Terça-feira, 29 de Junho de 2021

Tour de Quarta

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Quartararo (20) está com a bola toda e pode ser o primeiro francês campeão da MotoGP. (fotos: MotoGP.Com)

Piloto francês dá um passo importante para um título histórico na MotoGP

Desde 1949, ano da primeira etapa do se conhece hoje como campeonato mundial de motovelocidade nenhum piloto francês conquistou o título na categoria principal. Itália, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos lideram o ranking de títulos. Mas em 2021, se continuar fazendo tudo certo, Fabio Quartararo (Yamaha) pode quebrar este tabu. E deu um passo importante no GP da Holanda, no palco sagrado de Assen, ao vencer a disputa interna com Maverick Viñales, autor de uma surpreendente pole-position. Eric Granado também carimbou o passaporte para categorias a combustão ao vencer de forma soberana na MotoE. Remy Gardner (KTM) e Pedro Acosta (KTM) também estão na caminhada ao título nas Moto2 e Moto3, respectivamente.

A notícia mais bombástica do fim de semana nem foi a vitória de Quartararo. Mas o anúncio do divórcio entre Maverick Viñales e a Yamaha, que vai para a Aprilia em 2022. O piloto espanhol teve uma experiência péssima na etapa anterior, no GP da Alemanha, ao ser o último a cruzar a linha de chegada. Na Holanda foi pra cima nos treinos, cravando a pole, mas na corrida viu seu companheiro (?) de equipe largar bem melhor e vencer em um momento importante do campeonato. Mais ainda por ver Johann Zarco (Ducati), seu rival direto, terminar na quarta posição. Agora Quartararo abriu 34 pontos de vantagem, o que dá uma folga para “respirar” mais tranquilo.

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Toda pressão do mundo nas costas do jovem Quarta.

A exemplo do que vimos em 2020, as motos não-japonesas, KTM, Aprilia e Ducati intercalam provas espetaculares, com desempenhos medianos. Esta falta de regularidade é uma das razões para apostar em Quartararo. Seus rivais diretos ao título alternam resultados muito bons, com outros regulares. A cada etapa que este desequilíbrio se repete é mais um passo para vermos ao primeiro título francês na MotoGP. A esperança galesa aumenta quando se olha a tabela e o segundo colocado é outro francês!

Nesta etapa da Holanda o destaque da categoria foi a ótima prova feita pelo campeão Joan Mir (Suzuki) que saiu da 10a posição para o terceiro lugar num sprint final que roubou o pódio do Zarco. Por outro lado, mais uma decepção para Valentino Rossi (Yamaha), um dos reis de Assen, que terminou a prova na caixa de brita. A registrar a estreia do americano com nome de vodca, Garrett Gerloff, piloto do mundial de Superbike, que correu com a Yamaha do italiano Franco Morbidelli (no estaleiro).

Moto2

Um dos pilotos mais experientes da categoria, Sam Lowes (Marc VDS) está vivendo um ano difícil. Começou arrasando com duas vitórias seguidas, mas depois foi um festival de quedas. Na Holanda ele tinha tudo para garantir um pódio, pena que tinha outros três pilotos igualmente bem dispostos: os KTM Brothers Raul Fernandez e Remy Gardner e o “colega” na equipe Marc VDS, Augusto Fernandez (que não é parente do Raul).

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Toca, Raul: Raul Fernandez venceu na Holanda e tirou diferença para Gardner.

Gardner foi cauteloso, pensando no campeonato, tentou seguir o mais perto possível de Raul Fernandez e conseguiu, porque o segundo lugar na prova o manteve na liderança do campeonato, com 31 pontos de vantagem. A meta é não deixar essa diferença cair demais! O terceiro lugar de Augusto Fernandez não mexeu muito com o campeonato, mas certamente deixou Lowes furioso, porque o inglês tem mais pontos e merecia uma “ajudinha” do colega. Só que, ao contrário do automobilismo, na motovelocidade pilotos de uma mesma equipe são igualmente rivais e não existe a menor chance de um favorecimento.

