Quinta-feira, 15 de Outubro de 2020

EXCLUSIVO: Eric Granado fala do desafio de correr no Mundial de Superbike

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O jovem paulistano terá um enorme desafio neste fim de semana (Foto: BestPR)

Desafio será neste fim de semana em Estoril, Portugal

Aos 24 anos e com a carreira em ascensão, o jovem brasileiro Eric Granado fará sua estreia no próximo final de semana no Mundial de Superbike, principal campeonato internacional de motos de fábrica – e portanto uma importante vitrine esportiva para a indústria. Convidado pela Honda do Brasil para disputar a última etapa do torneio, no Estoril, em Portugal, em poucos dias Eric se viu às voltas com muitas novidades e um grande desafio.
A própria Honda está em sua temporada de retorno ao campeonato após 18 anos de ausência, contanto a equipe oficial HRC e a satélite MIE Racing Honda Team. Granado irá pilotar a nova moto Honda CBR 1000 RR-R SP preparada pela MIE Racing. O brasileiro competirá na categoria WorldSBK, a principal do campeonato. Abaixo, Eric analisa o que tem pela frente neste final de semana.

O que você espera fazer nessa corrida de estreia?
Eu não vou entrar na pista pensando em resultado. Eu vou subir na moto e entregar o melhor que puder. Essa que vai ser minha perspectiva no final de semana. A única vantagem que tenho inicialmente é conhecer a pista. Conquistei no Estoril duas vitórias quando fui campeão europeu de Moto2 em 2017. O traçado foi recapeado, então deve estar melhor do que quando eu competi lá – deve estar mais rápido. De resto, tenho muitas variáveis novas. Desde a equipe, a moto, os rivais na pista, meu companheiro de equipe, tudo será um aprendizado. Espero mesmo aprender muito.

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O Mundial de Superbike é uma alternativa para sua carreira?
Eu acredito que a Superbike nunca esteve em um nível tão alto. Temos grandes pilotos, equipes de fábrica muito preparadas e motos de grande potência e tecnologia. É um pacote muito interessante e é impossível, como piloto profissional, não sonhar em estar lá definitivamente. Claro, minha meta sempre foi a MotoGP. Mas tudo tem seu tempo. Dito isso, quero muito agradecer à Honda do Brasil por esta oportunidade. Eu vejo isso como um fruto especial do nosso relacionamento, já que deste 2017 conquistamos títulos na Superbike Brasil juntos. Estou muito grato por essa história que estamos construindo.

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No Brasil ele corre com uma Honda CBR 1000RR Fireblade. (Foto: BestPR)

Falando em Superbike Brasil, correr nesse campeonato vai ajudar a se adaptar no Mundial de Superbike?
Existem diferenças técnicas entre as motos dos dois campeonatos. A que usamos no Brasil é potente e veloz, mas a do Mundial tem um pacote de freio, chassi, eletrônica e motor diferentes. Na eletrônica, coisas como anti-wheeling, controle de tração e outros dispositivos vão exigir um aprendizado, pois durante a corrida eles podem ser decisivos, dependendo da condição da pista, com ou sem chuva etc. Então, o meu principal foco será entender como isso tudo funciona na moto e como ajustar em cada condição de aderência, temperatura e desgaste dos pneus.

Fisicamente, é uma categoria exigente?
Sempre que você tem pilotos de alto nível, a corrida te leva a um limite físico ou psicológico. E a Superbike tem um grupo muito forte, além de as motos serem potentes e rápidas. Motovelocidade já é normalmente é um esporte muito físico. Mas eu tenho uma rotina de preparação muito completa. Treino não apenas de moto, mas também de bike e faço uma preparação específica bastante intensa. Acho que isso não será problema e por isso vou poder me concentrar em trabalhar com a equipe para chegar a um bom acerto da moto para o classificatório e a corrida. Se conseguir isso, farei uma boa estreia.

