Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Modess na testa

(No calor infernal de Goiânia nasceu uma idéia cheirosa. Foto: Donini)

 

A importância de um absorvente íntimo para um piloto de motovelocidade.

Já disse várias vezes que uma das diferenças fundamentais entre a pilotagem de carro e moto é o uso do corpo. Na moto o piloto é obrigado a forçar braços e pernas, além de abdômen, glúteos, pescoço, enfim, o corpo todo; enquanto no carro o piloto movimenta basicamente os braços.
 
Só existe uma modalidade motorizada mais cansativa do que motovelocidade: motocross. Depois disso só mesmo aquelas modalidades toscas que não utilizam motores, como bicicross, mountain-bike, maratona, triatlon e outras torturas medievais que chamam de atividades físicas saudáveis.
 
Imagine o que significa pilotar uma moto, sob o sol escaldante do verão goiano, durante 45 minutos, onde o verbo aliviar não faz parte do glossário. A corrida do campeonato brasileiro de motovelocidade em Goiânia, no ano de 1998, foi uma demonstração do que pode ser o purgatório de um pecador renitente.
 
A pista de Goiânia é simplesmente a melhor do Brasil - e uma das melhores do mundo, segundo me confessou Kevin Schwantz - para correr de moto. Tem imensas áreas de escape SEM BRITA, trechos de alta, média e baixa velocidade e um retão delicioso. Ou seja, é um playground para quem corre de moto. Dizem, nunca confirmei, que o idealizador do traçado foi Edmar Ferreira, ex-piloto de moto. Daí o traçado ser tão gostoso. No entanto, o asfalto é uma autêntica merda, na falta de outra palavra mais educada. Muitos buracos, além de o composto da massa asfáltica não resistir ao calor – o que, em se tratando de Goiânia, trata-se de um eufemismo.
 
Assim que botei os pés no autódromo, o Alemão, meu chefe de equipe, já passou a receita: Quem treinou caiu, e quem ainda treinaria, com certeza também cairia. Você não sabe como isso anima um piloto... Saí para o primeiro treino livre, com a Honda RS 125 mais afinada que o primeiro violino da Orquestra Filarmônica de Londres. Já conhecia a pista e fui tratando de escolher a melhor trilha. Isso mesmo, tínhamos de achar uma trilha na qual a pista não estivesse escorregadia, com pó de asfalto. Com isso fui me aproximando do César Barros, que corria na categoria A, enquanto eu estava na B. Cheguei a pensar: "êba, estou melhor do que pensava, mais uma volta e vou ultrapassar o César, no meu primeiro treino livre, uau!"
 
Encostei, e na curva antes da entrada da reta o César demorou um milionésimo de microssegundo para começar a inclinar. Foi o suficiente para eu passar e... levar um tombaço bem na frente de todo mundo. E ainda quase fui atropelado pelo César. Depois deste, eu ainda levaria mais dois tombos, um em cada treino.
 
O domingo amanheceu com um calor de mais de 40°C e a umidade relativa do ar não passava de 25%. No segundo dia em Goiânia meu nariz já estava sangrando, sem falar no suor que escorria da testa que nem as Cataratas do Iguaçu. Já nos treinos percebi que o calor transformaria aquela corrida num sufoco. O capacete ficava encharcado de suor e não conseguia mais absorver a umidade. O resultado era terrível, porque as gotas de suor escorriam, passavam pelas sobrancelhas e caíam nos olhos, provocando aquele ardor de quem pingou colírio de gasolina. Imagine isso bem na frenagem no final da reta, a 212 km/h!
 
No caminho para a pista, diante de uma farmácia, veio a idéia: colocar um absorvente feminino dentro do capacete, para reter o suor. Parei numa farmácia e andei, meio sem graça, confesso, pelas gôndolas em busca de um modelo que fosse "aderente à calcinha e fininho". Precisei da ajuda da balconista, que indicou um tipo anatômico, com gel e com adesivo. Tornei-me um especialista no assunto a ponto de fazer outra escolha, por um de uso diário, que as mulheres costumam usar para..., para..., bom, vamos deixar estes detalhes sórdidos de lado.
 
(Meu capacete tem cheiro de calcinha... melhor que de cueca! Foto: Arnaldo Schver)
 
Já no warm-up testei meu Intimus Gel e o resultado foi excelente, obtendo muito mais firmeza do que a outra marca alternativa. O problema era o sal do suor afetar a cola do adesivo e fazer o absorvente sair do lugar e descer para os olhos, cobrindo a visão. Por isso preferi o modelo com gel. Nem preciso dizer que fui motivo de piada a manhã inteira, até minutos antes da largada que, como sempre na nossa categoria, seria pontualmente ao meio-dia.
 
Só de vestir o macacão o corpo já ficava suado. Fui para a largada e corri os 45 minutos sem ter problemas de suor nos olhos. Ao final da corrida, tirei o capacete e torci o absorvente, que escorreu suor como se fosse uma torneira. Muitos pilotos presenciaram esta cena, mas ficaram ainda brincando com meu acessório especial.
 
A etapa seguinte foi no Rio de Janeiro, também conhecido pelos pilotos de moto como Rio de Chuveiro, porque choveu em cinco corridas seguidas naquela pista. Menos em 1998, ano que fez um calor desumano. Quando eu circulava pelos boxes, antes do primeiro treino livre, vi que alguns pilotos já tinham, literalmente, aderido à moda do absorvente. Menos o César Barros, que apareceu com um sachê fabricado especialmente pela Shoei para fazer a mesma função do velho, bom e eficiente absorvente, só que muito mais caro. Ou seja, minha "invenção" já existia e eu nem sabia.
 
* Texto publicado no livro “O Mundo É Uma Roda” (editora SpeedMaster) à venda no site http://www.motonline.com.br  ou http://www.linhamoto.com.br

 

publicado por motite às 14:37
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