Moto3

Da maca ao grid de largada. Assim foi o fim de semana do espanhol fenômeno Pedro Acosta (KTM). Um tombaço nos treinos mandou o garoto pro hospital para uma checagem geral. Confirmado que não tinha nenhuma lesão grave, foi liberado para largar novamente lá no fundo do pelotão, em 18o lugar. Enquanto o pau comia no grupo da frente Acosta foi chegando, chegando, chegando até cruzar a linha de chegada em quarto lugar, minimizando os prejuízos.

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Foggia (7) uma vitória obtida nas voltas finais.

Destaque para o controverso italiano Romano Fenati (Husqvarna) que teve de pagar duas voltas longas como punição por mal comportamento nos treinos. Em uma recuperação fantástica, Romano ainda terminou em terceiro lugar. Depois daquela tradicional troca de posições em todas as voltas, Dennis Foggia (Honda) conseguiu uma microscópica vantagem a duas voltas do fim, seguido de Sergio Garcia (Gasgas), que reduziu a desvantagem para Acosta no campeonato para 48 pontos, a maior de todas as categorias. Continuo afirmando que Pedro Acosta só perde esse título se cair um meteoro na Terra.

MotoE

Além de Eric Granado (One Energy) quem mais chorou ao ouvir o Hino Nacional na Holanda? Pode confessar porque não é vergonha nenhuma sentir orgulho deste paulistano que batalha heroicamente no mundial de motovelocidade desde a infância. Depois de conquistar a quarta pole-position Eric largou cautelosamente porque numa corrida de apenas sete voltas não se pode errar. Quando sentiu que a moto estava correspondendo foi pra cima e assumiu a liderança para vencer a segunda prova e pular três posições no campeonato.

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Brasil na cabeça: Eric Granado pode ser o primeiro brasileiro campeão mundial.

Graças ao atual campeão Jordi Torres (Pons), o italiano líder do mundial, Alessandro Zaccone (Pramac) perdeu pontos importantes. Agora ele está apenas sete pontos à frente do constante Torres e a 17 pontos do brasileiro Eric. Parece pouco, mas este campeonato é curto. Continuo afirmando que todo circo do mundial já viu o imenso potencial do Eric. Pessoalmente acho que ele deveria focar sua atenção na Moto2, mas por uma grande equipe.

Para encerrar, um recado ao locutor e comentarista da ESPN/FoxSports: os pneus da MotoE duram muito mais do que as sete voltas da corrida. Parem de comentar sobre “o desgaste dos pneus” nesta categoria porque não existe!!!

 

publicado por motite às 17:51
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Terça-feira, 8 de Junho de 2021

De peito aberto, como foi o GP da Catalunha

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Miguel Oliveira (88) apostou em pneus duros e deu certo! (Fotos: MotoGP.com)

Miguel Oliveira (KTM) mostrou as armas no estranho GP da Catalunha

Posso dizer que já vi de tudo em matéria de esquisitices na MotoGP, mas um piloto com o macacão abaixado, de peito de fora, a 320 km/h, fazendo ultrapassagem eu nunca tinha visto! O mundo assistiu a esta inédita cena nas voltas finais da corrida da MotoGP, em Barcelona, no último domingo. A vitória foi totalmente calculada e merecida do dentista português Miguel Oliveira, mas quem mostrou o tórax imberbe foi o jovem francês Fabio Quartararo (Yamaha) que teve problemas com o zíper do macacão nas voltas finais.

A prova começou com mais uma pole-position de Quartararo, mostrando que está em ótima fase depois da cirurgia no antebraço direito. Ele dominou a primeira fila e ainda era o dono de um excelente ritmo nos treinos. Estava claro que chegaria entre os primeiros, só dependia de como andariam as Ducati de Johan Zarco e Jack Miller.

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Pole nos treinos, Quartararo perdeu a prova por causa de um zíper!

Na largada todo mundo ficou de olho nestes três, mas quem partiu como um míssil Exocet foi o português Miguel Oliveira. Largou em segundo, passou pra primeiro na segunda volta e desapareceu. Enquanto isso Jack Miller, Joan Mir (Suzuki), Johan Zarco e Quartararo se engalfinhavam pelas sobras do pódio. Quartararo alargou um pouco a trajetória e baixou pra sexto lugar, mas foi recuperando, passando um por um até chegar no segundo lugar a mais de um segundo (uma eternidade da MotoGP) de Miguelito.

