Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Do lar

Esse é o metro quadrado mais rentável da minha vida!

Home Office

Como é trabalhar em casa.

Já faz muitos anos que tomei a decisão de ser free-lancer e trabalhar em casa. Ou seja, virei aquilo que falavam da minha mãe: do lar! Ser free-lancer é uma vida para quem tem nervos de aço, porque é cheia de altos e baixos, com alguns momentos de mais baixos do que altos. Mas tem suas vantagens, como não ter chefe, nem horário, muito menos aquelas musiquinhas irritantes de sala de espera de dentista e nem um café sofrível.
Também defendo o fim dos escritórios que seguem o mesmo formato há mais de um século. Hoje, com a tecnologia de informação que dispomos chega a ser ridículo ver um jornalista sair de casa, pegar trânsito, perder tempo nas ruas, chegar a uma sala, ligar o micro, acessar a internet e fazer a mesma coisa que poderia fazer no conforto da sua casa.
Vários profissionais já adotaram o home-office, nome afrescalhado para o velho “trabalho em casa”. Só na minha rua, em um bairro da zona sul de SP, são vários vizinhos engenheiros, arquitetos, artistas plásticos, web-designers, jornalistas, tradutores etc etc... todo tipo de profissional liberal. São todas residências normais, pois pela lei de zoneamento esse bairro é estritamente residencial.
Convivendo com esses vizinhos descobrimos vários hábitos e necessidades comuns, como o uso de internet de banda larga, instalação de um porteiro eletrônico (quando não conta com empregada doméstica) e uma tremenda mudança no comportamento, sobretudo para quem sofre de déficit de atenção e começa a fazer alguma coisa sem nunca conseguir terminar... oohhh!
Por exemplo, esse texto começou a ser redigido faz uma semana, mas nesse período parei várias vezes para organizar o curso de pilotagem do dia 9 de maio, regar as plantas, levar a cachorra pra passear, atender novos alunos, visitar o Orkut, trocar mensagens pelo MSN ou pelo skype, e uma infinidade de distrações eletrônicas da Internet.
Como qualquer opção na vida, trabalhar em casa tem vantagens e desvantagens. A principal vantagem é não precisar se deslocar. Nas grandes cidades isso representa uma imensa economia de grana, tempo e saúde. Imagine o período que passei naquela revista de mulher pelada que ficava lá do outro lado da cidade. Eu saía da zona Sul para chegar na zona Norte e trabalhar em um computador, da mesma forma que faria na minha casa.
Outra vantagem é ficar livre dos ranços corporativos como a natural hegemonia chefe-e-os-outros, secretárias despreparadas, estagiários espertos (no mau sentido), fofocas, almoços insossos, horários rígidos e inexplicáveis etc. 
No campo da desvantagem tem a natural dificuldade de concentração, a tendência a se tornar cada vez mais individualista (devolve minha tesoura, porra!), menos sociável, falta de uma secretária, virar síndico da sua própria casa, fazer horários malucos, se render à tentação de deitar na rede para um “cochilinho rápido” e outras.
Por isso decidi escrever uma cartilha para quem quiser transformar sua casa em um eficiente home-office sem ficar duro nem virar um solene vagabundo de carteirinha!
1) Programe-se! O fato de não ter mais chefe não significa que ficou livre de prazos e eficiência. A melhor forma de evitar passar dias de pijama e pantufas é criar uma rotina de trabalho como se fosse um escritório, mas sem a rigidez nazista de um chefe carrasco. Por exemplo: estabeleça uma um horário para acordar, tomar café da manhã e iniciar as atividades profissionais. Vista-se casualmente, mas por favor, não atenda a porta de bermuda, barrigão de fora e chinelo velho. Também mantenha a aparência saudável e asseada, como fazer a barba e cortar as unhas! A falta de chefe não significa falta de regras, se bobear você acaba passando a maior parte da manhã lendo jornal, brincando com os filhos ou com as jovens e saudáveis filhas do seu vizinho...
2) Faça um horário e procure respeitá-lo, com hora certa para almoçar, intervalos para lanches, café e principalmente para ENCERRAR a sua jornada. Se vacilar estará trabalhando 18 horas por dia sem perceber. É importante determinar o começo e o fim da jornada. Eu encerro minhas atividades, no máximo, às 19:00 horas, porém começo às 10:00. O que dá uma jornada saudável e razoável, sem exageros, nem margem para cochilos.
3) Faça intervalos regulares. Pô, vc está na sua casa, portanto aproveite para curtir seu jardim, seus filhos e seus animais de estimação. Mas é importante ensinar os filhos que o fato de estar em casa o dia todo não significa que você está disponível o tempo todo! Faça com que eles percebam o lado “empregado” de sua atividade e que você tem prazos e precisa produzir como se estivesse em uma empresa, porém com a vantagem de fazer pequenos intervalos para ler gibi, contar história, dividir uma brincadeira, enfim, curtir a maravilhosa sensação que é ver seus filhos crescerem ao seu lado.
4) Instale um porteiro eletrônico! Quem mora em casa sabe o inferno que representa uma campainha tocando a cada meia hora. E uma paralisação besta pode arruinar a continuidade de quem trabalha com criatividade, por exemplo. Bem no meio do raciocínio você tem de parar para abrir a porta a um fanático religioso vendendo uma cota de participação no Paraíso! E tenha um telefone sem fio com identificador de chamada!
5) Avise seus amigos que agora você trabalha em casa, mas que não significa total liberdade para tomar uma cerveja terça-feira às 3 da tarde! Claro que pode fazer uma concessão eventual e acompanhar um amigo a um evento, dar uma carona, ir à festa dos filhos etc. Lembre que criar rotina não pode representar uma rigidez militar. Eu mesmo paro tudo que estou fazendo às vezes só para ir ao mercado, lavar o carro, ir ao banco qualquer coisa que relaxe a cuca e funcione como uma válvula de alívio para a criatividade. Várias boas idéias surgiram nesses momentos.
6)  Muitos profissionais nestas condições têm a tendência a trocar o dia pela noite. Conheço pessoas que desempenham muito mais de madrugada e isso tem nada de errado. Mas aos olhos das pessoas comuns acordar tarde pode ser sinal de preguiça ou vida desregrada. Ninguém tem a obrigação de saber que você ficou trabalhando até as 3 da madrugada. Por isso evite atender o telefone com aquela voz de quem acabou de ser despertado! Use a secretária eletrônica e desligue a campainha do telefone. Se tiver uma reunião no horário da manhã procure dormir cedo pra não chegar com a cara amassada e a marca do travesseiro estampada na testa.
 
(Não fique de roupão o dia todo!)
7) Existe uma grande diferença entre trabalhar em casa quando se mora sozinho ou quando tem a companhia da família. Muitas vezes é difícil convencer sua cara-metade de que você não “fica” na internet o tempo todo, mas que você TRABALHA com auxílio da internet. E que também não pode parar o tempo todo para consertar uma torneira, desentupir a pia, amolar a faca, trocar a lâmpada, envernizar as janelas etc.
8)  Se seu trabalho depende da internet e hardwares funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana tenha opções alternativas para caso de queda de sistema. Depois de quase enlouquecer por ficar uma semana sem conexão adquiri um modem de banda larga 3G de reserva. Tem planos a partir de 49 reais e na primeira queda de conexão ele se paga! Também tenha um notebook sempre por perto, porque um vírus pode tirar sua máquina do ar e achar uma lan-house às 11 da noite pode ser relativamente perigoso...
9) Se seus filhos e cônjuge brigam pra usar seu computador está na hora de ter uma segunda máquina. Tente mostrar que seu computador é uma ferramenta de trabalho e não um brinquedo divertido (quer dizer, é sim, mas só quando eles estão longe...)
10) Sabe aquela época que você estava na escola, olhava pela janela e via aquele céu azul lindo e se maldizia por não poder aproveitar? Então, agora você pode se permitir pegar um dia lindo durante a semana, dar um tempo no trabalho e dar uma volta de bicicleta (ou de moto).
11) Uma das tendências de quem vive no home-office é se tornar mais workaholic do que seu ex-chefe. Evite comer e voltar diretamente ao trabalho. Quando você vivia escravizado tinha de sair para almoçar, muitas vezes perto do escritório, e voltava a pé. Essa pequena caminhada garantia a queima leve de caloria. Trabalhar em casa pode eliminar esse exercício e corre-se o risco de comer-trabalhar-comer-dormir. Crie o hábito de dar uma voltinha a pé após cada refeição, já a partir do café da manhã. Se for preciso entre em uma academia perto de casa, porque agora não tem mais a desculpa da falta de tempo!
12) Lembre que alguns benefícios do mundo corporativo não fazem mais parte da sua vida, portanto programe-se para tirar férias, faça uma pensão privada e um plano de saúde. Ah, você não tem mais 13º salário, mas seus fornecedores (guarda-noturno, empregada, contador etc) têm, portanto programe-se para um gasto extra em dezembro/janeiro.
13) Fique longe das tentações... evite abrir MSN, Orkut, Twiter, Facebook e outras coisinhas divertidas e tentadoras. Concentre-se, afinal um texto como esse de 9.000 caracteres poderia ser escrito em duas horas e não em uma semana...
14) Tenha uma linha telefônica apenas para trabalho, para não correr o risco de seu filho de seis anos atender seu principal cliente!
 Em suma, trabalhe, curta a vida, aproveite que agora você ouve a música que quer, faz um café muito melhor, chutou o mundo corporativo da sua vida e boa sorte na nova experiência! Se você também tem um home-office e quiser acrescentar alguma dica, manda bala e escreve aí embaixo!

