Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Viver ou morrer do turismo

(Essa paisagem combina com música alta? Foto: Tite)

 

Desde o longínquo ano de 1981 escrevo (e fotografo) sobre turismo. Já viajei muito pelo Brasil e exterior, além de pesquisar muito o assunto. Por isso foi com uma profunda tristeza que vi uma transformação muito grande no meu paraíso, onde há 17 anos tiro minha religiosa semana de férias: a Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro.

 

Minha primeira visita à Ilha Grande foi em 1992, ainda na época do presídio ativo, mas passei apenas um dia em Abrahão. Lembro que tive a mesma sensação de quando conheci Ilhabela, no litoral norte de São Paulo em 1966. Algo selvagem, preservado, puro, intacto e com uma natureza tão exuberante que podia sentir a existência de Deus naquelas paisagens.

 

A ingenuidade da Ilhabela começou a ruir quando retiraram os pequenos barcos que faziam o transporte de passageiros e impuseram o burro, poluente, barulhento, caro e infernal ônibus. Claro que teve uma mãozinha das companhias de transporte e seus lobbies maquiavélicos. A partir de 1983 parei de frequentar a Ilhabela, por isso fiquei tão feliz ao descobrir a Ilha Grande, com a mesma ingenuidade natural que conheci aos 7 anos de idade, ao atravessar o canal de São Sebastião.

 

(Vila do Abrahão: muita caca de cachorro nas ruas. Foto: Tite)

 

Nos últimos quatro anos, por motivos diferentes, deixei de passar minhas férias na Ilha Grande e esse jejum terminou uma semana atrás. E foi com uma preocupante tristeza que percebi uma mudança perigosa: acabou a ingenuidade. O turismo virou a fonte de renda e será o algoz de mudanças ainda mais profundas na estrutura social e natural na Ilha Grande.

 

Longe de querer implantar uma espécie de “reserva de mercado” naquele paraíso, sou favorável a uma interferência radical urgente na prática do turismo na Ilha Grande. Não precisamos chegar ao ponto de um regime quase militar praticado na ilha Fernando de Noronha, mas não posso acreditar que a exploração comercial do turismo como está sendo feita hoje manterá a Ilha Grande longe de grandes problemas ambientais e estruturais.

 

(Esse paraíso não deve ser agredido. Foto: Tite)

 

Só pra ficar em um exemplo bem simples e visível, algumas trilhas estão em processo perigoso de erosão e precisam ser fechadas imediatamente sob risco de um deslizamento provocar grandes deslocamentos de terra. No caminho de Abrahão para Dois Rios, um passeio muito fácil e feito por uma estrada usada até por caminhões, existem dois atalhos abertos na mata. Estes dois atalhos precisam ser fechados porque o processo de erosão já está tão grande que só fechar não será suficiente para conter. O indicado lá – e em outras trilhas – seria fazer degraus tanto para facilitar a caminhada (e evitar abertura de mais e mais trilhas) quanto para reduzir a velocidade de escoamento das águas.

 

Viver ou morrer do turismo?

O turismo beneficia muita gente. Isso é inegável, mas jamais pode ser visto como um “mal necessário” e sim como “um bem a ser controlado”. O que vi nesta recente visita à Ilha Grande foi uma concorrência exagerada por pequenas fatias. É a história do pipoqueiro que começa a se dar bem na porta do cinema e uma semana depois tem uma dúzia de pipoqueiros, cada um ganhando menos e brigando, literalmente, por quirelas.

 

A Secretaria de Turismo de Angra dos Reis precisa olhar com muita atenção e cuidado para esse assunto antes que perca o controle da situação. Vamos lembrar que a administração pública no Lisarb funciona ao contrário do resto do mundo. Aqui primeiro é preciso chegar ao caos absoluto para depois tentar implantar o controle.

 

(Caxadaço: colocar um barco enorme aqui é um crime! Foto: Tite)

 

Viver do turismo significa mais do que só oferecer guia, refeição, passeios e pousadas. É preciso respeitar o turista, o ambiente e saber se mimetizar na paisagem e não se sobressair nela. Quem ensinou aos barqueiros que todo mundo gosta de música alta? Quem disse que música é para qualquer ocasião? Será que nenhuma pessoa nesse mundo consegue convencer que um santuário ecológico não combina com Rappa tocado a 130 decibéis? Dentro do barco já tem o ronco do motor, com o som alto ninguém consegue nem sequer conversar sem ser aos berros.

 

Qualquer pessoa com um pouco de relacionamento artístico com a música se sente agredido quando o som é de má qualidade e a seleção musical é de péssimo gosto. Como adoram ventilar os membros do Orkut, “gosto é que nem c*, cada um tem o seu!”. Pra quê agradar muitos em troca do sofrimento de poucos? A melhor solução é deixar sem música e quem sentir falta espeta os fones de ouvido no MP3, no celular, no iPod e arrebenta os próprios tímpanos. Será por isso que nos aviões não existe música ambiente? Dããã, deixe que cada um escolha o que quer e se quer ouvir alguma coisa.

 

Imagine uma baía como o Caxadaço, na Ilha Grande, ponto de mergulho com variada vida marinha (tartarugas aos montes), um dos lugares mais preservados da Ilha, recebendo uma escuna de 120 metros, com 60 pessoas pulando de macarrão e máscaras! Ah, ao som de Rappa, claro. Bem alto! Eu aposto como em breve esta será uma região fechada às embarcações.


(Ilha Jorge Grego: point dos golfinhos. Foto: Tite)

 

É muito fácil atrair e agradar turistas:

 

1) Não trate todo mundo como uma coisa sem forma, sem personalidade. Agradar a qualquer custo pode desagradar uma parcela que comentará com outros e mais outros.

 

2) Respeite o que é natural, como os sons, cores e perfumes da natureza. Fumaça de cigarro e de óleo diesel não combinam com natureza.

 

3) Crie uma tabela única de preços e conceda descontos na baixa temporada. Da forma como são publicadas as tabelas, a impressão é de que na alta temporada todo mundo corre aumentar os preços!

 

4) Cobrar caro não é proibido, desde que seja recompensado com qualidade e gentileza. Turista é um ser que está longe de casa, até do país, por isso precisa ser recebido com gentileza. A pior sensação a um turista é a de ser explorado, como se o mundo fosse acabar depois da alta temporada!

 

5) Hemisférios diferentes, hábitos diferentes. Os operadores brasileiros precisam entender que hábito e cultura mudam que nem os ventos. Se na Itália, Argentina ou Alemanha todo mundo fuma como um turco no corredor da morte, aqui deve prevalecer a nossa legislação. Notei que muitos restaurantes, hotéis ou embarcações fazem vistas grossas aos estrangeiros que fumam.

 

6) Aprendam inglês e espanhol!!! É duro ver um guia brasileiro conversando em inglês macarrônico com um argentino! Miércoles! pode-se aprender espanhol em seis meses sem morrer de estudar. Mesmo que seja pra oferecer um “sorviete de moriango”.

 

7) Nessa época de “all friendly” as pousadas e serviços precisam se adaptar às pessoas com problemas de locomoção. Se alguém tiver de usar cadeira de rodas na Ilha Grande vai preferir ficar parado. As ruas e calçadas têm pavimentação muito ruim e desnivelada e a maioria das pousadas têm acesso aos quartos por... escadas!

 

8) Promovam mais as baixas temporadas. Há décadas inverti a tendência do cardume na piracema e deu super certo: praia no inverno e montanha no verão. Além de tudo mais vazio, os preços são melhores. E como um belo país tropical, quem está perto dos trópicos nem sofre com temperaturas extremas. Verão na montanha é mais fresquinho e dá até pra entrar na cachoeira. E inverno na praia ainda é quente, com a vantagem da água fria. Em suma, quem não gosta de arder como uma picanha na brasa, nem congelar como uma cerveja no freezer, basta nadar contra a correnteza e descobrir as delícias do clima ameno! Podem falar: coisa de velho!

 

9) Chamem os gringos! O turismo interno é importante, mas pra quem vive no hemisfério norte, 23ºC é calor infernal! Eles podem viajar o ano todo pro Rio de Janeiro que vão achar sempre “quente e exótico”. Conheci um alemão que vinha todos os anos pra Ilha Grande sempre no inverno, pra fugir do calor saariano do verão. Além disso, pra eles é tudo 1,5 vez mais barato por conta da moeda. Mas atenção: só porque o gringo gasta 100 paus por pessoa num jantar não significa que os brasileirinhos também pagam! R$ 100 = 40 euros!

 

(Verde até debaixo d'água! Foto: Tite)

 

A respeito de preços em geral, fica uma dica final: o que mais conquista um turista não é preço baixo, senão os albergues estariam lotados pelos próximos 15 anos. Na verdade turista gosta é de qualidade e atendimento! Eu até aceito pagar 40 Euros por pessoa em um jantar, desde que saia da mesa com a sensação de ter vivido uma experiência divina!

 

E chega, porque cansei de escrever!

publicado por motite às 19:56
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5 comentários:
De alexandre a 27 de Janeiro de 2010 às 21:02
perfeito!!! nao poderia ser de outra maneira, concordo em tudo que voce escreveu
De Octavio a 28 de Janeiro de 2010 às 01:27
Tite,
assino embaixo.
E, cara, que fotos!
Puuuuutas enquadramentos, belíssimas composições. Um banho pros olhos.
De klenio a 28 de Janeiro de 2010 às 02:38
Ilha Grande já era. Depois que tirarem toda a terra desmoronada, tudo pode voltar ao normal. Veja Angra dos Reis, o municipio onde está a ilha, como em todo BR, sofre do crescimeno desordenado. O centro de Angra parece Sao Conrado, bairro onde está a favela da rocinha.
De _paulo_ricardo_ a 29 de Janeiro de 2010 às 17:32
Acho que posso falar com certo conhecimento de causa...
Eu trabalho no melhor hotel de marília (mais caro também)... E já cansei de ouvir da nossa chefia que o nosso diferencial é o ATENDIMENTO, e o fato da maioria, no mínimo, arranhar o inglês..! Várias vezes, hóspedes que acharam as diárias caras, voltaram e se hospedaram conosco por causa do atendimento...

TUDO o que o Doc. falou está absolutamente correto!!...

Parabéns por mais um excelente texto...
De Abrahão a 12 de Fevereiro de 2010 às 16:10
Entendo essa sua indignação! Está acontecendo a mesma coisa com Jericoacoara, aqui no Ceará. Passei o reveillon de 2006 lá e fiquei profundamente triste. As pessoas jogando lixo no chão em um local daqueles, um caos total. Desde esse dia, nunca mais voltei lá. Sem vontade mesmo. E no dia que eu for a Jeri novamente, pode ter certeza que não vai ser em alta estação!

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