Quartararo largou com pneu médio na roda dianteira e duro na traseira. Miguel Oliveira era o único entre os primeiros a arriscar dois pneus duros. A escolha portuguesa deu certo. Quartararo tirou a diferença, passou Miguel e quando parecia que ia faturar a terceira prova seguida começou a perder aderência da dianteira. Diminuiu um pouco o ritmo mas dava pinta que seria uma briga frenética pela vitória até que algo muito estranho aconteceu.

O francês da Yamaha começou a mexer em algo no macacão e vimos a cena bizarra do protetor de peito sair voando. Desconcentrado Quartararo perdeu o ponto de frenagem na curva 1, entrou pela área de punição, perdeu a terceira posição para Jack Miller, voltou pra pista com o macacão aberto e ninguém entendia nada. Mesmo com todo vento entrando pelo macacão a 300 km/h Quartararo ainda conseguiu ultrapassar Miller para cruzar a linha de chegada em terceiro, atrás de Zarco.

Antes mesmo de chegar aos boxes Quartararo já tinha sofrido uma punição de três segundos por ter “cortado” a pista. Injusta, porque, na verdade, ele fez o caminho mais longo e lento. E depois da prova foi punido com mais três segundos pela perda do protetor de peito, item obrigatório. Com isso ele ficou em sexto lugar. Heróico, porque pilotar com o macacão aberto já é difícil na estrada a 120 km/h, imagina a 300!

Ao final o piloto afirmou que não entendeu o que tinha acontecido, porque ele travou o zíper antes da largada. Sim, é verdade porque revi a cena da largada e realmente estava muito bem fechado. É um problema pra Alpinestar estudar e resolver. No entanto o correto seria ser retirado da prova com bandeira preta, porque o gatilho que aciona o acelerômetro do air bag macacão é justamente a trava do zíper. Com a trava aberta o air bag não acionaria em caso de queda!

Tirando essa estranha ocorrência, a etapa catalã mostrou mais uma decepção da equipe oficial Honda, com seus dois pilotos fora por queda. Aliás foi uma corrida com muitos tombos, um deles com o veterano Valentino Rossi (Yamaha) justo quando ele estava conseguindo um resultado entre os dez primeiros.

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Talvez tenha chegado a hora de Valentino pendurar o macacão.

O campeonato ficou ainda mais equilibrado e emocionante, ainda com Quartararo na liderança com 115 pontos, seguido de Zarco com 101 (acho que nunca se viu dois franceses no topo da tabela na categoria principal) e Miller com 90.

Na segunda-feira após a prova as equipes voltaram pra mesma pista para treinos oficiais. Maverick Viñales foi o melhor testando uma nova balança traseira de fibra de carbono em sua Yamaha. Marc Márquez treinou bem mas acusou dores no braço direito. Acho que ele recupera a velocidade em breve, mas ainda falta ritmo. Bom desempenho das KTM, o que deixa ainda mais emocionante esta modalidade incrível chamada MotoGP

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Remy Gardner (87) mais uma vitória e um pé na MotoGP. 

Moto2

Enquanto o mundo vibra com a MotoGP, na Moto2 parece que as coisas ficaram mornas. As duas motos da equipe KTM, de Remy Gardner e Raul Fernandez parecem que são de uma categoria à parte, porque abrem uma confortável distância dos demais em poucas voltas. No começo até deu a impressão de alguma briga entre os dois e mais Xavi Vierge (Petronas), mas não durou muito. Na verdade as motos não são KTM, mas o chassi é Kalex e o motor é Triumph de três cilindros. O mais legal desta categoria é o ronco deste motor, que lembra as motos de quatro cilindros em linha quatro tempos dos anos 1970!

Mais uma corrida para apagar da memória para o veterano Sam Lowes (Marc VDS) que depois de um começo de temporada brilhante foi caindo (literalmente) de produção.

O campeonato também ganhou mais equilíbrio, com Gardner em primeiro com 139 pontos, seguido de Fernandez com 128. Decepção total com o campeão da Moto3 de 2020, Albert Arenas, que marcou apenas 10 pontos até o momento. O espanhol ainda não se entendeu na categoria.

Moto3

Definitivamente é a categoria mais desesperadora para quem assiste, narra ou comenta, porque em meia volta tem mais ultrapassagens do que toda a temporada de F-1. Chega a dar pânico ver a forma como os pilotos correm colados, esbarrando um no outro.

