Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

O que gosto e não gosto...

(Já gostei mais de corridas... Foto:Tite)
 
A revista Veja lançou um especial em homenagem aos 40 anos da revista. Karaukas estou velho mesmo, porque lembro da primeira Veja nas bancas. Eu tinha 9 anos e já lia a revista Realidade que foi fechada para dar vida à Veja. Sim, com 9 anos eu lia revistas de interesse geral, por influência dos meus irmãos mais velhos que liam simplesmente tudo que lhes caíssem às mãos. De bula de remédio e manual de máquina de costura minha irmã e meu irmão liam de tudo. Essa compulsão me atingiu de rebarba, mas confesso que preferia os gibis...
 
Nesse especial da Veja duas declarações me chamaram a atenção: uma delas da escritora Rachel de Queiroz que confessou em entrevista, em 1996, que gostava mesmo era de cozinhar e assistir luta de box. Outro depoimento foi do escritor Ruadan Nassar, que revelou que a coisa que mais gostava na vida era dormir! E ainda emenda “sexo é fichinha, nada é melhor que dormir!”.
 
Diante de tão profundas revelações me senti aliviado. Sempre tive dificuldade de me inserir no circuito literário porque eu simplesmente não gosto das coisas que escritores normalmente gostam. Ou gostavam, até eu descobrir Rachel de Queiroz e Ruadan Nassar. Sempre achei que escritores e intelectuais gostavam de coisas diferentes e exóticas. Nem consigo imaginar do que gosta o Paulo Coelho, além de dinheiro, claro.
 
Por isso fiz uma revisão das coisas que eu gosto, gostei e eventualmente posso gostar no futuro.
 
Engana-se que acha que gosto tanto assim de motos. Já gostei muito mais, a ponto de sacrificar minha família e meu futuro pelo prazer de estar perto delas, seja em competições, testes malucos ou viagens. Lembro de um determinado ano, na década de 80, de ter ficado fora de casa 40 finais de semana. Se o ano tem 52 semanas dá para imaginar o que isso representou para minha família que tinha acabado de se formar. Ainda bem que percebi isso a tempo de corrigir a loucura!
 
(Já gostei mais de viajar, hoje prefiro ficar...)
 
Hoje em dia gosto de motos, mas não a ponto de sacrificar minha vida pessoal em nome de qualquer assunto relacionado ao veículo. Já não aceito tantos convites para viajar, nem mesmo vou aos lançamentos que envolva viagens. Viajar de moto só se for muito devagar, pra ver a paisagem. Não gosto mais de correr.
 
Também já gostei de corridas. Não importava se na condição de piloto, espectador ou jornalista. Desde que a TV começou a transmitir as corridas de F-1, em 1972, tornei-me um espectador compulsivo. A ponto de estragar meus finais de semana na praia só pra ver corrida pela TV (ainda não existia o gravador de videocassete...). Durante minha adolescência passava os finais de semana na Ilhabela e ficava desesperado atrás de uma TV pra assistir corridas do Emerson e Piquet. Na fase Ayrton Senna virou quase tão sagrado quanto um ritual: só saía de casa depois da corrida e pronto! A família que esperasse...
 
Hoje já não faço tanta questão de ver corrida alguma. Até recuso convites pra ver a F1 em Interlagos e os últimos GPs de Motovelocidade no Rio nem me dei ao trabalho de pedir uma credencial. As corridas perderam um pouco da graça.
 
Quem tem mais de 40 anos sabe o que foi o futebol nos anos 60 e 70. Sou da geração que viu o Brasil tricampeão. O futebol nunca foi uma paixão da minha vida, mas não tinha como resistir o banho de patriotismo com a conquista definitiva da taça Jules Rimet no inverno de 1970. O futebol entrou nas nossas vidas sem pedir licença e ai de quem se atrevesse a se confessar um pagão neste esporte. Em uma época de regime totalitário não sei se tinha mais medo de falar de política ou criticar a Seleção!
 
Pra dizer a verdade eu até me esforçava pra gostar de futebol, mas não tinha jeito. Gostava mesmo era de ver o Pelé jogar, só que ele era do Santos e eu sou corintiano, o que dava um certo ar subversivo na minha torcida. A última vez que fui a um estádio no Brasil foi em 1972 no jogo de Palmeiras x Corinthians que terminou 4 a 3 pro “meu” time depois de uma virada histórica. Mais histórica foi a briga na saída do estádio que me traumatizou pro resto da vida. Na copa de 1974 eu já era adolescente e nem lembro de ter visto algum jogo. Em 1978 já tinha descoberto as maravilhas do sexo oposto e quando o diretor da agência de propaganda nos dava folga pra ver os jogos à tarde eu aproveitava para dar uns amassos na diretora de arte. Noventa minutos de beijo na boca!
 
Só fui voltar a gostar de futebol em 1994, porque não tinha mais o Ayrton nas pistas e vi muito a contra gosto a final contra a Itália. Hoje até me permito ver alguns jogos pela TV, mas sem o menor traço de paixão. Posso dizer que gosto de futebol de uma forma parcimoniosa.
 
Até sexo, que em determinada fase da vida parece a descoberta mais deslumbrante das nossas vidas ganhou outro peso quando me aproximo dos 50 anos. Principalmente o peso físico mesmo, nas formas mais redondas e desconfortáveis. Acho que o sexo me trouxe mais problemas do que soluções. Entre os maiores erros que cometi na vida, o maior de todos está diretamente ligado ao sexo. Talvez a dimensão desta descoberta tenha tirado um pouco da graça. Além disso, como explicar tantos erros em nome de um ato que acaba quando começa a ficar bom?
 
