Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Assunto atual

 Motorista "profissional" estaciona o caminhão em local proibido: contra este tipo de cidadão não adianta multar, precisa mandar de volta pra escola!

 

Um desafio: reduzir 50% em 10 anos*

 

Tentar achar um responsável pela carnificina que ocorre todos os dias no trânsito é fácil. Todo mundo tem sempre um culpado na ponta da língua: é o Estado, as vias mal conservadas, idade avançada da frota, falta de preparo dos instrutores, corrupção na emissão de carteiras de motoristas etc etc...

 

Só que desde março deste ano acabou o prazo para encontrar culpados. A meta, agora, é encontrar soluções. E não se trata de uma decisão aqui, interna. A ordem veio de cima. Bem de cima. Lá na ONU – Organização das Nações Unidas – por meio da OMS – Organização Mundial da Saúde. Em março de 2011 foi lançada a campanha em caráter mundial pela redução em 50% nas vítimas fatais de trânsito em todo o mundo na década que se encerra em 2020. Contra essa estatística pesa uma outra ainda maior: o crescimento das economias emergentes colocarão mais veículos motorizados nas ruas. Como equacionar com sucesso o aumento no número de veículos com a redução de acidentes?

 

Os números são assustadores: hoje 3.500 pessoas morrem por dia no trânsito em todo o mundo. Uma tragédia. Não precisa ser muito genial para saber que quanto menos desenvolvido o país, maior o número de acidentes. Então já se tem aí um dado para começar: instrução reduz o número de vítimas. Ou, se preferir uma visão mais otimista, quanto mais educada é uma sociedade, melhores são os motoristas (e entenda-se por “motorista” todo condutor de veículo motorizado, incluindo motociclistas).

 

Com base nessa aparente óbvia constatação veio a mais elementar das conclusões: para reduzir o número de acidentes é vital melhorar a qualidade dos motoristas, seja por meio de melhores instrutores, seja na educação de base. Em suma, toda a sociedade terá de se empenhar para melhorar os motoristas não apenas na formação técnica, mas como cidadão! Aqui começa o maior e mais importante trabalho dessa ação.

 

E aí a OMS bateu na velha e conhecida tecla da EDUCAÇÃO. Não apenas na educação formal, mas na educação cidadã. A ONU está de olho não mais neste motorista que já está nas ruas, mas naqueles que serão formados nos próximos 10 anos. O motorista que completar 18 anos em 2020, hoje está com oito anos. É neste pequeno ser  que estão projetadas as esperanças pela redução nas vítimas de trânsito.

 

Finalmente está sendo colocada em prática no mundo uma iniciativa que visa ir além das convencionais endurecidas nas leis de trânsito. O objetivo agora é melhorar a qualidade do ser humano. Formar pessoas melhores para que possam melhorar o mundo todo.

 

E no Brasil?

Aqui o desafio não é educar futuros motoristas, ciclistas e pedestres. O grande desafio da administração pública brasileira é simplesmente educar! Quando se fala em investimento na educação é sempre a mesma cantilena de falta de verba, de salários humilhantes aos professores e das dificuldades de um país de dimensão continental. Mas se a idéia é organizar um evento mundial de futebol ou atletismo milagrosamente este dinheiro que não existia cai do céu.

 

Em palavras mais simples e menos educada, o que falta mesmo é INTERESSE!

 

Se não há interesse em pura e simplesmente dar educação básica, quem dirá educação social? Se mal conseguimos levar ensino básico às nossas crianças, como esperar que ainda possamos ensinar regras de cidadania? No meu tempo de escola havia uma disciplina chamada Educação Moral e Cívica. Apesar de o título flertar com o regime militar da época, era uma forma de mostrar aos pequenos alunos um pouco de noção de cidadania. A matéria desapareceu do currículo. Talvez fosse o momento de voltar, não mais como forma de manipulação política, mas de formação de caráter mesmo.

 

Os principais especialistas em segurança são unânimes na relação acidente x economia. Cerca de 80% das vítimas de trânsito estão nos países em desenvolvimento e revelam uma face cruel, porque são justamente os países que recebem menos investimentos em saúde. Mais do que isso, os números revelam que crescem os óbitos em três categorias de agentes do trânsito: pedestre, ciclista e motociclista. Mais ainda, que são quase totalmente de homens na faixa de 18 a 25 anos.

 

Aqui no Brasil, tanto nas cidades grandes quanto nas pequenas, os acidentes envolvendo motociclistas está causando um caos na saúde. Parte pela ocupação de leitos nos hospitais, tirando a vaga dos atendimentos médicos de outras naturezas, parte pela dificuldade em reabilitar os pacientes com seqüelas, muitas vezes permanentes. A ponto de a produção de próteses não dar conta da demanda. Hoje está difícil internar um paciente com apendicite porque os hospitais estão cheios de motociclistas!

 

Em São Paulo, o número de acidentes é alto, mas proporcionalmente, em relação à quantidade de motos, é muito menor do que nas cidades do centro-oeste e nordeste. O problema em São Paulo está no número absoluto, que é gigantesco. Mas, pasmem paulistanos, o trânsito em São Paulo é muito menos violento do que em muitas outras cidades. Já nas pequenas cidades o problema reside na absoluta falta de informação e formação. Aliado a questões regionais, como algumas pequenas cidades nas quais é simplesmente proibido usar capacete. Isso mesmo! Tem cidade no Brasil onde é proibido usar capacete por causa do uso de motos por pistoleiros de aluguel.

