Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Faça a sua parte

Tá difícil? Vai a pé!

 

Qual a sua cota?

 

Nesta discussão sobre mobilidade urbana leio e ouço muito falatório, mas vejo pouca gente realmente dando alguma contribuição válida. Por isso achei fantástico encontrar um velho amigo fotógrafo que disse ter trocado o carro e a moto pelo ônibus. Isso mesmo, ele transporta cerca de R$ 5.000 em equipamento fotográfico dentro de uma mochila e pega ônibus em SP. Claro que não vou contar quem é, mas a atitude dele é louvável e ainda explicou que usa uma mochila bem velha, remendada, para não despertar interesse dos trombadinhas.

 

Ele também revelou que evita horários e linhas congestionadas e não é todo dia que recorre à dupla metrô/ônibus. Quando coincide de ser um horário sossegado e regiões menos tumultuadas vai de coletivo. Se tiver urgência, vai de scooter e quando precisa transportar muito equipamento vai de carro.

 

Já faz tempo que nós, fotógrafos da era analógica, descobrimos que as câmaras compactas resolvem grande parte das necessidades de qualquer repórter fotográfico. Em muitos casos o fotógrafo leva um caríssima e sofisticada câmara só para impressionar o cliente. E funciona! Mas hoje em dia os equipamentos compactos têm a vantagem de não dar bandeira e é perfeitamente possível fazer um bom trabalho levando pouco equipamento.

 

Decidi experimentar essa tática do meu velho amigo: fui de ônibus!

 

Havia tanto tempo que eu não pegava um ônibus que entrei pela porta errada. Depois, ao perceber o erro, usei uma estratégia que adotava quando fazia alguma burrada muito grande no exterior: dei uma de estrangeiro, joguei um monte de moedas na mão do cobrador e voltei para o lugar certo.

 

Ainda falta um pouco de organização nos transportes coletivos. O metrô é uma beleza e qualquer estrangeiro se locomove facilmente, mas os ônibus em SP são muito bagunçados e faltam informações sobre itinerários. Um turista estrangeiro terá muita dor de cabeça para se locomover aqui e outras grandes cidades, menos Curitiba, onde tudo funciona.

 

Mas não é de transporte público que quero escrever e sim de atitudes. Nós estamos vivendo a era do grande desafio da mobilidade urbana. Além das dificuldades naturais do excesso de veículos, temos de conviver com os problemas agregados como poluição do ar e queda na qualidade de vida em geral.

 

Primeiro é preciso entender que o Brasil entrou numa parábola crescente de desenvolvimento econômico que vai continuar por mérito ou inércia ainda por muitos anos. E que a conseqüência deste crescimento é o acesso a um dos bens de consumo mais festejados do brasileiro que é o automóvel. E mais recentemente, a moto.

 

Além disso, desde os anos 50 o Estado brasileiro apoiou sua economia na chegada das grandes fábricas, sobretudo de automóveis, caminhões e seus derivados. Pode parecer uma teoria da conspiração, mas aposto meus rins como a deficiência do transporte público, o esquecimento das opções de transporte ferroviário e hidroviário e a falta de investimento na malha viária tem muito a ver com a nossa dependência financeira das montadoras.

 

Imagino o seguinte diálogo entre executivos de grandes multinacionais do setor e o Estado brasileiro: “OK, nós montamos fábricas no seu país, investiremos centenas de milhões de dólares por muitos anos, mas queremos garantias de que vamos vender bastante!”. Entre as “garantias” está este insano e inexplicável modal de transporte de carga sobre rodas (e pneus). Um país com a geografia do Brasil não utiliza trem nem navios! Até a Áustria, encravada nos Alpes, transporta carga e pessoas por trem!

 

Depois de 60 anos dependentes da indústria automobilística, sobretudo nos últimos 15 anos com a chegadas de novos fabricantes e importadores, como vamos convencer o Estado a oferecer meios de locomoção que substituam os carros, motos e caminhões? Não dá!

 

Por isso chegou a hora da atitude. Fazer aquele trabalho do beija-flor que tenta apagar o incêndio na floresta sozinho. Quando uma coruja viu aquilo e indagou se ele realmente acredita ser capaz de apagar o fogaréu, ele simplesmente respondeu: “não, mas estou fazendo a minha parte”.

 

Fazer a sua parte significa buscar alternativas para amenizar o caos na mobilidade urbana. E neste trabalho as empresas precisam acordar para ao anacronismo que representa contratar alguém para trabalhar oito horas por dia diante de um computador, algo que este empregado poderia fazer dentro de casa, com metas, organização e sem tirá-lo do lugar.