Logo ali, quase emparelhado ao sexo, posso dizer que uma das minhas grandes fontes de prazer é comer bem. Entenda-se por bem a QUALIDADE, não a quantidade. Nunca fui de comer muito, até por impedimento profissional: um piloto de moto precisa ser magro e a gente se acostuma a comer pouco. Tem gente que se acostuma até com sogra! Mas também não sou do tipo que enfrenta fila em restaurantes ou desvia um roteiro de viagem só pra comer determinada iguaria. Se tiver cachorro quente está bom. O que me deixa de extremo mau humor é passar fome!
 
Já fui leitor compulsivo. Desses de sair de madrugada de um hotel no interior da região Toscana, na Itália, em busca de uma revista, livro, folheto, embalagem qualquer coisa que tenha letras para saciar minha necessidade de leitura. Cansei de ler “O Novo Testamento” em vários idiomas porque é o único livro que todo hotel coloca nos criados-mudos. Se eu entrasse em um avião sem algo pra ler era capaz de pentelhar a comissária até ela achar uma revista de bordo, jornal velho ou o manual de vôo do Boeing 747.
 
Essa compulsão também passou. Hoje os aviões têm filmes, tenho meu iPod, já consigo dormir mais facilmente sentado e quando não tem alguma coisa pra ler nos hotéis eu ligo a TV até pra ir ao banheiro.
 
Então fiquei tentando imaginar, afinal, do que eu gosto? E descobri – para felicidade geral – que gosto mesmo é de ESCREVER. Isso mesmo. O que estou fazendo neste exato momento é o que mais libera endorfina na minha cabeça. Dá-me um prazer quase sexual – e sem aquela secreção toda (fora as posições ridículas). Só não escrevo mais porque datilografar é um pé no saco! Quase tão chato quanto a papagaiada toda que a gente se submete para chegar ao sexo. Ser cavalheiro, abrir a porta do carro, contar as mesmas histórias, horas de papo para atingir os 20 minutos de bate-bola. Escrever sem datilografar é como chegar às vias de fato (ou de feto) sem as tais preliminares.
 
Só estou esperando Steve Jobs criar o iThink, um processador de texto que transmite o que a gente pensa para o Word! Tá bom, aceito instalar uma saída USB na nuca, dá pra esconder com o boné quando não estiver usando.
 
O único problema de ser escritor compulsivo é não conseguir parar. Certa vez quis escrever uma poesia. Escrevi 220 em uma semana! Uma editora me pediu um livro para público juvenil, com máximo de 120 páginas. Isso foi há 8 anos e já deve estar maior que a Odisséia. Simplesmente não consigo parar de escrever.
 
Melhor pra você, que na falta do que fazer, pode ficar aí a me ler!
 
+          +          +
 
(tragédia da cocaína ou do uísque?)
 
Falando em Veja, na mesma publicação repetiram as capas dos últimos 40 anos. Entre elas está uma que me deixou indignado, assim como boa parte dos brasileiros. Na ocasião da morte da Elis Regina a Veja estampou uma bela capa com o título “A tragédia da cocaína”. Isso rendeu muita briga, inclusive nunca mais assinei a revista.
 
Agora eles se justificam com a afirmação de um compromisso “de relatar os fatos como eles são, mesmo que cause dor e indignação”. O problema está exatamente aí: NOS FATOS. Segundo o laudo que a imprensa teve acesso a cantora foi vítima de um coquetel de uísque e cocaína. Então por que a Veja não publicou “A tragédia do Uísque”? ESSA é a questão: um editor de Veja já deveria saber que não existe O FATO mas A VERSÃO DO FATO.
 
Fico mais vexado quando vejo o tratamento que a mesma Veja deu ao escândalo homossexual do jogador Ronaldo Nazário. Estamparam a foto do fofo com o título “As escolhas de Ronaldo”. Por que não “A opção bissexual de Ronaldo”, ou ainda “A cegueira de Ronaldo”, ou “Os travestis de Ronaldo”. O nível da minha irritação atinge 7 graus na escala Richter quando sei que se existe uma categoria profissional que consome cocaína em níveis hollywoodianos é justamente a dos jornalistas. Mais ainda os que trabalham em revistas semanais e jornais diários. Conheço bem essa espécie e classificar a morte da Elis como uma tragédia da cocaína não é relatar fatos p*** nenhuma. Foi sensacionalismo puro para vender revista.
 
+          +          +
 
A propósito dessa minha compulsão por escrever, já escrevi a respeito!
 
Escravo
 
Porque não sei cantar
mal aprendi a pintar
jamais consegui desenhar
instrumento não sei tocar
desajeitado não tento dançar
minha voz impede cantar
Soçobrou minha arte
Só sobrou uma parte
que ainda resta a fazer
escrever, escrever, escrever
Até que não mais possa
conter as palavras em poça
Por isso escrevo e escrevo
para alguém de relevo
que ocupa meu pensamento
Na esperança de passar o tempo
escrevo, escrevo, escrevo
Lobotomia não posso
continuo este troço
escrevo, escrevo, escrevo
Alguém vai ler
a mim vai reler
Como vai lhe cair?
ninguém pode impedir
em achar tudo loucura
então prossigo a tortura
escrevo, escrevo, escrevo
e ninguém paga um centavo
a quem das palavras tornou-se escravo
por isso, escravo, escrevo, escrevo, escrevo
 
1996.
publicado por motite às 22:21
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