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O pega entre Sergio Garcia (11) e Jeremy Alcoba (52). 

Impossível acompanhar a posição dos primeiros colocados, porque a cada curva muda tudo. Desta vez dava a entender que finalmente o argentino Gabriel Rodrigo (Honda) conseguiria sua primeira vitória. Lutando sempre entre os primeiros o hermano liderou várias voltas, mas o que aconteceu na última volta foi digno de roteiro de filme de suspense.

O fenomenal Pedro Acosta (KTM) novamente largou na última fila. Foi escalando o pelotão até chegar ao primeiro lugar nas voltas finais. Os oito primeiros formaram uma fila única e qualquer um deles poderia cruzar a linha de chegada em primeiro. Até que veio a última volta! Logo na Curva 1 um show de frenagens e esbarrões fizeram Pedro Acosta perder várias posições, enquanto o pequeno turco Denis Oncu (KTM) era arremessado às primeiras posições. Jaume Masia (KTM), Jeremy Alcoba (Honda) e Sergio Garcia (GasGas) formaram um pelotão compacto e só se definiu a ordem de chegada a centímetros da bandeirada, com Garcia em primeiro, seguido de Alcoba e do emocionado Oncu. Acosta cruzou em sétimo e manteve a liderança do mundial com 121 pontos, seguido de Sergio Garcia (81) e Masia (72).

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Emoção no pódio: Deniz Oncu desabou em choro na entrevista.

Pensa que Pedro Acosta estava aborrecido com esse resultado? Nada, ele chegou a 3 décimos do vencedor e aprendeu mais uma lição: nesta categoria a última é a volta mais importante de toda a corrida.

MotoE

Nenhum especialista em motovelocidade duvida da enorme capacidade do brasileiro Eric Granado (One Energy). Ele está pronto para encarar uma temporada na Moto2, desde que por uma boa equipe, claro, porque o estilo dele casaria perfeitamente nesta categoria.

Mas enquanto isso não vem, continua sendo o mais rápido na MotoE. Fez mais uma pole-position nos treinos. Na largada a moto dele deu tilt: apagou e só voltou à vida depois de dar um restart. Pena que o regulamento o fez largar dos boxes.

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Miquel Pons (71) conseguiu sua primeira vitória na MotoE.

Largou, foi passando um monte de gente, fez duas vezes a volta mais rápida, mas caiu. Tudo bem, porque nesta categoria difícil não cair com uma moto que pesa quase 200 kg a mais do que uma MotoGP. O mundo já viu que Eric é o mais rápido da categoria. Falta apenas aquela pequena sorte de campeão.

Na corrida mais um arranca-rabo tradicional desta categoria que é a mais curta de todas. E consagrou um novo vencedor, Miquel Pons (LCR), seguido do veterano Dominique Aegerter (Dynavolt) e do campeão Jordi Torres (Pons). Este resultado embolou de vez o campeonato com a liderança ainda na mão do italiano Alessandro Zaccone, com 54 pontos, seguindo de Aegerter (53) e Torres (43). Granado está em sexto, com 28 pontos.

publicado por motite às 00:52
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Segunda-feira, 5 de Abril de 2021

MotoGP começa com muito equilíbrio

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Jorge Martin brilhou no GP de Doha. (Fotos: MotoGP.com)

Caro leitor, eu fiquei na dúvida se escreveria sobre a Motovelocidade este ano. Sem participar das transmissões ao vivo eu teria de assistir todas as provas da programação, algo que nunca foi meu passatempo favorito, ainda mais quando se tem um sol brilhando, típico do outono, com tantas opções de lazer e divertimento. Mas como continuarei assinando uma coluna no Portal do Carsughi, decidi que faria os comentários, só que mais frios para publicar na segunda-feira depois de assistir os VTs. Então acompanhe as duas primeiras etapas e anote esse nome: Pedro Acosta, o novo gênio da motovelocidade.

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Maverick turbo: guardou pneus pro ataque final.

