Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

De olho no óleo seu zoiudo - Final

(Alguém pediu um pouco de óleo?) 

Nocividade

Por conter inúmeros produtos venenosos, carcinogênicos, tóxicos, irritantes e não é biodegradável, o óleo usado está automaticamente classificado como um “resíduo perigoso” e como tal tem de ser manipulado, escoado, recolhido, armazenado, tratado e utilizado de acordo com legislação específica. 

Além de ser um produto de elevado risco para a saúde, por contato com o corpo humano, o seu despejo na natureza constitui uma agressão ecológica violentíssima. Estudos eco-biológicos apontam que o contato de um óleo usado sobre o solo destrói a flora de tal forma que ela só se recompõe totalmente passados 15 anos. Os mesmos estudos indicam que o despejo de 5 litros de óleo usado sobre a água origina a formação de uma película oleosa com um diâmetro de cinco quilômetros. Os despejos nos esgotos provocam a inibição do sistema de depuração das estações de tratamento. 

Nos países desenvolvidos a forma tradicional de reutilização dos óleos usados tem sido a queima, aproveitando o seu excelente potencial energético. No entanto, a queima sem um pré-tratamento que retire as substâncias nocivas, só agrava o problema do impacto ambiental, pois é mais perigosa a poluição atmosférica do que a poluição dos solos e das águas devido ao despejo. 

O fato de, simultaneamente, o óleo usado ser um resíduo perigoso e ter um potencial econômico, coloca a questão da sua reutilização de uma forma que seja aceitável e possa contemplar as duas vertentes, a saber, o escoamento não nocivo e a contribuição para a poupança energética de uma forma rentável.

(Obter petróleo é cada vez mais caro e difícil)  

Historicamente, as atividades de recolha e de reutilização eram limitadas e dominadas por pequenos empresários sem preparação técnica nem meios para um eficaz tratamento e, em vários casos, com poucos escrúpulos. O mercado paralelo de recolha e reutilização (sem tratamento) dos óleos usados foi e é dominado pelos chamados “sucateiros” que recolhem e revendem o óleo usado para queima, como complemento da sua atividade principal, a sucata metálica. 

O incremento de vendas de lubrificantes nos hipermercados veio acentuar a tendência para a “auto-troca” (ou seria moto-troca?) por parte dos motociclistas, aumentando assim o risco de despejos na natureza. O atual quadro legislativo brasileiro impõe regras que obrigam os usuários de lubrificantes e enquadram as atividades de recolha, armazenagem e tratamento dos óleos usados, as quais só podem ser desenvolvidas por entidades licenciadas para estes efeitos. A violação destas regras é reprimida por um leque de multas, ao incluir a figura de “crime ecológico”, e prevê a pena de prisão para os responsáveis sem direito a fiança. 

As formas previstas para o destino dos óleos usados são a sua reutilização (como combustível ou como óleos base re-refinados) ou a incineração, todas tendo de cumprir regras químico-ecológicas definidas. 

Deveres do usuário

Quanto ao usuário individual ou coletivo de lubrificantes, é vedado qualquer despejo, sendo obrigatória a sua entrega a um recolhedor licenciado. O mais fácil é levar o óleo velho dentro da própria embalagem de óleo novo, ou uma garrafa pet, a um posto de gasolina que possua o serviço de troca. Lá, eles armazenam os resíduos para posterior reaproveitamento. 

• Reutilização como combustível: Esta é a forma clássica de reutilização dos óleos usados. Afim de o óleo usado ser aplicado para queima, ele é sujeito a um tratamento primário para extração da água e dos sedimentos. Essa prática é mais comum na Europa e Estados Unidos que usam óleo mineral para alimentar aquecedores caseiros ou usinas termo-eléstricas. 

• Re-refinação: Dado o elevado teor de hidrocarbonetos com cadeias moleculares dos óleos base, tem havido esforços esporádicos incentivados pelos governos de alguns países para a re-refinação e subseqüente re-incorporação das frações resultantes na composição de lubrificantes. Novas tecnologias de re-refinação têm sido desenvolvidas, com recursos a processos de tratamento com hidrogênio, propano e reagentes não-ácidos. Estes processos asseguram melhor qualidade dos derivados e formação de sub-produtos menos agressivos. No entanto, estes processos são onerosos e dificilmente amortizáveis e a sua implantação tem sido muito limitada. 

