Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Os textos, os testes e os testículos

(Capa da Baazzar brasileira: sempre uma socialite)

 

Graças ao post de ontem, lembrei de várias histórias hilárias e trágicas da minha jornada jornalística nestes últimos 30 anos. Hoje almocei com meu download-friend Octávio Tostes e lembrei de situações realmente ridículas do início da profissão. Só pra esclarecer, antes que pensem outra coisa, “download-friend” são amigos que conheci pela internet e depois se materializaram. Graças ao período do Motonline fiz vários amigos virtuais que se tornaram do mundo real.

 

O assunto foi o início da minha carreira como jornalista. Entrei na faculdade de jornalismo porque era a mais fácil de passar no vestibular. Bastava que o Tico e o Teco esbarrassem de vez em quando para que o candidato passasse no exame. Racionalmente eu jamais tinha pensado em fazer jornalismo e sonhava com engenharia!

 

Com seis meses de faculdade aconteceu uma série de coincidências que me faria virar um jornalista de verdade. Meu pai administrava uma sala de escritório na Avenida Faria Lima que estava alugada para a editora Baazzar, dona da revista de moda e comportamento chamada Baazzar. O editor era o genial publicitário e show-man Walter Arruda, na época marido da socialite Cinira Arruda.

 

O Walter tinha uma lábia absolutamente sedutora. Conseguia fazer de tudo para manter a revista, um projeto muito avançado para a época e que tinha na lista de colaboradores nomes como Plínio Cabral, Ruy Castro, Lourenço Diaféria, Wesley Duke Lee e o mitológico fotógrafo multimídia David Drew Zingg. Entre as artimanhas para conseguir publicidade, Walter Arruda ilustrava as capas com mulheres do high society paulista, especialmente esposas de banqueiros, industriais e outros bacanões. Quando a esposa era bonita, show, mas quando era um inominável bagulho dava um trabalho danado de retoque na época pré-photoshop!

 

Pois quando o aluguel da sala da Faria Lima já caminhava para o quarto mês de inadimplência meu pai foi lá, tentar um diálogo. Foi quando surgiu o assunto “filhos” e meu pai cometeu e ingenuidade de comentar que tinha um filho recém ingresso na faculdade de jornalismo. Foi aí que o Walter viu uma forma de adiar o despejo.

 

Ele me empregou naquela revista que seria equivalente hoje a uma Caras, mas com muito mais classe, estilo e cultura. Assim, a revista garantiu mais seis meses de permanência na sala, com um baita aval, claro, porque ninguém despejaria o chefe do filho! Até que a revista quebrou solenemente e a sala foi devolvida.

 

Muito mais que um estágio, o que ganhei naqueles seis meses foi tudo que uma faculdade de jornalismo seria incapaz de me proporcionar. Tive os melhores professores ao lado, a começar pelo próprio Walter Arruda, dono de uma criatividade inigualável. Às vezes recebíamos a visita de pessoas ilustres, como o Carlos Miéle e o maluco do Walter afastava os móveis da redação, colocava um som bem alto e punha todo mundo pra dançar com os dois cantando. Quem resiste a um chefe desse?

 

 

 

(David Zingg, gênio, fotógrafo e professor)

 

 

Já o fotógrafo David Zingg foi o melhor professor de fotografia que qualquer jovem de 19 anos poderia ter. Quem pesquisar no Google vai descobrir que ele foi um dos principais fotógrafos do mundo e esteve seis meses ali, ao meu lado, pacientemente ensinando sobre profundidade de campo, enquadramento, bebidas exóticas e mulheres. Desprovido de ambição e absolutamente desencanado com as coisas das pessoas normais, um dia teve todo equipamento roubado. Vacilou em Salvador e perdeu tudo.

 

Chegou na redação, olhou pra mim e perguntou:

 

-- Jerry (ele me chamava de Jerry, porque era diminutivo de Gerald), cadê sua aquela máquina fotográfica?

 

Abri minha mochila, peguei uma insignificante Pentax K1000 com uma lente 50mm e fui entregando.

 

-- Mas David – argumentei – hoje você vai fazer o editorial principal de moda, man, é a matéria mais importante! Não prefere uma máquina melhor?

 

Passou a mão na máquina e foi esperar as modelos terminarem a produção. Descemos a Avenida Faria Lima, ele com minha modestíssima Pentax e eu com um rebatedor jogando luz no rosto das modelos. Ainda pensei “americano da p*** vamos ter de fazer tudo de novo, o Walter vai me matar...”

 

 

(Editorial de moda por David Zingg: simples e poético)

 

 

Dia seguinte chegaram os cromos na redação e lá fui eu, tremendo, olhar com o conta fio a imensa cagada que tínhamos feitos. Com uma câmera fajuta, sem motor-drive, só com uma lente de 50mm o David tinha feito um belíssimo editorial de moda, tão magnífico e poético que a parte mais difícil foi editar as fotos.

 

Depois ele sorriu de um jeito todo particular, tentando esconder as falhas entre os dentes, e bateu na minha cabeça:

 

- Viu, Jerry, quem faz a foto é o cara, não a máquina!

 

E foi dormir debaixo da mesa, como sempre fazia depois do almoço!

 

(continua...)

 

(Valeu, Oc!)

 

 

publicado por motite às 01:40
link do post | favorito
De célio a 30 de Setembro de 2009 às 17:04
Bacana está hitória Tite. David é incrível!!
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