 

publicado por motite às 16:36
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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Micos

 

(Eu sou um chimpanzé, mas olha o mico!)

Graças aos meus amigos do Orkut, surgiu um tema muito divertido: os micos motociclísticos. Aquelas situações vexatórias que nos pegam de surpresa e dão vontade de desaparecer no ar. Nos anos 90 eu tinha acesso às motos importadas para teste e vivia uma fase que chamo de falso glamour: num dia estava de Kawasaki Ninja 1100, no outro de Suzuki GSX 1100, no seguinte de BMW RS 1000, de Honda CBR 600F e assim por diante. Meus vizinhos deviam pensar que eu era milionário ou ladrão de motos!

O mais legal era pegar estas motos quando ainda nem sequer estavam à venda! Geralmente o importador ou a fábrica mandavam as motos para teste antes de anunciarem a venda e isso dava um status ainda mais sofisticado ao meu glamour efêmero. Depois de dois ou três dias de príncipe, devolvia a moto e voltava para minha XL 250R e à vida de sapo!

Lembro de vários micos dessa época. Um deles foi com uma Yamaha XTZ 750 Superténéré. Alta e pesada, eu tinha de tomar maior cuidado para não deixá-la cair. Enquanto estava rodando não tinha problema, mas quando eu parava era sempre um sufoco. Manobrar, então, nem pensar! Peguei a moto à noite e fui encontrar amigos que estavam numa badaladíssima pizzaria de Moema, São Paulo. A Pizzaria estava lotada, com muita gente na calçada. Parei a moto do outro lado na rua, tirei o capacete e coloquei no espelho retrovisor. Todo mundo ficou olhando aquela motona, com um nanico careca (e charmoso) em cima. Quando fui ligar do celular achei mais seguro apoiá-la no cavalete lateral e foi quando se deu o mico. Não vi que a calçada era toda irregular e assim que relaxei o peso a moto desapareceu sob meu corpo!

Aquele peso todo desceu a 9,8 m/s2 e bateu no chão com um detalhe arrepiante: o meu capacete caiu sob a moto e quando foi esmagado a viseira saiu voando, atravessou a rua e foi parar na frente da multidão. Eu consegui pular da moto e não passei o vexame de cair junto, mas a cena ridícula não terminaria aí. Quando fui tentar levantar a moto quem disse que conseguia! Ali tinha mais de 220 kg para ser removido e não mexia nem um centímetro, apesar de meus esforços! Ao longe comecei a ouvir algumas gracinhas até que o segurança correu em minha direção, com a viseira na mão, e me ajudou a sumir imediatamente dali, com o capacete sem viseira e o peso do vexame nas costas!

 

(Superténéré: mais de 200 kg desabando! foto: M.Bock) 

Basta ter platéia para que alguma coisa de errado não dê certo! Outra ocasião semelhante foi dentro da escola das minhas filhas. Eu já era uma espécie de pai-herói porque os meninos achavam o máximo saber que por ali tinha um pai que corria de moto, testava várias motos e estava sempre com uma diferente. Às vezes levava minhas filhas pra escola de Honda GL 1600 Gold Wing, Harleys, BMW etc. E foi com a BMW que veio o segundo mico.

Era dia de festa junina e a escola estava lotada. Quando o vigia me viu chegar de BMW K1100 não teve dúvida e mandou parar lá dentro. Afinal era uma escola alemã e BMW é patrimônio daquela nação. Já escolado (sem trocadilho) olhei pro piso muito irregular, lembrei da Superténéré e disse que pararia na rua mesmo. Mas o vigia insistiu demais e lá fui equilibrar aqueles mais de 230 kg como se fosse uma moto de Trial.

Algumas salsichas e quentões depois a festa foi esfriando e decidi cair (literalmente) fora. Subi na BMW, comecei a manobrar quando o chão sumiu sob meus pés, de novo! E lá foi a alemã desabar solene e vergonhosamente que nem o III Reich! Mas desta vez foi ainda pior, porque um pequeno muro que protegia o tanque de areia serviu para agravar ainda mais as conseqüências, como se alguma coisa ainda pudesse ficar pior. E ficou, porque numa rápida avaliada tinha arrancado a pedaleira do garupa com suporte e tudo, arranhado a carenagem, esmigalhado um pisca e, claro, amassado o tanque! Sem falar no apimentado ruivinho que gritou no meio do pátio:

- Oooolha, o pai da Nina caiu da mooooooootooooo!!!

Sardento, fofinho!

Pilotando motos desde os 12 anos dá pra ter uma idéia da extensa lista de micos. Mas algumas ficam mais tempo na memória e parece que resistem a qualquer vestígio de Alzheimer. Como certa noite dos anos 70, com a recém presenteada Yamaha AS3 branca e vinho, linda. Decidi levar minha vizinha para festa para comemorar a moto nova. Ela apareceu de vestido comprido e comentei:

- Olha, nós vamos de moto, não é melhor colocar uma calça???

Diante da insistência dela, fomos assim mesmo. Até esqueci quando chegamos bem na porta da festa, com um mundo de gente na calçada (de novo...). Todo acidente é uma sequência de pequenos incidentes. Por exemplo: bem naquele momento bateu uma rajada de vento a sudoeste, com cerca de 15 nós de velocidade, que nos pegou a bombordo. O suficiente para o vestido se deslocar 8,3 cm em direção aos raios da roda traseira que estava girando a uma velocidade aproximada de 38 km/h. Em menos de 0,5 segundo o vestido estava todo enrolado no cubo da roda traseira e a vizinha completamente histérica apenas de calcinha, sutiã e sandália!

E como nada é tão ruim que não possa ficar pior, cometi a imprudência de comentar:

- Não falei pra vestir uma calça!

Naquela época – infelizmente – a gente ainda não usava capacete... Por isso eu tenho uma orelha maior que a outra até hoje!

Mas nada supera o mico que meu amigo pagou, também diante de uma festa lotada. Lembra daquelas festas de garage? Esta ainda tinha uma laje para funcionar como “anexo superior”. Lotada! Meu amigo, apelidado carinhosamente de Pato Donald, pela semelhança física com o importante astro de Hollywood, parou sua Yamaha 200cc, dois cilindros, que tinha um toque muito chique (a moto): partida elétrica! Imagine, ligar uma moto no botãozinho em meados dos anos 70! Só isso já garantia um status superior ao Pato.

Como ele era desses flanelinhas juramentados, tinha uma mania irritante de sempre travar o guidão da moto, mesmo que fosse parar 30 segundos. Naquela época a trava ficava na coluna de direção e não no contato, como hoje em dia. Já percebeu, né?

Depois de desfilar no meio dos “brotos” ele foi até a moto e fez o showzinho de ligá-la encostando apenas um dedo na moto. Que inveja! Acelerou um pouco e a fumaça dois tempos temperou toda vizinhança. Subiu na moto, engatou a primeira, acelerou freneticamente, soltou a embreagem e... e... capotou!!! De frente e na frente de todo mundo.

Levantou todo arranhado, sem entender o que estava acontecendo quando apontei pra chave e falei bem baixinho:

- Cabaço, você esqueceu de destravar o guidão!

Ele não ouviu, porque a risada, vaia e palmas da platéia encobriram o som... Mas acho que vi um mico pulando em cima de algum telhado!

 

publicado por motite às 16:13
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Ritalina, meu amor

 

Vai uma Ritalina aí? Foto: Wickpedia

 

Dias desses tava numa festinha na casa do Minhoca, quando um amigo revelou que procurara uma especialista em cabeça. Meus amigos são tudo esquisito mesmo e sempre tem um deprimido, porque o que tenho de amigo chato vou te contar! Aliás, o que tenho de amigo dava pra encher um Maracanã em dia de decisão. Pãts, falando nisso o Vasco foi rebaixado, chora bacalhau! Tenho tanto amigo que decidi dar um basta! Não quero mais novos amigos e pronto! Estou feliz com os que já tenho!
 
Então, esse meu amigo comentou que tava tomando um remédio chamado Ritalina.
 
- Tem alguma coisa a ver com a Rita Lee? Perguntei.
 
- Não, Salame, é um remédio pra déficit de atenção.
 
- Então deveria se chamar Irritalina, porque déficit de atenção é irritante demais!
 
Nesse momento minha jovem, bela e querida esposa entrou na conversa, como toda mulher que se preza. As mulheres devem nascer com uma espécie de sensor que sempre ativa quando a conversa gira sobre temas como saúde, filhos, comida ou piriguetes. Especialmente piriguetes. A minha querida interrompeu a conversa:
 
- Meu amor, você acha que eu tenho déficit de atenção?
 
- Não, meu bem, você tem déficit de silêncio!
 
Ficou sem falar comigo a noite toda!
 
Mulheres são assim: elas querem falar sobre tudo, opinar sobre tudo, sempre com a palavra final que invariavelmente é contrária à nossa. Elas fazem pós-graduação na mesma escola que ensina a falar muito e sempre. Já imagino a aula dessa escola:
 
- Meninas, hoje vamos a aprender um pouco de Física Quântica só o suficiente para discordar do marido!
 
Bom, esse amigo comentou que depois de tomar Ritalina já consegue ficar mais de 30 segundos fazendo só uma coisa e mais de um minuto discutindo o mesmo assunto. Santo remédio!
 
A Rita Lee toma Ritalina?
 
Aliás, pelo nome, achei que fosse alguma coisa a ver com a roqueira gagá Rita Lee, principalmente porque ela é doida de pedra. E se fosse pra pirar o cabeçote, o melhor remédio seria qualquer um chamado Emywinehouselina, porque a gringa é mais louca ainda! Aos 25 anos a doida já está dando beliscão em azulejo e vive se internando. A nega é mais feia que bater na vó com a Bíblia, mas tem uma voz impressionante. Parece outra doidona, Billy Holiday. Aliás, dizem que a americana Madeleine Peyroux (pronuncia-se Peru) é a reencarnação da Billy Holiday.
 
