Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Sem trava

 

 

Os freios anti-travamento ABS estão cada vez mais presentes nas motos

 

Por Geraldo Tite Simões

Fotos: Divulgação/Caio Mattos

 

Tudo começou nos trens. Imagine a dificuldade de parar milhares de toneladas apoiadas em rodas de ferro e que deslizam sobre trilhos de ferro! Depois de pouco tempo esse metal fica tão polido que torna-se extremamente escorregadio. Para evitar o travamento das rodas foi desenvolvido um sensor, ligado a uma central eletrônica, que controlava o quanto de frenagem as rodas poderiam receber antes de começar a deslizar.

 

O resultado foi tão eficiente que logo em seguida foi adotado pela aviação. Um dos momentos mais delicados do vôo é a aterrissagem, especialmente depois que as rodas tocam no solo e o avião precisa parar com auxílio de freios mecânicos (nas rodas) e aerodinâmicos (flaps e o reverso dos motores ou turbinas). Mais ainda, quando o piso se apresenta com baixo índice de aderência, na chuva ou neve, qualquer veículo apoiado em rodas corre sérios riscos de derrapagem. Foi com a intenção de evitar as derrapagens que os aviões passaram a adotar freios anti-travamento, conhecido mundialmente como ABS, sigla para anti-locking brake system, ou sistema de freio anti-travamento.

 

Logo em seguida a indústria automobilística percebeu que um freio anti-bloqueio seria um excelente item de segurança passiva e os carros ganharam as primeiras versões de freios ABS. Para chegar nas motos foi uma questão de poucos meses de desenvolvimento, por meio da BMW a primeira a incluir o sistema em motos de série. E começaram as confusões.

 

A primeira delas é acreditar que o ABS foi criado para reduzir os espaços de frenagem. Não é! Essa redução até pode se obter, mas porque sem as rodas bloqueadas os pneus podem oferecer maior capacidade de aderência e frenagem. Na verdade o ABS nasceu para permitir a frenagem em baixos coeficientes de aderência, sobretudo na neve, comum no hemisfério norte.

 

Nos primeiros carros com ABS houve até uma preocupação extra porque alguns motoristas estavam tão confiantes no sistema que deixavam para frear tarde demais e acabavam numa baita pancada. Hoje, com microprocessadores mais rápidos esse risco é bem menor.

 


 

Nas motos

Quando foi incorporado nas motos, a idéia original era apenas impedir que as rodas travassem em pisos de baixa aderência, especialmente sob chuva. A grande dificuldade das motos em relação aos carros é frear e desviar ao mesmo tempo. Pelas características de geometria da moto, quando o piloto freia e muda a trajetória ao mesmo tempo existe uma grande tendência de a moto perder aderência, porque toda a moto se inclina em relação ao eixo vertical. Com o piso molhado essa tendência é muito maior. Por isso a preocupação inicial era projetar um freio que não travasse, mesmo com a moto inclinada. Como se vê, o plano original não era reduzir o espaço de frenagem

 

Como os trens e aviões deslizam sobre um piso perfeito, sem irregularidades, ao levar o ABS para carros e motos as fábricas perceberam um efeito colateral: em piso irregular o ABS fica “doido” e não consegue interpretar se a moto está freando ou pulando. Nas motos BMW de uso misto existe a possibilidade de desligar o ABS para rodar em pisos irregulares. Mesmo no asfalto, o sistema adotado pela BMW não se dá bem quando passa por irregularidades. Quando a BMW freia em “costelas” a alavanca e o pedal se abrem e pregam um belo susto no motociclista.

 


 

Por essas falhas no sistema e por não conseguir reduzir os espaços de frenagem, não se via o ABS em motos esportivas, nem em motos fora-de-estrada. Até que a Honda colocou seus engenheiros para fazer hora extra e apareceu com ótimas notícias. A primeira delas foi a CBR 1000RR Fireblade, primeira esportiva equipada com sistema ABS. A Honda conseguiu até algo impensável 20 anos atrás: um ABS que efetivamente reduz os espaços de frenagem.

 

Mais do que isso, conseguiu desenvolver um sistema viável para motos fora-de-estrada e de pequena cilindrada, junto com o sistema de frenagem combinada. Os dois estrearam no Brasil nos modelos CB 300R e XRE 300, lançadas em 2009. O que parecia impossível foi resolvido com a eletrônica. O ABS da XRE, por exemplo, consegue interpretar quando a moto está rodando em piso irregular e impede o travamento da roda até mesmo sobre cascalhos. E o mais difícil, com esse sistema combinado atuando nas duas rodas ao mesmo tempo pôde-se reduzir os espaços de frenagem tanto no asfalto quanto na terra. Na XRE 300 o ABS permanece sempre ligado, sem possibilidade de desligar.

 

Essa nova geração de ABS “inteligente” em motos pequenas pode abrir perspectivas para que em pouco tempo, a exemplo da injeção eletrônica, esteja presente em praticamente todas as motos produzidas em série.

