duas horas tentando fazer o trem voltar à vida. Sem sucesso. Única alternativa foi comprar um outro mic no sábado.

Tudo pra Mac é caríssimo e o novo fone de ouvido com microfone custou um rim, mas tudo bem, ainda tenho um e posso viver assim. No sábado às 18:00 teve outra reunião online e pra felicidade geral funcionou!!! Santa empresa que inventou o HiperX e abençoada Kalunga que abre aos sábados. Mais uma vez a família Zaninotto me salvando a pele!

Durante a semana a direção da Fox me mandou para uma fonoaudióloga (só falar essa palavra sem errar já cura qualquer problema de fala) pra aprender a aquecer a voz. São exercícios de trinados trriiiiiimmmmm ziiiiiimmmmm zóooiiiimmmm etc que no silêncio das 3 da manhã, mesmo dentro do banheiro meu vizinho me mandou um zap pra saber se eu tinha comprado uma cacatua.

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Dominiqueniquenique: correu praticamente sozinho na Moto-E e deu sorte. (Foto: MotoGP)

As corridas

Bem mais confiante, com a voz aquecida e microfone de ouro comecei os comentários da Moto-E apostando num excelente resultado do Eric Granado. E o que ele fez foi fantástico. Largou mal, ficou no pelotão da merda um tempo, errou uma curva, caiu pra oitava posição, remou tudo, fez a volta mais rápida da prova e chegou ao segundo lugar em SEIS voltas!!! Já estava sentindo o gostinho do espumante do pódio quando o cretino esférico Matteo Ferrari errou grosseiramente a frenagem e estampou a traseira da moto do Eric. Por pouco eu não soltei um FILHODAPUTA no ar! Mesmo p*** da vida, o brasileiro levantou a moto e voltou pra prova porque precisava salvar três pontinhos preciosos.

Que frustração!  Era pra sair desta etapa líder do campeonato. Mas acho que nestas duas etapas o Eric já entregou o cartão de visita para todo circo da MotoGP. Está com o futuro mais do que garantido. 

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Suzuki corre de Honda: vitória incontestável do pole-man da categoria Moto3. (Foto: MotoGP)

Na Moto3 o Albert Arenas fez uma opção perigosa de se manter no bolo dos 10 primeiros para atacar nas voltas finais. Funcionou no Qatar, funcionou na primeira de Jerez mas não funcionou hoje. Andar no pelotão sempre exige muito foco e um pentelhésimo de segundo que perder a atenção é chão. Não deu outra, caiu e eu cantei essa bola quando falei "estratégia perigosa"... Ótima vitória de Tatsuki Suzuki, na equipe de Paolo Simoncelli. O Téo falou Simonelli no ar porque as letras do gerador de caracter estavam borradas mesmo e parecia Simonelli. Arenas continua liderzão com 50 pontos mas acho bom mudar de tática e se livrar logo dos malucos logo no começo.

Tutti a casa na Moto2 com os três primeiros colocados italianos. Eu ia zoar os sotaques dele na entrevista, mas isso já perdeu a graça. Juro que não entendo porque eles fazem questão de falar errado de propósito. Não é sotaque coisa nenhuma, é um nacionalismo desnecessário. Já expliquei um milhão de vezes que executivos italianos falam inglês correto. O piloto torinese Niccolò Canepa (Moto-E) fala inglês impecável, mas parece que isso é endêmico entre atletas italianos. 

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É una Bestia! Bestial desempenho de Enea Bastianini na Moto2. (Foto: MotoGP)

A corrida foi uma surpresa porque os três comentaristas apostavam num sprint do Luca Marini, mas Enea Bastianini foi avassalador. Abriu uma semana de vantagem e despachou a galera. E o japa Nagashima pirou de vez. Acho que ele ultrapassou os mesmos pilotos dezenas de vezes. Passava, errava, perdia posições, passava todo mundo de novo, errava e parecia que estava no modo looping. Na última curva errou de novo e terminou em 11º lugar, exausto.

E veio o filé mignon do dia: a MotoGP! Antes de mais nada por favor parem com essa lenga-lenga de que será um campeonato "menor" porque Marc Marquez ficou de fora de duas etapas. Pow, o cara exagerou, errou duas vezes, caiu, se machucou tudo sozinho. Por culpa e erro dele. Faz parte de qualquer competição. Parece aquela conversinha fiada de que "depois da morte do Senna a F-1 ficou chata!". Ficou chata pra nós, brasileiros, mas para os alemães foram nove títulos de comemoração.