 

Ou então a crueldade que significa impor quatro horas por dia de deslocamento em transportes coletivos, sendo que o gerente de recursos humanos da empresa poderia dar prioridade a quem mora perto do endereço da empresa. Os profissionais de RH olham todas as qualificações, mas esquecem de verificar o endereço. No século 21 é sensato que as empresas adotem uma política distrital de recursos humanos. Olhem em volta, visitem as faculdades e pensem em deslocar as pessoas o mínimo possível.

 

Tem muita empresa de grande porte que faz propaganda se proclamando “responsável ambientalmente”, mas considera como ambiente só aquele espaço abstrato de floresta onde vivem araras azuis e jacarés. Minha rua também é meio ambiente. A avenida Paulista também é meio ambiente.

 

É como a família que tem um tremendo cuidado com o lixo reciclável, com formas sustentáveis de consumo, mas quando vira as costas a empregada doméstica passa a manhã toda varrendo a calçada com uma mangueira como se água fosse um bem menor! A dona da casa ensina até a reutilizar a água da máquina de lavar roupa e louça, mas ao sair a empregada joga tudo no ralo e abre a mangueira...

 

O exemplo do meu amigo fotógrafo é surpreendente por se tratar de um esforço semelhante ao do pequeno colibri. Se cada um fizer uma pequena parte, um pequeno esforço, tudo em volta melhora. E nem pense em esperar ajuda e incentivo da administração pública. Nesta luta do beija-flor contra o fogo na mata, o papel do Estado tem sido de incendiário!

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publicado por motite às 23:46
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9 comentários:
De Luidhi a 7 de Maio de 2011 às 00:33
Tite, minha teoria:

1 - O problema não são as indústrias de automóveis, mas sim o cartel das empresas ônibus, que mandam e desmandam nos vereadores. ônibus vazio dá menos lucro.

2- Se o RH desse prioridade para quem mora perto, a Zona Leste estaria toda desempregada. RH nãoestá conseguindo achar profissional especializado, imagina restringir por zona.
O negócio era incentivar o Home Office, aí o cabra podia morar em quixeramobim e trabalhar em São Paulo.
De Frank Arana a 9 de Maio de 2011 às 12:57
Excelente post Tite, mas ultimamente, até em Curitiba está ficando complicado andar de ônibus, moro aqui, e ando de moto, mas minha esposa vai trabalhar de ônibus (quando não me escala pra dar uma carona hehehe), e no horário de pico andam entupidos, ela já contou vezes em que teve que esperar 3 biarticulados (aqueles grandões, mais compridos que esperança de pobre) passarem para conseguir entrar no ônibus, mas comparado com outras cidades deve estar bom ainda, já que o trânsito aqui não considero bom a algum tempo, mas ano passado fui pro RJ, e descobri algo ruim, descobri que aqui ainda está bom (ou seja, tem como piorar)...
De Thiago a 9 de Maio de 2011 às 15:31
Tite ,

Acho que faz bastante tempo que você não vai para CWB , não é?

Estive no fds passado e ouvi uma reclamação do motorista do ônibus , dizendo que o trânsito estava infernal, com desrespeito dos carros menores, e que nos horários de picos os ónibus estava andando super lotados.

E me desculpe outra sinceridade para turistas a cidade de CWB é péssima , cheguei na rodoviária e fiquei perdido ninguém sabia explicar como eu conseguia chegar no hotel, e na volta o mesmo problema e olha que estava bem no centro, imagina se estivesse em algum bairro?

Mas de resto uma bela cidade.

E quanto ao RH, não deveria ser ele a contratar uma pessoa do "bairro" pois sendo assim só teríamos pessoas empregadas na zona central e central estendida de SP , o que devem ser poucos gatos pingados.

O grande problema é que todas as empresas querem estar na Paulista, Faria Lima e na impensável BERRINI que fica perto de nada e longe de tudo.