GP do Qatar

Mundial de Motovelocidade começa com emoção

A motovelocidade deu um show de competitividade logo na primeira etapa de 2021. Com muita inteligência o espanhol Maverick Viñales administrou os pneus e deu a primeira vitória à Yamaha oficial. Como sempre foi uma corrida eletrizante que mantém suspense até poucos metros da bandeirada e teve de tudo: ótima estreia da dupla Pecco Bagnaia e Jack Miller na Ducati oficial, decepção da equipa Yamaha-Petronas; desempenho sensacional do campeão Joan Mir e o veterano Johan Zarco mostrando seu lado mais competitivo.

A corrida, bem a corrida pode ser vista em detalhes nas repetições pelos canais ESPN/SporTV, ou mesmo pelo canal oficial da Dorna o MotoGP.com. Por isso vou ficar mais na análise do que pudemos ver neste domingo e tentar projetar o que está por vir.

Em 2020 o australiano Jack Miller disse que para os pilotos da Ducati a posição de largada era o menos importante. Contando com um sistema eletrônico de largada muito mais eficiente do que as demais equipes, Miller explicou que pode largar em qualquer posição até a segunda fila que consegue chegar na primeira curva em primeiro.

Pura verdade. No Qatar só não conseguiu chegar em primeiro porque na frente dele estava Francesco Bagnaia com outra Ducati oficial, autor da pole-position. Aliás foi a primeira pole de Bagnaia na categoria, mas não na carreira, como foi dito na transmissão.

Que a Ducati é a moto mais veloz da categoria todo mundo sabe, mas vale a pena detalhar mais como ela conseguiu essa supremacia. Primeiro pela arquitetura do motor com quatro cilindros em V e comando de válvulas desmodrômico, que dispensa molas. Mas o grande salto foi na aerodinâmica.

Por décadas os engenheiros não deram muita importância à aerodinâmica. Porque nas motos tem um componente que atrapalha demais que é o piloto se mexendo pra todo lado. A primeira marca a pensar nisso foi a Moto Guzzi, em 1950, que construiu o primeiro túnel de vento da indústria, porque seus fundadores eram aeronautas. Assim nasceu a carenagem integral que mudou pouco nestes quase 70 anos.

Mas desde a chegada do ano 2000, com motores quatro tempos de 1.000 e 900cc, as motos da MotoGP ganharam mais velocidade em reta e começaram os estudos mais profundos, principalmente para manter a frente fixada no chão acima de 350 km/h. Lembre que esta é a velocidade que um Airbus levanta voo.

Surgiram as pequenas asas dianteiras, discretas, mas eficientes e a velocidade nas retas aumentou ainda mais até atingir os 363 km/h no Qatar sem correr o risco de o pneu dianteiro perder aderência. Esse estudo aerodinâmico deixou as equipes mais confiantes para incrementar ainda mais a potência.

Outro fator determinante para a evolução das motos nesta etapa foi o trabalho mais antecipado dos fornecedores de pneus. Em 2020 a temporada foi atrasada tanto que o “circo” chegou na Europa já no outono (com temperaturas mais baixas), o que jogou fora todo trabalho antecipado para escolha de pneus. Virou uma loteria e isso – e apenas isso – foi que levou algumas equipes a viverem altos e baixos tão malucos. Um piloto vencia uma etapa e na seguinte chegava em 18º. Não é o padrão da MotoGP. Em 2021 não vamos ver essas diferenças tão grande de desempenhos de uma mesma equipe.

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Repare no cuidadoso trabalho aerodinâmico das Ducati, na moto do Pecco Bagnaia.

A corrida viu a largada fulminante das duas Ducati oficiais e a dificuldade de as Yamaha em acompanhar nas primeiras voltas. Bagnaia e Miller despacharam o resto e logo tiveram a companhia do bravo Zarco. Parecia que a Ducati faria 100% do pódio, mas esqueceram que potência não é nada sem controle de tração. No pelotão da frente Fabio Quartararo (Yamaha) e Viñales estavam num bom ritmo, economizando borracha.

Em 2020 as Yamaha oficiais perdiam muita velocidade em reta. Parece que foi resolvido, porque ficaram apenas 4 km/h abaixo das Ducati na corrida. Com um motor mais forte (com arquitetura de quatro cilindros em linha), Viñales decidiu esperar a hora de atacar e assumiu a ponta na metade da prova para chegar um segundo à frente dos demais.