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Sem o Marc Marquez vimos um Fabio Quartararo endiabrado mesmo, que abriu OITO segundos do resto. Nesta categoria equivale a uma composição inteira do metrô. Deu show de frieza, cravou as voltas no mesmo décimo de segundo e o Bagnaia não chegaria nem perto de Ducati. Excelente foi o pega entre Maverick Viñales e Valentino Rossi, os dois com muito cuidado. VR46 estava freando pra lá do Deus me livre, forçou o desgaste do pneu dianteiro e o Viñales aproveitou pra dar o bote no fim. Um pecado a quebra dos motores do Morbidelli e do Bagnaia, coisa rara na motovelocidade ver duas quebras de motor na mesma corrida. Pelo áudio da geradora de imagens nós pudemos ouvir como os motores passavam de giro na reta principal, porque alguns preferem não engatar a última marcha. Daí o motor pediu água!

Campeonato ficou muito emocionante em todas as categorias. Vamos esperar as pistas velozes pra ver como se comportam as Ducati oficiais.

Muito legal a participação do Alexandre Barros que ajudou bastante a entender sobre ritmo, pneus, equipes etc. Não sabemos ainda se fará todas as etapas, mas super bem vindo ao time. Agora eu quero ver os reclamões do Facebook continuar chorando!

Veja os resultados no site oficial da MotoGP

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O site oficial da MotoGP fez uma homenagem ao meu esforço e escreveu sobre a maratona Titânica!

 

 

publicado por motite às 16:34
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

Que domingo!

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Essa foi a visão que tiveram do MM93 (fotos: MotoGP.com)

O GP da Argentina de Motovelocidade foi a felicidade do fim de semana

Para quem gosta de velocidade as corridas de moto transformam qualquer sonolento domingo num dia de pura emoção. Coincidência, ou não, a segunda etapa do Mundial de Motovelocidade caiu na mesma data e quase mesma hora da largada da segunda etapa do mundial de Fórmula 1. Mas quanta diferença... 

Enquanto a F1 cria regulamentos e pneus perecíveis para aumentar artificialmente o número de ultrapassagens, na motovelocidade elas acontecem, entre os líderes, na razão de quase uma por volta! Qual emoção de ver um carro com pneus super aderentes ultrapassar outro que escorrega como se a pista estivesse molhada só para ele? Sem falar que há mais de um ano e meio é a mesma equipe que vence todos os GPs. 

Na motovelocidade, seja o Mundial de MotoGP (transmitido pelo SporTV), seja o Mundial de Superbike (transmitido pela BandSport e ESPN+), não é preciso criar nenhuma regra, tudo se desenvolve de forma equilibrada e ninguém se atreve a apostar em um vencedor até a bandeira quadriculada. 

Essa segunda etapa na vizinha Argentina, começou com uma corrida totalmente atípica na Moto3, que usam motores de 250cc, quatro tempos. Se na primeira etapa a corrida foi uma briga de foice de elevador com a luz apagada, com apenas UM segundo separando o vencedor do sétimo colocado, nessa segunda um piloto se destacou e conseguiu inacreditáveis 26 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. 

O malaio Khairul Idham Pawi, de 17 anos, 1,67m e 57 kg, fez uma corrida impressionante, raramente vista na categoria. Foi apenas sua segunda corrida em uma prova do mundial de motovelocidade e já conquistou o mundo com sua pilotagem agressiva e totalmente sem juízo. Quando já tinha 10 segundo de vantagem na liderança a equipe começou a pedir calma. Com 20 segundos o chefe de equipe já estava desesperado, sobrevivendo à base de calmante, mesmo assim o jovem que começou a correr apenas dois anos antes em provas de motonetas (na rua e em kartódromos), continuou cravando a melhor volta em uma pista que estava úmida em alguns pontos. 

Segundo o locutor e comentarista da prova, essa capacidade veio da experiência em provas na Malásia, país tropical com alto índice de chuva. Que me perdoem esses especialistas, isso já foi dito dos pilotos ingleses, dos belgas, dos finlandeses, mas na verdade o que constrói essa qualidade é a sensibilidade do piloto e sua capacidade de entender a pista. Temos de esperar uma próxima corrida em piso molhado para saber se ele é bom só nessa condição. Lembro que no treino, com pista seca, ele classificou em quarto. O menino é um fenômeno mesmo, pode anotar esse nome... 

Ah, falando em locutor, por favor, não entrem nessa onda de “primeira vitória de um malaio em 67 anos de campeonato”, porque os malaios não participam desse torneio desde a primeira temporada. O correto é “a primeira vitória de um malaio desde que estrearam na categoria!!!”, ou simplesmente “a primeira vitória de um malaio no mundial”, ponto final. 