As empresas que deveriam mudar seu pensamento, imagine uma empresa se estabelece na BERRINI , olha a mão de obra que não dá para os clientes/empregados e tanto outros.
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Tite , <BR><BR>Acho que faz bastante tempo que você não vai para CWB , não é? <BR><BR>Estive no fds passado e ouvi uma reclamação do motorista do ônibus , dizendo que o trânsito estava infernal, com desrespeito dos carros menores, e que nos horários de picos os ónibus estava andando super lotados. <BR><BR>E me desculpe outra sinceridade para turistas a cidade de CWB é péssima , cheguei na rodoviária e fiquei perdido ninguém sabia explicar como eu conseguia chegar no hotel, e na volta o mesmo problema e olha que estava bem no centro, imagina se estivesse em algum bairro? <BR><BR>Mas de resto uma bela cidade. <BR><BR>E quanto ao RH, não deveria ser ele a contratar uma pessoa do "bairro" pois sendo assim só teríamos pessoas empregadas na zona central e central estendida de SP , o que devem ser poucos gatos pingados. <BR><BR>O grande problema é que todas as empresas querem estar na Paulista, Faria Lima e na impensável BERRINI que fica perto de nada e longe de tudo. <BR><BR>As empresas que deveriam mudar seu pensamento, imagine uma empresa se estabelece na BERRINI , olha a mão de obra que não dá para os clientes/empregados e tanto outros. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Berrini</A> não existe metro, fica a vários quilómetros do centro, passa por diversas vias que ficam impossíveis de andar no horário de pico. E os ônibus são sempre cheio. <BR><BR>E por último não precisa as pessoas irem todas de ônibus , as pessoas conseguindo dar carona as pessoas que moram perto já melhoraria bastante o trânsito de nossa cidade. <BR><BR>Quantas pessoas que não moram no mesmo quarteirão ou mesmo prédio que trabalham em prédios quase vizinhos mas vão trabalhar em seus carros solitários??? <BR><BR>Se a CET fizesse uma faixa exclusiva para carona coletiva , e deixasse uma única faixa para quem anda solitário em seu carro talvez pudéssemos ver mudanças dentro de um pequeno prazo, mas sei lá isso é Brasil, né? <BR><BR>Aqui os governantes preferem destruir as poucas arvores que restam para criam uma via a mais nas marginais para ao final continuar o mesmo trânsito.
De Flávia a 10 de Maio de 2011 às 21:05
Enquanto mais e mais veículos se instalam nas ruas (que não os comportam mais) e muito pouco se faz para melhorar a infraestrutura das cidades, meios de transporte alternativos permanecem no esquecimento. Aqui em Vitória, por exemplo, que é uma ilha, cadê o transporte aquaviário? Uma bela solução para o "desafogamento " do trânsito está na água e ela é simplesmente ignorada!
De rogerio a 11 de Maio de 2011 às 21:27
Li hoje que em Higienópolis os caras não querem estação de metrô!
É o atestado de idiotice ao décaplo!!!
Não da para entender....
De rogerio a 11 de Maio de 2011 às 21:30
Digo ao Cubo! (idiotice em não quere estação de metrô no bairro)
De Thiago a 12 de Maio de 2011 às 13:45
Para que os moradores de Higienopolis querem metro? Lá é um bairro de classe media alta, me diz quantos andam de metro?

A estação seria para as empregadas e babas dos filhos.

E como eles estão andando para essas pessoas é melhor continuar como está, manter a "elite" a salvo das pessoas "diferenciadas".

Você não vê que essa mesma briga vem ocorrendo no Morumbi pq não querem estação de metro por aquelas bandas.
De Claudio a 14 de Maio de 2011 às 21:02
Eu achei que o texto era sério, até ler que 'em Curitiba tudo funciona..." , Aí rachei o bico!!
De Guilherme a 17 de Maio de 2011 às 18:51
Eu também ri da parte de que Curitiba tudo funciona.

O pior é que há mesmo uma idéia geral de quem é de fora que em Curitiba a coisa funciona. Propagandearam MUITO o sistema de transporte de Curitiba como sendo o melhor do país, e isso foi sendo repetido.

Não moro em Curitiba, mas vou com muita frequência à cidade pois minha namorada mora lá e eu pretendo ir morar lá assim que possível. E posso dizer que conheço um bocado da cidade e do transporte de lá. Tem um certo nível de organização, isso é fato. É fácil de achar as rotas usando o site da urbs.

Só que a frequência dos amarelinhos e ligeirinhos é terrível. Grande parte dessas linhas passa de meia em meia hora. Os biarticulados, esses realmente passam de 5 em 5 minutos, até mais frequentes que isso. E mesmo assim, vem absolutamente lotados, em qualquer horário do dia, e ficam cheios até mesmo em feriados.

Em matéria de sistema de transporte público, no Brasil, não tem cidade que bata Porto Alegre. Disparada a melhor. Frequência excelente. Ônibus limpo com ar condicionado e poltronas relativamente confortáveis. Corredor de ônibus nas principais avenidas. Tirando os horários de pico, difícil pegar linhas lotadas. Opção das lotações, que são microônibus com preço 50% mais caro mas costumam ser mais rápidas no deslocamento e com poltronas excelentes, além de não viajar de pé nelas.

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