Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Vida corrida – Contra-esterço é preciso*

 

(motos pesadas como a Suzuki GSX-R 600 exigem mais força para deitar. Foto: Pirelli)

 

Se existe uma técnica capaz de fundir a cabeça de qualquer motociclista é o contra-esterço. Trata-se de uma reação da Física aplicada e se eu começar a descrever essa ação em detalhes você vai dormir antes de terminar o primeiro parágrafo. Por isso vou resumir da seguinte forma: funciona!

 
No capítulo “Pilote nas coxas” (http://motite.blogs.sapo.pt/16163.html) mostrei como as pernas devem atuar para completar o clico frear-curvar-acelerar. As pernas devem fazer o serviço pesado da pilotagem, afinal são nas pernas que ficam os maiores, mais fortes e elásticos músculos do corpo humano (e das rãs e cangurus também...). Só que as pernas são muito boas para fazer força, mas não muito precisas.
 
Basta olhar atentamente para nosso corpo e as atividades que praticamos para entender que cada membro tem aplicações diferentes. As pernas fazem o trabalho de locomoção e força bruta, mas não são muito precisas. Já os membros superiores são menos fortes, porém muito mais precisos. Basta conferir como são os objetivos de dois esportes praticados com os diferentes membros. No futebol o gol tem 7,32 metros de largura por 2,44 metros de altura. Mesmo assim é difícil acertar um chute. Já no basquete, o gol é um pouco maior que a bola e a cada segundo algum jogador acerta um lance.
 
A explicação está na natureza humana: as mãos foram feitas para dar a precisão, enquanto os pés são responsáveis pela locomoção. Se ainda fôssemos macacos, nossos pés teriam a capacidade preênsil e poderíamos até descascar banana enquanto digitamos no teclado do computador. Mas, fazer o quê? O ser humano insistiu em evoluir!
 
O que é?
Antes de tudo, como diria Pablo Escobar “vamos separar bem as coisas”. Ainda existe uma multidão que teima em confundir carro com moto. Parece piada, mas a maioria dos motociclistas trata a moto como se fosse um carro de duas rodas. Inclusive alguns instrutores de pilotagem! O contra-esterço no automóvel é feito de forma diferente, tem uma função diferente e resposta diferente. No automóvel usa-se o contra-esterço para corrigir uma derrapagem de traseira. Nas competições de rali e de kart o contra-esterço também é usado para dar início à derrapagem controlada.
 
Na moto nós temos dois tipos de contra-esterço: aquele que serve para corrigir a derrapagem de traseira (veja o filme do Gary MacCoy) e outro para DIRECIONAR a moto durante toda a curva, desde a entrada até a saída. Mas o contra-esterço na moto tem uma aplicação que nenhum outro veículo pode usar: é a forma mais rápida, segura e precisa de desviar de um obstáculo.
 
Portanto temos as seguintes funções do contra-esterço nas motos:
 
Desviar de trajetória;
Direcionar a moto na curva;
Recolocar a moto de volta na posição vertical após a curva;
Corrigir derrapagem de traseira;
Recuperar a trajetória na curva;
Em competição também usa-se o contra-esterço para sair do vácuo rapidamente e ultrapassar um adversário.
 
De forma bem prosaica, o contra-esterço é uma reação da moto quando provocamos uma ação de desequilíbrio. Imagine a moto em linha reta, em velocidade constante. Quando o motociclista EMPURRA o guidão para um lado ela vira para o sentido contrário. Note bem que é EMPURRAR e não INCLINAR! Esse desvio é provocado porque a roda dianteira sai do alinhamento com a roda traseira e, na busca de retomar o equilíbrio, a moto gira no sentido contrário forçando o alinhamento. É uma aplicação da lei de Newton: “A cada ação corresponde uma reação de igual intensidade em sentido contrário”.
 
Mais importante do que tentar entender como isso se processa pela Física é saber usar da forma e na hora certa. Para aprender nada melhor do que treino, treino e mais treino. Faça o seguinte: pegue uma rua de trânsito calmo e mantenha cerca de 70 km/h. Então empurre o guidão para o lado esquerdo, forçando a manopla da mão direita. Imediatamente a moto mostrará uma reação que é virar para a direita. Treine bastante na reta, para os dois lados e só então vamos para a curva!
 
Precisão e sensibilidade
O contra-esterço é a técnica de inserir-se na curva de forma mais rápida e precisa. Para treinar faça a seguinte experiência: faça a curva normalmente como eu mencionei no capítulo “pilote nas coxas”. Quando estiver já inclinado dê uma pequena forçada no guidão para o lado contrário da curva. Imediatamente a moto seguirá mais para a parte interna. É muito útil quando o piloto entra forte demais na curva e percebe que a moto começa a querer “alargar” a curva. Basta uma leve empurrada no guidão para o lado externo da curva que a moto volta para a parte interna sem susto nenhum, nem força física. Faça essa experiência em baixa velocidade várias vezes.
 
