
(Que Daslu que nada! Loja de ferramenta!)
Foi em um programa de ciência que vi um documentário sobre os povos nômades do Kalahari. Para encontrar água no meio do deserto eles poderiam gastar horas perfurando inutilmente o solo. Ou entrar em todas as cavernas que encontrassem na busca por um pouco de água empoçada. Em vez disso eles usam a melhor ferramenta que a natureza lhes deu: os macacos! Eles montam uma armadilha feita com um côco, preso por corrente a uma árvore e com uma abertura suficiente para passar a mão do macaco aberta, mas insuficiente para retirar a mão fechada. É a famosa cumbuca do ditado: “macaco velho não bota a mão em cumbuca”. Colocam grãos de arroz lá dentro e esperam um macaco meter a mão. Como o instinto de sobrevivência do macaco ensina que o alimento é a coisa mais importante, ele não consegue abrir a mão, soltar o arroz, e sair correndo.
Depois de capturar o macaco os nômades forçam o pobrezinho a se empanturrar de sal. Dão-lhe sal, mas nem uma gota d’água! Quando soltam, o bichinho vai correndo pra dentro de uma caverna onde – óbvio – está o veio de água que toda comunidade dos macacos tenta esconder. Os nômades poderiam simplesmente seguir os macacos mas o instinto de preservação dos primos símios os obrigam a esconder a fonte de água. Dão uma de macaco-sem-braço e não mostram onde fica a nascente. Só mesmo com a boca cheia de sal!
Segundo a antropologia, para determinar o nível de evolução de uma determinada civilização primitiva basta analisar a especificidade de suas ferramentas. Quanto mais ferramentas a comunidade usa para diferentes finalidades, mais evoluída ela é.
No mundo das motos e das corridas (e corporativo) a ferramenta é um fator determinante de sucesso. Eu sou um comprador compulsivo de ferramentas e odeio quando alguma delas some. Houve uma fase da minha vida que a melhor forma de curar uma depressão era ir até o centro de São Paulo em uma rua famosa por ter várias lojas de ferramentas e ficar ali olhando as novidades e gastando dinheiro. Era minha Daslu! Felizmente essa compulsão passou... porque ferramenta ocupa muito espaço.
(me passa aquela chave ali...)
Quem quiser ingressar no mundo das competições precisa, antes de qualquer coisa, conhecer mecânica. E isso significa saber utilizar da forma mais específica as ferramentas. A melhor maneira de identificar um mecânico ruim é observar como ele usa as ferramentas. Cada tipo de porca e parafuso exige uma chave específica. Se ele usar uma chave de fenda grande em um parafuso pequeno, esquece esse cara. Pior ainda é aquele mecânico que tenta pegar uma ferramenta, mas ainda está com outra na mão. Da mesma forma que o macaco do Kalahari, ele não consegue abrir a mão e se livrar da cumbuca.
Um bom mecânico sempre leva junto seu estojo particular de ferramentas de marca boa e sempre limpas. Mecânicos de unhas sujas são um péssimo sinal dentro de um box de corrida. Hoje em dia não se usa graxa, os óleos estão sempre limpos e não há razão para sujeira.
Quando me pedem para indicar um mecânico eu me recuso. Apenas recomendo: veja como ele cuida e usa as ferramentas.
Eu vivi um bom exemplo de uso da ferramenta. Nos meus primeiros anos na categoria 125 Especial tinha muita dificuldade de acertar a suspensão dianteira da minha moto. Por mais que combinasse as quase infinitas possibilidades de regulagem a frente continuava “dura” e desobediente.
Quando fomos no GP Brasil de Motovelocidade no Rio de Janeiro, meu chefe de equipe foi pedir ajuda aos especialistas da Öhlins, uma das maiores fabricantes de suspensão do mundo. E voltou com um sorriso de orelha a orelha. Tinha descoberto a cura da minha suspensão: faltava uma ferramenta fundamental, o torquímetro. É uma chave que mede a força aplicada nos parafusos e porcas. Cada parafuso e porca tem um aperto programado pelo fabricante, se apertasse demais a frente da moto ficava “dura”. Se deixasse mais soltos os parafusos simplesmente sumiam!
(Ô dureza de moto!)
Assim que voltamos para são Paulo para nosso primeiro treino meu chefe de equipe pegou o manual técnico da moto, passou a mão no torquímetro e refez todos os apertos dos parafusos que estavam presos às bengalas: semi-guidões, mesa superior, mesa inferior, coluna de direção e eixo da roda. Bingo! A moto melhorou tanto que meu tempo baixou em quase dois segundos, uma eternidade!
Mesmo dentro de nossas casas o uso correto de ferramentas identifica quem sabe, ou não, o que está fazendo. Quando vejo uma cozinheira usando colher de aço em panela de alumínio tenho vontade de matar! Cada vez que ela passa ou bate a colher na panela desprende pequenos pedaços de alumínio pra dentro da comida. E o alumínio é residual, ou seja, não sai mais de dentro do corpo!
Sinto o mesmo desespero quando vejo profissionais que desconhecem as ferramentas à disposição para melhorar o trabalho. Dentro de uma oficina as ferramentas são as chaves de boca, chaves de fenda, chave “L”, em “T” etc. Atualmente, com o desenvolvimento da eletrônica embarcada, podemos ver novos aparelhos que medem parâmetros como injeção, ignição, emissão de gases etc, tudo para deixar o motor mais eficiente e econômico. O mecânico que não adquire e aprende usar essas novas tecnologias está condenado a ser um trocador de lâmpada o resto da vida.
No mundo corporativo as ferramentas podem ser os cursos de idiomas, tecnologia da informação, MBA, ou cursos de especialização aqui ou no exterior. Quando um mecânico aprende a usar um analisador de gases abre a possibilidade de oferecer novos e melhores serviços. O profissional que aprende um novo idioma abre a possibilidade de prestar novos e melhores serviços.
Quando ingressei no jornalismo meus professores diziam que um bom jornalista deveria saber fluentemente o inglês e datilografia (essa coisa chata de bater à máquina, argh!). Mais tarde era recomendável que um jornalista soubesse fotografia para não apenas cobrir a ausência de um fotógrafo, mas também para melhor avaliar e editar uma foto. No começo dos anos 90 entrou a exigência de conhecer o básico de informática: programadores de texto, planilhas e muito discretamente um programa gráfico.
Hoje eu diria que um bom jornalista não precisa mais dominar tudo aquilo que seus colegas aprenderam nos últimos 30 anos (quem vai querer retocar um fotolito?). É fundamental aprender novas ferramentas: webdesign, editores de imagem, editores de vídeo e áudio, fotografia digital, espanhol, programas gráficos e, por amor da profissão, saber usar o mundo de informação disponível na rede mundial. E não apenas Google com Ctrl+C e Ctrl+V. Ainda vejo profissionais que usam a Internet como uma chave de fenda em um parafuso philips.
A cada dia as ferramentas melhoram para melhorar os profissionais que as usam. Faça bom proveito.