Terça-feira, 8 de Março de 2011

Não sei porque você se foi

(Esta bela foto é de autoria do João Lisboa, obrigado velho amigo...)

 

Toda perda de alguém querido vem seguida da velha pergunta: Por quê? Por que ele; por que agora, por que não um ser indigesto ou assassino, por quê? Talvez se mudássemos o foco da dúvida encontraríamos as respostas. Em vez de por que, experimente perguntar para quê? Qual será a mensagem que a vida quis nos dar com aquela perda? Quais mudanças aquela perda poderá trazer para nossas vidas? A história já nos revelou que foi preciso o homem Jesus morrer para nascer o espírito de Cristo e criar um paradigma universal.

 

Quero refletir sobre a morte do amigo, fotógrafo, boa gente, motociclista João Lisboa. Ele se acidentou, dia 24 de fevereiro, durante um treino em Interlagos, os chamados track-days. Não sei exatamente as causas do acidente, só sei que bateu no muro externo da Subida do Café, ponto considerado como o mais perigoso da pista. Foi levado ao hospital de Clínicas pelo helicóptero Águia da Polícia Militar e teve três paradas cardíacas durante a cirurgia de contenção de uma hemorragia na artéria femoral. Na terceira parada o coração já enfraquecido por um histórico de acidentes vasculares não agüentou e parou.

 

Recebi a notícia logo após o acidente, sem saber a gravidade, mas já chegou com aquela aura de algo muito ruim estava para acontecer. Encontrei o velho amigo Miguel Panadés que lembrou várias passagens do João Lisboa. Era um tremendo boa gente.  Tinha motociclismo correndo pelas veias e curtia tudo relacionado a motos. A paixão exagerada pode até ter complicado sua vida profissional e pessoal porque várias vezes vi ele trabalhar de graça só pra estar envolvido com as motos.

 

Fumava mais do que turco, e adorava conversar... sobre motos! Segundo Miguel, o João dava tanto trabalho aos amigos quanto um filho. Ele lembrou que numa madrugada tocou o telefone. Do outro lado da linha o João gritou: “Miguel, vem me ajudar porque levei dois tiros...” Claro que o Miguel deu risada e um esporro porque não se brinca com essas coisas. Uma outra voz falou ao telefone: “Aqui é o tenente Fulano, o Sr. pode comparecer ao hospital porque seu amigo foi baleado”.

 

A penúltima do João foi abater uma Brasília a meia-nau, que lhe custou uma fratura de fêmur, alguns meses de gancho, outros de muleta e um eterno andar claudicante que o deixava ainda mais parecido com uma entidade! Baixinho, magro, de barba, gorro na cabeça, pitando e apoiado em uma bengala parecia um gnomo.

 

Sem grandes pretensões materiais era um sonhador. Queria fazer uma revista de moto, um jornal, um site, mas fez um blog. Precisava de um canal de comunicação para, como ele mesmo me disse uma vez, “falar tudo que tenho vontade”. E como falava aquele gnomo!

 

Menos de uma semana antes do acidente, João ligou para o amigo Laertes – da Moto Adventure – só pra jogar conversa fora. No velório, o Laertes revelou que o conteúdo da conversa girou sobre o tema vida, família, amigos e sonhos. Entre os sonhos estava disputar as 500 Milhas de Interlagos e era por isso que estava começando a treinar. E finalizou o papo com o Laertão com uma frase bem estilo João Lisboa: “se eu morresse hoje, morreria feliz!”.

 

Outro amigo inseparável, Leandro Panadés, lembrou a nossa velha e eterna justificativa em perdas como a do João. “Pensa que ele morreu fazendo uma coisa que gosta!”. Eu tento pensar assim, mas não consigo perder a vontade de dar uma bronca no João Lisboa quando encontrá-lo muitos anos à frente, espero! Bronca que eu não pude dar, mas só foi adiada, viu, gnomo?

 

Nenhuma perda é em vão.

