Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Pilotagem na chuva - Parte I

(Ah se minha moto aquaplanasse! Foto: www.motogp.com

Com o calor chegam as chuvas de verão, daquelas que molham até a alma! 

O céu fica repentinamente negro. As nuvens vão tomando todo espaço que horas atrás era um lindo azul celeste. Surgem os primeiros raios e aqueles enormes pingos de chuva que batem na pele como se fossem agulhas. Se­gundos depois, a acupuntura facial é total: está de­sabando o mundo sob sua cabeça. Um toró daqueles que duram o suficiente para ensopar o moto­ciclista até a cueca. Mais tarde, quando pára em um posto de gasolina abre a mochila para pegar uma muda de roupa seca e vem a surpresa: todas as roupas es­tão molhadas e não há nada seco para ves­tir.
Logo depois chega no mesmo posto um piloto equipado com abri­go de chuva, luvas e botas. Ele pára, abre a mochila, retira um saco plástico cheio de rou­pas e oferece uma malha seca ao ensopado colega. Além de uma nova amizade, o primeiro mo­tociclista ganhou uma lição que lhe será útil em todas as viagens que fizer a partir dessa experiência. Para começar, nada é mais bem-vindo na hora da chuva do que uma... capa de chuva, que pode ser um caro e sofisticado artigo importado, feito do mais moderno material interplanetário, ou uma prosaica, barata e simples capa de plástico. Como o motociclista pode en­contrar desde uma garoa fina até uma tempes­tade diluviana, é melhor estar bem preparado para tudo.
 
Antes da chuva
Motociclista prevenido sempre anda com um abrigo de chuva por perto, principalmente durante os períodos das chamadas estações chuvosas, que variam de acordo com cada região. Para aqueles que vão enfrentar es­trada durante o período de alto índice pluviométrico, podem se preparar antes mesmo de a chuva cair, começan­do pela forma de armazenar suas bagagens na mochila.            .
Existe um provérbio que diz “nunca coloque todos os ovos numa mesma cesta”. Se quiser ser mais conjuntural pode dizer “nunca invista todo seu dinheiro na bolsa de valores”. Porque se a cesta - e a bolsa - caírem você estará perdido. Ao preparar a bagagem deve-se separar diversos montes de roupas e colocá-las em vários sacos plásticos (como os de lixo). Depois ponha tudo dentro de um sa­co plástico maior. Desta forma, se houver um vazamento, é pouco provável que molhe todas as roupas. O mesmo vale para equipamento fotográfico, documentos, dinheiro, enfim tudo deve estar devidamente embrulhado. Uma boa idéia é usar aqueles práticos plásticos tipo Zip-Loc com fecho hermético para guardar documentos, máquina fotográfica e telefone celular. 
O motociclista pode se proteger utilizando os equipamentos especialmente criados para rodar na chuva, mas também comple­mentar quando souber antecipadamente que terá muita água pela frente. As extremidades do corpo são as que mais sofrem. Tem na­da pior do que a sensação de estar com as bo­tas completamente encharcadas, en­trar em uma churrascaria e ficar todo mundo olhan­do aquele ser vestido como se fosse uma imensa camisinha e fazen­do “chap-chap” enquanto caminha. As velhas ga­lochas de borracha são totalmente à prova d’água mas não protegem do frio nem de escoriações em acidentes. Aí vem um dos macetes adquiridos depois de muitas chuvas: antes de vestir as galochas recheie o interior com jornal. Aliás, o jornal também ser­ve para tampar eventuais vazamentos no abri­go (viu porque a Internet nunca vai substituir a mídia impressa?).
 
(É só uma chuvinha por cima...)
 
Outro macete é adotar as luvas de borracha, que as donas-de-casa (ou maridos bonzinhos) usam para lavar louças, por cima das luvas de couro. Estas luvas de borracha têm o punho mais longo e podem ser colocadas por cima do casaco para evitar a infiltração por dentro da manga.
 