Outra aplicação do contra-esterço e trazer a moto de volta para a posição vertical na saída de curva. Quando mais cedo o piloto conseguir deixar a moto em pé, mais cedo pode acelerar com vontade. Enquanto a moto estiver inclinada o piloto não pode acelerar forte sob risco de derrapar. Por isso é preciso levantar a moto o mais cedo possível e o contra-esterço é muito eficiente. Só que dessa vez o piloto empurra o guidão para o lado interno da curva. Ou se preferir, em vez de empurrar, o piloto pode puxar o guidão para si, na direção do corpo do motociclista. Essa técnica é tão sutil que basta parar de forçar o guidão para um dos lados que a moto imediatamente fica em pé!
 
Importante é frisar que uma técnica não elimina a outra. O piloto deve continuar fazendo a parte grossa da curva com as pernas, joelhos e pés, mas a sintonia fina é feita com as mãos.
 
Nunca me baseio em UM estilo de pilotagem, mas sempre na soma de várias tendências e conceitos. O meu professor de pilotagem, o tri-campeão mundial Fred Spencer, aconselha a usar mais as pernas nas curvas e deixar as mãos bem soltas no guidão. E justifica: como os pneus de competição se deterioram muito rápido é importante que o piloto sinta com muita precisão o comportamento do pneu dianteiro. Quando o piloto força demais as mãos no guidão ele perde a capacidade de julgamento do pneu dianteiro porque “endurece” as reações da moto.
 
Já o outro professor Keith Code, da Califórnia Racing School, diz que as motos devem ser pilotadas apenas no contra-esterço e justifica: hoje em dia quem fica menos tempo possível com a moto inclinada na curva pode frear mais tarde e acelerar mais cedo, que é a síntese da pilotagem eficiente. Para isso o contra-esterço é mais eficiente porque é a forma mais rápida que existe de fazer a moto inclinar e ficar em pé.
 
Qual dos dois está certo? Ambos, porque não existe UMA forma de pilotar, mas uma soma de várias situações nas quais uma técnica pode ser mais eficiente que outra. Na minha experiência de piloto tive a chance de pilotar motos leves de pneus finos e motos pesadas de pneus largos. Na 125 Especial, uma moto de 60 kg que usava pneu traseiro 130-17, usava praticamente só as mãos, porque era tão leve que uma joelhada no tanque, mesmo na reta, provocava um tremendo desequilíbrio. Já na Honda CBR 600RR, com seus quase 170 kg e pneus 190-17 eu usava muito a força nas pernas para ajudar a trazer a moto para o interior da curva.
(Na 125 especial é preciso usar mais as mãos para pilotar. Foto: Ademir Donini)
 
 
 
E mesmo assim, uma mesma moto pode exigir técnicas diferentes de acordo com o tipo de curva. Nas curvas de baixa velocidade, com a CBR 600 eu usava até os braços para abraçar o tanque e ajudar a deitar a moto na curva. E nas curvas de alta velocidade eu preferia ficar mais embutido na carenagem e fazer as curvas só com as mãos. O circuito de Interlagos é um bom exemplo: a mesma moto exige técnicas diferentes de acordo com a curva. A assustadora subida do Café, que entra na reta dos Boxes, eu prefiro fazer todo embutido na carenagem, controlando a inclinação apenas nas mãos. Já no Laranjinha eu praticamente amasso o tanque de tanta força que faço com o joelho esquerdo.
 
(Em alguns casos o piloto usa as pernas, mãos e braços! Foto: MotoGP.com)
 
Outras situações nas quais o contra-esterço é fundamental são em motos que não têm o tanque de gasolina para forçar o joelho, como os scooters, Honda Biz ou Yamaha Neo, ou ainda nas grandes e pesadas custom e cruisers como BMW e Harley-Davidson que têm as pedaleiras muito baixas e o uso das mãos ajuda a controlar o grau de inclinação.
 
Se você teve bicicleta na infância certamente usou o contra-esterço várias vezes sem perceber. Agora só falta subir na moto, procurar um lugar seguro e praticar. Sua vida nunca mais será a mesma!
 
(Para ver a derrapagem controlada do MacCoy basta acessar este link: http://br.youtube.com/watch?v=oAFB8LBCKEk)
 
+       +       +
 
*Quando Fernando Pessoa escreveu “Navegar é preciso. Viver não é preciso” a expressão “preciso” refere-se ao adjetivo exato, certo, rigoroso, com precisão. No entanto muita gente (principalmente os navegadores portugueses) atribuiu esta frase ao segundo sentido, do verbo precisar, necessitar, obrigar. O poeta quis dizer que a vida não é exata, nem precisa, mas aleatória, enquanto a navegação sim, é uma atividade com elevado rigor de precisão, senão o navegador se perde. Navegar é uma atividade precisa, enquanto viver não é tão exato. Contra-esterço é preciso, knee-down não é preciso! Hahaha, compliquei tudo!

 

 

publicado por motite às 20:22
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De Maurício Fontes a 24 de Outubro de 2008 às 21:37
Tite, deixo aqui o link de um vídeo que me ajudou muito no conceito de contra-esterço: http://www.youtube.com/watch?v=C848R9xWrjc&feature=PlayList&p=7CFEC57C9D52025B&index=6. Vídeo em inglês, sorry! Agora tire uma única dúvida Tite: existe força CENTRÍFUGA enquanto a moto inclina? Creio que não, mas muitos insistem em dizer que sim. Valeu!
De Anónimo a 22 de Maio de 2018 às 13:13
Força centrífuga existe para qualquer curva, pois essa força é natural de qualquer movimento circular.
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