Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013

Educação x formação x inteligência x cultura

 Escola não é a resposta para tudo! 

A eterna luta para descobrir como melhorar a convivência no trânsito. 

Ainda persiste o conceito equivocado que educação de trânsito dever ser matéria nas escolas desde o primeiro grau. Parece que a civilização moderna decidiu que a escola deve substituir toda ação educacional vinda da família e da sociedade. Como se colocar os filhos na escola resolvesse todos os problemas de formação, tanto intelectual quanto de caráter. 

Em uma conversa sobre trânsito percebi que as pessoas ainda confundem conceitos elementares e isso pode explicar porque tanto se discute, mas nada muda. Portanto, antes de mais nada vamos rever alguns destes conceitos, pura e simplesmente no sentido científico e sem dar a mínima para o que se lê nas redes sociais, verdadeiras difusoras de preconceitos. 

A começar pela Cultura – certamente é o conceito que gera a maior das confusões porque ganhou um significado distorcido. É comum ouvir nossas tias comentando “ah, fulano é uma pessoa cheia de cultura...” e assim o verbete “cultura” virou sinônimo de conhecimento, mas não é! Cultura é toda forma de expressão que uma sociedade lança mão para interpretar, mudar e se adaptar ao meio em que vive. Quando se fala em “cultura primitiva”, isso significa as pinturas rupestres, os utensílios, vestimenta etc. Hoje em dia cultura pode ser entendida como as manifestações artísticas, a moda, literatura, etc. Ou seja, não existe alguém com mais ou menos cultura do que ninguém! Cultura não é um conceito mensurável pelo sistema métrico. Até animais tem cultura! 

A confusão se dá com o conceito de “conhecimento”, que esse sim é individual e depende exclusivamente do interesse que cada um tem em saber mais sobre o mundo que o cerca. Mas que também independe da formação ou grau de instrução, como escrevem nas fichas cadastrais. Pode-se encontrar pessoas com uma enorme bagagem de conhecimento e que jamais sentaram em um banco de escola. Da mesma forma que conheço catedráticos incapazes de conhecer a realidade que está um centímetro ao lado do seu ramo de atividade. 

A formação da personalidade também depende do conceito de Inteligência. É mais uma característica que causa a maior confusão, porque se confunde com cultura e conhecimento. A inteligência é a capacidade individual de resolver problemas. Tem uma grande carga genética, mas também sofre influência do meio onde se vive. A inteligência sim, pode ser medida por meio de testes, que determinam o quociente de inteligência, famoso Q.I. e pode ser melhorado por meio de exercícios. Da mesma forma que atletas melhoram o desempenho por meio de treinos, a inteligência também pode ser melhorada com o treinamento constante do pensamento. 

Uma das formas de melhorar a inteligência é estudando e aí entra a formação. Esta sim está ligada ao tempo e a qualidade dedicada aos estudos, que pode ser o estudo formal, os cursos pós-graduação ou o interesse pessoal. Também pode aumentar com o estudo frequente. Os verdadeiros sábios não param de estudar. Outra das confusões conceituais que se pratica é substituir formação por educação. 

O conceito de educação pode ter nada a ver com frequentar escolas. Falar em educação alimentar, por exemplo, não remete à ideia de uma escola de gastronomia. Educar é sinônimo de seguir uma orientação, um regime. Infelizmente tornou-se sinônimo de ensino a ponto de hoje existir um ministério da Educação, quando na verdade dever-se-ia chamar ministério do Ensino. É graças a essa confusão que hoje a sociedade acha mesmo que a escola é a resposta para todos os males existenciais. Violência é falta de escola. Trânsito agressivo é falta de escola. Desemprego é falta de escola. Corrupção é falta de escola. Mas não é! 

Escola não resolve os problemas de falta de educação, porque educação, como dizia minha vó portuguesa, vem de berço. Educação se aprende em casa, no convívio social. Vou dar um exemplo bem simples: um dos meus vizinhos deixa os filhos a maior parte do dia com as empregadas domésticas, que tem histórias de vida, formação e a educação delas. Elas gritam diariamente uma com a outra e eu ouço claramente as crianças imitando esse comportamento entre elas. Que tipo de adultos estas crianças serão? 

