Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Cacofonia poética

 

(ô Herói, paga logo essa dívida!)

 

Herói cobrado

 
Assim que iniciei o processo de alfabetização, lá no Grupo Escolar Diva Maria B. Toledo, hoje chamado de escola de música Tom Jobim, no bairro do Brooklin, em São Paulo (SP), me fizeram decorar o Hino Nacional. Bom, era 1966, fase meio nacionalista do cenário político e os alunos de escolas públicas tinham de cantar o Hino antes das aulas.
 
Mas aos 6 anos minha classe toda ainda não sabia ler direito. E foi assim que me deparei com um grande mistério: “qual e de quais proporções teria sido a dívida de um herói para com a nação, a ponto de ser mencionada no Hino Nacional?
 
Não entendeu? Então veja essa parte do hino: “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/De um povo herói cobrado retumbante”.
 
Caramba! Um povo inteiro cobrando o herói de forma retumbante!!! Na minha cabeça infantil essa dívida deveria ser tão grande e retumbante que esse herói nunca mais teria paz, com o povo todo correndo atrás dele e ainda escreveram no hino! Putz, que desgraça. E como um cara com o título de “herói” pode dever tanto a uma nação inteira?
 
Foi só depois de alguns meses, quando já sabia colar as letrinhas de forma a saber que b+o+l+a = bola é que finalmente LI o hino e um grande mistério se revelou: era apenas o heróico brado retumbante!
 
No entanto, só para amenizar minha angústia infantil de ter passado tanto desespero ao pensar no tamanho dessa dívida do herói, toda vez que canto o hino nacional faço questão de gritar “Herói cobrado retumbante”. E ainda emendo em pensamento: “Paga logo essa dívida, herói féladumaégua”!
 
Mais tarde, quando já era mais crescidinho, veio o Roberto Carlos mexer com minha consciência. Ele compôs a música “Nos lençóis macios, o amante Cidão”. Pow, sacanagem! Quem é essa sirigaita que espera o marido sair pra trabalhar e recebe o Cidão em seus lençóis macios. E o Roberto Carlos ainda faz uma música pra eles! O mundo estava perdido pra mim. Eu até desconfiava de um vizinho chamado Alcides e que poderia muito bem ser o tal Cidão. Ah, mas eu pegaria o desgraçado no pulo!
 
Para purificar o mundo e as letras do Rei, descobri que a verdadeira letra dizia “nos lençóis macios, amantes se dão”. Ufa, o Cidão estava livre finalmente.
 
(Michael Caine, his cocaine or your cocaine...)
 
Até em inglês meu espírito puro levou sobressaltos. A primeira vez que ouvi o nome do ator inglês Michael Caine quase morri do coração.
 
- Como assim? O cara se chama My Cocaine??? Não pode ser, é muita cara de pau o cara se chamar “Minha Cocaína”!
 
Fiquei imaginando o porteiro do British Royal Theatre explicando aos espectadores:
 
- Yes, my lord, o ator se chama Michael Caine.
 
- My Cocaine?
 
- No, sir, Michael Caine!
 
- Your cocaine? His cocaine??? Afinal, de quem é essa cocaine???
 
Pior, já pensou alguém gritando pela coxia do teatro:
 
- Where is Michael Caine?
 
E os malucos, tudo doidão, respondendo:
 
- Ae, brother, quando achar your cocaine manda um tiro pra cá!
 
O verdadeiro nome do consagrado ator é Maurice Joseph Micklewhite. Esse sobrenome, numa tradução bem tosca seria Mickle Branco, o que dá o trocadilho com Michael Caine, já que muita gente conhece a cocaína como “white”. O bem humorado Maurice decidiu escandalizar o mundo ao se batizar com um nome que soa My Cocaine, ou “Minha Cocaína”. Muito engraçado. Só faltava ser boliviano!

 

 

publicado por motite às 16:16
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