De uma forma geral, a re-refinação chegou a ter algum sucesso nos EUA e em alguns países europeus, sobretudo nas épocas das “crises de petróleo”. Há hoje uma retração no negócio, por envolver custos operacionais elevados que tornam esta atividade pouco competitiva face ao negócio dos óleos base virgens e, assim, está em retomada a tendência preferencial pela reutilização dos óleos usados como combustível. 

• Incineração: Esta via destrutiva é utilizada, sobretudo, quando se verifica a impossibilidade de reutilização devido à presença de certos tipos e níveis de contaminantes nocivos. 

Sopa de letras

As embalagens dos óleos trazem uma série de informações, algumas compreensíveis, outras totalmente enigmáticas. Vou resumir as principais delas. 

API (American Petroleum Institute), JASO (Japonese Automobile Standards Organization) e ACEA (Association des Constructeurs Européens d'Automobiles) são as três entidades licenciadoras de lubrificantes mais conhecidas para motos. 

A API classifica os seus níveis de performance para motores de ciclo Otto (a combustão por centelha) como S. Atualmente, o nível API mais elevado é o SJ. 

A ACEA determina a letra A para motores de ciclo Otto. Neste momento, o nível ACEA mais elevado para gasolina é A3. 

A JASO - Japanese Automobile Standards Organization - define especificação para a classificação de lubrificantes para motores dois tempos (FA, FB, e FC, em ordem crescente de desempenho). 

A viscosidade exprime a velocidade que um lubrificante flui a uma determinada temperatura. Trata-se de uma grandeza mensurável e expressa em unidades, das quais a mais utilizada é o Centistoke. Mas atenção! Não confunda viscosidade com índice de viscosidade. Viscosidade nada tem a ver com lubricidade, que é a capacidade de lubrificação. 

O índice de viscosidade exprime a maior ou menor variação relativa com que um lubrificante altera a viscosidade com a alteração da temperatura. Exprime-se através de um número calculado empiricamente e não apresenta unidades. Um lubrificante com maior índice de viscosidade que outro varia menos de viscosidade com a alteração da temperatura. 

Em todo o mundo as viscosidades dos lubrificantes são classificadas em graduações SAE (Society of Automotive Engineers) diferenciadas para motores e para transmissões. As classificações SAE distinguem limites diferentes para viscosidades a frio (número seguido da letra "W", de winter, inverno em inglês) e a quente. A tendência atual é para a utilização de lubrificantes multigraduados com limites a frio e a quente (por exemplo, SAE 15W-50 para motores). 

*Fontes consultadas: Agip do Brasil; Valvoline, Galp de Portugal

publicado por motite às 17:57
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Entidades

(Saci. Aquarela de André Toma )

 

Durante as viagens de carro com minhas filhas a gente ficava brincando que as pessoas na beira da estrada eram entidades. Tinha o “velho do saco”, que era um velho (não diga!) que sempre aparece na beira da estrada, com um saco de filó nas costas. Outro comum era o “cavaleiro errante”, que aparecia sempre nas noites de neblina, com um chapéu cobrindo o rosto e uma capa de lona sobre os ombros. Uma entidade interessante era a “caroneira”, mulher que fica com o dedão balançando pra frente, pedindo carona pra todo mundo. Essa inclusive é real e habita a Fernão Dias, entre Atibaia e Bragança, em São Paulo. Parece uma doida, chacoalhando o dedo e falando sozinha! Também tem as entidades coletivas, como a “família perdida”, composta por um casal de adultos e duas ou três crianças, sendo uma de colo e vários cachorros que peregrinam pelas estradas. O “ciclista perdido” fica pedalando uma Caloi Barraforte sem parar pelos acostamentos de terra.

 

Sempre prestei muita atenção a essas pessoas na estrada, talvez por ter uma alma de viajante sempre disposto a largar tudo e sair pelas estradas sem rumo. Mas de moto, claro, porque a pé nem a pau! 

 

Como toda entidade que se preza, nunca soubemos se elas existiam de fato ou eram fruto de nossa imaginação cansada de tanto asfalto e céu, céu e asfalto!

 

Mas no final dos anos 80 eu vi e fui uma entidade que mudou minha vida. Nunca contei essa história antes e só lembrei recentemente quando viajava de moto por uma estradinha de terra.

 

Em 1988 tentei criar uma área na qual minhas filhas pudessem crescer em contato com a natureza. Surgiu a chance de adquirir um pedaço de terra dentro de um condomínio rural em Paraibuna, na região do Vale do Paraíba, SP. Era pouco mais que um terreno na beira de uma represa, mas que nos proporcionou muita diversão e uma aversão vitalícia a carrapatos.

