Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

A vida em perigo (parte 3)

 (Ele morreu por tua culpa!!! )

 

À beira do abismo*

 

Arriscar a vida em busca do limite não é novidade na história da humanidade. Não sei explicar se é uma herança genética, mas está presente no ser humano, independentemente de ser homem ou mulher. Mas parece que esta tendência está aflorando nas últimas décadas. Uma rápida pesquisa nos sites de compartilhamento de vídeos é suficiente para encontrar toda espécie de atividade de risco e não raro cenas de acidentes fatais com milhões de acessos.

 

Depois de parar de correr fui buscar a fonte de endorfina na escalada. Ao contrário do que se pensa, a escalada esportiva é extremamente segura, mas muito emocionante pelo aspecto da altura e desafios. Já não é o caso da escalada de alta montanha, chamada popularmente de alpinismo. Nos montanhas acima de 8.000 metros em relação ao nível do mar os limites do ser humano são levados a extremos que podem ser fatais pelo simples fato de estar lá.

 

Um fenômeno comum aos escaladores de alta montanha é a “febre do cume”, situação de quase entorpecimento quando o alpinista abandona todas as regras de segurança e se lança em direção ao cume. Não por acaso, cerca de 80% dos acidentes fatais acontecem na descida, depois de voltar do cume, porque simplesmente esqueceu que descer é tão ou mais perigoso do que subir. O cume pode até ser o objetivo, mas se não voltar vivo não faz o menor sentido.

 

Quando questiono o que leva um homem adulto, bem de vida, financeiramente estável e com família estruturada a correr de moto acima de 250 km/h na estrada ouço todo tipo de argumento furado. Mas se a TV noticia que homem adulto, bem de vida, financeiramente estável e com família estruturada morreu ao tentar atingir o cume do Everest a opinião pública acha um “absurdo”, “loucura”, “suicídio” etc. Para mim as duas situações são iguais.

 

Não existe uma explicação para essa superexposição aos limites, embora quando aconteça um acidente sempre tenha alguém disposto a buscar “culpados”. Nesta exposição de acidentes fatais com motociclistas que chegam pela Internet o processo é dividido em três partes: primeiro a notícia da “tragédia” e a surpresa pela descoberta da mortalidade; depois vem as manifestações de dor e pesar para, finalmente, terminar na busca por culpados. O acidente pode ser resultado de um motociclista que atravessou a estrada pelo canteiro central, um motorista que não olhou pelo espelho retrovisor, um pedestre que correu pela rua desatento. Raramente a culpa volta-se para a vítima. Como se correr na estrada acima de 250 km/h fosse o trivial de quem compra uma moto esportiva.

 

Desde que a Igreja católica criou a culpa ao afirmar que “Jesus morreu para nos redimir dos pecados” o mundo ocidental católico passou a viver a eterna condição de caçador de culpados! Já nascemos culpados por alguma coisa que não sabemos, mas que levou um santo homem à morte 2012 anos atrás, então tudo que der errado na minha vida obrigatoriamente será culpa de alguém ou alguma coisa.

 

A escaladora sul-africana Cathy O’Dowd viu uma americana morrer bem diante de seus olhos durante uma tentativa de atingir o cume do Everest em 1998. Em seu livro “Just for the love of it” (sem tradução em Português), ela descreve como é enfrentar este limite entre a vida e a morte, a consequente perseguição aos praticantes e a busca por culpados. O alpinismo acima dos 8.000 metros não tolera erros, nem permite resgate. Se um colega cai em exaustão profunda não há como socorrê-lo sem colocar em risco a vida de outras pessoas. É um risco solitário, assumido. Ela escreveu uma teoria que talvez explique o que se passa quando alguém vive na beira do abismo:

 

De quem é a escolha que representa o risco afinal? Não é da pessoa que resolve ir até lá? Vivemos em uma sociedade voltada para a culpa, que exige explicações e prestações de contas, indo atrás de bodes expiatórios se necessário. Se caminho pelas vias estreitas da vida, faço isso porque eu quero. Se essa beirada se rompe sob mim, aceito isso como conseqüência da minha escolha. Não posso culpar os outros pelo o que aconteceu. Tão pouco espero que aqueles que me acompanham por aquela passagem, caso me acompanhem, carreguem a culpa por minhas decisões. Eu faço uma escolha e vivo por ela, ou morro. A morte não é a intenção, mas é aceita como uma possibilidade em vista do risco da atividade.” 

