Sábado, 20 de Setembro de 2008

O que não disse à Roberta Nunes

Quando escrevi que não existe esporte de risco, mas COMPORTAMENTO de risco estava me referindo à várias modalidades. A mais importante escaladora brasileira, Roberta Nunes, enfrentou vários riscos ao longo de sua vida de esportista. Ela escalava rochas de mais de 2.000 metros em condições péssimas de clima e vento. Subia as rochas da Patagônia com a tranqüilidade que levo minha cachorra pra passear. Abriu novas rotas de escalada no Groenlândia e certamente viu sua vida ameaçada em infinitas situações. Mas como uma escaladora de ponta que era, sabia dimensionar o risco e enfrentá-lo com serenidade e seriedade. 

Mas ela morreu. Aos 34 anos, em 18 de julho de 2006, aprendendo a dirigir um carro dentro do parque nacional de Yosemite. Ela não sabia e nem gostava de dirigir. Começou a aprender por insistência do namorado americano e acabou aceitando dirigir. Ela perdeu o controle do carro, que saiu da estrada, capotou em baixa velocidade, mas  teve a incrível falta de sorte de ser prensada contra uma pequena rocha. Depois de passar metade da vida enfrentando perigos reais e assustadores, ela morreu fazendo aquilo que qualquer cidadão adestrado consegue fazer. 
Na época da morte dela eu escrevi o texto que segue abaixo.
  
