Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Contos descontados - La vendetta

 

(Trento, tem uma mulher lá que não gosta de brasileiro! Foto: italianvisit.com)

 

Trento é uma cidade ao norte da Itália que ficou famosa por ter recebido o “Concílio de Trento”, uma espécie de padronização das missas católicas. Essa foi uma das perguntas que mais caiu em vestibulares, portanto, se você é um vestibulando, saiba que Trento só serviu como sede do 19º concílio. O resto você vê o Google.
 
Também foi lá que estive, nocomeço dos anos 90, em viagem com minhas filhas, apenas com a intenção de pernoitar, vindo da Áustria, para seguir à Firenze no dia seguinte. Como sempre durante essas viagens econômicas, saíamos para fazer compras em quitandas, supermercados, padarias e preparávamos nossa ceia na cozinha dos albergues. Isso representava uma imensa economia ao final de uma viagem de 30 dias!
 
Quando paramos em frente às lindas frutas e verduras em uma dessas quitandas fui logo separando a provisão. Assim que encostei no primeiro tomate a dona da quitanda veio correndo, aos berros, mandando tirar a mão!
 
Mesmo criado por mãe, tias e avó italianas me assustei com a forma agressiva e violenta que a mulher avançou. Minha filha mais nova pôs-se a chorar imediatamente. Em seguida a senhora se acalmou e explicou:
 
- Deixa que eu mesmo pego, não precisa colocar suas mãos nas minhas verduras!
 
Pelo lado da higiene, a escandalosa senhora estava certíssima. Aliás, saiba que na Europa é quase um pecado venial ficar escolhendo frutas e verduras, tarefa que deve ser creditada apenas e tão somente ao funcionário da quitanda. Muito diferente do Brasil, onde a gente mete a mão em tudo, aperta, cheira, lambe, corta um pedaço, experimenta, regateia o preço e só então coloca na sacola e vai embora. Os europeus tratam UM tomate como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, talvez explique o nome, em italiano, ser pomodoro, ou “pomo de ouro”.
 
Mas a forma como a velha avançou que nem um pitbull magoado não só me chocou, mas fez brotar uma raiva, com uma certa dose de sede de vingança. Só não sabia como. Até que ela notou que falávamos português...
 
Como todo italiano que identifica um brasileiro, ela veio com o mesmo papo “tenho uma filha (sobrinha, neto, tio, irmão, qualquer parente) que mora no Brasil!”. Dá vontade de responder:
 
- Grande coisa, por isso o Brasil é daquele jeito!
 
Enquanto ela colocava tomates, queijo e uns fungos secos no pacote continuou o assunto:
 
- Minha filha mora em São Paulo!
 
Pensei: “sim, cara mia, de cada cinco paulistanos três são filhos de imigrantes italianos”. Mas continuei calado, ruminando a raiva. Só tive força pra responder:
 
- É, eu também moro em São Paulo!
 
Pronto, ela desandou a revelar toda a árvore genealógica, desde Júlio César. Até que me entregou, de bandeja, a vingança prontinha ao falar que a filha trabalhava na Olivetti, morava nos “giardini” e se chamava Paola Franchinni (ou qualquer coisa parecida). O nome nem lembro mais, mas era o combustível que precisava para vendetta. Olhei bem pra cara dela, imaginei uma mulher com 25 a menos, cor de olho, estatura, cabelo e dei corda:
 
- Ah, sim, conheço! Eu conheço todo mundo que trabalha na Olivetti. Sou jornalista e estou sempre entrevistando os executivos! Ela não é casada com um brasileiro, o...
 
- Carlo! O nome dele é Carlo, puxa vida! Que coincidência, que mondo pequeno... blá, blá, blá...
 
- Sim, então, mas eu não tenho boas notícias! Ela perdeu o emprego faz dois anos, se separou do marido e hoje trabalha apenas como... bem, como posso explicar, ela é... bem, a senhora sabe... que trabalha na noite...
 