Madeleine Peyroux é reencarnação da Billy Holiday? Foto: site oficial
 
Não sei quanto a você, leitor, mas eu acredito nesse lance de reencarnação. Recentemente um sociólogo contestou cientificamente essa teoria ao contabilizar quantas almas já teriam passado pela terra. Muita gente faz a regressão a vidas passadas, mas eu mesmo nunca quis fazer porque já tenho más notícias demais nesta encarnação.
 
Enfim, esse negócio de déficit de atenção funciona de forma estranha. Alguns psicoterapeutas dizem que é uma espécie de hiperatividade. O hiperativo é aquele sujeito que não para quieto. Que tem o bicho carpinteiro, como diziam minhas tias. Ou, mais cientificamente falando, sofrem de bichus cullus, popular fogo no rabo.
 
Conheço um hiperativo de carteirinha. O cara é jornalista, piloto de moto e meu parceiro no curso de pilotagem (mas não posso citar o nome). Quando trabalhamos juntos ele não conseguia ficar mais de cinco minutos sentado.
 
Essas pessoas só podem trabalhar em ambientes abertos, tipo piloto de teste, porque se deixarem o cara entre quatro paredes por mais de duas horas é capaz de surtar. Mas, ao contrário do primeiro amigo, o hiperativo consegue se concentrar. Já quem tem déficit de atenção não consegue fazer nada repetitivo. Como esse meu amigo também é piloto de motovelocidade, confessou que só conseguia se concentrar algumas voltas depois... Daí a razão de tomar Ritalina.
 
Pô, piloto com déficit de atenção é um problema porque já pensou se ele começa a pensar nos papagaios do banco, na ex-mulher cobrando pensão, no filho que não quer estudar tudo isso na frenagem do “S do Senna”? Falando nisso, nunca aceitei bem esse negócio de cortar Interlagos, só quem pilotou no circuito de 7.960 metros sabe o que era fazer as curvas 1 e 2 de mão embaixo, com a moto rebolando mais que minhoca em calçada quente. Sem falar na Ferradura, Subida do Lago, Sol, Sargento... uma pena.
 
A frenagem do “S do Senna” é difícil para moto. Com as 1000 esportivas a gente vem dando final, em sexta, a uns 300 e tra-la-lá e tem de reduzir pra primeira marcha. Quando eu corria de 125 Especial por várias vezes bati os miúdos no tanque nessa frenagem. A 125 pesava apenas 60 kg e chegava nesse ponto a uns 192 km/h. O freio é um absurdo e tínhamos de reduzir pra primeira sem deixar o motor baixar de 9.000 rpm!
 
Uma vez o salame do meu mecânico decidiu fazer um agrado e poliu meu tanque. Saí do box, fiz a volta de aquecimento e quando cheguei no “S do Senna” já vinha classificando. Meti a mão no freio e pimba! Bati com tanta força no tanque que precisei parar nos boxes para recolocar aquelas duas bolinhas de volta no lugar.
 
No curso de pilotagem SpeedMaster eu insisto que dono de moto esportiva não pode polir o tanque, porque precisa prender os joelhos com força no tanque nas frenagens. Isso porque o peso do piloto deve se concentrar sempre nos quadris e não nas mãos. Aliás, é isso que mais insisto no curso de pilotagem.
 
Ainda bem que eu não tenho esse tal de déficit de atenção. Sempre consigo me concentrar e quando sento aqui no meu PC para escrever fico o tempo todo concentrado. Só de vez em quando entro na caixa postal pra ver se tem alguma mensagem. Eventualmente responder e aproveitar para limpar mensagens velhas. Também mantenho sempre o MSN aberto porque alguém pode ter um recado urgente. Assim como também fico com o Skype constantemente aberto. É muito mais barato que telefone comum. Ligo direto para meus amigos ao redor do mundo pagando menos que uma ligação local. O problema é a cobrança em dólar, porque agora com a disparada do dólar ficou mais caro. Aliás, só mesmo alguém muito ingênuo pra acreditar que é normal o dólar a R$ 1,60. Ainda bem que aproveitei minha viagem aos EUA na hora certa, porque comprei um monte de equipamento novo de escalada com o dólar a R$ 1,60.
 
Ainda me dei bem porque vendi o equipamento velho pelo mesmo preço dos novos!!! Coisas do câmbio. Só não vendo equipamento muito usado porque trata-se de segurança e todo equipamento de segurança têxtil deve ser destruído depois de 5 anos de uso. E quem me conhece sabe que sou xiita com segurança.
 
Aliás, neste final de semana, dias 24 e 25, teremos mais um curso de pilotagem em Piracicaba (SP). Se quiser mais informações visite nosso site www.speedmaster.com.br
 
O que eu estava escrevendo mesmo? Ah, sim, sobre déficit de atenção. Então esse remédio Ritalina, será que é bom mesmo? Precisa de receita???

 

 

publicado por motite às 19:09
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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Acordo ortographico

 

(Falamos a mesma língua.)

 

Pronto, acordaram aqueles senhores e senhoras das Academias de Letras de Brasil Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe (acho que o nome original deveria ser Santo Mé do Príncipe, porque o soberano era chegado na marvada) e Timor Leste para reformar a língua Portuguesa!
 
Mas que tremenda falta do que fazer! Se a ideia partiu dos portugueses, não sei, mas é deles a honra pela estreia do idioma. Mas o que faço com estes rabisquinhos que aparecem debaixo das palavras ideia e estreia agora sem acento?
 
E como saber se quero comer uma linguiça de porco preguiçoso ou uma lingüiça de porco pregüiçoso? É melhor deixar a linguiça, esquecer o incosequente que inventou essas regras e pedir um cachorro qüente! Passei décadas aprendendo (e ensinando) a usar tremas e acentos para jogar tudo na vala-comum. Ih, vala-comum com ou sem hífen?
 
Minha amiga revisora comentou:
 
- Outro dia me perguntaram se determinada palavra ainda tinha hímem!!!
 
Respondi:
 
- Bom, se for uma palavra composta, como cabaço-de-puta, essa já perdeu o hímem faz tempo...
 
E agora? O que faremos com esse componente indispensável da língua portuguesa, o senhor hífen?
 
Imagine o que será do próximo passeio GLSBT na avenida Paulista sem hífen afetado!
 
- Querida, você está MA-RA-VI-LHO-SA!
 
- Aiiiii, bicha burra, agora é sem hífen!
 
(Você está ma-ra-vi-lho-sa, cheia de hífens!)
 
E o hífen social? Aquele que a patroa usa pra falar com a empregada:
 
- Cleuzodete, já falei mais de mil vezes que esses sapatos precisam ficar BRI-LHAN-DO!
 
- Tá, patroa, mas já vou avisando que acabou o hífen, precisa comprar mais!
 
Até os eletrodomésticos ficaram fora de moda. Seu velho microondas ficou ultrapassado porque ainda era sem hífen. Corre nas Casas Bahia comprar um novíssimo micro-ondas com hífen inclusive nas cores verde-limão com ou sem hífen!
 
Será a festa do pessoal do marquetching, em publicidades e releases cheios de hífens:
 
“Novos para-choques mais leves sem o velho acento, mantendo o hífen personalizado, que agrega valor ao estilo”.
 
Sugiro acabar com essa frescurada toda de reforma ortográfica e adotarmos logo de uma vez o mIgUxês, o vocabulário usado na internet, que facilita demais a vida. Beijo é bju. Então queijo poderia virar qju! Já que vamos tirar acentos que tal eliminar o til. Naum seria mais legau? Entaum vamos aproveitar e adotar a isonomia de pronúncias! Por que esse papo de legal com ele e Nicolau com u, se o som é o mesmo? Basta adotar o mIgUXês e trocar tudo por w!
 
- Nicolaw, como você é um cara legaw eu deixo você tomar meu Nescaw!
 
E para acabar também com a zona dos porquês, por que, por quê e porque, troca tudo por pq!
 
- Pq vc naum quer tc comigo?
 
- Pq tenho dez dedos nas maums e naum sei o que fazer com os outros oito!
 
A língua portuguesa já passou por reformas demais. Eu achava lindo ler palavras com ph como pharmacia, telephone, photographia etc.! Dá um ar aristocrata à (com crase?) língua portuguesa. Essas reformas nunca conseguirão unificar o português falado em quatro continentes diferentes. Nos países africanos quase nem se fala mais o português colonizado, mas os idiomas nativos pré-escravidão!
 
O mais irônico desse decreto que pôs em prática o acordo ortográfico da língua portuguesa é que foi assinado pelo presidente Lula, esse mesmo, que sobe no palanque para discursar a 288 milhões de pessoas que usam o português como idioma e manda a pérola:
 
- Nunca na história desse País nóis fizemo tanto pras camada mais pobre da população!
 
Tem mais coisa precisando de reforma neste País, além do português!
 
("Nunca nóis ajudamo tanto os pobre", Lula)

 

 

publicado por motite às 03:36
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Lisarb - O chato sou eu

(Pãts, como sou chato! Foto: Chatite)

 

Fiquei sabendo pelo guarda noturno que sou considerado o chato da rua. Pra mim isso é o maior elogio que poderia receber desses estranhos que moram vizinhos à minha casa, porque deles eu só poderia esperar isso mesmo. Afinal, só eu gosto de acordar cedo nos finais de semana para escalar, dar aula de pilotagem, viajar de moto, cuidar das minhas mudas etc. E para acordar cedo é saudável DORMIR cedo. Todo mundo tem direito de fazer festas em casa, quem não faz? Mas não precisa entrar pela madrugada com som, gritarias e risadas. Como tenho sono leve, nestes casos chego a chamar a polícia porque não gosto de discutir sobre direitos e deveres com gente bêbada.
 
