Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Garrulê

 

(Enguiando de pelo longo.)

 

Nessas andanças pelo Brasil de Meu Deus a gente ouve de um tudo. Gírias, expressões regionais, sotaques e até um semi-dialeto. 

 

Em um vôo de Teresina para São Paulo, uma criança na fileira à frente da minha brigava com a mãe porque só conseguia comer “enguiando”. Sem conseguir ver o que se passava na badeja delas, fiquei tentando imaginar o que deveria ser um “enguiando”. Ensopado de enguia? Guisado feito à moda de agulhas? Algum animal típico do Piauí.

 
- Senhores passageiros, hoje vamos servir filé de enguiando à belle munière, com alcaparras, puxado na manteiga.
 
Qual nada! A menina, chorosa, tentava dizer que a comida era ruim que só, e que a pobrezinha tinha engulhos a cada garfada da gororoba. Por isso só conseguia comer “enguiando”.
 
(Garrulê de chifre)
 
Melhor mesmo foi a história contada pelo redator-chefe (com hífen) da revista Duas Rodas, Cícero Lima. Do tipo que só fala o necessário, quando Cícero vai contar uma história segura o maxilar!
 
Segundo ele, uma amiga comissária de bordo ouviu o seguinte diálogo entre duas senhoras mineiras:
 
- Uai, soube do Zezinho da dona Filó? Diz que comeu garrolê, morreu!
 
- Ara, sô, que bestagem, todo mundo sabe que não pode comê e garralê!
 
A comissária passaria dias seguidos de aflição na tentativa de descobrir se “garrulê” era animal, vegetal ou mineral? Nenhuma das três, porque era “mineiral”, típico da região de Minas Gerais.
 
Depois de imaginar um bicho peludo, pelado, com perna, sem asas, procurar no dicionário, perguntar para todos os passageiros da ponto BH-SP finalmente ela descobriu com a ajuda de uma intérprete. Com a tecla SAP acionada, o diálogo seria assim:
 
- Uai (isso não tem tradução), soube do José, filho da dona Filomena? Dizem que comeu, agarrou a ler e morreu!
 
- Mas que besteira, todo mundo sabe que não pode comer e agarrar a ler!
 
No dialeto mineirês quando alguém faz alguma coisa compulsivamente ele “agarra” a fazer! Só que não se pronuncia o primeiro “a” e a frase fica assim:
 
- A menina mais nova do Zézim da padaria garrô a dá e num parou mais!
 
- Uai, podia ser pió, podia ser o fio!
 
Até sem sair de casa temos contato com idiomas estranhos.
Quando decidi reformar minha casa o pedreiro pediu para comprar uma “braquete de três castanhas”. Perguntei umas três vezes o que era mesmo pra comprar. E o homem respondia, já aperreado:
 
- Ômi, já não lhe disse: uma braquete de três castanhas!
 
Fui o caminho todo tentando definir que raio de peça era aquela. Cheguei a imaginar um anglicismo, de “brick” (tijolo, em inglês). Ou um galicismo, briquet, (tijolo, em francês). Mas que tipo de tijolo seria aquele com três castanhas? E por que alguém queria UM tijolo? Ou era a velha troca de erre pelo ele, como em “pobrema”, em vez de problema. Poderia ser uma “blaquete” de três castanhas. E o que raios seriam as tais castanhas?
 
Assim que encostei o umbigo no balcão da loja de materiais de construção comecei a explicar que queria uma peça, com nome de algo como “blaquete” e que deveria ter três detalhes provavelmente chamados de castanhas. No que o balconista assentou:
 
- Ah, sim, uma braquete de três castanhas!
 
Algumas vezes o que a gente ouve é exatamente aquilo que falaram mesmo. Tentar deduzir pode complicar mais ainda. Para sua informação, braquete de três castanhas é uma pedaço de alumínio, ou ferro, com três peças de porcelana para separar os fios da rede elétrica e evitar o curto-circuito.

 

publicado por motite às 19:07
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