E a mulher abrindo a boca, tentando me interromper:
 
- Non é possível! Ela está bem de vida, formada, bem casada, tem um belo apartamento, deve ser outra pessoa!
 
- Não, não. Paola Franchinni, hoje é mais conhecida como Paloma, sim tem um belo apartamento e ganha muito bem, porque ela é uma... (cobri os ouvidos da minha filha pequena e olhei para os dois lados antes de sussurrar) putana!
 
Quando virei as costas para ir embora anda consegui ouvir os gritos vindo do fundo da quitanda:
 
- Desgraçado, mentiroso, brasiliano de m****!!!

 

 

publicado por motite às 16:46
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9 comentários:
De Paulo Ricardo a 3 de Janeiro de 2009 às 00:11
oloco tite, quanta maldade nesse coração...
Essa foi "A" vingança, a italiana,hoje, deve ficar "putana" da vida quando ouve falar em Brasil, ou brasileiros.

De Mário Sérgio Figueredo a 3 de Janeiro de 2009 às 01:34
Pãtz, Tite! Depois dessa quero morrer seu amigo.

Carácoles, vai ser maldoso assim lá em Trento. Como diria do Gavião Bueno, foi usada força desproporcional na sua "vendetta". Dom Corleone até parece um santo perto desse seu coração gélido.

Mas que dei boas risadas, isso é vero.

Abraços
De motite a 3 de Janeiro de 2009 às 14:03
Eu não seria tão maldoso se a véia fosse mais educada... o jeito que ela avançou em mim merecia coisa pior, kkk

E vem aí "La vendetta 2", essa no Brasil mesmo!
De nishimura (do Japão) a 4 de Janeiro de 2009 às 01:50
Karakas! Preciso de algumas aulas contigo! Vc não imagina como já fomos discriminados em vários estabelecimentos daqui do Japão! Dizem que vingança é um prato que se serve frio, mas serví-la quentinha também dá uma grande satisfação!
De edu di lascio a 4 de Janeiro de 2009 às 15:51
Cara, o brasileiro pode ser tudo, mas em geral não é amargo como saõ os italianos ou os portugueses (que me perdoem). Por isso nunca pensei em sair daqui de vez.
Um puta abraço e bom ano p vc e a família Tite..
De Vinicius Vedovatto a 5 de Janeiro de 2009 às 15:06
Toma cuidado, italiana joga praga...
E PEGA!!!

Pessoal de casa são tudo mussarela tambem, orra, se alguem de fora que não conhece se ver a gente conversando no almoço deve achar que vai sair uma pancadaria.

Tenho 2 tias que moram juntas na mesma casa em São Carlos, quando eu era pequeno passei uns dias lá, no primeiro dia fiquei com medo rsrsrsrs elas até chingavam a minha avó rsrsrs
De Rodrigo, o ex-vizinho mala a 7 de Janeiro de 2009 às 13:06
Caro ex-vizinho, por falar em vendetta, porcas misérias, maledettas vecchias e etc...

Você sabe que eu sou bisneto de italianas (mãe da minha avó e mãe de meu avô). Ainda posso requerer a cidadania italiana ou "lascou-se, não tem jeito, e como no meu caso nem a portuguesa dá, vou ter que tentar a japonesa", já que minha árvore genealógica não me ajuda em absolutamente nada?
De motite a 7 de Janeiro de 2009 às 13:56
Powm tenta cidadania de índio: japonês+italiano+português = índio!
De Rodrigo, o ex-vizinho mala a 7 de Janeiro de 2009 às 17:39
Índio? Quem vai ter que pedir cota para entrar em faculdade pública ou de índio serão meus futuros filhos, afinal, a minha esposa é neta de portugueses por parte de pai, de índios, negros e portugueses por parte de mãe... Bom, você conhece a gente e já deve ter imaginado a mistura que vai dar...

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