Fazer barulho e incomodar a vizinhança a noite toda é legal. Respeitar a lei, ser sensato e criar bons vínculos pessoais é ser chato. Aliás, respeitar os outros é chato pra caramba! Legal é cada um cuidar do próprio nariz. Não é assim que os donos de Monza com película escura filosofam: “Deus criou a vida para que cada um cuide da sua”. Genial a frase! Um monumento à educação!
 
Também sou o chato que pede para os moradores recolherem o cocô dos cachorros. Até fiz uma campanha: “Tenha educação, recolha a merda do seu cão!” Bem poético! Fiz faixa, pendurei nas árvores e passei a ser o chato. Porque é legal deixar cocô espalhado pela rua e calçada, Principalmente para quem passeia com carrinho de bebê (agora sou avô), ou quem se locomove por meio de cadeira de rodas. ISSO é legal, chato é recolher a merda do cachorro.
 
Outra chatice minha é pedir que vizinhos aprendam a destinar o lixo de forma responsável. Imagine que uma vizinha deixou várias latas de tinta ainda cheias pra fora do portão, na ingênua esperança de que o coletor de lixo as levasse. Adivinha o que os vândalos de plantão fizeram com a tinta? Respeitar os horários e tipos de coleta, separar lixo reciclável é ser chato. Legal é deixar lixo orgânico misturado com inorgânico para que catadores de lixo façam a maior sujeira na porta de casa. Mais legal ainda é deixar lixo com resto de comida ficar exposto na rua por dois dias para que cachorros, gatos, baratas e ratos tenham do que se alimentar. Mais legal ainda é queimar o lixo no quintal, porque além da beleza da fumaça ganhando o céu, ainda tem o cheiro de plástico queimado que é uma delícia!
 
Podar as árvores também é uma chatice sem tamanho. É muito mais legal deixar as árvores crescerem naturalmente e deixar o jardim do vizinho sem uma réstia de sol. É chato demais pedir que respeitem o direito à insolação natural. Legal é ignorar que o sol nasce pra todos.
 
E fazer silêncio? Quer coisa mais chata? Rodar com uma moto com escape original é tão chato que deveria ser proibido por lei! É infinitamente mais legal usar escape esportivo, sem silenciador e passar pelas ruas de madrugada acelerando e soltando pipocos. Isso é tão legal e divertido que deveria fazer parte do currículo escolar desde o jardim da infância!
 
- Hoje a titia vai ensinar a fazer barulho!
 
Ah, bastam 15 minutos dentro de um buffet infantil para perceber que já fazemos isso. Os adultos que tem a responsabilidade de educar pensam que criança gosta de barulho. Desde o teatro infantil – mal feito – até as festas temáticas de buffets, é quase obrigatório ter muito barulho. Assim a criança se tornará um adulto legal, barulhento e não um mala sem alça silencioso.
 
Na frente da minha casa mora uma família legal. Os pais tocam a buzina para a empregada abrir a porta e a perua escolar também buzina duas vezes por dia: na hora de recolher e devolver os pentelhinhos. Adivinhem qual tipo de comportamento estas crianças desenvolverão? O chato silencioso ou o legal barulhento?
 
Nos anos 80 um amigo trilheiro foi morar na Alemanha, seduzido por um bom emprego e salário idem. Nem precisou economizar muito para comprar uma moto de trilha e sair feliz pelas estradinhas de terra da pequena cidade que morava. No auge de sua felicidade uma surpresa: Der Polizei!
 
O policial educadamente pediu que ele procurasse uma pista de motocross e não circulasse por aquelas trilhas porque estava incomodando a vizinhança. Meu amigo olhou para todas as direções e não viu nem uma casa sequer. Foi quando o policial apontou lá longe, uma fumacinha saindo de uma chaminé e explicou:
 
- Lá mora UM senhor apenas. E ele tem direito ao silêncio!
 
No último final de semana fui passar o domingo na bucólica vila de Monte Verde (MG), com suas ruazinhas estreitas e plantações de pinus. Perdi a conta da quantidade de motos 125 com escape “estralador” que passava soltando pipoco. Pense numa coisa legal! A vida deve ser muito chata sem poder ouvir esses pipocos ou ver um bebê de seis meses pular de susto com os “POW” do escapamento. Que tédio não poder deixar as pessoas ouvir apenas os sons da natureza. Legal é soltar pipoco ou parar o carro em uma esquina, abrir o capô do porta-malas e deixar que todos ouçam funk a 1.000 watts de potência!
 
Não sei o que vai ser da minha vida. Um cara chato como eu está destinado a ser solitário, tratar da úlcera e ainda por cima sem receber visitas no hospital. Quem vai querer visitar um chato?
 
Como diz um vizinho, tão chato quanto eu, “todo brasileiro deveria fazer estágio na Europa para aprender o significado da vida em sociedade”.
 
Mas o que estou escrevendo? Nós vivemos um Lisarb. Onde legal é ser chato. E chato é ser legal.

 

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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Contos descontados - vingança manauara

 

(Manaus, no coração da Amazônia, cheia de surpresas.)

 

Como o leitor sabe, as fábricas de motos instaladas no Brasil têm parque industrial instalado na Zona Franca de Manaus. Isso é resquício do regime militar, por meio da amaldiçoada Suframa, que pretendia “colonizar” a Amazônia propondo incentivos fiscais ad eternum às empresas.
 
Normalmente nenhum ser humano criado fora da Amazônia gostaria de trabalhar lá, afinal só samambaias e fungos apreciam o tempo quente e úmido. Em Manaus o clima é divido em dois períodos: um que chove todo dia e outro que chove o dia todo. Para secar uma calça jeans é preciso jogar em uma secadora sob risco de usar uma calça esverdeada decorada por liquens coloridos.
 
Como política de relacionamento, as montadoras de motos instaladas lá costumam convidar os jornalistas para visitarem as linhas de montagem ou testar algum produto pré-lançamento. Hoje em dia não é lá um passeio que estaria na lista de prioridade de viagem de férias, mas nos anos 80 era a única forma de adquirir produtos importados sem recorrer a contrabandistas nem atazanar a vida dos amigos que viajavam ao exterior.
 
- Oi, Alcides, soube que você vai pra Miami!
 
- Sim... porquê?
 
- Você pode trazer um vídeo-cassete de quatro cabeças estéreo e duas caixas de som de 70Watts? Ah, e aproveita para levar um berimbau, carne seca e uma goiabada cascão pra minha tia Miriã que mora em Boston!
 
Era a fase pré-Collor da abertura das importações. Por isso, quando pintava algum convite para ir a Manaus rolava até briga na redação. Era a chance de comprar batatas fritas Pringels, chocolates suíços, caviar russo e, claro, algum equipamento eletroeletrônico.
 
Minha primeira vez foi em 1988, quando me fartei de comidinhas gringas e trouxe um videocassete na mala. Já na segunda vez foi 1993, já no período pós-abertura comercial, o que transformou a zona franca em uma cidade fantasma. Não havia mais a cobiça pelos eletrônicos inacessíveis, mesmo assim compensava comprar até produtos feitos em Manaus por causa da isenção fiscal.
 
Assim, desci do avião sob o choque do calor e umidade típicos, disposto a adquirir apenas dois aparelhos: um telefone celular (oh!) e outro videocassete, dessa vez de quatro cabeças, estéreo, porque era mais moderno! Desde a primeira vez que ouvi falar em telefone portátil achei que era um sonho distante e impossível. Até que vi um ao vivo e achei que finalmente tínhamos entrado século XX. Imagine, telefonar na rua, no shopping-center, na estrada, no carro (bons tempos...)!
 
Visitei Manaus em dois momentos bem distintos da economia, o primeiro em 1988, quando a inflação era tão absurda que usávamos moedas virtuais sob siglas como ORTN, UFs etc. Na segunda visita a economia estava mais estável. O problema é que fiquei traumatizado pela primeira visita porque as lojas não aceitavam cartão de crédito, muito menos cheques, porque UM dia de inflação já corroia parte do lucro, imagine 30 dias!!!
 
Por conta desse trauma, na segunda visita levei um maço de dinheiro. Vivo. Vivinho da silva. Tão vivo que facilmente saía correndo das minhas mãos e ganhava a liberdade. Sobretudo em bobagens que nunca usei na vida, como abridor de lata a pilha... coisas de Zona Franca!
 
Como nossa programação foi muito apertada, sobraria apenas o sábado para ir às compras. E as lojas fechavam ao meio-dia. Peguei um táxi acompanhado de Josias Silveira (Duas Rodas) e Fernando Calmon (na época, Auto Esporte), dois dos maiores especialistas em tudo que já conheci na vida. No caminho pra ZFM fiz uma pergunta da qual me arrependi amargamente:
 
- Qual aparelho de celular vocês acham que devo comprar?
 
Durante os 25 minutos de viagem tive uma aula de telefonia celular, comparativo entre aparelhos, companhias prestadoras de serviço bla-bla-bla... até o motorista se meteu na conversa. Foi assim que me decidi pelo imbatível, moderno e super portátil Motorola PT 550. Com duas baterias de reserva. O aparelho era grande e desengonçado, mesmo assim muita gente metia aquela geringonça na cintura como se fosse um Colt 44 do caubói mais perigoso do Oeste. Pelo menos em termos de peso era bem próximo ao do Colt de verdade!
 