 
(uma simples capa de chuva já ajuda. sim, este cabeludo sou eu mesmo em... 1983! Foto: Ray Knowles)
 
Em viagens, com ou sem chuva, o capace­te integral (fechado) é sempre mais aconselhá­vel, mas quando há chuva, a viseira costuma embaçar por dentro e a névoa de água espir­rada dos outros veículos suja por fora. Já existem produtos anti-embaçantes para passar por dentro da viseira, enquanto na parte de fora pode-se passar um lustra-móveis. Mas note que eu escrevi LUSTRA MÓVEIS e não óleo de peroba como alguns doidos varridos entenderam e saíram divulgando. O lustra móveis deve ser aplicado e retirado com algodão. A viseira ficará tão polida que a água não mais acumulará.
 
Pilotagem
A água é o mais antigo redutor de atrito que a Humanidade conhece. Por isso nos dias de chuva aumentam muito os acidentes de trânsito. Antes de mais nada, convém lembrar de que os primeiros minutos de chuva são os mais perigosos, porque a água se mistura com a terra, óleo e todo tipo de detrito que está no piso, formando uma pasta muito escorregadia. Depois de uma boa tempesta­de, o asfalto fica lavado e a aderência melho­ra. 
Na cidade existem algumas armadilhas escondidas sob a água. Por exemplo, os córregos que foram canalizados, e que depois de uma chuva forte transbordam, arrancando as tampas de bueiros e “bocas de lobo”. Sempre que o motociclista encontrar uma avenida co­berta de água, mesmo que de baixa profun­didade, convém mudar de caminho, ou espe­rar a água escoar um pouco, para evitar uma surpresa desagradável de sentir o chão sumir sob a roda dianteira. 
Um local que exige pilotagem cuidadosa é o pavimento de paralelepípedo, porque acumu­la muita terra entre as pedras, que já são na­turalmente escorregadias. O perigo aumenta nas subidas e descidas, e quando não for pos­sível evitar uma daquelas pirambeiras ensa­boadas, existe a opção de recorrer àquele espaço entre o asfalto e a sarjeta, se for de cimento, mas em veloci­dade bem reduzida. Eu já tive de fazer isso para descer uma terrível pirambeira no bairro da Pompéia, em São Paulo. 
Andando no trânsito, o motociclista precisa ficar duplamente atento aos carros que vão à frente e os que vêm de trás. Lembre-se que os espaços de frenagem aumentam em dobro no piso está molhado. Para os motociclistas urbanos uma dica extra: quando parar sob via­dutos, esperando a chuva passar, fique em ci­ma da calçada e nunca na rua, porque na chu­va a visibilidade diminui não apenas para os motociclistas, mas para os motoristas também. 
Na estrada existe a vantagem (ou desvan­tagem) de se perceber a chuva com uma cer­ta antecedência. O tempo vai ser diretamente relacionado com a direção em que o motoci­clista roda, se contra ou a favor das nuvens ne­gras. Pelo menos dá para se preparar para a tromba. A informação sobre os primeiros minutos de chuva também vale na estrada, que ainda tem o agravante de ser mais oleosa por causa da grande quantidade de caminhões e ônibus vazando óleo do motor. 
Para assegurar que a moto não sofrerá a aquaplanagem, ou seja, os sulcos dos pneus não são suficientes para deslocar a camada de água que existe sobre o asfalto, o motoci­clista deve trafegar em baixa velocidade e es­colher o lugar da pista onde passam os pneus dos carros, que geralmente tem menos água acumulada. Sempre guardando uma distância segura do veículo que vai à frente. 
Evidentemente os pneus devem estar em bom estado para quebrar a camada de água do piso. Para saber se os pneus estão cumprin­do o seu importante papel, evitando a aquapla­nagem. o motociclista pode consultar pelos es­pelhos retrovisores se aparece nitidamente a marca dos pneus no chão. Se houver interrup­ções, é sinal de que a moto está passando da velocidade segura.
 
Quando a terra vira lama
De repente, o asfalto acaba e aquela estrada de terra, transformou­-se em um imenso lamaçal. Se a moto for trail, o mo­tociclista está tranqüilo, mas se for street, o baião vai ser dureza.
 