 

Como a secretaria de Segurança não consegue acabar com essa categoria de “profissional”, achou-se por bem proibir os motociclistas de esconderem o rosto. Como já foi em La Paz, na Bolívia, 25 anos atrás!

 

A campanha da ONU e OMS é louvável porque conclama todas as áreas da administração pública. Das secretarias de Saúde aos ministérios de Transporte, de Prefeituras às secretarias de Educação e de Segurança Pública. E para incentivar a participação destas entidades, existe uma premiação de caráter mais política do que social. Uma vaga permanente no conselho mundial da saúde da ONU, cargo de grande potencial de exposição política. Graças a esse “prêmio”, muitas prefeituras e secretarias que hoje se mostram omissas terão de mostrar serviço, pois a cobrança, mais do que nunca, será federal. E no ano que vem teremos eleições... municipais!

 

O maior medo nesse momento de “buscar resultados” é imaginar o que pode vir na garupa das ações cheias de boas intenções. Como os números são mais fortes do que qualquer análise qualitativa, uma prefeitura despreparada pode querer reduzir os acidentes por meio de canetadas das mais malucas possíveis. Corre-se o risco de decisões arbitrárias como proibição de circulação de motos em corredores de carros, limitação de acesso das motos às rodovias por tamanho de motor, ou proibição de levar garupa. Todas essas idéias já passaram pela câmara de vereadores de São Paulo e podem facilmente voltar.

 

Como especialista arrisco a dizer que será uma missão tão difícil que precisará da adesão de cada pessoa, do pedestre ao motorista; do policial aos professores. E aqui vejo que o pequeno trabalho de cada um fará a diferença. Não dá mais para admitir o motorista que pára em fila dupla “só por um minutinho”; motoristas que levam crianças soltas dentro dos carros; pedestre que atravessa por baixo de uma passarela construída para salvar a vida dele; motociclista que insiste em rodar em alta velocidade nos corredores e até atos de simples educação formal como um motorista de ônibus escolar que buzina na porta das casas para chamar as crianças. Ele é o exemplo que balizará a educação dos seus passageirinhos.

 

Sem mudar a atitude como ser humano, ninguém conseguirá formar uma nova geração de motoristas. Um exemplo bem simples: não adianta um pai passar horas explicando aos filhos que não é legal dirigir depois de beber se ele mesmo toma uma caipirinha no restaurante com a família e depois sai dirigindo! Quando a mãe pára o carro sobre a faixa de pedestre a criança absorve isso como normal, como o padrão.

 

No campo da administração meu maior medo são as resoluções na base da “canetada”. A forma mais simples de resolver problemas de trânsito é por meio de todo o tipo de proibição, seguida de multas pesadas. Nenhuma forma de educação na base da punição produz o efeito desejado. Não se educa por castigo, mas por informação. No lugar da multa, educação. Mas como convencer as autoridades a mudar de estratégia? É melhor não esperar nada em caráter “oficial”, mas pensar no individual.

 

Cada agente do trânsito tem seu papel nessa verdadeira guerra que está dizimando jovens em todo o mundo. Se você tem filho, evite beber e dirigir em seguida, pois pode não saber, mas nenhum discurso é mais tocante para uma criança do que a imagem dos pais. Um pai pode gastar horas educando um filho e colocar tudo a perder em apenas uma ação. Se você usa moto não precisa correr, porque nos locais congestionados as motos são três vezes mais rápidas que um carro sem passar de 60 km/h. Seja você um exemplo a ser seguido e admirado.

 

* Este artigo foi escrito em 2011 e, para minha surpresa, a maioria dos meus apontamentos foi referendado por especialistas no Workshop Abraciclo de Segurança no Trânsito

 

Para quem quiser conhecer um pouco mais dessa campanha mundial pela redução de vítimas, recomendo ver estes dois filmes no Youtube:

 

http://www.youtube.com/watch?v=jx_CtZb9lwI

 

http://www.youtube.com/watch?v=Yt8ILl7c9zo  

 

publicado por motite às 16:16
link do post | favorito
De Tiago a 23 de Maio de 2012 às 21:36
Lembrava mesmo de já ter lido isso...
Quanto a educação, é muito difícil pensar nisso como realidade, é uma grande utopia, a multa é muito mais fácil de se aplicar e ainda vale muitos $.
Aqui no Paraná temos um exemplo: há uma lei aprovada e publicada em Diário Oficial desde 2008, que trata da escolarização mínima para o ingresso na PM, que era pra ser de nível superior. Mas até agora, ainda não foi implementada essa lei, tanto que o último concurso (2009) o requisito de escolaridade era o Ensino Médio. Pois bem, o nosso governador Beto Richa disse que não concorda com o ensino superior pra PM, pq quanto mais instruído o militar, maior a chance de ele ser insubordinado. Ou seja, quanto menos estudo, mais fácil de colocar o cabresto! A política funciona assim caro Tite, e dificilmente (pra não dizer nunca) vai mudar, nossas escolas vão continuar precárias, nossa educação vai continuar precária, pq quanto maior o grau de instrução, maior a chance de sermos insubordinados!
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