Aquela trapizonga custou-me algo equivalente a 500 dólares, que paguei em dinheiro. Hoje em dia nem um iPhone é tão caro! Resolvida essa parte corri atrás do videocassete. Faltava pouco para meio-dia e comecei a me desesperar porque não achava AQUELE modelo. E tinha de ser estéreo para representar um upgrade em relação ao anterior. Até que fui abordado por um sujeito, dentro de uma loja, com a garantia de conseguir o aparelho em outra loja ali pertinho.
 
Na minha afobação de conseguir o aparelho antes de meio-dia não notei no sujeito. Aquilo era mais suspeito do que freira de biquíni. Quando entramos num beco percebi que tinha caído na arapuca. Virei pra trás e tinha não mais um, mas sim dois sujeitos, um deles com um daqueles facões de matuto na mão. Nem precisou dizer palavra, adiantei:
 
- Vocês aqui na zona franca têm uma metodologia estranha de vendas...
 
O mais baixo, com cara de boto cor de rosa, abriu a carteira e quase levou um choque: tinha uns 500 reais, grana equivalente a 1000 dólares em hoje. O mais alto e gordo, com cara de beluga cor de rosa, apontou pro meu tênis novinho e mandou tirar. E eu:
 
- Nem a pau! Está fazendo 40ºC e o asfalto está fervendo, pega a grana e compra um!
 
O baixinho tirou a grana e jogou a carteira longe. Quando fui buscar os caras desaparecerem.
 
Lá estava eu, literalmente em um beco sem saída, sem grana e sem moral! Levaram só o dinheiro. Deixaram o celular, a máquina fotográfica e, felizmente, meus tênis, porque tive de andar a pé sob o sol tórrido manauara até a delegacia. Foi nesse calvário que comecei a bolar minha vingança.
 
Na delegacia estava apenas um plantonista e um escrivão. Suavam mais que tampa de marmita, mesmo com o preguiçoso ventilador se esforçando para espalhar mais o calor. O escrivão começou a tomar o depoimento e quando ouviu a descrição dos botos matou a charada:
 
- Ah, conheço esses dois, eles ficam dentro das lojas caçando os otá..., digo, vítimas!
 
- Legal – argumentei – então vamos pegar a viatura, sair em diligência e dar um flagrante nos meliantes! (adoro usar esses termos técnicos com policiais).
 
O escrivão usou uma série de desculpas esfarrapadas para não sair, alegou que não tinha contingente, nem viatura etc e tal. Diante do muxoxo oficial e da cara do delegado plantonista saquei que tinha caído na segunda arapuca. Se eles conheciam os bandidos era óbvio que bastava eu virar as costas para que a dupla fosse pegar a “comissão” deles. Foi aí que veio a vingança. Finalmente o delegado, entre goles em um copo de guaraná gelado, fez a pergunta que eu estava aguardando:
 
- Quanto dinheiro você tinha na carteira?
 
- Seis mil reais!
 
O delegado cuspiu metade do guaraná, o escrivão deu um pulo da cadeira e arregalou os olhos:
 
- Mas porque você estava com tanto dinheiro assim, homem?
 
- Porque na última vez que visitei Manaus ninguém aceitava cartão nem cheque!
 
Afoito, o escrivão abriu a carteira, pegou um trocado e me deu:
 
- Ó, aqui tem uma grana pro táxi até o centro, lá você pega um ônibus pro hotel! Tchau e obrigado por registrar a ocorrência!
 
Eles praticamente me expulsaram da delegacia a pontapé!
 
Já no ar condicionado do meu enorme quarto no hotel Tropical, fiquei deitado na cama king-size imaginando o tanto de cascudos que aqueles dois ladrões levaram para confessar onde estavam os outros 5.500 reais que pegaram do trouxa paulista! 

 

 

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Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Contos descontados - La vendetta

 

(Trento, tem uma mulher lá que não gosta de brasileiro! Foto: italianvisit.com)

 

Trento é uma cidade ao norte da Itália que ficou famosa por ter recebido o “Concílio de Trento”, uma espécie de padronização das missas católicas. Essa foi uma das perguntas que mais caiu em vestibulares, portanto, se você é um vestibulando, saiba que Trento só serviu como sede do 19º concílio. O resto você vê o Google.
 
Também foi lá que estive, nocomeço dos anos 90, em viagem com minhas filhas, apenas com a intenção de pernoitar, vindo da Áustria, para seguir à Firenze no dia seguinte. Como sempre durante essas viagens econômicas, saíamos para fazer compras em quitandas, supermercados, padarias e preparávamos nossa ceia na cozinha dos albergues. Isso representava uma imensa economia ao final de uma viagem de 30 dias!
 
Quando paramos em frente às lindas frutas e verduras em uma dessas quitandas fui logo separando a provisão. Assim que encostei no primeiro tomate a dona da quitanda veio correndo, aos berros, mandando tirar a mão!
 
Mesmo criado por mãe, tias e avó italianas me assustei com a forma agressiva e violenta que a mulher avançou. Minha filha mais nova pôs-se a chorar imediatamente. Em seguida a senhora se acalmou e explicou:
 
- Deixa que eu mesmo pego, não precisa colocar suas mãos nas minhas verduras!
 
Pelo lado da higiene, a escandalosa senhora estava certíssima. Aliás, saiba que na Europa é quase um pecado venial ficar escolhendo frutas e verduras, tarefa que deve ser creditada apenas e tão somente ao funcionário da quitanda. Muito diferente do Brasil, onde a gente mete a mão em tudo, aperta, cheira, lambe, corta um pedaço, experimenta, regateia o preço e só então coloca na sacola e vai embora. Os europeus tratam UM tomate como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, talvez explique o nome, em italiano, ser pomodoro, ou “pomo de ouro”.
 
Mas a forma como a velha avançou que nem um pitbull magoado não só me chocou, mas fez brotar uma raiva, com uma certa dose de sede de vingança. Só não sabia como. Até que ela notou que falávamos português...
 
Como todo italiano que identifica um brasileiro, ela veio com o mesmo papo “tenho uma filha (sobrinha, neto, tio, irmão, qualquer parente) que mora no Brasil!”. Dá vontade de responder:
 
- Grande coisa, por isso o Brasil é daquele jeito!
 
Enquanto ela colocava tomates, queijo e uns fungos secos no pacote continuou o assunto:
 
- Minha filha mora em São Paulo!
 
Pensei: “sim, cara mia, de cada cinco paulistanos três são filhos de imigrantes italianos”. Mas continuei calado, ruminando a raiva. Só tive força pra responder:
 
- É, eu também moro em São Paulo!
 
Pronto, ela desandou a revelar toda a árvore genealógica, desde Júlio César. Até que me entregou, de bandeja, a vingança prontinha ao falar que a filha trabalhava na Olivetti, morava nos “giardini” e se chamava Paola Franchinni (ou qualquer coisa parecida). O nome nem lembro mais, mas era o combustível que precisava para vendetta. Olhei bem pra cara dela, imaginei uma mulher com 25 a menos, cor de olho, estatura, cabelo e dei corda:
 
- Ah, sim, conheço! Eu conheço todo mundo que trabalha na Olivetti. Sou jornalista e estou sempre entrevistando os executivos! Ela não é casada com um brasileiro, o...
 
- Carlo! O nome dele é Carlo, puxa vida! Que coincidência, que mondo pequeno... blá, blá, blá...
 
- Sim, então, mas eu não tenho boas notícias! Ela perdeu o emprego faz dois anos, se separou do marido e hoje trabalha apenas como... bem, como posso explicar, ela é... bem, a senhora sabe... que trabalha na noite...
 
E a mulher abrindo a boca, tentando me interromper:
 
- Non é possível! Ela está bem de vida, formada, bem casada, tem um belo apartamento, deve ser outra pessoa!
 
- Não, não. Paola Franchinni, hoje é mais conhecida como Paloma, sim tem um belo apartamento e ganha muito bem, porque ela é uma... (cobri os ouvidos da minha filha pequena e olhei para os dois lados antes de sussurrar) putana!
 
Quando virei as costas para ir embora anda consegui ouvir os gritos vindo do fundo da quitanda:
 
- Desgraçado, mentiroso, brasiliano de m****!!!

 

 

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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Contos descontados

 

(RD 350: cheiro característico de óleo dois tempos, um perfume... Foto:Mário Bock)

 

Revirando minha velha coleção de revistas encontrei uma crônica perdida, publicada em outubro de 1985. Mantive as marcas e modelo de motos para você perceber como era o mercado naquela época. E uma curiosidade: eu brinquei com o fato de muitos filmes aplicarem sons errados nas motos. Era um tal de BSA com som de Yamaha! E pasme, no ano passado, em 2007, 22 anos depois de esta crônica ser publicada, a Yamaha do Brasil encomendou um filme publicitário para o lançamento da XT 250 Lander. E não é que a agência altamente especializada meteu um som de motor dois tempos!!! Em suma, há 22 anos venho tentando ensinar alguma coisa a essa gente, mas parece que ainda não aprenderam... Boa leitura!

 

Fim, fom, fum, sinto cheiro de moto...

 

Boa audição e um olfato apurado. E só isso que alguns motociclistas precisam para reconhecer uma moto que está fora do alcance da visão. E chegam até a surpreender os menos experientes, apontando o modelo, o motor, o ano de fabricação, a cilindrada...
 
No exato momento em que o professor chamava a atenção dos alunos para conse­guir um pouco de silêncio, um barulho vindo de fora abafou a sua bronca. Sem conter a fúria, o professor reclama:
 
- Droga, já não basta o barulho que vocês fazem aqui dentro, ainda têm que ficar passando estas motonetas barulhen­tas pela rua!
 