 
(melhor do que resgatar matérias de 1983 é achar as fotos! Repare na Turuna sem o pára-lama dianteiro! Foto: Ray Knowles)
 
Para começar, os pára-lamas das motos street não foram dimensionados para supor­tar uma quantidade muito grande de barro, por­tanto a viagem será demorada porque o moto­ciclista terá que parar várias vezes para reti­rar a lama com um pedaço de pau. Ou então, retirar de uma vez o pára-lama dianteiro (que acumula mais lama) e enfrentar o barro bem devagar. 
A pilotagem na lama exige a delicadeza de um neurocirurgião e a calma de professor de cursinho. Deve-se evitar as frenagens e acelerações bruscas, e para fazer curvas e reco­mendável esticar a perna para o lado interno da curva para segurar possíveis derrapagens. 
Normalmente, em caso de chuvas fortes nas estradas de terra, formam-se enormes poças d'água, que podem esconder as mais variadas surpresas, desde um piso mais escorregadio do que o da estrada, até um enorme tronco de árvore ou um buraco escondido pela água. Quando se deparar com uma poça onde não seja possível ver o fundo, o mais segu­ro é descer da moto, dobrar a barra da calça e sondar o terreno com um galho de árvore.
 
(muito cuidado nas poças de lama! O cara da CG branca sou eu! foto: Ray Knowles)
 
Chuva noturna
Quando a chuva parece já estar aborrecen­do o suficiente, a noite cai e o motociclista des­cobre que nada é tão ruim que não pode piorar. Para começar, a visibilidade diminui mais ainda e a velocidade de cruzeiro deve ser me­nor. Para quem estiver com moto equipada com pisca-alerta, uma advertência/ameaça: por mais escuro que esteja, JAMAIS, NUNCA tra­fegue com o pisca-alerta ligado. Além de ser ilegal, os motoristas que vêm atrás podem achar que a moto está parada e provocar uma mudança de direção desnecessária e perigo­sa, já que normalmente os veículos parados em estradas devem estar no acostamento. 
Agora, se a chuva e a escuridão estiverem aborrecendo demais, pode ser que o motociclista passe por uma região serrana e encontre neblina, para trazer um pouco mais de aborrecimento (viu como tudo pode piorar?). Neste caso, o motociclista deve re­sistir à tentação e utilizar somente o farol baixo, porque o farol alto espalha o facho luminoso e provoca um véu branco, diminuindo e atrapalhando a visão da estrada. 
O melhor caminho a seguir é reduzir ainda mais a velocidade e procurar seguir as faixas limitadoras da estrada, se houver, sempre pelo lado direito da pista. 
Existem motociclistas que depois de passarem por estas situações não podem nem ou­vir falar em viajar com chuva, mas a cada nova experiência, que nem sempre é tão agradável, o motociclista passa a conhecer cada vez mais as suas possibilidades e limitações como piloto, além de conhecer ainda mais o seu veículo de duas rodas. São estas experiências que levam o motociclista a encarar uma viagem ou passeio de moto com mais segu­rança. A segurança de quem dificilmente será pego de surpresa por uma situação desco­nhecida.
LEIA A PARTE DOIS CLICANDO AQUI.
publicado por motite às 19:50
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10 comentários:
De Lucas a 4 de Novembro de 2008 às 02:04
Tite,

nesse video

http://www.youtube.com/watch?v=sfDvodpL5pM

o que o Capirossi deveria ter feito para evitar a queda depois que a traseira começou a deslizar?

Deveria ter soltado o freio traseiro mais devagar? Não ter acelerado? O que?

Grande abraço

De motite a 4 de Novembro de 2008 às 18:16
Depois que começou a deslizar já era... só a sorte para a moto recuperar a tração. às vezes um toquinho no freio traseiro ajuda a recuperar, mas essa escorregada foi muito rápida, não deu tempo nem de soltar da moto, por isso ele emigalhou os ossos da mão esquerda (de novo...)

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