Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Vida corrida – Joelho no asfalto

(Teste da Suzuki GSX-R 750 em 2001 na Itália: gastei vários raspadores só pra fotos!)

 

Logo pela manhã, quando começam a chegar meus alunos para o curso SpeedMaster de pilotagem fico cronometrando para saber quanto tempo demora para alguém fazer a clássica pergunta:

 
- Nesse curso você vai nos ensinar a raspar os joelhos no chão?
 
E sempre respondo da mesma forma:
 
- Claro que sim! e se depender de como você pilotar vai raspar não apenas o joelho, mas também o cotovelo, coxas, costas o corpo todo!
 
Esta fixação pelo popularmente batizado de “knee-down”, ou “joelho pra baixo” é reflexo direto deste excesso de exibicionismo entre colegas jornalistas. De fato, vejo como absolutamente ridículo o esforço que alguns motociclistas fazem para tocar o asfalto com os joelhos durante as curvas. Parece aquele jogador de futebol iniciante que “pedala” a 20 metros de distância do beque mais próximo. Só serve pra fazer papel ridículo.
 
 
 
(Oh, que difícil, até de CG 150 você pode raspar joelho no chão! Foto:Fábio Arantes) 
 
 
Tenho uma má notícia para todos os “knee-sliders” das estradas e ruas brasileiras: de tão fácil e banal, pode-se fazer essa manobra até na reta e com qualquer moto - até de CG 150 - que consiga inclinar até 45º. Até de scooter é possível fazer essa “radicalíssima” brincadeira. Agora, a pior notícia de todas: fora das pistas de corrida essa manobra serve pra NADA! Nas estradas nenhum piloto será mais ou menos veloz se encostar, ou não, os joelhos no asfalto durante as curvas.
 
Assim que os primeiros pilotos americanos importaram essa técnica para o mundial de motovelocidade, nos anos 80, as publicações brasileiras danaram a soltar as mais bizarras explicações para esse “pêndulo”. Desde a divertida explicação aeronáutica, segundo a qual o piloto abre as pernas na entrada das curvas para funcionar como uma espécie de aileron (flap) e ajudar a fazer a curva! O vento bate na perna do piloto e o arrasto provocado faria a moto virar para o lado interno da curva. Bobagem!
 
Outra explicação estranha era a teoria físico-cinemática segundo a qual o joelho funcionaria como um terceiro apoio na curva para equilibrar a moto. Neste caso seria até melhor se em vez de proteções, os pilotos usassem rodas de skate nos joelhos!
 
Como tudo começou
Segundo o grande americano Keith Code (que considero o MELHOR professor de pilotagem de moto do mundo), a evolução da pilotagem começou nos anos 60 quando Mike Hailwood começou a abrir as pernas nas curvas. Era o começo do que seria chamado aqui de “pêndulo”. Foi também o começo de um enorme consumo de botas, porque eles pilotavam com a sola da bota apoiada nas pedaleiras e a ponta dos pés raspavam no asfalto. Mais tarde, já nos anos 70, Jarno Saarinen seria o primeiro piloto a tirar a bunda de cima do banco da moto na curvas, já aproximando mais os joelhos do asfalto.
 
 
(Mike Hailwood e sua Honda 250 de seis cilindros: o primeiro a abrir as pernas nas curvas)
 
Até que no final dos anos 70 e início dos anos 80, o piloto americano Kenny Roberts investiu seriamente no desenvolvimento dos pneus e chegou a convencer a GoodYear, tradicional fabricante de pneus para carros, a entrar no mundial de moto só para avançar na tecnologia de pneus radiais slicks. Ele ficou conhecido como Mr Knee-down e destruiu vários macacões até prender um pedaço de sola de sapato nos joelhos usando quilômetros de silver tape. Estava inventado o knee-slider, ou “raspador de joelhos”.
 
(Kenny Roberts, o Mr Knee Down, gastou muito macacão)
 
Originalmente o pêndulo era uma forma de suavizar um pouco a distribuição de massa na curvas. Lembre-se que moto sozinha não é veículo, precisa ter um sujeito em cima para analisar a atuação da Física aplicada. Ao contrário dos automóveis, as motos têm uma característica única nas curvas: ela se aproxima do solo! Todo corpo tem um centro de gravidade, que é o ponto de equilíbrio da massa. Quanto mais massa for deslocada para perto do solo mais próximo do solo será também o centro de gravidade (CG). Por isso os pilotos abrem bem o joelho nas curvas. Mas...
 
A evolução dos pneus nunca parou – apesar de a GoodYear ter desistido das motos. Conforme os pneus foram evoluindo o ângulo de inclinação da moto em relação ao solo foi aumentando tanto que hoje o piloto mal consegue achar um lugar para as pernas durante as curvas e já é comum pilotos que raspam os cotovelos no asfalto (sem cair!).
 
