Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Haja Arame

(Sem arame sou ninguém! Produção e foto: Mário Bock)

 

Mais uma pérola do baú! Achei esta crônica de fevereiro de 1986 que ficou de fora do O Mundo É Uma Roda por falta de espaço (ou esquecimento...). Nela eu cito alguns motociclistas que existiram mesmo, não foi inventado. O texto ainda é meio longo, sempre carregado de alguma lição de segurança porque naquela época as crônicas tinham a função de entreter, encher lingüiça (porque faltava moto pra teste) e servir como uma forma de ensinar alguma técnica de segurança de forma menos careta. Ah, nesta época os desmanches a que me refiro eram realmente um negócio oficial, que vendia motores com nota fiscal etc. Divirta-se e aguardem O Mundo É Uma Roda II.
 
Haja arame*
É fácil reconhecer um motociclista relaxado: basta olhar sua moto e as inúmeras soluções provisórias que, nela, serão definitivas.
 
Suas ferramentas são chave de fenda e martelo, além da “chave múltipla” (também conhecida co­mo alicate). Não gosta de levar a moto à oficina, preferindo fazer seus próprios consertos. Não liga para os acessórios de luxo, nem para os de segurança, seu capa­cete é aquele mesmo que ganhou numa rifa há mais de 10 anos e já foi utilizado como bola de futebol numa pelada de motociclistas em frente ao point de encon­tro. A moto? Bem, a moto... Houve época em que foi tratada com carinho e respeito mas agora, 73.497 quilômetros depois da compra, já não recebe muita atenção. Tu­do nela é provisório ("Quando tiver grana vou consertar") e fica definitivo. Os arames espalhados pela moto, se fossem alinha­dos, dariam para cercar um quintal e ainda sobrava. Sem exagero
 
Este é um tipo comum de ser encon­trado em turmas de motociclistas, em qual­quer lugar. São os relaxados e descuida­dos com a moto, os nacionalmente conhe­cidos como Quebra-Galho, Zé Talhadeira, Kid Sgaste e outros nomes. O fato é que ninguém consegue explicar o que leva al­guém a descuidar tanto de uma pobre e indefesa motocicleta.
 
O pior é quando acontece de existir mais de um deste tipo na mesma turma. Um compete com o outro para ver quem deixa a moto mais tempo sem lavar, sem colocar o parafuso que fixa o banco, sem desentortar o guidão e outros remendos.
 
Não se pode negar que estes tipos são imaginativos e verdadeiros inventores. Já se viu de tudo em termos de improvisação e remendos, desde um simples arame para prender o pára-lama até um fino trabalho de artesanato, com uma lâmina afiada para transformar um pneu careca em “meia­-vida”. Este último caso aconteceu com o piloto de competição Paulo Roncatti, co­nhecido como Cenoura. Ao ser flagrado por uma súbita tempestade em plena viagem de São Paulo ao Rio de Janei­ro, Cenoura não teve dúvidas: armou-se de uma lâmina de barbear e reverteu seu pneu slick de competição em pneu para chuva.
 
Escape de Fusca
Aliás, nas competições se encontram muitos destes tipos de motociclistas, que na hora da largada ainda estão dando os últimos retoques em sua moto, ou seja, ajustando bem os arames com um alicate de bico, para ter certeza de que nenhuma peça se soltará durante a corrida. Isto, sem falar na quantidade de fita crepe que é gasta num box para reunir frag­mentos do que antes era uma carenagem e, depois de um tombo, transformou-se num amontoado de cacos de fibra de vi­dro. Falta a braçadeira do filtro de ar? Não tem problema, basta um aramezinho aqui e umas voltas de fita crepe ali, e pronto, está montado um carburador sem qualquer va­zamento de ar. Quebrou um pedaço do coletor de admissão? Não esquente a ca­beça, um pouquinho de massa plástica re­solve, e assim vai...
 
Às vezes, é impossível imaginar como uma moto pode funcionar com tanto re­mendo. É o caso, por exemplo, de um motociclista que costumava freqüentar o bairro paulistano de Chácara Monte Ale­gre, na zona sul de São Paulo, proprietário de uma moto importada, ano 1972 (“veterana, quase de colecionador”), que já tinha sofrido tantas adaptações que era difícil dizer a marca, modelo e ano daquele monte de ferros amontoados em cima de duas rodas, pre­sos por arames e parafusos diversos. Na falta de parafusos iguais, a solução era contornada com uma furadeira (outra fer­ramenta preciosa nas mãos destes arte­sãos), ou “uma forçadinha na porca, que ela geme, mas vai”.
 
 
(Para quem acha minhas histórias tudo lorota, achei a foto da tal Yamaha AS3 misturada com RD 125. Note o escape... com ponteira de Fusca! Foto: Tite)
 
Recentemente, a moto ganhou um no­vo par de escapamentos dimensionados, que provocavam muito barulho e revolta entre os moradores vizinhos. Mas com uma política de boa vizinhança, o motoci­clista desenvolveu novas ponteiras abafa­doras, que nada mais eram do que dois silenciadores de um Fusca 1966, que esta­vam jogados na garagem. As ponteiras foram soldadas, como medida de segu­rança, mas não faltou o velho arame para dar confiança e não tirar a harmonia do conjunto.
 