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Eric lidera o campeonato brasileiro de Superbike invicto. (Fotos BestPR)

O que essa estreia representa para você?
Se eu te disser que não estava preparado, estaria mentindo. Me preparei a vida toda para correr em categorias desse nível. De outro lado, se disser que estava preparado, também não será 100% verdade, por que essas coisas são sempre um desafio grande. E foi algo que a Honda do Brasil resolveu me proporcionar. E eu topei na hora. O certo é que eu chego em um grande momento, o campeonato nunca esteve tão competitivo. O nível é altíssimo. E é isso o que realmente me motiva.

Você estará em uma equipe satélite, a MIE Racing. O que espera encontrar na pista?
Eu sei que é um time muito profissional e está contribuindo para que esse retorno da Honda seja bem sucedido. Meu companheiro de equipe, Takumi Takahashi, é muito rápido e tem uma boa experiência. Acho que vão me ajudar muito nessa estreia.

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A Honda voltou ao Mundial de Superbike depois de 18 anos de ausência. Como você vê esse retorno?
Eu sou piloto Honda no Brasil. A marca tem uma imagem de seriedade, incluindo nos carros, mas é interessante quando você está dentro do time e vê as coisas acontecerem de perto, como é o meu caso no Brasil. Eu acredito que em breve veremos esse time fazer grandes coisas no Mundial. É uma questão de tempo.


Corridas – O encontro do Mundial de Superbike no Estoril terá esta sexta-feira (16) dedidada aos treinos livres. No sábado (17), os pilotos entram na pista para o classificatório e a disputa da primeira corrida do final de semana. O domingo (18) verá outro classificatório, no formato de corrida, e a disputa da prova que encerra o final de semana e também a temporada 2020 do Mundial.

Fonte: Assessoria de Imprensa BestPR - São Paulo.

publicado por motite às 13:38
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2020

Os bastidores da segunda etapa do Mundial de Motovelocidade.

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Eric, Eric, Eric Granado do Brasiiiiiiiiiillll! Narrei uma vitória brasileira no Mundial!

Como foi a jornada da primeira etapa completa do mundial de Motovelocidade

Acordei atrasado! Simplesmente esqueci de colocar o despertador para 4:30 da manhã e quando despertei já era mais de 6:00 hrs! Mandei um whatsapp desesperado para o produtor da FoxSports que laconicamente me disse que eu tinha sido substituído por outro comentarista. Desesperado liguei a TV e realmente tinha outra pessoa comentando e eu estava definitiva e eternamente fora da Fox!

Felizmente isso foi um sonho, na verdade um pesadelo. Acordei desesperado, olhei no relógio e era 3:05. Nada daquilo tinha acontecido de fato. Voltei a dormir e acordei pontualmente às 4:25 com o despertador de verdade.

Toda véspera de um avento importante sempre me gerou pesadelos horríveis. Perdi a conta de quantas vezes sonhei que estava faltando um minuto pra largada e tinha esquecido o capacete em casa. Isso dá uma dimensão do tamanho da responsabilidade que me coloquei ao ser chamado para comentar as provas do mundial de motovelocidade. Foi uma overdose de adrenalina na primeira etapa três meses atrás e outra nesta madrugada. Assim como as corridas, espero que isso pare com o tempo, mas encharquei o pijama de suor!

Jornalistas, pilotos, campeões mundiais, médicos, advogados, engenheiros são pessoas normais como eu, você e a dona Maricota que mora no interior do Pernambuco. E pessoas normais tem os mesmos medos e expectativas. O medo de um comentarista ou narrador de eventos ao vivo é errar. Porque uma vez que a palavra sai da boca não tem mais como colocar de volta. Já saiu, ganhou a liberdade como um passarinho que fugiu da gaiola. Não tem volta. Já era.

Essa pressão mexe até com o mais experiente profissional de mídia eletrônica. Sou jornalista de mídia impressa há quase 40 anos. Impresso pode ser conferido, lido e revisado um zilhão de vezes, mas eletrônico ao vivo não. Temos de pensar, elaborar, editar um texto na nossas cabeças enquanto estamos falando. E quando o narrador chama “o que você acha, Tite Simões?”, o texto precisa estar revisado, relido, corrigido e editado antes de eu abrir a boca. E nunca sai como pensei!