Nas duas últimas voltas Joan Mir chegou nas Ducati e mostrou muita frieza para passar os dois, visivelmente com pneus em dia, graças ao desempenho mais suave da Suzuki (também com motor de quatro cilindros em linha). Poderia ter terminado em segundo não fosse um erro na última curva da última volta! Ele ultrapassou Zarco na curva 15, penúltima. Quando chegou na 16 fechou a trajetória para não ser ultrapassado, mas isso fez perder rotação na saída da curva e foi engolido pelas Ducati de Zarco e Bagnaia. Mesmo assim Mir colocou as cartas na mesa e mostrou que não foi campeão por acidente.

Decepção foi o desempenho de Franco Morbidelli (Yamaha/Petronas) que teve problemas de potência e ficou muito pra trás. Também decepcionaram as Honda, com Pol Espargaro em 8º e Stefan Bradl em 11º. Ótima estreia de Enea Bastianini (Ducati) terminando em 10º. Em 2021 parece que as coisas voltarão ao normal na categoria rainha e os protagonistas deverão ser os pilotos da Ducati. Assim que acostumarem com o consumo de pneus.

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Ele, de novo: Sam Lowes continua motivado na Moto2.

Moto2: deu a lógica

A bem da verdade, em 2020 não foi Enea Bastianini que venceu o mundial de Moto2. Mas foi Sam Lowes que perdeu. Ele tinha uma enorme vantagem e poderia administrar até a última etapa. Mas a três provas do fim sofreu uma queda que custou caro. Mas ele sempre foi o piloto mais bem adaptado e experiente da categoria. Além disso, a estrutura da Marc VDS é a melhor de todas. Não foi surpresa nenhuma a vitória do britânico, colocando 2.2 segundos sobre Remy Gardner, agora na equipe de fábrica KTM.

O destaque fica para Raul Fernandez, recém promovido da Moto3 conseguindo um ótimo quinto lugar e para o australiano Remy Gardner, que teve uma temporada difícil em 2020 por conta de uma estrutura enxuta, mas que agora vai ter toda KTM trabalhando pra ele. Fabio Di Giannantonio deu um pódio para a equipe Gresini, para felicidade da equipe que perdeu o manager e dono Fausto Gresini, semanas antes da prova, vítima de Covid-19. Para completar, Joe Roberts fez um bom treino se classificando em terceiro na estreia na equipe Italtrans, mas na corrida ficou em sexto.

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Jaume Masia levou a primeira, mas quem vai dar trabalho é o de trás: Acosta!

Moto3: o pau de sempre.

Pode mudar o nome, motor, chassi, pneu, pilotos, pista, pode mudar tudo, mas a Moto3 continua sendo a categoria mais equilibrada da Motovelocidade. O segredo é um regulamento que limita a preparação e jovens pilotos com testosterona saindo pelos ouvidos.

A maior das surpresas – ótima – foi a estreia do espanhol Pedro Acosta (KTM) recém chegado da Rookies Cup, categoria para novatos. O espanholito surpreendeu com a segunda posição na estreia e pode anotar esse nome, porque pelo que andou vai dar muito trabalho aos “veteranos”.

Teve o cardápio completo: quedas coletivas, vários toques entre os pilotos, ultrapassagens viscerais e a chegada decidida na bandeirada. O vencedor foi Jaume Masia (KTM) com enormes 0,042s de vantagem sobre Acosta, que chegou a liderar a prova. Também destaque para o Argentino Gabriel Rodrigo (Gresini), que conseguiu o quinto lugar na raça. Darryn Binder (Honda) em terceiro e Sergio Garcia (GasGas) em quarto fecharam os cinco primeiros colocados.

Pode se preparar para uma temporada de acabar com as unhas das mãos!  

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Vai pro Instagram: El Diablo mostrou muita inteligência na segunda etapa.

GP de Doha

Qua qua Quartararo riu por último

Um dos mais sensacionais GPs dos últimos anos viu a vitória de Fabio Quartararo

Ele foi duramente criticado na temporada 2020 depois de vencer três provas, mas intercalar desempenhos medíocres, muitos erros e quebras. Mas em 2021 o francês Fabio Quartararo assumiu o guidão da Yamaha oficial que era de Valentino Rossi e na segunda prova do campeonato já subiu no degrau mais alto do pódio.