O que não disse à Roberta Nunes
 
(Roberta de grampo no cabelo) 
A revista Headwall n° 10 tem um artigo sobre o morro do Anhangava, em Curitiba, PR. Uma das páginas traz uma foto grande com uma escaladora. Desde que vi essa foto pela primeira vez fiquei impressionado, mas não sabia explicar exatamente o motivo. Não é uma foto assim tão difícil de ser feita, nem representa um esforço descomunal para vencer o crux da via. Mas sempre paro nesta foto e fico olhando, tentando decifrar o que tem de tão especial. É uma foto da Roberta Nunes. 
Depois que fui contaminado pelo bichinho da escalada passei a consumir o máximo de literatura sobre o assunto. Fiz até assinatura de uma revista alemã (Klettern), sem entender o que estava escrito! Passei a colecionar a Headwall e fico furioso se aparece alguma página manchada, puída ou com aquelas dobras que no ginásio a professora chamava de “orelhas”. Ganhei livros que não li e comprei outros que devorei. Sempre com cuidado para não me transformar num chato teórico, aquele que conhece todas as teorias, mas deixa a prática de lado. 
As imagens de escalada são sempre muito emocionantes. Lugares no mundo que dão uma vontade insana de pegar o primeiro avião e descer de tralha nas costas em busca daquelas montanhas. Sonho com as paredes francesas, italianas, alemãs e muitas brasileiras. Compro as revistas de escalada para “ver figurinha” e depois ler o que está escrito. Sou um fã silencioso de pessoas como Felipo Croso e Eliseu Frechou que à maneira deles mantêm (ou mantiveram) veículos para eu poder ver essas fotos. 
E foi na Headwall do abnegado Felipo que vi a foto da Roberta Nunes escalando o Anhangava. É uma imagem tão deliciosamente delicada que não consigo tirar da minha cabeça e sou capaz de narrar detalhes sem mesmo ver a imagem. Durante mais de um ano vi essa foto sem descobrir o que ela tem de tão especial. 
Durante um evento realizado em São Bento de Sapucaí (SP), acho que Blox, em 2005, eu entrei na sala da casa do Márcio Bruno e vi duas luzes acesas. Eram os olhos da Roberta Nunes. Passei por ela, ambos em silêncio, e fui até a cozinha cochichar no ouvido do Márcio: “Acho que conheço aquela mina ali, sentada no sofá, mas não sei de onde, quem é ela?” E o Márcio, com a sutileza de um estivador do cais de Santos, berrou a plenos pulmões: “É A ROBERTA NUNES!!!”. Só não morri de vergonha naquele instante porque consegui escapar pela porta dos fundos. 
Mais tarde, na festa Trance Dance discoteada pelo nosso DJ Máster Eliseu Pitton Head, fiquei observando a Roberta de longe. Minha timidez quase doentia me impedia de chegar perto e simplesmente dizer: “Olha, aquela foto sua na Headwall está linda”. Não sei como sobrevivi tantos anos como jornalista sendo tão tímido com pessoas estranhas, principalmente quando se trata de uma “celebridade”. Quando eu tive do fazer cobertura das corridas de Fórmula 1 quase entrava em pânico quando tinha de apontar um minigravador na direção de um piloto e fazer uma pergunta sobre carro, pneu, motor, chuva, sei lá! E fiz isso por mais de uma década. A cada entrevista meu coração pulava no peito como uma britadeira e minhas mãos suavam e tremiam de forma que o entrevistado imediatamente percebia. 
E lá estava a Roberta, sentada, quieta, enquanto um mundo de gente em volta concorria a um bingo, conversavam, e lá fora o trance rolava solto. 
Eu não falei que a foto dela estava linda. Não falei que os olhos dela eram lindos. E não falei que tinha visto uma palestra dela em Itajubá (MG), um ano antes, e ela parecia tão à vontade quanto um cavalo puro sangue de corrida puxando charrete em uma pracinha do interior. Muita gente se engana ao acreditar que grandes esportistas podem ser bons palestrantes ou bons professores. Fico imaginando o que aconteceria se o Guga tivesse de fazer uma palestra? E ele faz, claro, depois de vencer com muito esforço a timidez característica que é uma das marcas registradas dele. 
Não disse pra ela que tinha assistido a palestra de Itajubá. Nem debati aquela foto justamente com a pessoa que poderia me esclarecer finalmente o que tem de tão especial nessa imagem. E fui embora. Naquela noite fui embora e nem sequer falei “boa noite” para a Roberta Nunes. 
Mas cheguei em casa e abri de novo a revista naquela foto. Não tem nada demais tecnicamente. O fotógrafo (Márcio Bortolusso) usou uma teleobjetiva e enquadrou a Roberta de cima para baixo. A teleobjetiva tem a característica de “chapar” a imagem e reduzir a profundidade de campo. Por isso pessoas e objetos parecem “mais curtos” quando fotografados com tele. A Roberta está de lado, com o quadril formando uma curva bem delicada. Está com as duas mãos na mesma agarra. O rosto está bem voltado para cima, a testa franzida por causa do sol, mas, felizmente, os olhos estão bem visíveis. Para mim são verdes, mas já me falaram que são azuis e não ouso comentar cores. A boca está fazendo um bico engraçado, como se fosse dar um beijo, mas é aquela expressão típica de quem solta o ar. Ao contrário das fotos tradicionais de escalada, ela não está fazendo uma força absurda, por isso não há músculos definidos como se estivesse levantando uma geladeira. Parece que está se divertindo e serena como quem lê o jornal no café da manhã. 
Foi então que percebi o que tem de tão especial nessa foto: os grampos no cabelo. Sim, o corte de cabelo curto já deixava a Roberta com um ar bem infantil e o detalhe dos grampos abriu a resposta que estava procurando há mais de um ano! Era a expressão de uma criança brincando de escalar. 
Sei dos grandes feitos da Roberta como atleta da escalada, mas a imagem que gostaria que todo mundo que a admirava guardasse na memória não é da Roberta de capacete, ou forrada de casacos, ou com a cargueira cheia de equipamentos. Acho que nenhuma imagem pode traduzir melhor o prazer que ela sentia ao escalar do que a foto da fivelinha. Nunca mais vi a Roberta para dizer que finalmente tinha decifrado aquela foto. E, por não ter dito tudo, nunca mais vou poder dizer nada. 
Quem ficou curioso e quiser saber mais sobre a vida e os feitos da Roberta Nunes clique aqui: 
http://altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=501
publicado por motite às 00:09
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