Neste domingo, 19 de julho de 2020 fiquei das 5:00 às 10:00 diante de um monitor de notebook criando, editando, corrigindo e narrando pequenos textos para milhares de ouvintes. Só tenho uma coisa a pedir: desculpe se eu errei.

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Eric Granado do Brasiiiiiiiil

Na transmissão da primeira etapa eu fui até o estúdio da FoxSports no Rio de Janeiro e fizemos de dentro de uma cabine, com equipamentos profissionais, diretor, produtor, tudo ali perto. Desta vez cada um estava na própria casa, usando os equipamentos caseiros e sujeitos a todo tipo de interferência caseira como campainha que toca, cachorro que late, vizinho que ouve Los Hermanos etc.

No sábado eu não pude comentar os treinos porque estava dando aula na ABTRANS. No final do dia fizemos uma reunião online para ajustar microfones, luz ambiente e coordenar as pautas. Nesta reunião o Téo José estava aborrecido porque estavam criticando demais as pronúncias dos nomes dos pilotos. Conheço o Téo há quase 40 anos. Trabalhamos juntos em várias ocasiões e sei do esforço que ele dedica nas transmissões. Não é do tipo de fazer piadinhas e é extremamente estudioso. Ele fez um trabalho apurado de pesquisar os 100 nomes dos quatro grids de largada para saber como era a pronúncia nas línguas de origem de cada um. Ele faz isso com futebol, basquete, vôlei, qualquer esporte que narra. Confesso que eu jamais teria essa paciência. Mas ele teve. Mesmo assim estava sendo criticado. Porque o público ficou 13 anos acostumado com outras pronúncias, sem se dar conta de saber quem estava certo ou errado.

Tentei contemporizar explicando que não tem como acertar a pronúncia de 100 nomes de diversos países. E olha que eu estudei alguns idiomas esquisitos na minha vida! Mesmo assim ele estava super chateado com as críticas. Por isso no domingo ele desabafou no ar sobre esse assunto.

O meu pesadelo quase se tornou realidade porque na manhã de sábado um caminhão baú passou na minha rua e arrancou os fios do poste. Os três: da luz, internet e TV a cabo!!! Isso é de enfartar qualquer cidadão. Felizmente foi só uma descarga de adrenalina a mais porque as três empresas vieram rapidamente e consertaram tudo. Mas eu perdi alguns meses de vida...

Domingo pontualmente às 5:00 da madrugada eu estava no ar junto com Edgard Mello Filho e Téo José Auad para a largada da categoria Moto-E com o Eric Granado largando na primeira posição. Eu sempre brinco com ele dizendo que “te conheço desde quando você era um heterozigoto” e é verdade! O pai dele já corria de moto no meu tempo de piloto e chegamos a dividir a pista em duas ou três ocasiões. Ver ele ali no grid de largada em primeiro mexeu com meus intestinos!

Depois da largada recebi uma mensagem do pessoal técnico que meu áudio estava ruim! Eu não tenho um microfone direcional e meu som estava muito “sujo”. Tive de sair correndo pela casa, com a corrida rolando, para achar pelo menos uns fones de ouvido. Achei mas perdi parte da corrida da Moto-E. Quando voltei o Eric já tinha mais de dois segundos de vantagem. No final da corrida tive de controlar a emoção. Na hora do Hino Nacional também deu aquele nó na garganta. Espero acostumar com isso, mas fico imaginando os narradores e comentaristas que tiveram de controlar a emoção diante das conquistas dos brasileiros em diversas categorias. Galvão Bueno está perdoado pelo éééé teeeeetra, éééééé teeeeetra!

A corrida todo mundo viu: Eric perdeu a liderança só nas primeiras curvas porque deixou a moto empinar na largada. Depois passou o Dominique Aergeter e sumiu. No intervalo entre a Moto3 e a Moto2 conseguimos entrevistar Eric ao vivo. Ele contou que na primeira volta lançada conseguiu ser um segundo mais rápido do que seu tempo da pole-position! Isso não é pra qualquer um e mostra que as corridas da Moto-E são 7 voltas de classificação pura! Que corrida!