Sem pestanejar, um vivo garoto ruivo e sar­dento interrompeu:
 
- Não é motoneta, professor, é uma Yamaha RD 350LC.
 
Não é fácil distinguir uma moto só pelo ronco do escapamento, mas o fanatis­mo de uns, aliado às poucas marcas de moto existentes no mercado brasileiro, faz com que alguns motociclistas ou simples admiradores dos veículos de duas rodas percebam a presença de um certo modelo só pelo barulho ou até mesmo pelo cheiro.
 
Ninguém mais admite, por exemplo, que o galã da novela pare sua possante, Honda CB450 na portada casa da mocinha e, ao acelerar, produza um ronco inconfun­dível de Yamaha RD-Z 125. Atualmente, os técnicos de som estão evitando esta gafe, utilizando o som gravado diretamente da moto. Portanto, aquelas Agrale que apare­cem na televisão em algumas novelas não foram dubladas por Honda XL 250 R. O som que se ouve é a voz autêntica da atriz .
 
Dizem que os animais domésticos re­conhecem a voz do dono. No caso das motocicletas são raríssimos os donos que não reconhecem a voz de sua cria. Os mais íntimos com o engenho chegam até a comentar:
 
- Pobrezinha, acho que exigi demais dela no trânsito, ela está parecendo um pouco rouca.
 
As namoradas, então, jamais confun­dem o som da moto de seu amado. E nem podem. Imaginem o que aconteceria
se uma garota saísse correndo ao portão, acreditando encontrar o namorado e sua Honda ML 125 e desse de cara com o carteiro de moto, entregando um telegra­ma ao vizinho. No mínimo, o namorado iria matriculá-la num curso de mecânica para, finalmente, perceber a diferença entre uma moto novinha, bem cuidada, com 3 mil Km, e uma moto de frota com 120 mil Km, batendo válvula, com folga na biela e um furo no escapamento.
 
Sinto cheiro de dois tempos
Uma das diferenças mais sensíveis en­tre o motor dois e quatro tempos é cheiro dos gases expelidos. Enquanto no motor quatro tempos a fumaça é quase inodora, exceto quando os anéis estão gastos e o óleo do cárter é queimado na câmara de combustão, no motor dois tempos o óleo misturado com a gasolina produz um odor característico. Ou melhor, quase sempre característico.
 
Um motociclista colegial, com sua Mo­byllete, certa vez ficou inconformado de não poder sair com sua moto por falta de grana para comprar uma lata de 1/4 de litro de óleo dois tempos. Sem esconder a frus­tração, entrou em casa determinado a encontrar uma solução. A resposta estava bem ali, na cozinha, em forma de óleo de soja. Não teve dúvida, pegou a lata e des­pejou um copo dentro do tanque da moto, completando com a gasolina devidamente surrupiada do carro do pai, balançando bastante o ciclomotor para melhorar a mis­tura. Ao se encontrar com a turma, não foi fácil explicar de onde vinha aquele estra­nho cheiro de peixe frito.
 
Mais tarde, o mesmo motociclista tro­cou o ciclomotor por uma Yamaha 125cc, toda equipada no melhor estilo esportivo. Guidão baixo, rodas de magnésio e um cheiro muito particular de óleo dois tempos. Mas não era um óleo qualquer. Era de uma marca que, quando queimado com a gasolina, exalava um ver­dadeiro perfume de máquina de competi­ção, fazendo os pêlos arrepiarem e o sangue ferver só de sentir o aroma do óleo Castrol M-50, especial de competição, que apesar de mais caro valia só pela sensação de superioridade que dava ao dono da moto em relação aos outros reles mortais.
 
(Honda CB 400Four: som inconfundível de motor quatro cilindros)
 
Quando o mesmo motociclista cres­ceu um pouco, a sua identidade motoci­clística passou a ser o ronco de sua Honda CB 400Four, com escapamento 4 em 1 e saída livre. À noite, quando voltava da fa­culdade, toda a vizinhança ficava sabendo, inclusive a namorada, que às vezes fazia perguntas embaraçosas sobre certa aula que terminou às 3 da madrugada.
 
Aliás, explicações são constantes para quem tem uma moto de ruído próprio. Principalmente quando alguns motociclis­tas, como o nosso colega, que gostam de esportividade, adotam a descarga livre e despejam alguns decibéis a mais do que permite a lei. No Detran de São Paulo, um motociclista tentava disfarçar o ronco de sua moto com uma lata de cerveja enfiada no escapamento, para abafar o som. Mas ao ligar a moto, a lata foi lançada pela pressão do escape e o projétil quase atin­giu a canela do oficial que inspecionava as motos. O resultado foi a multa e devida apreensão do veículo, além da repreensão ao piloto.
 
Para meio entendedor
Quem conhece moto a fundo não só é capaz de identificar o modelo pelo som, mas como também detectar possíveis de­feitos só de ouvir o ronco de um motor, mesmo à distância. Esta propriedade audi­tiva pode ajudar muito na hora de comprar uma moto de segunda mão. Por mais que o vendedor afirme que o tic-tic do motor é normal, o experiente motociclista de ouvi­do apurado sabe que o tensor da corrente do comando de válvula já não permite mais regulagens.
 
Existem outras ocasiões nas quais o ruí­do da moto revela segredos, como a personalidade do piloto. O motoci­clista zeloso não permite que sua moto tenha qualquer peça provocando som ex­cessivo. Um pequeno barulho no suporte da placa já é suficiente para fazê-lo perder horas até detectar e eliminar o ruído.
 
Da mesma forma que os irrequietos motociclistas preferem a quantidade de decibéis proporcionado pelo escapamento ao real desempenho e durabilidade do motor. Quem reconhece as motos pelo som sabe perfeitamente o quanto é desaconselhável uma turminha de adolescentes com seus ciclomotores, todos sem silenciador no escapamento, passando em frente de casa justamente na hora em que se tenta conversar com uma tia-avó por telefone.
 
Um ouvido bem treinado e um nariz apurado são capazes de distinguir as mar­cas de moto, o desenho do escapamento, a marca de óleo, etc. E todo mundo que curte moto sabe que, por mais distraído que esteja, um barulho ou cheiro de moto nunca passam despercebidos.

 

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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Partida!!! E a moto não pega

 

(Um motociclista e sua NSU 500... será que pega fácil? foto: Mário Bock)

 

Mais uma pérola encontrada nos meus archivus. Este artigo tem muito a dizer sobre o motociclismo dos anos 80. É de 1984 e eu era um repórter colaborador da revista Duas Rodas.
 
1)      Tínhamos matérias mais longas que eram uma forma divertida e agradável de ensinar um pouco de mecânica aos novos motociclistas.
2)      Eu era escalado para fazer estes artigos porque meu estilo sempre foi mais livre, leve e solto, com um caráter mais cronista do que repórter. Aliás, eu ODIAVA entrevistar pessoas estranhas, por isso todas as entrevistas que você vai ler foram feitas só com meus amigos e pelo telefone! Ou nem isso, porque eu guardava as histórias que me contavam e usava nas crônicas.
3)      A edição de texto era horrível, não tinha intertítulos – que coloquei agora – e misturávamos aspas com travessões, fazendo uma salada mista.
4)      Naquela época a maioria das motos ainda usava pedal de partida e partida elétrica era um luxo.
5)      Repare que tínhamos também muitas motos com motor dois tempos e em todo artigo ele é sempre lembrado.
6)      E eram tempos difíceis de limpar, trocar e ter sempre uma vela de reserva... e nem citei o platinado, sabe o que é isso???
7) Nas corridas daquela época as motos alinhavam com motor desligado e tinham de pegar no tranco!
 
Boa leitura!
 
Partida!!!*
 
A dura operação de fazer uma moto pegar... nos tempos sem partida elétrica...
 
Um motociclista à antiga: capacete de couro estilo “Barão Vermelho”, botas de cano longo, casaco de couro impecável, luvas de couro italianas e óculos com lente de cristal. Ele se aproxima de uma NSU 500, fabricada em 1904, conservadíssima. Totalmente original e brilhante. Dá alguns golpes de leve no pedal de partida do lado esquerdo até sentir o pistão em ponto morto superior. Volta, observa a moto, limpa uma manchinha, acende um cachimbo, aprecia o fu­mo curtido em cherry brand e volta ao pedal de partida. Ainda não está no ponto certo; ajeita mais um pouco, regula o avanço da distribuição e se afasta nova­mente. Finalmente aciona o descompres­sor, guarda o cachimbo, sobe na moto e joga o peso do seu corpo em cima do pedal. Um ronco tranqüilo e redondo sai escapamento, o motor funciona como no dia em que foi ligado pela primeira vez, não se ouve uma batida anormal. A moto está ligada.
 
A arte de ligar uma moto pode ser um ritual tão complexo como o descrito aci­ma, ou um hábito tão simples como tirar meleca do nariz. Vai depender de cada motoci­clista e, na maioria das vezes, dos capri­chos a que a moto submete o seu dono. Ou do nariz. A coisa mais comum de se ouvir quando alguém pede para dar uma volta em uma moto estranha é o conselho do proprietário: “Para ligar precisa de uma manha”. Manha. Esta é a palavra-chave quando se fala em ligar uma moto. Teoricamente toda moto sai da fábrica igual, mas existem algumas que só ligam como pé do dono!
 
Carlos Eduardo de Escobar Coach­man, dentista e profundo conhecedor de motos, principalmente as fora-de-estrada, e Ronny Hoennet, treieiro e recuperador de motos antigas, também concordam que além da técnica, a manha é fundamental.
 