 

Coincidiu com a fase que fui patrocinado por uma revenda Agrale para correr no campeonato paulista de enduro de regularidade. E também com a fase que eu testava muitas motos para as revistas especializadas.

 

Por um descuido da minha parte fui escolhido para ser o tesoureiro do condomínio e tinha de visitar a área durante a semana para fiscalizar algumas obras. Nessas, eu aproveitava para unir o útil ao agradável. Dependendo da moto eu escolhia o tipo de estrada: reta de asfalto, ou cheia de curvas ou misto asfalto-terra com curvas. A minha preferida era sair de SP pela Rod. Trabalhadores, até Mogi das Cruzes e de lá pegar uma estrada sinuosa de afaslto até Salesópolis. De Salesópolis saía uma estradinha de terra de 30 km até Paraibuna, com uma serra maravilhosa, cheia de curvas e sempre vazia.

 

Essa estradinha de terra era minha pista de treino off-road. Entrava nela e cronometrava os trechos como se fosse um rali mesmo. Mão cravada no acelerador e bucha do começo ao fim. Passei tanto nela que decorei cada curva, reta, ponte etc. Nos trechos com casas e trânsito de animais eu reduzia e passava na boa. Depois era tamanco holandês: pau puro! A maior irresponsabilidade estava no fato de fazer isso sozinho. Na fase pré-celular se eu caísse em algum barranco só me achariam pelo acúmulo de urubus à volta.

 

Uma ocasião peguei a minha Yamaha XT 600 Ténéré equipada com pneus Pirelli Rallycross e entrei na estrada babando. Tinha chovido na noite anterior e o piso estava “al denti”, com uma aderência perfeita, nem muito liso, nem muito seco. Ótimo! Os pneus Rallycross nunca foram muito bem compreendidos pelos pilotos de enduro, mas eram ótimos para terra batida, bem melhores que o Garacross usados pela maioria. Mesmo no areião ele rendia bem. Só perdia no piso molhado e na lama.

 

Esta estrada de terra serpenteia a Serra do Mar, com belíssimas paisagens. Esconde alguns hotéis-fazenda, criações de avestruz e propriedades antigas. Em determinado trecho de reta a moto chegava a 140 km/h fácil, sambando no piso de areia. Ao final da reta uma curva à esquerda, em terceira marcha, com parede para escorar os pneus a acelerar. Uma delícia semelhante ao tubo para os surfistas.

 

Ao me aproximar do ponto de frenagem tive a impressão de ver uma criança negra apoiada na cerca de arame, com os olhos muito arregalados, como se tivesse vendo uma assombração. Tirei a mão, olhei pelo espelho e... nada! Não tinha ninguém. Reduzi mais ainda e virei todo o corpo e vi nitidamente que não tinha ninguém. Nem criança, nem adulto, nem animal, nada!

 

Intrigado, me desconcentrei e entrei na curva bem devagar. Aí foi minha vez de arregalar os olhos: no meio da estrada, brincando com uns caminhões de plástico estava uma criança de cerca de dois anos, cercada por dois cachorrinhos. Ela estava exatamente na trajetória que eu passaria se entrasse na curva como planejara. Meus joelhos amoleceram na hora. Parei a moto do lado dela, olhei em volta e via a porteira de uma casa aberta. Buzinei e uma moça saiu correndo, acompanhada de mais uma dúzia de cachorros!

 

- Olha, acho melhor levar a criança pra dentro e fechar a porteira!

 

A moça gritou, brigou com a criança e levou aquela comitiva de cachorro tudo pra dentro de casa.

 

Fiquei parado ali, por alguns segundos que pareceram horas, refazendo o que tinha acontecido. Não resisti e voltei pra ver se achava o negrinho da cerca, mas nada. Não havia nem sinal. Era uma entidade.

 

Já ouvi falar muito de Negrinho do Pastoreio, Saci, Curupira etc. Mas aquele “negrinho da cerca” eu não conhecia. Depois daquela curva passei a pilotar muito devagar até terminar a estrada e chegar o asfalto. A expressão de susto da entidade não saía da minha cabeça – e não sai até hoje – e atualmente já vejo esta entidade não mais como uma alma penada da beira da estrada, mas como um anjo. Porque se eu tivesse feito aquela curva como pretendia hoje eu poderia ter uma história muito mais triste para contar. Eu e a moça dos cachorros da estrada Paraibuna-Salesópolis.

 

Depois deste dia nunca mais treinei em estradas abertas. E minha carreira de piloto de enduro terminaria alguns meses depois por conta de um acidente que me deixou três meses engessado!   

 

publicado por motite às 01:04
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