Quando se fala em trânsito, as autoridades tem uma dificuldade quase irracional em entender que não passa de um convívio social. Como tal, a convivência saudável dependerá muito mais dos conceitos de educação e inteligência do que ensino e formação. Então por que raios insistem em enfiar “educação de trânsito” no currículo escolar? É uma BURRICE! Decorar leis só vai resolver UMA das necessidades que é a formação, mas não desenvolve a EDUCAÇÃO! Essa quem promove são os pais e o convívio social. 

Quem chuta a cabeça de uma pessoa desmaiada na arquibancada de um estádio de futebol não precisa de formação, precisa de reeducação social. Quem dirige embriagado não precisa decorar os artigos do Código Brasileiro de Trânsito, precisa de reeducação social. E quem vai promover essa reeducação social? Não será a escola, porque esta já nem dá conta de garantir a formação acadêmica e os professores perderam há muito tempo o status de admiráveis. A única forma de promover a reeducação social é valorizar o ser humano. É parar de incentivar personalidades pífias como ex-BBB e começar a enobrecer o caráter. É parar de divulgar os salários milionários de atletas semianalfabetos ou apresentadoras sexys e cobrar da sociedade a volta do ser humano ao pedestal de animal racional – e ser social. 

É desanimador ver que as pessoas continuam dirigindo falando no celular, porque a sociedade deixou de se importar com o todo e o Homem voltou a ser o centro do universo. Enquanto os pais continuarem a entregar a educação dos filhos à escola e aos empregados, sem olhar o que acontece debaixo do próprio teto, vamos caminhar felizes rumo ao abismo social. E ainda tem gente que perde tempo em fóruns de “como melhorar o trânsito”... Parem de querer melhorar o trânsito e comecem a trabalhar para melhorar o ser humano! 

publicado por motite às 19:47
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7 comentários:
De Andrey a 23 de Dezembro de 2013 às 11:47
Muito bom o texto parabéns.
De Daniel Ribeiro a 23 de Dezembro de 2013 às 17:40
A tendência de exigir da escola a educação que em outros tempos se tinha em casa acontece por alguns motivos muito simples de entender:

1) Atualmente a formação familiar tradicional (Pai, Mãe, Filhos e etc) está cada vez mais rara. A família comum hoje em dia não conta com todos os membros. São pais divorciados, filhos criados por avós, tios ou adotados de outras famílias, e até mesmo a completa ausência de qualquer estrutura familiar.

2) Os adultos são ocupados. Pais tem que trabalhar o dia todo, passam muito tempo no transporte entre a casa e o trabalho, e a consequência é que não tem tempo para "educar" os filhos, delegando cada vez mais esta tarefa a escola (e, por consequência, ao estado)

3) O estado incentiva esta situação:
- Criando leis que facilitam a formação de estruturas familiares não-tradicionais, fazendo vista grossa à segurança pública (contribuindo para destruir as famílias existentes por meio da violência),
- Criando legislação de transito e de demarcação dos espaços urbanos que torne cada vez mais dispendiosa a vida em sociedade, obrigando assim que as pessoas trabalhem cada vez mais e tenham portanto menos tempo para elas próprias.
- Institucionalizando a corrupção e a impunidade em todos os níveis da sociedade, desde o trabalhador mais simples até o mais alto escalão político.

Não existe solução para o Brasil, Tite... Infelizmente o sistema já está tão podre que dificilmente veremos algo melhor em nosso tempo de vida.
De Renato Campestrini a 26 de Dezembro de 2013 às 18:46
Tite,

Como sempre, preciso em suas colocações.
Enquanto o ser humano não resolver de uma vez por todas melhorar, nada mudará.
Fica mais fácil atribuir o erro a determinada pessoa ou instituição que aceitar que errou, infelizmente.
Abraço,

De Gabriel Carvalhaes a 15 de Janeiro de 2014 às 11:24
Muito bom o texto, Tite, nos faz repensar alguns conceitos. E digo mais, acredito que a influência que os pais têm na educação dos filhos e na formação do caráter é grande, mas não tanto quanto outrora acreditávamos ser. Hoje penso que por mais que nos esforcemos para transmitir 100% dos nossos valores para os filhos, essa parte vc mesmo disse, o convívio social dessa criança exerce uma influência muito forte também, as vezes podendo ser até maior do que a educação "de berço", está aí o exemplo que vc citou das crianças que ficam com as empregadas, pois elas absorvem principalmente as atitudes. Parabéns pelo blog, gosto dos seus posts, principalmente estes que incitam a reflexão e discussão, um abraço!
De joao a 10 de Agosto de 2014 às 11:54
Bom dia Sr. Tite,