 

Mas cuidado! Algumas das novas marcas que chegaram ao mercado brasileiro instalaram um sistema nos freios que equivocadamente chamam de “ABS”, mas que não passa de uma tremenda gambiarra. Na verdade ele é uma válvula de alívio da pressão hidráulica que desvia parte da força aplicada na manete, evitando o travamento da roda. Só que também evita a frenagem eficiente! O verdadeiro sistema anti-bloqueio é eletrônico e não mecânico!

publicado por motite às 04:47
link | comentar | favorito
37 comentários:
De motite a 23 de Junho de 2010
Alvarenga

Só um esclarecimento importante para quem está chegando agora:

MOTO NÃO É UM CARRO DE DUAS RODAS!!!

Carro é carro e moto é moto! Não se comparam tecnologias nestes veículos. O como foi bem lembrado, o ABS da picape atua apenas nas rodas traseiras para não matar o motorista do coração quando o carro está leve.
De Alvarenga a 23 de Junho de 2010
Tite, vou ter q descordar com vc denovo, sim, carro é carro e moto é moto, mas como vc deixou bem claro no seu post, ouve uma evolução do abs-e, dos trens/avioes/carros e finalmente motos, então uma tecnologia mecanica pode migrar tb, segundo roda travada em caminhonete leve dá um susto danado msm, E EM MOTO TB! Ñ tenho moto com abs-m e provavelmente nunca terei, no entanto se todas as tecnologias ñ forem tentadas e aperfeiçoadas o q seria das inovações "think outside the box". E me lembrei de um exemplo de algo arcaico q pode ter resultado surpreendente os freios a tambor das Munch Mammoth q foram aperfeiçoados até renderem tão bem qt um a disco, e mais atualmente a suspenção traseira do novo mustang, ou p ficar em motos, da honda cb 1300, ambos com desing tido como arcáico e ineficiente mas que mostram ñ serem devido ao desenvolvimento que tiveram.
De The Crow a 24 de Junho de 2010
...acredito que vc esta errado sobre a CB1300 (dos outros não tenho informação), uma das reclamações que tenho ouvido sobre a CB1300 é justamente sua suspensão BI-SHOCK que não é tão eficiente com uma moto de link, embora seja um sistema de ultima geração, ainda não é tão progressiva quanto a outra.

É como comprar um carro 2010 com aquelas rodas de ferro preta, vc olha e vê que tem algo destoando do conjunto... motor bom, torque perfeito, cambio perfeito, pintura linda (a mais bonita que já vi), o quadro não é dos melhores e quando vc olha a suspensão traseira!!! PUTZ que merda, mola de CG numa moto dessas... vou de Hornet...rsrsrs. ta certo que ali é a nitrogenio e tal com muita tecnologia... mas não dá... é um CD com o tamanho de um vinil.
De Alvarenga a 25 de Junho de 2010
Nunca andei nela, só citei baseado no relato do Tite http://motite.blogs.sapo.pt/75382.html , que para mim é um relato de quem conhece e é idôneo, (inclusive por achá-lo idôneo que postei meu primeiro comentário).
De Diomar Rockenbach a 24 de Junho de 2010
Cara, para com isso, não tem como uma "coisa" dessas evoluir. Como já disse, não tem como ter eficiência garantida sem analisar o fatores clima, piso, etc. O ABS-E analisa o piso, como o tite explicou, e sabe que está rodando em piso irregular. Ele não simplesmente alivia a pressão excessiva, mas evita que a roda trave. Então se você estiver andando em cima da grama molhada com sabão e tentar freiar com ABS-E esquece, por que não vai adiantar, por que não tem como freiar numa cituação dessas, ele vai reduzir o que der, mas não vai travar a roda. E agora com o ABS-M, o que aconteceria?
É claro que isso é uma situação absurda, mas é só pra mostrar que o ABS-M nunca será eficiente por esse motivo, não considera nenhum fator extra a não ser a pressão exercida no manete.
A cituação que citei pode não acontecer, mas tu pode estar em uma rua cheia de areia, pedrinhas, água, óleo, e qualquer coisa que prejudique a aderência, e consequentemente a frenagem, e o ABS-M não adiantara de nada, pois só funciona a partir de uma certa pressão, e como em uma caso desses a pressão para travar a roda pode ser mínima, o ABS-M vai passar despercebido. Já com o ABS-E a roda não travará, e só vai reduzir o que realmente é possível. Se for pra bater, vai bater, não faz milagre.
Já em uma situação de boa aderência, quem garante que ele não pode fazer o contrário, entrar em ação antes do necessário, prejudicando a frenagem?

Comentar post

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.Procura aqui

.Junho 2024

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Prostatite final – Amor e...

. Prostatite parte 10: a vo...

. Prostatite 9: uma separaç...

. Prostatite parte 8 - A f...

. Prostatite parte 7: Começ...

. Prostatite parte 6: a hor...

. Prostatite 5: Sex and the...

. Prostatite 4: você tem me...

. Prostatite 3: então, qual...

. Prostatite parte 2: sobre...

.arquivos

. Junho 2024

. Fevereiro 2024

. Janeiro 2024

. Dezembro 2023

. Novembro 2023

. Outubro 2023

. Julho 2023

. Maio 2023

. Janeiro 2023

. Novembro 2022

. Agosto 2022

. Julho 2022

. Junho 2022

. Maio 2022

. Janeiro 2022

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Outubro 2021

. Agosto 2021

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Julho 2019

. Junho 2019

. Março 2019

. Junho 2018

. Abril 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds