Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

A Hipótese, a tese e a antítese

(Tudo culpa dela...)

 

Quando a Honda lançou a CBR 1000 2008 no Brasil houve uma grande cachoalhada no mercado. Começaram a surgir problemas de consumo de óleo e até queima de óleo na câmara de combustão, que indicava algo, no mínimo, muito estranho. Coincidiu com uma fase que eu estava fora do circuito de teste das fábricas e não tive a chance de pilotar a moto, mas meus colegas da imprensa fizeram relatos bem estimulantes sobre a nova CBR.

 

A Honda sempre pautou suas esportivas para serem motos “pilotáveis”, com muita distribuição de força desde as baixas rotações e sem a “explosão” de potência em alta. Porém, a HRC – Honda Racing – oferecia um kit de potência que entregava tanta cavalaria que a marca faturou vários campeonatos de superbike pelo mundo, inclusive no Brasil com Gilson Scudeler. Quem quisesse uma CBR desfrutável mantinha-a original. Quem estava a fim de enrugar o asfalto metia o kit HRC e assim foi por anos.

 

Mas o marketing da velocidade máxima tomou conta dos motociclistas de cuca mole de todo mundo. A vontade de passar dos 300 km/h em 15 segundos virou febre a ponto de ninguém mais se importar de que forma a moto chega a esta velocidade ou se é capaz de dominar essa velocidade, mas se passa de 300 é boa! Basta entrar no Youtube para confirmar essa mania.

 

Isso obrigou a Honda a se adequar ao mercado e criou um motor mais potente, com mais rotação e entrega absurda de potência. Como não existe mágica em mecânica, ganha-se de um lado, mas perde-se em outro e aqui começaram os pepinos. E o pepino estourou em algumas unidades que consumiam óleo e soltavam fumaça pelo escapamento.

 

Quando li em uma comunidade do Orkut que era um “absurdo” uma moto consumir 1 litro de óleo a cada 1.000 km entrei na discussão e argumentei que não existe nada de “anormal” em um motor (note que escrevi “um motor” qualquer, genericamente) consumir 1 litro de óleo a cada 1.000 km e ainda citei alguns exemplos nos testes 24 Horas de motores que consumiram até 34% de óleo em menos de 1.000 km. Ora, não precisa ser um gênio da matemática pra saber que 34% de 3 litros é igual a 1 litro!!! E ainda formulei uma HIPÓTESE para esse consumo observado: na busca por mais rotação a Honda pode ter exagerado na (pouca) espessura dos anéis e a consequência tenha sido a passagem de óleo para a câmara de combustão. Tudo no condicional, uma vez que ainda não tinha pesquisado nada.

 

Pronto, bastou escrever uma HIPÓTESE para que todos os especialistas do Orkut acordassem. Curiosamente nenhum desses especialistas foi buscar uma explicação, mas todos sabiam que eu estava errado, louco, fumado maconha estragada, vendido a alma pra Honda, etc etc. E isso revelou uma face sinistra da personalidade dessas pessoas. Sempre olhei com muita suspeição essas hordas que defendem uma marca como se fosse uma religião. Pessoas que aceitam ofender Deus, mas vão à guerra quando criticam suas motos. É um claro atestado de desequilíbrio emocional, uma vez que nenhuma fábrica, nenhum produto e nenhuma religião é soberana. Sempre terá uma época, um modelo ou uma manifestação cultural que se sobrepõe em determinado tempo ou contexto.

 

Também me deixou impressionado ver que os especialistas do Orkut acham que os motores não consomem óleo!!! Como se toda quantidade de óleo colocada no cárter se mantivesse lá, cada gotinha, até a hora da troca! Inclusive em motores de competição! E eu que sou o louco maconheiro!!!

 

Além disso, os especialistas do Orkut, verdadeiros gênios da mecânica, ironizavam afirmando que teriam de levar litros de óleo na bagagem para uma viagem de 3.000 km. Quanta burrice!

 

Só para citar três testes de longa duração, a Suzuki GS 500, a Honda CG 150 e a Honda CB 300 consumiram cerca de 30% de óleo em 1.000 km. Nos três casos as fábricas consideraram o consumo NORMAL PARA O USO E AS CONDIÇÕES DO TESTE. Claro que os donos da nova CBR 1000 respeitaram os limites de amaciamento, rodaram sempre na boa e não passaram de giro. O primeiro dono de CBR 1000 que entrevistei admitiu que não esperou nem 500 km rodados para socar a mão e a moto consumiu 300 ML de óleo em 1.000 km, algo absolutamente normal.

 

A Tese

Graças a essa ensandecida paixão por algo inanimado como uma motocicleta, as pessoas mais revoltadas com minha hipótese foram curiosamente os donos de ... Suzuki! Sim, porque eles tinham acabado de ganhar de presente um motivo para zoar os donos de Honda, como se a Suzuki só produzisse verdadeiras maravilhas motorizadas. A moto que mais consumiu óleo em um teste de longa duração que participei foi uma... Suzuki!!! Com 33% de consumo em 947 km rodados. E os engenheiros da Suzuki do Japão mandaram um relatório afirmando ser um dado NORMAL, diante da exigência do teste. Será que eles também fumaram maconha estragada?

 

Obviamente incazzato com os gênios do Orkut, me retirei das comunidades e fui cuidar da minha vida. Afinal, como dizia Shakespeare, “não mais jogarei pérolas aos porcos”. Mas fiquei surpreso ao saber que o babado continuou – e continua até hoje! Então saí do campo da hipótese e parti pra TESE.

 

Com ajuda de um jornalista brasileiro, perguntamos para colegas na Itália, EUA, Espanha e consultei vários mecânicos. Para minha surpresa os dois jornalistas italianos e o americano desconheciam qualquer problema na CBR 2008. Já o espanhol foi mais irônico: “aqui na Espanha quando uma moto consome óleo a gente vai no posto e completa. No Brasil não é assim?”.

 

Já os mecânicos e preparadores finalmente deram uma resposta mais convincente. Em primeiro lugar houve sim um problema com os anéis em alguns lotes que chegaram no Brasil. Algumas concessionárias assumiram a troca no período de garantia, mas quem comprou a moto de importador independente teve de negociar a troca das peças (confesso que desconheço os trâmites legais para exigir garantia de produtos importados paralelamente). Alguns donos de CBR que conversei passaram a usar outra especificação de óleo e o problema reduziu a ponto de nem mexerem no motor. Finalmente, segundo um chefe de oficina de uma grande concessionária (que não quis se identificar) explicou que o problema foi levado para a matriz no Japão e solucionado. Ponto final. A minha tese corroborou a hipótese e pronto!

 

Se até hoje ainda me enchem o saco por causa dessa história é porque:

 

1)     No alto da ignorância que grassa nas comunidades do Orkut, os “especialistas” não sabem a diferença entre HIPÓTESE e TESE. Portanto, aqui está minha contribuição para aumentar o conhecimento destas bestas quadradas;

2)     O Orkut é um excelente fomentador de futilidades, porque ao entrar no campo do conhecimento profundo e técnico só aparecem idiotas dispostos a ironizar o que efetivamente é certo na tentativa de amenizar a própria limitação intelectual.

3)     Como diz o pára-choque de caminhão, “A inveja é uma merda” e nego se rasga de inveja por ser limitado como motociclista e mais incapaz ainda no campo da inteligência e tenta ofuscar quem se sobressai neste mundo de mediocridade.

4)     São incapazes de admitir que eu estava certo o tempo todo e usam esse episódio para esculhambar tudo que escrevo, até mesmo em um simples anúncio classificado!

 

Outro dado curioso desse espisódio é que tudo começou em uma comunidade da Suzuki!!! Que me acusavam de ser “Hondeiro”. É a primeira vez que vejo um caso de hondeiro que tinha duas motos Suzuki na garagem! É como afirmar que alguém é corintiano, mesmo vestindo a camisa do Palmeiras! E os moderadores da uma comunidade da Honda CBR 1000 tomaram a estúpida atitude de me expulsarem! Vejam como se processa a inversão de valores: quem está certo é expulso, afinal eu gritei “o rei está nu!”, mas quem estava errado continuou.

 

O sujeito compra uma moto com problemas e em vez de contratar um perito, acionar a Justiça e reaver o dinheiro investido ele briga COMIGO! Parece o caso do avião da TAM que se espatifou na avenida 23 de Maio e que levou pra cadeia o dono do puteiro local. Sim, afinal alguém tem de pagar por essa putaria toda.

 

Antítese

É assombroso como esse episódio tomou uma dimensão pandêmica e eterna. Encontro as pessoas na General Osório e comentam sobre esse assunto até hoje. Parei dois motociclistas de Bandit 650 do fórum Suzukionline e eles me despacharam depois de citar esse caso e ainda afirmaram “você é muito chato”. Incrível como uma HIPÓTESE foi capaz de provocar tamanha ANTÍTESE. Nesse caso, a palavra antítese nada tem a ver com a definição enciclopédica, mas digamos que é uma forma de ser “contra-tudo-que-o-Tite-escreve”. Se eu escrever que a Terra é redonda é capaz de nego contestar, afirmando que “não, seu burro inepto, ela é elíptica!”, dãããaã!

