Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Vida corrida - Erros & acertos

 

(alguém notou algo estranho nessa foto?)

 

Sempre que eu chegava de alguma corrida minha mãe perguntava:
 
- E aí, ganhou?
 
E eu invariavelmente respondia:
 
- Sim, ganhei experiência!
 
Essa é uma das maiores verdades do meu período como piloto de competição. O que mais ganhei nesses 22 anos foi a experiência que escola nenhuma seria capaz de oferecer. Como dizia Confúcio, “a sabedoria vem da experiência e a experiência vem dos erros que cometemos”.
 
Sem saber, ao dar aquela resposta tão simples pra diminuir a frustração da minha mãe (a maior torcedora de qualquer piloto) eu estava adotando uma filosofia de vida chamada pelos especialistas de positivismo. Que nada mais é que ver o lado positivo de todas as experiências de vida.
 
Eu mesmo costumo brincar com meus amigos e alunos porque tudo na vida é como uma pilha: sempre tem o lado positivo!
 
Quando conseguimos reverter as perdas em ganhos torna-se muito mais fácil adquirir experiência e, conseqüentemente a sabedoria.
 
No mundo das competições o erro faz parte de cada etapa de um final de semana. Desde a preparação do equipamento, da escolha dos integrantes da equipe, investimento, tudo é passível de erros e acertos. Segundo o ex-piloto tri-campeão mundial de Fórmula 1, Jackie Stewart, “ganha corrida quem erra menos”.
 
Curioso notar que ele não se referiu aos acertos, por exemplo: “ganha corrida quem acerta mais”, mas fixou-se nos erros. Isso é uma grande e inquestionável verdade, porque todo piloto comete vários erros ao longo de uma competição, desde um pequeno erro na frenagem que custa um ou dois décimos de segundo, até grandes erros como ultrapassar em um lugar impossível.
 
Grandes pilotos já cometeram erros que ficaram na história, inclusive outros esportistas. É muito interessante observar que todos os filmes sobre o Pelé trazem duas cenas que não terminaram em gol, mas que marcaram a carreira dele: os gols perdidos na Copa de 1970. Em um deles ele fez um corta-luz no goleiro, mas o chute saiu levemente errado e a bola não entrou. No outro ele chutou do meio de campo, encobriu o goleiro, mas a bola também não entrou. Acho que são os erros mais conhecidos da carreira dele. No entanto eu confesso que lembro poucos gols do Pelé com tanta clareza.
 
Quando repasso minha carreira a limpo lembro de um erro que se tornou uma imensa experiência. Sempre contei com uma verba bem reduzida e para correr fora de São Paulo precisava recorrer a amigos. Um emprestava o carro, outro dirigia (eu não tinha carta) e outro pagava o hotel etc. Por isso eu me empenhava muito mais para retribuir toda essa gentileza. Para correr em Bauru (SP) lá fui eu com minha restrita comitiva de amigos que acabavam fazendo papel de mecânicos, cronometristas, chefes de equipe e até bandeirinhas.
 
Durante a tomada de tempo eu não fui bem e larguei em oitavo. Logo na primeira volta passei alguns pilotos e me coloquei em sexto. Como os cinco primeiros recebiam troféus eu fazia questão de poder dividir a alegria de um troféu com os amigos e me esforçava para ficar entre os cinco primeiros. A pista era muito travada sem muitos pontos de ultrapassagem e eu ainda estava com uma relação muito curta, sem velocidade na reta. Tinha de passar só nas curvas. Estudei o quinto colocado por várias voltas e achei um ponto de ultrapassagem, mas não mostrei minha tática pra ele. Quando um piloto percebe um ponto de ultrapassagem não pode mostrar para o que está na frente, senão ele se defende. Tentei em várias outras curvas até ele esquecer DAQUELA curva. Dito e feito: meti o kart de lado e fui embora em quinto lugar, já com uma mão na taça!
 
Só que veio o primeiro erro. Quando colei no quarto colocado ele errou uma curva e tirei o pé, em vez de acelerar e passá-lo. Acabei sendo ultrapassado e caí pra sexto com vários pilotos querendo passar por cima de mim!
 
Pensei “ah não, não posso perder esse troféu” e colei de novo atrás do mesmo piloto que gastei um tempão pra ultrapassar. Aí cometi o segundo erro: fui passar naquele mesmo ponto. Obviamente que o piloto já estava esperando e me trancou. No kart quem bate por dentro da curva roda e o de fora da curva vai embora. Lá se foi meu troféu! Fiquei em 14º lugar sem marcar nem um ponto no campeonato!
 
Mas os ganhos que resultaram dessa perda foram imensos. Nunca mais eu tirei o pé do acelerador quando alguém rodava na minha frente e isso me fez ganhar várias posições em corridas futuras. A segunda lição que serviu pra toda minha carreira foi: não tente ultrapassar duas vezes o mesmo piloto no mesmo lugar. É preciso buscar um novo ponto de ultrapassagem porque naquele lugar ele sempre estará esperando.
 
(ganha corrida quem erra menos)
 
Um piloto pode até se permitir errar, afinal faz parte da natureza da competição, mas não pode ser recalcitrante, que é característica de quem insiste nos mesmos erros. Ou popularmente chamado de cabeça-dura.
 
No mundo corporativo eu vejo empresas e empresários que insistem nos mesmos erros ao longo de décadas. Um desses erros é acreditar no mais furado dos provérbios que já se criou: “Em time que está ganhando não se mexe”!
 
Isso é tão mentiroso que deveria fazer parte dos 10 pecados capitais. Nem no futebol isso funciona! Quem vive no mundo da competição sabe que não importa se os últimos resultados foram vitoriosos é preciso estar sempre mexendo e melhorando. Em competições, quem não evolui está, na verdade, andando pra trás. Independentemente do resultado que eu conseguia em uma corrida sempre ficava pesquisando se e onde podia dar uma melhoradinha. Um freio melhor regulado, rolamentos melhores, novos ajustes, polimento de peças do motor, qualquer pequeno cuidado na preparação pode melhorar o que já está bom.
 
Quando fui trabalhar na maior editora do Brasil vi que os diretores de redação e de arte se empenhavam em melhorar a revista a cada nova edição. Isso me deixava louco da vida, porque acabava de editar uma página e lá vinha um diretor mexer naquilo que eu achava bom. Não é por menos que as revistas desta editora são líderes de mercado, estão sempre melhorando.
 
Já nas editoras pequenas encontrei exatamente o inverso: uma incrível acomodação com a qualidade. A frase que mais ouvi nessas editoras menores era “pra que mexer, assim está dando certo?”. Esse pensamento não leva às vitórias, pode acreditar. Se quisesse dizer quais foram as maiores lições que aprendi nas pistas começaria por essas duas:
 
- Não cometa o mesmo erro duas vezes.
 
- Em time que está ganhando se mexe sim senhor!

 

publicado por motite às 16:17
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