Bendito desmanche
Essa moto, apesar de utilizar gasolina, conta com um sistema de partida a frio, que consiste em injetar um pouco de gaso­lina direto no cilindro, para pegar logo na primeira “pedalada”, nas manhãs de Inver­no, Verão, Primavera ou Outono.
 
Já ofereceram uma proposta de troca pela moto, mas não houve negócio. Não havia jeito de convencer o passional motociclista de que uma harmônica semi-nova valia a mesma coisa que aquela remenda­da Yamaha 125 AS3, com carburadores de RD 125, rodas e freios de Yamaha RD 200, guidão de Honda CB 400Four, banco feito sob encomenda com rabeta esportiva, pá­ra-lama dianteiro de fibra de vidro, tudo perfeitamente adaptado e preso por alguns quilômetros de arame. Não, definiti­vamente aquela troca não interessava, por mais que ele gostasse de música e harmô­nica.
 
Esta é uma característica interessante nestes motociclistas farpados: por mais escangalhada que esteja sua moto, ele ja­mais aceita trocá-la por qualquer outra coi­sa, nem vender, nem emprestar, nem nada.
 
- Moto igual à minha não vou encontrar em nenhum lugar! Ainda mais agora que troquei o óleo!
 
Uma grande contribuição aos motociclistas farpados foi o advento dos desman­ches. Agora ficou muito mais fácil encon­trar peças usadas para implantar à base de arame e massa plástica, dando seqüência a esta permanente arte de conduzir com um veículo de duas rodas completamente fora de condições de conservação.
 
Uma moto funciona sem velocímetro? Sem farol? Sem pára-lamas? Sem buzina? Sem anéis? Sem lonas de freio? Sim, se­nhores. Uma moto funciona sem tudo isso e até sem outras coisas consideradas im­portantes. A prova disso são as motocicle­tas que estão rodando por ai, nas mãos destes motociclistas. O que pa­ra os motociclistas mortais não passa de uma adaptação de emergência, como um parafuso para tampar um furo na cabeça do pistão, para estes motociclistas farpa­dos é uma solução definitiva. 
 
Xarley? 
 
No ano de 1976 em uma tur­ma de motoqueiros juvenis de Campo Be­lo, outro bairro paulistano, um jovem esta­va às voltas com um problema aparente­mente complicado e de difícil solução: ao montar o cabeçote de sua Honda 750Four, não utilizou um torquímetro (ferramenta que a força aplicada na porca ou parafuso) e empenou a peça. Não tinha saída, precisava de uma retífica, ou, aconselhado pelos outros co­legas, rebaixar de vez o cabeçote e melhorar o desempenho da moto. Mas onde rebaixar o cabeçote? Um torneiro mecâni­co iria cobrar muito caro, um preparador então, impraticável. Parados ali na sarjeta, descobriram a solução literalmente debai­xo de seus narizes. “Vamos rebaixar o ca­beçote raspando-o no cimento da guia”. Munidos de uma ferramenta in­dispensável nestes casos, o infalível olhô­metro, rasparam o cabeçote no chão até chegarem a um consenso. A improvisação durou por vários anos e teve até uma pas­sagem heróica pela pista de Interlagos.
 
Atualmente surgiu um espécime novo deste curioso tipo motociclístico, os adap­tadores de Harley Davidson. Não as 1200cc é claro, mas as extintas 125, mon­tadas pela Motovi. De posse do quadro desta moto, ou do que restou dele, alguns artistas conseguem instalar os mais varia­dos tipos de motor para fazer aquele mon­te de ferros continuar andando. Muitos motores de CG 125, Yamaha RX 125, Ya­maha RX 180 já adormeceram no quadro de berço esplêndido destas engenhocas. Teve até quem não fez por menos e criou uma Xarley, ou seja, quadro de Harley, combinado com tanque, banco e guidão de Honda XL 250R, chegando ao requinte de instalar uma suspensão traseira monoa­mortecida, com amortecedor de (pasme) Xispa, lembram-se dela?
 
O mais incrível é que estas motos resis­tem a todas as intempéries e continuam rodando com seus inseparáveis donos. Existe uma diferença brutal entre um pro­prietário de um automóvel caindo aos pe­daços e um motociclista-farpado. Os dois podem ser relaxados, mas naquela moto remendada com todo carinho só uma pes­soa no mundo consegue sentar o traseiro e rodar esbanjando status: o seu proprietá­rio. Afinal ninguém melhor que ele sabe com quantos arames se faz uma motocicleta!
 
*Texto publicado em fevereiro de 1986, foi mantida a redação original, mas bem que serve como uma luva para os atuais motoboys e suas remendadas motos!
publicado por motite às 12:34
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