 

Por isso acho cada vez menos aceitável que os amigos e parentes das vítimas de um motociclista que se expôs conscientemente ao risco tentem tratar a fatalidade como uma tragédia, ou falta de sorte. É preciso voltar para o foco essencial: a responsabilidade de assumir o risco. Não há transferência de culpa quando se roda perto de 300 km/h em estradas. A vítima é o próprio algoz.

 

 * Para ler as partes 1 e 2 deste artigo clique aqui e aqui

 

publicado por motite às 14:08
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4 comentários:
De Mateus Erthal a 21 de Maio de 2012
Só uma correção sem importância no contexto: segundo a igreja, Jesus nasceu a 2012 anos e morreu com 33 anos.
Essa teoria da escritora explica bem sim, mas no caso do trânsito, quando se assume correr o risco, também esta colocando em risco a vida de outros que utilizam a estrada ou estão nas proximidades.
E não é preciso estar perto dos 200 km/h para correr ou colocar em risco, depende da estrada 60 km/h já é bem perigoso.
De Tiago a 21 de Maio de 2012
Lembra daquele caso da Ferrari em SP, que foi comprada em sociedade por um médico e um outro caboclo, uma F355 (vermelha) que o médico estava voando (literalmente) numa rodovia, a mais de 200 km/h quando o carro pegou um solavanco e saltou pelo canteiro central, que tinha uma mureta, e bateu de frente com um fiesta. Os 2 motoristas morreram, não me lembro se tinham mais pessoas no carro. O fato é que a família do médico processou a Ferrari por não apresentar segurança e "matar" o motorista, isso à mais de 200 km/h numa rodovia. Obviamente perderam a ação e ainda tiveram que indenizar a marca por danos morais ou coisa parecida. Deve ter no Google (ou não, faz tempo). Mas, segundo a família, a culpa não era do médico maníaco, e sim do carro, que não suportou uma batida frontal a mais de 200 km/h (matando o motorista do fiesta, que não tinha nada a ver com a paçoca). Carro de merda mesmo...
De Yan a 28 de Maio de 2012
Gostei muito desse texto Tite.

Tem um blog que acompanhava de moto (um muito popular) que em um dos posts o dono comenta que pegou uma SRAD 750 e em um passeio de fim de semana colocou 240 km/h em uma rodovia paulista e que os amigos estava disso para cima. Olhando os comentários diversos elogiando a "coragem", fui único a postar que isso é uma idiotice. Isso é no popular "pedir pra morrer" são muitas possibilidades que podem te levar a morte CERTA em uma velocidade assim. Ainda achei mais absurdo que um blog é um veículo de informação e logo de formação de opinião achei demasiada irresponsabilidade do autor.

Nessa linha de procurar culpados, um exemplo quando um cara bêbado pega o carro bate e morre e mata 4 amigos, todos vão culpar o motorista bêbado, mas quem entrou no carro não assumiu o risco? Ou foram forçados a entrar nele. Claro que já peguei carona depois de balada com pessoa bêbada no volante e foi um risco que eu consciente assumir, se eu morresse foi minha responsabilidade também. não há culpados, há imprudentes.
De Cezar Ribeiro a 12 de Junho de 2012
Caro Tite. Por coincidência ou não, não sei, talvez sincronicidade, sinais, etc., vai saber?, estou lendo um livro que queria ler há muito tempo, chamado "No Ar Rarefeito - Um Relato da Tragédia no Everest em 1996", do jornalista e alpinista Jon Krakauer, que inclusive recomendo a todos, pois é muito. Nele, Krakauer, quem você já deve ter lido, tenta desvendar e refletir sobre esse mistério que é a busca pelo limite do limite do ser humano, em qualquer atividade de risco, e que como você bem disse em seus artigos, pode ser nos esportes radicais, pilotando uma máquina possante ou indo fundo, perdoe o trocadilho!, no sexismo desenfreado de hoje em dia. Excelentes artigos, que li e recomendei, enviando cópias aos amigos queridos que possuem motos superesportivas, para que reflitam. Parabéns pelos artigos!
Cezar Ribeiro - Niterói-RJ

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