Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

A vida em perigo (Parte 2)

 

(E se eu continuar acelerando no final da reta, o que acontece???)

 

Velocidade vicia?


Na verdade, não é a velocidade, mas a sensação de prazer proporcionada pelo risco. É a tal endorfina, secretada pelo nosso organismo, encharca o cérebro e que provoca a sensação de bem estar. Ela é culpada pela maioria dos casos de dependência, seja por velocidade, exercício físico, cigarro, trabalho, álcool, drogas, sexo etc. Não existe racionalização capaz de bloquear essa sensação de prazer depois que se torna dependência. Vai exigir um longo período de “desintoxicação” com tratamento específico.

 

A coisa fica perigosa quando passa da dependência para a obsessão. Várias vezes tentei parar de correr, mas sempre batia aquela desculpa: “só mais uma temporada e pronto!”. Promessa tão difícil de cumprir quanto a última dose, o último cigarro etc. Só que não foi isso que me assustou durante a vida corrida. Muita gente acha que pilotos são loucos e problemáticos, até a psicóloga inglesa caiu nessa (A vida em Perigo, parte 1), mas na verdade é o inverso: pilotos são muito frios e calculistas. Precisam ser pragmáticos e com uma precisão cirúrgica. Pilotos loucos duram pouco.

 

Pouca gente tem ideia do que é correr em alta velocidade, dentro de um circuito, com outros pilotos em volta. É preciso um nível muito alto de concentração para não se deixar desligar pela repetição e ligar o “piloto automático”. Manter a concentração exige prática e exercícios meticulosos. Lembro de várias vezes, quando corria isolado, sem ninguém perto, que me pegava pensando no que eu faria depois da corrida, qual seria o prêmio, como seria o troféu, aonde eu gostaria de jantar etc. Isso, freando a mais 200 km/h, reduzindo marcha, e entrando na curva a 160 km/h. Quando me pegava desconcentrado levava um susto e voltava para a rotina do acelerar, frear, fazer curva, trocar marcha, frear, acelerar...

 

Mas não foi isso que me assustou nessa fase. O que me deixou preocupado foi a sede de velocidade pura. Várias vezes me peguei acelerando até o fim na reta com uma vontade interna muito grande de manter o acelerador todo aberto, mesmo com a placa de 200, 100 e 50 metros chegando. Esse pensamento assusta porque é o primeiro sintoma de perda dos limites diante do prazer. Um limite que instiga e embriaga como uma droga e que separa a vida da morte por uma linha muito frágil.

 

Uma coisa é buscar os limites, freando mais perto da curva e acelerando o mais cedo possível. Outra coisa é manter o acelerador aberto só pela tentação de imaginar o que vem depois. É como se depois do limite existisse um diabinho que ficava instigando “vem, continua acelerando pra ver que grande barato!”

 

Os filmes de motociclistas em alta velocidade na estrada, divulgados pela internet, mostram essa obsessão em estado puro. O piloto mantém o acelerador aberto até o fim do curso, mesmo em uma estrada cheia de carros, caminhões etc, atendendo ao apelo da voz interior, que pode ser o tal diabinho. É a perda de qualquer vestígio de sensatez diante do prazer por ter ultrapassado todos os limites. Isso vicia e o fim pode ser trágico.

 

Dois ótimos filmes ilustram o que acontece diante da perda dos limites. Um deles é o franco-japonês Império dos Sentidos, (Ai no kuriida). Equivocadamente classificado como filme pornográfico, na verdade foi uma crítica a um período no fim dos anos 30, quando o Japão estava obcecado pela militarização. O Japão tinha esperanças de se tornar uma potência militar, mas a participação na II Guerra Mundial desmoronou este plano, junto com a economia do país.

 

No filme, baseado em fatos reais, um casal, alheio à revolução política que o país vivia, entrou em uma perigosa relação de prazer sexual sem limites e no fim... bem como sei que muita gente não vai ver o filme, posso revelar o fim: o personagem masculino morre na tentativa de conseguir o máximo prazer, enquanto a mulher enlouquece.

 

Outro exemplo é o filme Imensidão Azul (Deep Blue) que narra a competição entre dois amigos em um dos esportes mais radicais: o mergulho livre em profundidade. Para usar o português mais claro, o tesão pelo desafio leva o ser humano a uma atração fatal pela perda do limite. Durante a competição os dois principais concorrentes entram em uma disputa ensandecida para ver quem chegava mais fundo, em apnéia, diante do risco real e constante de um acidente fatal. Este filme não vou contar como termina, porque recomendo não só pela mensagem, mas pelas paisagens e ótima trilha sonora.

publicado por motite às 15:31
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