Terça-feira, 29 de Maio de 2012

A vida em perigo - Final

 Lugar de correr é na pista, não importa o tamanho da sua moto e sim o tamanho da sua responsabilidade

 

A segurança na pista

Sempre que entro neste tema surgem as manifestações de revolta. Como se a existência de motos e carros de alto desempenho só se justificassem se seus donos atingissem os limites. A receita para a cura desta febre da velocidade é mais fácil do que se supõe. Hoje em vários autódromos brasileiros são organizados track-days tanto para motos quanto carros. Não é caro, como se alega, mas mesmo que fosse, qualquer atividade de alto desempenho só pode ser cara. Não existe mágica nisso. Velocidade barata só se descer a ladeira de bicicleta sem freio!

 

Por valores que variam de R$ 180 a R$ 500 um motociclista pode levar sua esportiva para um autódromo, devidamente equipado, cercado por uma equipe de profissionais, médicos e para-médicos e desfrutar de mais de uma hora de treino em alta velocidade. Nenhum ser humano, por mais condicionado que seja, é capaz de manter-se concentrado em uma pista no limite por mais de uma hora sem parar. Motos esportivas são cansativas, sem contar o desgaste mecânico e dos pneus.

 

O passo seguinte é se inscrever em uma das várias categorias amadoras e competir. Fico feliz quando vejo ex-alunos meus competindo de moto. Sei que é um a menos correndo nas estradas. Muitos inclusive optam por usar a moto esportiva apenas na pista e adotam um pequeno scooter como veículo de uso urbano. Gigantesca prova de sensatez.

 


Uma curva a 120 km/h na pista é muito mais emocionante do que uma reta a 300 km/h na estrada.

 

Mais uma vez discordo sobre o custo deste “lazer”. Não há, no mundo motorizado, uma competição “barata”. E gasta-se infinitamente menos competindo do que em uma semana de internação na UTI particular. Correr de moto na pista não é caro, perto do valor da vida e da integridade física. Quase todo ano recebo propostas para voltar a correr, mas respondo da mesma forma: depois de passar 22 anos desafiando os limites sem nenhuma seqüela me considero no enorme lucro, não quero jogar isso fora para satisfazer um desejo adormecido há mais de 10 anos.

 

Meu principal conselho para quem gosta de velocidade é: corra, mas na pista. Até cerca de 10 anos atrás os pilotos de motos eram predominantemente jovens, aventureiros, que depositavam todas as economias em motos de corrida. Hoje eu vejo vários homens beirando os 40 e até 50 anos, profissionais bem qualificados, com ótimo saldo financeiro e que fazem das corridas uma forma de desafiar os limites com segurança e responsabilidade.

 

Pode parecer loucura recomendar as pessoas que corram nas pistas, mas é infinitamente mais seguro do que na estrada. Em autódromos as velocidades raramente chegam ao limite da moto, mas quando chegam permanecem poucos segundos, porque logo vem uma curva. Já na estrada o motociclista pode travar o acelerador a 300 km/h e permanecer pelo tempo que quiser. Os equipamentos de segurança evoluíram muito, mas seria ingenuidade acreditar que o capacete, por melhor e mais caro que seja, resista a uma batida (note que escrevi BATIDA) a mais de 250 km/h. Bater contra outro veículo ou objeto nesta velocidade provoca uma desaceleração tão brutal que o capacete só servirá para evitar que a massa encefálica se espalhe pelo asfalto.

 

Além disso, depois que alguém experimenta a emoção de competir em uma prova oficial, ou dê apenas algumas voltas no autódromo, nunca mais conseguirá correr na estrada, pois perde a graça. Não dá barato acelerar a 300 km/h numa reta depois de experimentar o que significa fazer uma curva a 180 km/h. Por mais contraditório que pareça, correr em autódromo é o melhor remédio para a doença da velocidade.

 

Voltando ao universo da escalada, acho interessante que todo equipamento destinado para esta atividade vem acompanhado de uma advertência sobre a possibilidade de risco, acidente grave e até a morte. Inclusive nas revistas e nos comerciais esta advertência aparece claramente. De um simples mosquetão, passando por cordas, capacetes, todo equipamento tem um manual e a primeira mensagem que se lê é a possibilidade de morrer durante a atividade. Acho curioso que mensagens deste tipo passem longe dos equipamentos e motos de uso esportivo – embora apareça em quadriciclos fora-de-estrada.

 

É importante informar aos praticantes que competições motorizadas são realizadas sob constante risco de perder a vida. Por isso defendo que caso o piloto venha a ter um acidente fatal dentro de uma pista não há de se buscar culpados, porque ao sair do box e entrar na pista ele assumiu o risco. A exemplo de todas as outras obsessões, a velocidade, mesmo com todos os controles e precauções, também pode matar.

 

 

 

publicado por motite às 13:41
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