Li o seu texto e gostei bastante, exceto por um ponto.
Quando diz que os filhos do seu vizinho ficam a maior parte do dia com as empregadas domésticas que gritam diariamente uma com a outra e que as crianças imitam tal comportamento. Fiquei em dúvida sobre o seu questionamento quanto ao tipo de adulto que essas crianças serão?
Bem, eu na minha humilde opinião penso que, o fato das empregadas domésticas, que cuidam dessas crianças, gritarem não vai influenciar em nada no caráter dessas crianças. Até porque, se isso fosse fator determinante, as pessoas mais mau caráter seriam os nordestinos (grupo do qual eu faço parte) ou melhor ainda, os italianos, pois são grupos que se expressam frequentemente em voz alta, ou melhor, gritando.
O seu texto frisa muito bem que, para melhorarmos o ser humano o correto seria deixar de incentivar personalidades pífias e valorizar o ser humano. A partir dessa ideia, me pergunto, que tal começarmos a valorizar as empregadas domésticas, as quais muitas vezes possuem dupla, tripla ou até mais jornadas de trabalho, já que cuidam da casa e dos filhos do patrão e ao chegar ao seu lar ainda tem que cuidar da sua própria casa, dos seus filhos e, óbvio, do seu companheiro e muitas vezes de algum familiar (pai, mãe, sogro e etc) idoso. Tenho certeza de que uma pessoa que enfrenta uma vida como essa deve ter um experiência de vida e muita cultura para compartilhar!
ps: como Motoqueiro que sou, conheço muitos amigos que falam alto pra caramba, o que acredito que seja por causa do excesso de exposição ao barulho do escapamento da moto e, ainda assim, não batem no peito e dizem que são motociclistas, até porque eles não sabem a diferença desse eufemismo, mas são excelentes pessoas e de um caráter inquestionável.....rsrsrs

Abraços e parabéns pelo Blog!!!

João
De motite a 10 de Agosto de 2014 às 14:16
Oi João, curioso você ter mencionado os nordestinos se eu nem sequer mencionei a naturalidade das empregadas que, na verdade, são mineiras!
Existe uma diferença muito grande entre um nordestino ou italiano conversando em voz alta e duas mulheres se agredindo verbalmente como duas histéricas.
Ao ler um texto é preciso parar de tentar encontrar mensagens subliminares porque nem sempre o autor as usa. Gritar é uma forma agressiva de se comunicar; falar alto é muito diferente.
E qualquer criança até os primeiros sete anos imita o comportamento do adulto mais próximo ou que admira ou que passa mais tempo junto. Uma das crianças do vizinho fala com a irmã menor exatamente aos berros e agressivamente como fazem as empregadas.
Eu sou motociclista e motoqueiro desde os 12 anos e falo normalmente...
De João a 11 de Agosto de 2014 às 20:11
Olá Tite , mencionei nordestinos e italianos apenas como exemplo, pois, como já disse sou nordestino, filho de nordestinos, e também tenho familiares de ascendência italiana que, sinceramente não sei o motivo, mas temos o costume de falar muito alto. Quanto a diferença entre falar alto e gritar, realmente, você está certo, mas tenho minhas dúvidas sobre o quanto tal comportamento pode influenciar no caráter de uma criança, uma vez que há outras variáveis! Também concordo que as crianças imitam o comportamento dos adultos e que, dependendo do adulto que as estiver “educando”, inevitavelmente a criança terá bons ou maus exemplos para se espelhar e consequentemente imitar. Assim, também concordo que a culpa é dos pais que vivem, como você mesmo disse, “sem olhar o que acontece debaixo do próprio teto”. De repente, seria o caso de contratarem uma babá (com alguma formação na área de educação infantil) e uma doméstica? Ou melhor, os pais passarem mais tempo com seus próprios filhos?

Também ando de moto há bastante tempo e falo normalmente, mas nas periferias de SP , infelizmente, é muito comum encontrarmos transitando pelas ruas motos sem escapamento , sem placa e totalmente modificada, condutores sem capacete ou até mesmo descalços e sem camisa...O resultado disso, bem...o Sr. Como especialista em cursos de pilotagem para motociclistas deve saber muito bem!

Abraços,

João

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