Quando Ayrton Senna deu a pancada no muro, no dia 1º de maio de 1994 a Fórmula 1 mudou. Os carros mudaram, os circuitos mudaram, as pessoas mudaram. Não por acaso, Ayrton morreu em um circuito chamado de Imola. Immolare, em latim, significa “morrer por sacrifício”.

 

Talvez o João tenha morrido para que algumas coisas mudassem nas nossas vidas. No mesmo dia da morte dele (24/2) começaram as cornetadas na Internet. Gente criticando a pista de Interlagos, a empresa que organiza o track-day, a Federação Paulista de Motociclismo, as fábricas de moto, o Bispo etc. Recebi ligações de colegas da imprensa pedindo declarações, mas fiz questão de deixar claro que eu ainda não tinha dados suficientes para avaliar as causas do acidente.

 

Não foi para começar esta caça às bruxas que o João se foi. Temos de ser grandes nesta hora e refletir de forma lúcida e profissional, sem sensacionalismos nem oportunismos. Qualquer dono de moto esportiva de 180 cv quer acelerar. Sempre comparei motos às armas de fogo: ninguém compra uma pistola automática 9 mm, cromada, para deixar guardada na gaveta. Ele quer dar uns tiros. Até chegar um dia, movido por uma fúria incontrolável ou defesa, acaba disparando contra alguém. Não estava nos planos, mas ela foi comprada para isso.

 

A moto esportiva é comprada para ser usufruída. Ninguém pretende morrer com ela, não está nos planos, mas pode acontecer. Pena que ninguém pensa nisso. Correr em Interlagos é um sonho. Ninguém entra lá pra morrer, mas pode acontecer, assim como nos outros autódromos.

 

Muitos amigos cinqüentões começaram a falar em correr nas 500 Milhas porque viram vários tiozões de macacão correndo com filhos, sobrinhos e amigos. Mas correr de moto não é tão fácil. Exige preparo físico, técnica, frieza, respeito aos limites e um mundo de outras qualidades. Aqueles “tios” que estão lá não começaram agora. Um é o Vail Paschoalin, mais de 30 anos de experiência; outro é o Milton Nicola Adib, o Cigano, igualmente experiente; Sidão Scigliano, professor de uma geração; Pedro Mello, professor e veterano em pilotagem; Cerciari, uma dúzia de títulos brasileiros. De longe parecem apenas gordinhos (de perto também), mas sabem muito bem preservar a pele porque conhecem seus limites e da moto.

 

Não existe mágica em pilotagem de qualquer coisa motorizada. Começar depois dos 50 anos tem grandes chances de dar errado, mas quem admite isso? Sob a alegação de apenas se divertir os coroas estão lá em Interlagos até disputando um campeonato só para cinqüentões! Que sejam felizes, mas saibam que a calcificação óssea e toda recuperação física é bem mais difícil depois dos 50. Sem falar na recuperação do emprego!

 

Depois de passar boa parte da vida fotografando pilotos, o João quis realizar o sonho de ser um deles. Sonho totalmente compreensível porque é realmente uma atividade muito estimulante. Quando soube do acidente minha primeira vontade foi enfiar o dedo no nariz dele e dar uma bronca tipo “o que você foi fazer numa moto de corrida com essa idade???”.

 

Mas hoje, passada uma semana do acidente eu entendo o que fez o João subir na moto e encarar a tinhosa pista de Interlagos. Não posso julgar as pessoas pela minha experiência de vida porque comecei a correr aos 16 anos e só parei aos 40. Convivi com a adrenalina, largadas, cheiro de gasolina, alegrias e frustrações por 24 anos e confesso que hoje não tenho a menor vontade de passar por isso novamente.

 

Porém entendo o que leva os tiozões a entrarem nas competições. Foram anos de vontade reprimida e finalmente os filhos estão grandes, muitas vezes já está separado, emagreceu 15 kg, comprou uma 1000 de 200 cavalos e agora quer recuperar tudo que perdeu nos últimos 25 anos. Vai fundo, só não esquece que pode machucar e até matar.