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Sei que é difícil, mas anota o nome desse malaiozinho cheio de espinha: Dahrul Pawi 

Moto2, o “nosso” piloto

Confesso que não agüento mais esse papo de fazer do Franco Morbidelli um piloto brasileiro. O piloto já percebeu que pode se beneficiar disso e tratou de entrar na onda, colocando metade do capacete com a bandeira brasileira e até está estudando a língua materna. Só que na pista ele mostrou que tem velocidade, mas falta maturidade. Por duas vezes caiu quando estava entre os três primeiros e tem tudo para vencer seu primeiro GP nesta temporada. Só não dá pra engolir que ele é “quase” brasileiro, porque eu também não me apresento por aí como “quase” italiano! 

Na corrida foi aquele arranca rabo de sempre, com a pista naquela condição pior que existe: nem totalmente seca nem totalmente molhada. É muito melhor quando ela está completamente ensopada do que nesse estado meio seco-meio molhado. O Morbidelli foi vítima justamente dessa condição. Johan Zarco conseguiu uma importante vitória, depois de amargar um 12º lugar na primeira etapa. 

Pára tudo!

MotoGP tem seu dia de F1 com essa papagaiada de troca de moto por causa dos pneus. Aliás, a Michelin está mais suja que pau de galinheiro. Pneus estourando, problema com a entrega do produto e agora essa presepada de reduzir o número de voltas e dividir em duas baterias porque não sabia se os pneus agüentariam até o fim. Vexame! 

A corrida teve duas partes. Na primeira e melhor de todas Valentino Rossi vacilou na largada (a moto perdeu tração e não empinou viu, locutor!) e Jorge Lorenzo partiu que nem um foguete! Começou a perder terreno, foi sendo ultrapassado até que... POF! Caiu antes mesmo de trocar de moto. Não precisa se preocupar, porque no ano passado ele também zerou uma etapa e foi campeão do mundo. Se ele perder esse ano não será por causa dessa queda, mas por outro motivo. 

Está para ser anunciada sua saída da Yamaha para ocupar uma vaga do cabeça de bagre Andrea Iannone na Ducati. Se confirmar mesmo pode ter certeza que o desempenho dele esse ano começará a pipocar. É natural que a Yamaha jogue suas cartas em Valentino Rossi por dois motivos: 1) tem mais dois anos de contrato; 2) está em segundo lugar bem à frente de Lorenzo. Na MotoGP não existe essa coisa de primeiro piloto como na F1, mas se tem uma coisa que deixa chefe de equipe muito irritado é anunciar que vai sair, isso acontece até em equipe de rolimã! 

O pega entre Marc Marquez e Valentino Rossi na primeira bateria foi feroz, limpo e anunciava um pega pra capá dos bons até o fim, mas veio a troca de motos e babaus. A segunda Yamaha não estava à altura da primeira e Rossi foi perdendo terreno até ser alcançado por Maverick Viñales (Suzuki), Andrea Dovizioso (Ducati) e Andrea Iannone (Ducati). Maverick teve seu dia de Opala 2500 e escorregou no molhado. A hora que ele parar de cair será um páreo duro e tem tudo para conseguir sua primeira vitória em 2016. 

Depois as Ducati vieram pra cima, passaram pela Yamaha de Rossi e o que tinha tudo para ser uma festa ducatista acabou na área de escape porque Iannone simplesmente perdeu a frente e mandou Divizioso pro espaço. Rossi agradeceu o enorme presente, mas quem nem percebeu que estava no pódio foi o sempre coadjuvante Dani Pedrosa que apareceu em terceiro. 

As Ducati tem tudo para vencer em 2016 mesmo com pilotos não tão constantes. Aliás, só por isso é que Lorenzo aceitou a proposta de se mudar para lá. Parece que agora as motos italianas estão rápidas não apenas nas retas, mas na pista toda. Tem a parte dos 24 milhões de Euros também, que me convenceria a correr até de Kasinski, mas pode acreditar, esses caras nem precisam de mais grana, eles vivem de títulos. Já que a Ducati não conseguiu um piloto italiano vencedor e Lorenzo está numa fase excelente, vai ter de ser espanhol mesmo e viva as forças aliadas! 

Prognósticos para 2016? É um pouco cedo, mas já vimos que Marc Marquez acertou muito bem a Honda e parece que está com a testosterona controlada. Conseguiu um começo de temporada muito acima dos rivais da Yamaha e pode controlar bem essa vantagem. Acredito que daqui para frente ele pode nadar de braçada. 

A próxima etapa será nos EUA, no Texas, dia 8 de abril, circuito com uma reta de 1.200 metros e velocidade máxima de 344 km/h. Bom para as Ducati que voam na reta, mas espero que sem o desesperado Iannone fazer nenhuma lambança. Vamos aguardar!

 

publicado por motite às 13:55
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