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Albert Arenas fez outra corrida totalmente sob controle. (Foto: MotoGP)

Na Moto3 tudo levava a crer que Albert Arenas não repetiria a vitória da primeira etapa no Qatar, porque estava cometendo muitos erros. Que nada, depois de quase se arrebentar ao sair da pista em plena reta, o espanhol focou no pelotão da frente e conseguiu ultrapassar na última volta. Que corrida e que vitória, a segunda consecutiva e que abriu uma larga vantagem sobre o segundo colocado na tabela geral. Nesta categoria vimos muitas quedas e é normal porque são tudo uns retardadinhos cheios de hormônios. Mas já era um indicativo que a pista de Jerez é bem traiçoeira.

Moto2 - Luca Marini: 'O meu sonho é correr na MotoGP com Valentino ...

O irmão do campeão: Luca Marini tem DNA de Valentino Rossi nas veias. (Foto: divulgação)

Na Moto2 eu já comecei pisando na bola ao elogiar o americano Joe Roberts. O desgraçado andou o tempo todo lá atrás e fez eu queimar a língua pela primeira vez ao vivo. Pelo jeito, aquela pole dele no Qatar foi o que se chama de voo de galinha: dura pouco!

O Edgard cantou a bola antes da largada ao sinalizar que o mais constante nos três dias de treinos tinha sido o Luca Marini, mezzo-fratelo do Valentino Rossi. Ele mandou na prova do começo ao fim e quando o Nagashima tentou chegar perto deu duas escorregadas de enfartar, acalmou e manteve a segunda posição. O que foi ótimo porque sai desta etapa líder tranquilo do campeonato.

&%$@#$**& Marquez!!!

Nunca fui muito de idolatrar piloto, nem ninguém na verdade. Mas tenho de admitir que Marc Marquez é tudo aquilo que se admira num piloto: é rápido, divertido, super simpático, ri o tempo todo e tem aquele plus a mais que só as grandes estrelas tem. Mas é doido! Se normal fosse, piloto não seria.

A pole do Quartararo não abalou nem surpreendeu ninguém. Todo mundo vai ouvir isso muitas vezes, mas a posição de largada na motovelocidade não é tão decisiva quanto no automobilismo ou kartismo. Por isso todos nós sabíamos que MM93 partiria para a liderança em pouco tempo. E foi assim, liderando o pelotão que ele exagerou e deu aquela desgarrada de frente que só não terminou em tombo porque Deus não quis. Revendo a cena várias vezes percebe-se que ele apoiou o cotovelo e o joelho esquerdos para trazer a moto de volta, coisa de sobrenatural. Perdeu várias posições, voltou em 16º na frente só do irmãozinho, a 8,5 segundos do primeiro colocado.

O que se viu nas 20 voltas seguintes só foi crível porque o mundo todo estava vendo: nunca vi um piloto baixar o tempo de volta ultrapassando outros pilotos. Ele se impôs um ritmo tão fora do normal que passou 13 pilotos como se fossem de uma categoria menor. Estava em terceiro lugar com o Maverick Viñales na mira quando passou com o pneu dianteiro na zebra interna e foi arremessado que nem um míssil Exocet. Caiu e foi atingido pela própria moto quebrando-lhe o braço direito.

Na hora que a câmera mostrou ele pedindo para o fiscal desafivelar o capacete já vi que era grave, mas fiquei na minha. Não queria ser o arauto da desgraça, mas mandei um recado pelo chat interno avisando que era caso de fratura, mas achei que era punho ou escafoide. Não deu outra, foi o úmero.

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Quarta, El Diablo, venceu a primeira de muitas provas na MotoGP. (Foto: MotoGP)

Fabio Quartararo administrou a vantagem sobre Viñales e quem deu o pulo no gato nas últimas voltas foi Andrea Dovizioso arrancando um ótimo terceiro lugar, mesmo com o ombro recém operado.

Foi uma corridaça, que poderia ter entrado para a História se MM93 não tivesse caído. Mas... não existe “se” no mundo das corridas. Foi um erro (causado por outro erro) que vai custar caro porque foram 50 pontos jogados fora, na premissa de que venceria as duas etapas. Domingo que vem será mais emocionante ainda porque as equipes já sabem o que corrigir pra segunda etapa. Aposto nas Yamaha de novo porque a Ducati não vai bem nesta pista e a Suzuki ficou sem Alex Rins. Não sabemos se a Honda chamará alguém para pilotar a moto do Marc Marquez nesta segunda etapa. Agora era um bom momento para chamar Casey Stoner e ver como o australiano está pilotando.