Carlão começa contando a história de uma Yamaha XT 500, que apareceu aqui no Brasil durante a visita de dois canadenses.
 
- Para a moto funcionar era muito simples. Um visor no cabeçote do motor permite olhar o volante do comando de válvulas, que tem uma marca­ção. Esta marca deve coincidir com a do visor, e é sinal de que o pistão está no PMS, ponto motor superior. Aí o piloto liga o descompressor, não acelera e manda a botina no pedal de partida com toda a força. Com um pouco de sorte a moto pega. O canadense, dono da XT 500, levou um tombo fazendo trail e deu 23 pedala­das até a moto funcionar.
 
Pela esquerda
 Entre as veteranas que passam pelas mãos de Ronny a mais exigente para pegar é uma AJS 500cc: de 1951, “que tem um pedal duríssimo, e a manha para fazê-la funcionar é retardar o avanço até um ponto marcado na manopla. Depois é só puxar o descompressor e dar uma pedalada com toda a força”. O fotógrafo Ray Knowles, que já teve uma AJS quando ainda morava na Inglaterra, aconselha o motoci­clista a colocar o capacete antes de colo­car esse modelo em funcionamento. Certa vez, ao tentar dar a partida, ele sofreu um contragolpe tão violento que foi atirado por cima do guidão e caiu de cabeça.
 
É só ter as manhas que qualquer moto pega na primeira, repete o piloto de motocross Carlos Ourique, o Scateninha, que tem uma receita especial para ligar as motos de corrida quando o motor está frio:
 
- O carburador da cross tem três respiros. Então eu sopro dois deles e deixo o terceiro livre. O combustível é infiltrado no cilindro e a moto pega na primeira.
 
A grande dificuldade é quando o piloto cai no motocross e fica cansado. Se a moto não pega na primeira tentativa vai ficando cada vez pior, principalmente no caso das Honda e Kawasaki que têm o pedal de partida do lado esquerdo.
 
(As Honda XL e XLX 250 eram um sufoco pra ligar. Foto: Mário Bock)
 
Não importa a marca da motocicleta e nem o uso a que ela se destina. Quando as primeiras XL 250R nacionais começaram a ser vendidas, era comum ver um até então feliz proprietário literalmente suando a ca­misa para ligar a moto.
 
O artista plástico Flávio Teles de Menezes já tinha andado de moto em Minas Gerais onde nasceu, mas quando foi para São Paulo comprou uma XL 250R e, no dia de buscar a máquina na casa do antigo dono, teve uma experiência meio desanimadora.
 
- A moto não pegava nem por decre­to. Todo mundo tentou ligar, mas ela per­manecia morta, Pedalamos, empurramos, puxamos afogador, limpamos vela, fizemos o diabo e nada. Então apareceu alguém, deu uma pedalada e a moto pegou. “Isso acontece geralmente porque o motociclista não consultou o Manual Proprietário antes de querer ligar a moto”, explica João Carlos Vieira Barreiros, gerente de assistência técnica da Honda do Brasil. Ele recomenda que tanto caso das XL, como nas 125 dotadas de carburador Ecco, não se deve acionar continuamente o acelerador, porque a gasolina é injetada conforme a abertura do acelerador, mesmo com a moto desligada. O motor afoga e dificulta a partida.
 
Outro detalhe que deixa os motociclis­tas apreensivos na hora de ligar a XL é o contragolpe. O exemplo mais radical é citado pelo assistente de editoração, Tho­mas Frey, que empregou muita força para ligar a moto e ficou semanas com o pé engessado, com os ligamentos rompidos.
 
FOGO!!! 
Acidentes acontecem, até na hora de tentar fazer uma moto pegar. Depois de ter tentado colocar fogo em uma Graziela - que não pegava de jeito nenhum -, Alcides Casado Júnior comprou uma Velha Ya­maha 125cc, ano 73. O dono garantiu que a moto “pegava mais fácil do que catapora em jardim de infância”. Numa tarde, Alci­des resolveu tentar.
 
(A Yamaha 125 do Alcides pegou... FOGO!!! Foto: Tite)
 
Deu início ao ritual que todo motoci­clista segue, mesmo inconscientemente, antes de dar no pedal. Abriu a torneira de gasolina, puxou o afogador, pedalou. Na­da. Depois de várias tentativas, desceu uma ladeira e quando a moto atingiu um bom impulso, subiu em cima, engatou a terceira marcha e soltou a embreagem. A moto pipocou e pegou. Feliz, voltou para sua casa para pegar um casaco, quando sentiu um calor estranho. A moto estava pegando fogo.
 
O chefe de assistência técnica da Ya­maha do Brasil, Manoel Rodrigues Puerto­llano, recomenda a leitura do Manual do Proprietário e dá um conselho aos proprie­tários de motos com motor de dois tem­pos, que necessitam de menos força para ligar, porque a cada volta do virabrequim ocorre uma explosão. Deve-se então, pu­xar o afogador, não acelerar e acionar o kick starter (pedal de partida).
 
Caso o motociclista insista demais, o motor pode afogar e, como o óleo dois tempos é injetado com gasolina, fatalmen­te o motor vai ficar encharcado de óleo. A receita é retirar a vela, fechar a torneira de gasolina e pedalar com o acelerador aberto para retirar o excesso de óleo do cilindro. Depois de secar a vela, é só colocá-la no lugar e ligar a moto, ainda com a torneira fechada, já que a gasolina da cuba é suficiente para fazer o motor pegar.
 
Corre, corre!
Nas pistas, os problemas são seme­lhantes. O experiente piloto Denísio Casa­rini confessa que a largada é o momento de maior tensão para o piloto de velocida­de, justamente porque ele não sabe se a moto vai pegar ou não na primeira tentati­va. E explica que a situação é mais delica­da no caso das motocicletas com motores de dois tempos.
 
- Como o motor trabalha em regime de alto giro, a moto não tem torque nas baixas rotações, e ainda por cima o óleo é misturado na gasolina. Se o piloto não consegue um equilíbrio entre o acelerador e as primeiras explosões, a mistura pode encharcar a vela e aí será preciso empurrar a moto por alguns metros. Nas motos da categoria esporte, com mais de 750cc, de quatro tempos, não havia este problema, porque a máquina saía ligada.
 
As mulheres com pés mais delicados encontram dificuldades adicionais quando tentam ligar as motos. Depois de “levar o pedal na barriga das pernas várias vezes”, a estudante Ana Alice Sampaio, proprietá­ria de uma Yamaha TT 125, desenvolveu uma técnica especial para ligar a moto sem deixar marcas roxas na perna.
 
- Eu dou uma pedalada de leve antes. Depois pedalo com força e tiro o pé rapidi­nho. Quando a moto está fria, é só puxar o afogador que pega na primeira.
 
Há situações mais constrangedoras, algumas delas devido à falta de conheci­mentos mecânicos do motociclista. O exemplo clássico é o de um piloto que passou horas tentando ligar uma CB 400, saída há poucos dias da fábrica. Pedalava, puxava o afogador, verificava a vela e nada. A moto recusava a dar a partida. Nervoso, telefonou para a revenda, exigin­do até a troca da motocicleta. O gerente tentou acalmá-lo, oferecendo um mecâni­co para ir à sua casa verificar o que estava acontecendo com a moto.
 
Antes de examinar a motocicleta, o mecânico ainda teve que ouvir mais desa­bafos e manifestações iradas do proprietário. Afinal, foi autorizado a mexer na moto, para descobrir o “grave” defeito que impe­dia a ligação do motor. O corta-corrente no guidão estava desligado.
 
Quando a moto não pega e nem conta por que não funciona
Se a moto não pega de jeito nenhum é porque algo errado não está certo. Seguin­do este roteiro, é possível saber se o defeito é de fácil solução ou se deve recorrer a uma oficina.
 
Primeiro, verifique se há gasolina. Às vezes o motociclista completa o tanque e não posiciona a torneira no on, deixando a marca­ção na reserva. Assim, quando a gasolina acaba não há jeito. Se há gasolina suficiente, observe se ela está chegando ao carburador. Para isso retire a mangueira que leva ao carburador ou solte o parafuso da drenagem na cuba do carburador. Se não sair gasolina, a válvula da cuba pode estar emperrada. Experimente, en­tão, dar umas batidas leves com o cabo da chave de fenda no corpo do carburador. Se persistir o defeito, tire a tampa do tanque de gasolina, pois o respiro pode estar obstruído. Solte a mangueira da gasolina e repare se diminui o fluxo do combustível quando a tampa é colocada. Se a gasolina está saindo normal­mente até o carburador, então o defeito deve ser na parte elétrica.
 
Veja, então, se a vela produz faísca. Retire a vela e prenda no cachimbo próximo ao cilindro. Dê umas pedaladas. Se a vela não produzir faísca, experimente limpá-la e regulara folga. Se não der faísca, é sinal de que a vela precisa ser trocada ou há outro defeito na parte elétrica. Persistindo a falha, o defeito é mais grave e o melhor a fazer é procurar um mecâ­nico.
 
ATENÇÃO: Nas atuais motos com injeção eletrônica NÃO PODE EMPURRAR PARA PEGAR NOTRANCO, porque o sistema de alimentação não funciona sem eletricidade e pode provocar um baita problema ainda maior.
 
+          +          +
* Publicada originalmente em junho de 1984. Os nomes foram mantidos originais. Carlos Coachman (Carlão) e Thomas Frey já faleceram, precoce e infelizmente...