 

Por isso sobra pra mim a pecha de ser “o chato do Orkut”. Sim, porque chato é ensinar uma geração inteira, pesquisar, desenvolver e escrever um milhão de caracteres. Ser legal é nadar rio acima com o cardume, nesta inevitável piracema da ignorância.

 

publicado por motite às 02:21
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77 comentários:
De Yan a 14 de Janeiro de 2010 às 03:54
Tite, eu acompanho o seu blog a um tempo e gosto muito.

Mas na rodas que converso, quando comento coisas que leio aqui as pessoas fazem cara feia.

Alguns por que você fala mal de customs. Eu mesmo tenho uma Mirage que por sua avaliação é pior que uma Fazer (o que discordo), mas não entro em uma cruzada por isso, para mim a moto certa para uma pessoa é aquela que no primeiro olhar seu coração pula, te levar a onde você quer de forma confortavél, segura e feliz.

Mas outros comentam alguns epísodios menos afortunados da sua carreira. Um deles é em um teste que você diz que a Tornado tinha uma velocidade final de 168km/h e que tinha um velocidade final maior que a Twister, o que está nitidamente errado.

Mas esse epísodio da CBR 1000 já tinha lido e me pareceu plausivél sua afirmação na primeira vez. Se ela estava consumindo muito óleo, provavelmente era uma infiltrão em algum ponto, pois o óleo não ia desaparecer no ar. E num motor com 4 cilindros a moto consumir mais oleo é algo comum, mesmo as pequenas consomem um pouco, creio que numa moto com mais cilindros, mais partes moveis, mais pontos de possíveis infiltrações, isso não seja algo absurdo. Ainda mais que esses Spedeiros não respeitam muito o amacioamento onde as peças estão se ajustando e muitas vezes, forçam o motor, que não está completamente "encaixado".

Eu tenho uma predileção pelas motos da Yamaha pela estética, mas vejo porque devo imponho isso as pessoas, como parece a regra. Mesmo por que a Honda também tem a nova VFR 1000 que me agrada ( que nunca virá ao Brasil). Odeio quando leio frases como "sou fíel a honda", acho uma idiotisse, sou fíel só a minha namorada, a moto que me agradar mais eu compro, independente da marca, mesmo porque as diferenças são bem pequenas, todas tem pontos fortes e negativos não tem moto perfeta a todas necessidades, opsss talvez a Ducati MUltistrada...

Mas eu parei com essas discussões de internet pois não aguentava mais Twister X Fazer. São umas discussões idiotas, que se baseiam em coisas tão ibécis como, quem dá mais de final e ou Fazer perde para Twister, as pessoas não veem que no máximo 1% da vida da moto é em sua velocidade final, mas querem poder ficar falando que uma dá pau na outra.

Para mim esse não é o espírito motociclista e para mim pelo que leio diariamente você tem o espírito verdadeiro.
De motite a 14 de Janeiro de 2010 às 13:13
"para mim a moto certa para uma pessoa é aquela que no primeiro olhar seu coração pula, te levar a onde você quer de forma confortavél, segura e feliz."

Yan, vc deveria lapidar essa frase em mármore de carrara pq foi a melhor definição que li sobre a escolha da moto! Rapaz, vc deveria repetir isso pra todo mundo. Uma vez escrevi que a melhor moto do mundo é aquela estacionada na sua garagem.

Eu tenho nada contra custom, não, leia o teste da Boulevard 800 no Motonline pra ver que moto fantástica! Mas é um estilo que não faz minha cabeça. E quer saber? Nem as esportivas!!! Eu não gosto de esportiva.

Eu já expliquei o episódio da Tornado voadora, mas esqueci de relembrar. A velocidade era 153 km/h pq peguei um vento de popa de uns 90 km/h (e foi citado no texto). Só que na hora de digitar saiu 163 e o revisor não viu. Depois, na hora de escanear pra publicar no Motonline o programa OCR interpretou "3" como "8" e eu bem preguiçoso nem revisei. Como isso virou um caso nacional, acabou ficando assim mesmo por mais que eu tente retificar.

Mas uma correção: sim, a Tornado PODE ser mais veloz que Twister em determinadas situações, em função da relação final de transmissão mais curta. Ela explora melhor as rotações. Aliás, basta dizer que o motor 250cc 4 válvulas nasceu para equipar a XR 250 e depois foi ADAPTADO em uma moto street. Por isso as primeiras Twister eram cheias de problemas. Mas vai explicar isso prum hondeiro xiita!

Af, fico feliz por vc ser fiel à namorada, taí uma fidelidade que realmente revela o verdadeiro caráter!

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