Depois da bandeirada fomos informados que a transmissão seria encerrada às 10:05, quando eu e o Edgard faríamos os comentários finais. Mas para nossa surpresa entrou uma chamada antes e não pude agradecer três pessoas especiais que ajudaram na transmissão: Nenad Djordjevic (este sobrenome é difícil), Eduardo Minhoca Zampieri e Marco Granado.

Também queria dizer aos PENTELHOS de plantão que um cara que fica narrando QUATRO categorias seguidas ao vivo pode se permitir cometer erros. Fiquei puto ao ler alguns mega especialistas comentando que o Téo José falou "manete do acelerador". Porra, vamos cobinar que manete e manopla são palavras bem parecidas e o cara deve ter falado dois milhões de palavras nestas cinco horas, errar UMA está totalmente dentro das expecativas. Pelo menos ele não te chamou de pobre ao vivo ao comentar que sua televisão foi comprada nas Casas Bahia em 24 prestações, ou gritou pra você aumentar o volume e acordar a avó, como fazia o outro locutor...

Semana que vem tem mais, vamo que vamo!

publicado por motite às 19:43
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Vida corrida - Talento x Habilidade

 

(Eric Granado, o menino mais feliz do mundo)
 
O mundo das idéias se divide basicamente em duas correntes: os cientistas e os humanistas. Os cientistas analisam o mundo essencialmente pela luz materialista da ciência. Não há espaço para conceitos como “dom” ou “talento”. Já os humanistas tratam o Homem de um ponto de vista filosófico que nem sempre obedece a frieza na ciência. Nem vou ser maluco de querer definir qual está certo ou errado, muito menos defender uma ou outra corrente de pensamento. Mas vou sim jogar um pouco da minha experiência sobre um inesgotável assunto que alimenta acaloradas discussões tanto em sala de aula quanto em mesa de botequim: existe talento?
 
De cara vou deixar claro que sou um misto de materialista com humanista (afinal de contas eu sou corintiano mas torço pro Rogério Ceni fazer gols!). Só que nesta discussão sobre talento versus habilidade sou absolutamente cientista e não acredito em “o talento”. Aliás, só a título de proteção ao idioma nunca repitam a asnice de falar “talento natural”, pois se é talento não pode jamais ser artificial, muito menos adquirido...
 
O conceito de talento está diretamente relacionado a uma aptidão in natu, que já vem com a pessoa desde o nascimento, chamada de congênita. Para aceitar este conceito é preciso acreditar em teorias com bases muito mais dogmáticas do que científicas como reencarnação e vida após a morte. Ou então na teoria do Maktub, segundo a qual já nascemos predestinados a ser o que somos desde o heterozigoto até a morte.
 
Bom, basta olhar o sucesso de vendas da teoria do Maktub escrita por Paulo Coelho e comparar com os vários livros que tratam do materialismo histórico marxista para descobrir em qual das duas teorias a humanidade acredita. Mesmo assim, continuo acreditando que “talento” foi um conceito criado lá na Idade Média – com anuência e patrocínio da Igreja Católica – para resignar os pobres e fracassados. Quantas vezes na vida você falou ou ouviu alguém falar “não tenho talento pra coisa”.
 
Parte dessa crença vem nas repetidas histórias difundidas em todo mundo de pessoas que desenvolveram uma capacidade gigantesca para determinadas tarefas, desde as mais prosaicas até as mais sofisticadas. Exemplos como do Wolfgang Amadeus Mozart que compunha sinfonias desde a tenra infância, mas pouca gente se lembra que o pai dele também era músico e compositor.
 
No entanto quando vejo um pedreiro construir um muro de arrimo com uma precisão quase milimétrica, ou uma faxineira lavar e passar a roupa com um capricho maior do que a lavanderia do mais caro hotel de Dubai não ouço ninguém comentar “nossa, eles nasceram com talento para ser pedreiro e lavadeira”. Claro, porque o conceito de talento só existe para atividades consideradas nobres e não para as corriqueiras.
 