Hoje a principal função de tocar o joelho no asfalto é dar ao piloto uma idéia do quanto a moto está inclinada em relação ao solo. Sim, continua sendo uma forma de melhorar a distribuição de massa e melhorar o CG, mas é secundária.
 
Só que nem em todas as curvas o piloto usa esse recurso. Pode reparar nas cenas com câmera on-board do mundial de MotoGP que atualmente os pilotos tocam bem de leve o asfalto e em algumas curvas nem sequer tocam. Graças a pneus cada vez melhores e mais largos é possível inclinar a moto nas curvas sem a ajuda do joelho.
 
Sempre ilustro com uma história que vivi em 2001 quando fui para Itália, no circuito de Rimini, testar a nova Suzuki GSX-R 750. Era um grupo de jornalistas de revistas de várias partes do mundo, inclusive dois brasileiros!
 
No meio de uma colorida turma de pilotos-jornalistas tinha um senhor com seus quase 60 anos, de macacão preto, capacete preto, mas um senso de humor dos mais coloridos. Entrei na pista junto com ele achando que logo passaria pelo “tio”. Eu o olhava de longe e percebia que ele quase nem saía com o corpo de cima da moto. Pilotava muito redondo e carenado. Foi um sufoco encostar e passar por ele...
 
Depois fiquei sabendo que se tratava de um sul-africano ex-piloto do mundial de 500 (não gravei o nome), mas que pilotava muito rápido de uma forma muito limpa e clássica.
 
Quando questionei sobre o estilo de pilotagem, ele respondeu em tom de brincadeira:
 
- Se meu joelho encostar no asfalto pode ter certeza que ele se soltou do resto do corpo!  
 
Em motos de baixa potência, como a categoria Twister ou 125, o pêndulo nas curvas pode provocar tanto arrasto aerodinâmico que atrapalha mais do que ajuda. Quando eu corria na 125 Especial procurava ficar muito carenado e só abria o joelho em curvas de baixa para ajudar a equilibrar minha (pouca) massa! Eu não gosto de encostar o joelho no asfalto, pelo contrário, prefiro ficar mais embutido na carenagem.
(Leandro Mello, com quase 2 metros de altura, consegue raspar joelho e cotovelo até na reta!!! Foto: João Lisboa)
 
Mas, a pedido dos fotógrafos de revistas, fiz várias curvas em baixíssima velocidade, em qualquer esquina de São Paulo, raspando o joelho no asfalto. Era apenas uma pose, que – admito, mea culpa – ajudou a difundir essa mania!
 
Na estrada
Estes vídeos que a gente vê no Youtube da galera fazendo curvas radicais na estrada são a prova de que isso afeta mais o cérebro do que a pilotagem. Esta mania de raspar joelhos em curvas na estrada é muito mais uma IMITAÇÃO dos pilotos de verdade do que propriamente uma técnica de pilotagem. Aliás, eu diria que é uma técnica de despilotagem!
 
Nas estradas é preciso respeitar um limite muito maior e inclinar a moto até encostar o joelho no chão é desrespeitar esse limite. Além disso, caso o piloto toque com o joelho em alguma saliência ou mesmo naqueles enormes tachões de olho de gato pode desequilibrar e raspar o resto do corpo no asfalto.
 
Outra mentira associada a essa febre “knee-down” é de que um pneu mais largo facilita a inclinação da moto nas curvas. Essa mania vem dos automóveis. Com a febre do tuning foi um tal de equipar carros com pneus cada vez mais largos. A desinformação prestada sobretudo por comunidades do Orkut contribuiu para difundir essa praga. Cheguei a ver muito carro de 1.000 com pneus 185 que serviam apenas para aumentar o consumo e perder desempenho!
 
Nas motos, a largura do pneu é dimensionada levando-se em conta TODA a moto. Para usar um pneu mais largo e aproveitar a vantagem de mais área de borracha nas curvas é preciso alterar TODA a moto! A começar pelas pedaleiras, que precisam ser colocadas em uma posição mais alta e recuadas em relação às originais. Até o escapamento precisa ser reposicionado para não raspar no asfalto com a inclinação maior do que a prevista.
 
Apenas trocar os pneus 160 por um 180 só vai fazer gastar mais gasolina, forçar o rolamento da roda e aumentar a massa não suspensa.
 
Deixe seu joelho onde está e se quiser parecer um piloto radical aqui vai minha dica: retire os raspadores do seu macacão, prenda-os na sola da sua bota e saia raspando no asfalto. Depois coloque de volta no macacão e vá dar um rolê com os amigos. Todo mundo vai te respeitar... Ou compre meus raspadores usados: R$ 500,00 o par!
publicado por motite às 15:40
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