A prova começou com domínio total da Ducati, embalada pela surpreendente pole-position do espanhol Jorge Martin, em sua segunda prova na MotoGP. Equipadas com um sistema de largada que dá enorme vantagem, as Ducati deram um salto na luz verde e Martin sumiu na frente dos demais. Mas a largada mais impressionante foi do português Miguel Oliveira (KTM) que saiu do 12º lugar para a segunda posição! Depois não conseguiu manter o ritmo.

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Miguel Oliveira (88) largou como um foguete!

O campeão Joan Mir (Suzuki) aconseguiu acompanhar o ritmo das Ducati até metade da prova, mas aos poucos Johan Zarco (Ducati), Jack Miller (Ducati) Fabio Quartararo e Francesco Bagnaia se juntaram, formando um bloco compacto.

A exemplo do que aconteceu na primeira etapa, quando Maverick Viñales (Yamaha) atacou no final e venceu foi a vez de Quartararo começar um paciente e preciso ataque aos líderes. Foi praticamente um exercício de xadrez porque Quartararo passava no miolo, mas era superado no retão de 1.000 metros. Até que ele conseguiu superar Jorge Martin nas primeiras curvas e abrir distância para completar a volta na liderança.

Como Johan Zarco também encostou em Martin os dois perderam tempo e Quartararo conseguiu abrir uma distância segura para cruzar a bandeirada a menos de um segundo de Zarco, que conseguiu passar Martin na última volta.

Aos 21 anos de idade Quartararo mostrou maturidade suficiente para poupar os pneus para as últimas voltas e deu a Yamaha a segunda vitória consecutiva na temporada. Com o segundo lugar – de novo – Zarco assumiu a liderança do mundial. A dobradinha francesa quebrou um jejum de mais de 60 anos, porque a última vez que dois franceses chegaram nas primeiras posições foi em 1954!

Mais uma vez as motos da Honda deixaram a desejar. O melhor resultado foi o 13º lugar de Pol Espargaró. A esperança da marca é a possível volta de Marc Márquez no GP da Espanha, dia 2 de maio.

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Lowes está sobrando na pista.

Moto2: Lowes de novo

Pela segunda vez consecutiva o inglês Sam Lowes (Marc VDS) dominou a categoria com propriedade. O estreante Raul Fernandez (KTM) subiu ao pódio na segunda participação na categoria ao terminar em terceiro lugar. Aos poucos ele está se entendo com a moto que tem motor Triumph de três cilindros de 765cc.

Mais uma vez o australiano Remy Gardner (KTM) foi segundo colocado, mas dessa vez a apenas 0,1 segundo do vencedor. Ele até tentou passar nas últimas voltas, mas a experiência de Lowes prevaleceu.

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Nasce uma estrela: Pedro Acosta (37) é a nova sensação da motovelocidade.

Moto3: Anote esse nome

Na análise da primeira etapa eu escrevi: “A maior das surpresas – ótima – foi a estreia do espanhol Pedro Acosta (KTM) recém chegado da Rookies Cup, categoria para novatos. O espanholito surpreendeu com a segunda posição na estreia e pode anotar esse nome, porque pelo que andou vai dar muito trabalho aos veteranos”.

Pois vou repetir: anote e guarde bem esse nome porque certamente será o novo fenômeno da motovelocidade. O que ele fez no GP de Doha vai ficar para a história. Ele largou dos boxes, saiu em último a 9 segundos do resto do pelotão, foi ultrapassando todo mundo e venceu a corrida. Sabe quem foi o último piloto a fazer isso? o genial Marc Márquez.

Pedro Acosta já poderia ter vencido na estreia, nesta mesma pista, mas vencer dessa forma apenas na segunda prova na categoria já é um feito digno de outros campeões como Valentino Rossi ou Casey Stoner.

Darryn Binder (Honda) foi o segundo colocado a apenas 0,039 segundo do vencedor e Nicoló Antoneli (KTM) foi o terceiro. Com este resultado Pedro Acosta assumiu a liderança do mundial, seguido do sul africano Binder.

A próxima etapa será dia dia 18 de abril, em Portugal com transmissão ao vivo pela Fox/ESPN.

 

publicado por motite às 13:00
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