Todo esse papo para tentar explicar a você que está com o nariz apontado pra tela do computador que esse papo de ter, ou não, talento para pilotar é uma inútil e desmesurada BESTEIRA! O que existe, de fato, é a HABILIDADE, qualidade esta que se ADQUIRE com o crescimento e a experiência. Não se nasce hábil, pelo contrário, o ser humano nasce quase um vegetal, com habilidade só pra comer e fazer cocô – bom, alguns continuam assim ao longo da vida!
 
Em 30 anos acompanhando as competições vi casos que mais comprovam a teoria científica do que a “maktubista”. Todos os grandes pilotos de F1 ou motovelocidade têm algo em comum: começaram a praticar na infância. Nomes sempre lembrados como “talentosos” como Ayrton Senna, Michael Schumacher, Valentino Rossi têm em comum o início precoce antes mesmo de terminar o primeiro setênio (os primeiros sete anos de vida). Quando chegaram à adolescência eles tinham passado METADE da vida praticando a pilotagem. Não há como não adquirir uma eficiente HABILIDADE.
 
Obviamente que o caráter e a personalidade deles contribuíram para obter sucesso maior que os concorrentes com mesma carga de experiência. Esse caráter é formado por aquelas qualidades humanas que descrevi lá nos primeiros capítulos desta novela “Vida Corrida” (http://motite.blogs.sapo.pt/9521.html). Quando um piloto consegue reunir as qualidades humanas favoráveis – incluindo a INTELIGÊNCIA EMOCIONAL – com a prática constante não tem como dar errado. Vou dar alguns exemplos:
 
Quando eu corria de kart havia um garoto de uns nove anos que começou a correr por influência do pai, amigo do Emerson Fittipaldi. O pai era um grande piloto de lancha off-shore com vários títulos, mas queria que o filho corresse de kart e depois de carro. O garoto se esforçava muito, mas todo mundo que conhecia competição sabia que o menino não era feliz. Depois de um ano de tentativa finalmente o pai desencanou e deixou o filho parar de correr.
 
Alguns anos mais tarde li uma notícia no jornal que me chamou atenção. Um jovem de apenas 17 anos era a revelação nos campeonatos de lancha off-shore. Era o mesmo garoto, que descobriu sua verdadeira paixão nos barcos e venceu TODAS as etapas do campeonato. A paixão traz felicidade e pilotar feliz é o primeiro indício de sucesso.
 
 
(Marcelo - à esq. - ao lado do excelente preparador Spiga Finardi)
 
Outro exemplo que gosto de citar é do meu ex-aluno e amigo Marcelo Mistrorigo. Com quase 30 anos de idade ele ganhou uma moto esportiva em uma rifa. Jamais tinha pilotado uma moto e se inscreveu no meu curso. Em apenas dois dias ele mostrou muita habilidade e continuou treinando em Interlagos e no Rio de Janeiro. Um ano depois se inscreveu no campeonato brasileiro de Super Sport e foi campeão!
 
Alguém poderia sugerir “ele tinha talento”. Não! Atribuir este sucesso ao talento é jogar fora todas as qualidades humanas dele. Quem o conheceu pessoalmente rapidamente via que se tratava de uma pessoa muito focada, concentrada e criteriosa. Ele pesquisou e escolheu a melhor 600 da época. Procurou o melhor preparador. Investiu muito dinheiro e trabalho para treinar técnica e fisicamente e o resultado foi a vitória. Depois disso parou de correr...
 
Outro exemplo clássico foi automobilismo dos anos 60. Os geniais pilotos Ronnie Peterson, sueco, e Niki Lauda, austríaco, dividiam a mesma equipe de Fórmula 3. Peterson era, em média, três segundos mais rápido que Lauda. Um observador desavisado poderia atribuir a diferença à falta de talento do austríaco. No final do campeonato Lauda já era tão rápido quanto Peterson e ganhou três títulos mundiais na F1. Peterson poderia ter vencido muitos títulos, mas morreu em decorrência de um acidente em Monza. A diferença nada tinha a ver com talento, mas apenas treino e concentração.
 