 

 

publicado por motite às 16:19
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Haja Arame

(Sem arame sou ninguém! Produção e foto: Mário Bock)

 

Mais uma pérola do baú! Achei esta crônica de fevereiro de 1986 que ficou de fora do O Mundo É Uma Roda por falta de espaço (ou esquecimento...). Nela eu cito alguns motociclistas que existiram mesmo, não foi inventado. O texto ainda é meio longo, sempre carregado de alguma lição de segurança porque naquela época as crônicas tinham a função de entreter, encher lingüiça (porque faltava moto pra teste) e servir como uma forma de ensinar alguma técnica de segurança de forma menos careta. Ah, nesta época os desmanches a que me refiro eram realmente um negócio oficial, que vendia motores com nota fiscal etc. Divirta-se e aguardem O Mundo É Uma Roda II.
 
Haja arame*
É fácil reconhecer um motociclista relaxado: basta olhar sua moto e as inúmeras soluções provisórias que, nela, serão definitivas.
 
Suas ferramentas são chave de fenda e martelo, além da “chave múltipla” (também conhecida co­mo alicate). Não gosta de levar a moto à oficina, preferindo fazer seus próprios consertos. Não liga para os acessórios de luxo, nem para os de segurança, seu capa­cete é aquele mesmo que ganhou numa rifa há mais de 10 anos e já foi utilizado como bola de futebol numa pelada de motociclistas em frente ao point de encon­tro. A moto? Bem, a moto... Houve época em que foi tratada com carinho e respeito mas agora, 73.497 quilômetros depois da compra, já não recebe muita atenção. Tu­do nela é provisório ("Quando tiver grana vou consertar") e fica definitivo. Os arames espalhados pela moto, se fossem alinha­dos, dariam para cercar um quintal e ainda sobrava. Sem exagero
 
Este é um tipo comum de ser encon­trado em turmas de motociclistas, em qual­quer lugar. São os relaxados e descuida­dos com a moto, os nacionalmente conhe­cidos como Quebra-Galho, Zé Talhadeira, Kid Sgaste e outros nomes. O fato é que ninguém consegue explicar o que leva al­guém a descuidar tanto de uma pobre e indefesa motocicleta.
 
O pior é quando acontece de existir mais de um deste tipo na mesma turma. Um compete com o outro para ver quem deixa a moto mais tempo sem lavar, sem colocar o parafuso que fixa o banco, sem desentortar o guidão e outros remendos.
 
Não se pode negar que estes tipos são imaginativos e verdadeiros inventores. Já se viu de tudo em termos de improvisação e remendos, desde um simples arame para prender o pára-lama até um fino trabalho de artesanato, com uma lâmina afiada para transformar um pneu careca em “meia­-vida”. Este último caso aconteceu com o piloto de competição Paulo Roncatti, co­nhecido como Cenoura. Ao ser flagrado por uma súbita tempestade em plena viagem de São Paulo ao Rio de Janei­ro, Cenoura não teve dúvidas: armou-se de uma lâmina de barbear e reverteu seu pneu slick de competição em pneu para chuva.
 
Escape de Fusca
Aliás, nas competições se encontram muitos destes tipos de motociclistas, que na hora da largada ainda estão dando os últimos retoques em sua moto, ou seja, ajustando bem os arames com um alicate de bico, para ter certeza de que nenhuma peça se soltará durante a corrida. Isto, sem falar na quantidade de fita crepe que é gasta num box para reunir frag­mentos do que antes era uma carenagem e, depois de um tombo, transformou-se num amontoado de cacos de fibra de vi­dro. Falta a braçadeira do filtro de ar? Não tem problema, basta um aramezinho aqui e umas voltas de fita crepe ali, e pronto, está montado um carburador sem qualquer va­zamento de ar. Quebrou um pedaço do coletor de admissão? Não esquente a ca­beça, um pouquinho de massa plástica re­solve, e assim vai...
 
Às vezes, é impossível imaginar como uma moto pode funcionar com tanto re­mendo. É o caso, por exemplo, de um motociclista que costumava freqüentar o bairro paulistano de Chácara Monte Ale­gre, na zona sul de São Paulo, proprietário de uma moto importada, ano 1972 (“veterana, quase de colecionador”), que já tinha sofrido tantas adaptações que era difícil dizer a marca, modelo e ano daquele monte de ferros amontoados em cima de duas rodas, pre­sos por arames e parafusos diversos. Na falta de parafusos iguais, a solução era contornada com uma furadeira (outra fer­ramenta preciosa nas mãos destes arte­sãos), ou “uma forçadinha na porca, que ela geme, mas vai”.
 
 
(Para quem acha minhas histórias tudo lorota, achei a foto da tal Yamaha AS3 misturada com RD 125. Note o escape... com ponteira de Fusca! Foto: Tite)
 
Recentemente, a moto ganhou um no­vo par de escapamentos dimensionados, que provocavam muito barulho e revolta entre os moradores vizinhos. Mas com uma política de boa vizinhança, o motoci­clista desenvolveu novas ponteiras abafa­doras, que nada mais eram do que dois silenciadores de um Fusca 1966, que esta­vam jogados na garagem. As ponteiras foram soldadas, como medida de segu­rança, mas não faltou o velho arame para dar confiança e não tirar a harmonia do conjunto.
 
Bendito desmanche
Essa moto, apesar de utilizar gasolina, conta com um sistema de partida a frio, que consiste em injetar um pouco de gaso­lina direto no cilindro, para pegar logo na primeira “pedalada”, nas manhãs de Inver­no, Verão, Primavera ou Outono.
 
Já ofereceram uma proposta de troca pela moto, mas não houve negócio. Não havia jeito de convencer o passional motociclista de que uma harmônica semi-nova valia a mesma coisa que aquela remenda­da Yamaha 125 AS3, com carburadores de RD 125, rodas e freios de Yamaha RD 200, guidão de Honda CB 400Four, banco feito sob encomenda com rabeta esportiva, pá­ra-lama dianteiro de fibra de vidro, tudo perfeitamente adaptado e preso por alguns quilômetros de arame. Não, definiti­vamente aquela troca não interessava, por mais que ele gostasse de música e harmô­nica.
 
Esta é uma característica interessante nestes motociclistas farpados: por mais escangalhada que esteja sua moto, ele ja­mais aceita trocá-la por qualquer outra coi­sa, nem vender, nem emprestar, nem nada.
 
- Moto igual à minha não vou encontrar em nenhum lugar! Ainda mais agora que troquei o óleo!
 
Uma grande contribuição aos motociclistas farpados foi o advento dos desman­ches. Agora ficou muito mais fácil encon­trar peças usadas para implantar à base de arame e massa plástica, dando seqüência a esta permanente arte de conduzir com um veículo de duas rodas completamente fora de condições de conservação.
 
Uma moto funciona sem velocímetro? Sem farol? Sem pára-lamas? Sem buzina? Sem anéis? Sem lonas de freio? Sim, se­nhores. Uma moto funciona sem tudo isso e até sem outras coisas consideradas im­portantes. A prova disso são as motocicle­tas que estão rodando por ai, nas mãos destes motociclistas. O que pa­ra os motociclistas mortais não passa de uma adaptação de emergência, como um parafuso para tampar um furo na cabeça do pistão, para estes motociclistas farpa­dos é uma solução definitiva. 
 
Xarley? 
 
No ano de 1976 em uma tur­ma de motoqueiros juvenis de Campo Be­lo, outro bairro paulistano, um jovem esta­va às voltas com um problema aparente­mente complicado e de difícil solução: ao montar o cabeçote de sua Honda 750Four, não utilizou um torquímetro (ferramenta que a força aplicada na porca ou parafuso) e empenou a peça. Não tinha saída, precisava de uma retífica, ou, aconselhado pelos outros co­legas, rebaixar de vez o cabeçote e melhorar o desempenho da moto. Mas onde rebaixar o cabeçote? Um torneiro mecâni­co iria cobrar muito caro, um preparador então, impraticável. Parados ali na sarjeta, descobriram a solução literalmente debai­xo de seus narizes. “Vamos rebaixar o ca­beçote raspando-o no cimento da guia”. Munidos de uma ferramenta in­dispensável nestes casos, o infalível olhô­metro, rasparam o cabeçote no chão até chegarem a um consenso. A improvisação durou por vários anos e teve até uma pas­sagem heróica pela pista de Interlagos.
 
Atualmente surgiu um espécime novo deste curioso tipo motociclístico, os adap­tadores de Harley Davidson. Não as 1200cc é claro, mas as extintas 125, mon­tadas pela Motovi. De posse do quadro desta moto, ou do que restou dele, alguns artistas conseguem instalar os mais varia­dos tipos de motor para fazer aquele mon­te de ferros continuar andando. Muitos motores de CG 125, Yamaha RX 125, Ya­maha RX 180 já adormeceram no quadro de berço esplêndido destas engenhocas. Teve até quem não fez por menos e criou uma Xarley, ou seja, quadro de Harley, combinado com tanque, banco e guidão de Honda XL 250R, chegando ao requinte de instalar uma suspensão traseira monoa­mortecida, com amortecedor de (pasme) Xispa, lembram-se dela?
 
O mais incrível é que estas motos resis­tem a todas as intempéries e continuam rodando com seus inseparáveis donos. Existe uma diferença brutal entre um pro­prietário de um automóvel caindo aos pe­daços e um motociclista-farpado. Os dois podem ser relaxados, mas naquela moto remendada com todo carinho só uma pes­soa no mundo consegue sentar o traseiro e rodar esbanjando status: o seu proprietá­rio. Afinal ninguém melhor que ele sabe com quantos arames se faz uma motocicleta!
 
*Texto publicado em fevereiro de 1986, foi mantida a redação original, mas bem que serve como uma luva para os atuais motoboys e suas remendadas motos!
publicado por motite às 12:34
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