 

É curioso como o tema “morte” é um tabu entre motociclistas, especialmente os donos de esportivas. Na minha nova atividade esportiva de escalada clássica o tema “morte” está presente em cada equipamento vendido nas lojas, desde um simples mosquetão, até em revistas e na publicidade. Todo material ou meio de comunicação específico de escalada vem acompanhado de um aviso: “a atividade de escalada pode provocar graves ferimentos e até a morte; antes de praticar procure instrução especializada e leia atentamente os manuais de uso”.

 

Alguém já leu algum aviso dessa natureza em capacetes, macacões, manetes, escapamento, carenagem etc? Para quem vai comprar uma moto esportiva para correr em Interlagos tudo é alegria e felicidade. Ninguém bate no ombro do sujeito e fala: “você sabe que isso pode te matar? Você teve instrução adequada? Você está apto fisicamente para exercer essa atividade?”

 

Nada disso. O cara vai lá, faz inscrição e corre.

 

Quando acontece um acidente fatal aí sim, parece que todo mundo resolve correr atrás de culpados. Não há quem culpar, mas nenhuma perda pode ser em vão. Por isso, gostaria que a morte do João pudesse sensibilizar todas as pessoas envolvidas com corridas, cursos de pilotagem, vendedores de equipamentos, preparadores, jornalistas, cartolas etc contribuíssem para que a segurança de pilotos e circuito sejam repensadas e melhoradas.

 

Não deixem que esta perda seja em vão. De todas as lições que podemos aprender com essa perda só uma é inaceitável e condenável: o oportunismo!

 

Recado ao Alexandre Barros

No dia do enterro do João, começou a habitual caça às bruxas em busca de um “culpado”. Isso é normal e, acredite, passageiro. Mas uma pessoa me surpreendeu com uma atitude totalmente aética. O ex-piloto Alexandre Barros usou o Twitter para aproveitar a morte do João Lisboa e divulgar a sua escola de pilotagem. O ex-piloto escreveu – mas depois voltou atrás e apagou – que no curso dele apenas 2% dos alunos sofreram acidentes e apenas cinco precisaram ser removidos por ambulância. Afirmou também que a BMW o apoiava por ser uma empresa ligada à segurança. Enfim, quis dizer que o curso dele é mais seguro.

 

Imediatamente entrei no Twitter e postei que aquilo era prova de mau-caratismo e que o ex-piloto ainda estava começando na atividade de professor. Logo em seguida os posts do Alexandre foram retirados, mas o estrago já estava feito.

 

Queria deixar um recado para o ex-piloto. Ter 33 anos de experiência em corrida não credencia ninguém a ser professor de pilotagem. Principalmente quando sabemos que nestes 33 anos não deve ter rodado nem 100 km em estradas, nas ruas congestionados de São Paulo, em estradas de outros países em cima de uma moto. Nunca vi este professor rodando de moto fora do autódromo, porque só usa carros para se locomover. Ser piloto de motovelocidade não basta se não souber como é uma curva a 120 km/h em uma estrada de asfalto velho, mão dupla, cheia de caminhões em volta. Ou desviar de um motorista distraído em plena avenida.

 

E não sei o que é pior em termos de imagem: uma escola na qual seus alunos caem, ou uma escola de pilotagem na qual o INSTRUTOR cai na frente de todo mundo. Antes de criticar as outras escolas e professores de pilotagem, Alexandre Barros deveria ver todo dia este filme que mostra ele mesmo caindo durante uma “exibição” a clientes.

 

Ter 33 anos de experiência, no caso deste ex-piloto, só mostrou que perdeu completamente o senso de ética profissional. Sugiro que a BMW chame seu patrocinado e aplique um “media trainning” para evitar comentários deste tipo. Se quiser ajuda, eu tenho 30 anos de experiência nesta área...

publicado por motite às 16:18
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