(Niki Lauda, acusado de ser lento...)
 
Quando eu encontro o jovem Eric Granado, que está liderando os campeonatos espanhóis, vejo o menino mais feliz do mundo. Ele pilota com uma alegria tão grande que é capaz de ter um acesso de riso antes da largada. Já começaram as teorias sobre o "talento" do Eric, mas conheço o piloto desde que ele era uma divisão celular. Filho do piloto Marcos Lama, Eric respira motovelocidade desde que nasceu, começou a pilotar com sete anos e aos 12 já um pequeno gênio da velocidade. Bsta ficar alguns segundo ao lado dele pra perceber que tem uma hiperatividade correndo nas veias, o que é uma ÓTIMA qualidade humana para pilotar. Sem falar na contagiosa felicidade.
 
 
Lembro de uma vez ter lido um comentário do Nelson Rodrigues no qual ele dizia que o jovem Pelé jogava sorrindo. Essa alegria é típica de quem faz o que ama. É essa felicidade de fazer BEM o que se ama que diferencia o piloto burocrático do gênio.
 
Posso até citar minha história como exemplo. Por mais que eu me esforçasse não era capaz de ser efetivamente rápido durante toda a corrida. Fui um piloto rápido em treinos e nas primeiras voltas, mas geralmente da metade da corrida em diante meu desempenho caía muito. Falta em mim uma das qualidades humanas essenciais para passar de bom para ótimo: a capacidade de concentração. Desde a infância eu sofro de déficit de atenção, que é ruim para ser piloto, mas é ótimo para ser jornalista/escritor porque nas minhas “viagens ao mundo da lua” desenvolvo a inspiração para escrever.
 
Muitos dos meus leitores dizem que tenho “talento” para escrever. Mentira! Até chegar à faculdade de jornalismo eu não conseguia escrever nem um telegrama. Só depois de conhecer os grandes teóricos da comunicação é que passei a me interessar por letras e literatura. Estudei que nem um nerd, fiz estágios sem remuneração, tive ótimos editores e escrevi muito. Hoje, depois de passar METADE da minha vida escrevendo e lendo todos os dias por 25 anos seria admirável se não tivesse aprendido.
 
Por isso tudo acho perigoso jogar a responsabilidade por fracassos e sucessos a um atributo tão vago como “talento”. Muitas vezes olho o mundo corporativo e percebo pessoas infelizes fazendo o que não gostam em nome de uma estabilidade financeira. Vejo o sofrimento de quem passa horas executando um trabalho enfadonho e sem criatividade só para garantir o “ganha-pão”.
 
Da mesma forma vejo profissionais extremamente criativos executando tarefas meramente burocráticas só para justificar uma ascensão profissional. Eu mesmo passei uma experiência terrível como chefe de redação de uma revista nova e descobri que não gosto – nem quero – fazer a parte burocrática do trabalho: negociar com fornecedores, contratar pessoal, elaborar planilhas de pagamento, agendar fotógrafos, acompanhar produção, comprar matérias de publicações internacionais, fazer dezenas de diagramas, editar textos de outros jornalistas, aaaaaarrrrrrrrrghhhhh! Prefiro abrir mão de um salário confortável e voltar para a parte criativa da comunicação que é ESCREVER!
 
Não se trata de ter, ou não, o chamado talento, mas de HABILIDADES e qualidades humanas. O bom profissional de Recursos Humanos é aquele capaz de detectar em uma pessoa se ela será capaz, ou não, de desenvolver suas habilidades na função. No entanto, parece que esses profissionais nunca são consultados ANTES da contratação. Minha última entrevista de RH (e espero que seja a última da minha vida) foi uma piada, porque cheguei indicado pelo diretor de redação. A maior preocupação do RH daquela empresa era filtrar – sem trocadilhos – quem era fumante! Acredite, mas perdi uma excelente estagiária só por ser fumante!
 
Viu como sofro de déficit de atenção??? O que eu estava escrevendo mesmo?
publicado por motite às 16:28
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