Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

Por um plus a menos

 (Ah a simplicidade de um cachorro quente com apenas pão, salsicha e mostarda!)

 

Não existe povo que mais capricha do que o brasileiro. Brasileiro coloca queijo na pipoca pensando que vai dar um gostinho especial e deixa com cheiro de meia suja. A pizza foi inventada para ser uma massa redonda de pão com recheios simples e de fácil digestão como molho de tomate, mussarela e uma singela folha de manjerona. Ah, mas brasileiro não aceita ser simples nem singelo. Brasileiro instala aerofólio em Chevette e precisa sofisticar a pizza que vem com oito tipos de queijos - que não combinam, lógico - uma boa porção de picanha, salpicada de coentro, maionese e o cliente ainda acrescenta mostarda e catchup.

 

Juro que não sei a origem dessa mania de querer sofisticar as coisas. Talvez esteja no sangue, tipo a genética do puxadinho. Começa com uma casa simples e termina cheia de puxadinhos por todos os lados como uma ilustração do Maurits Escher.

 

Já virou mania incluir cream cheese no sushi com peixe. Desde o milagre da multiplicação dos pães e peixes se sabe que peixe nunca combinou com queijo. Não harmonizam, que nem chantilly com costela de porco. Peixe combina muito bem com o arroz especial de sushi e alga. Mas aí veio a sofisticação brasileira e acrescentou primeiro a maionese, depois o maior dos sacrilégios: um temaki de atum com cream cheese, maionese, cebolinha, salpicado de gergelim. Só falta o catchup e mostarda.

 

Aliás, os portugueses e espanhóis morreram para buscar especiarias em rústicas embarcações no século 15, só para disfarçar o gosto de podre das carnes que eram mal conservadas sem a geladeira de hoje. O tempero nasceu para disfarçar o gosto. Se o cozinheiro errar a mão do tempero tudo fica com gosto de... tempero! Acrescentar queijo fundido em peixe cru faz o temaki virar um grande X-tudo!

 

Experimente pedir uma Coca-Cola em qualquer cidade do Brasil e o garçom em vez de virar as costas e buscar o refrigerante pergunta "gelo e limão?". Mesmo que responda em voz clara, alta e com a fonética perfeita que NÃO, seu copo chegará com uma rodela de limão dentro. Porque é mania nacional sofisticar o que é simples. É o plus a mais do refrigerante. Limão é um dos mais poderosos aromatizantes da natureza. Uma gota de limão em 25 quilos de mashmallow vai fazer tudo parecer torta de limão. Assim mesmo, por mais que implore, seu copo virá com a rodela de limão porque isso já se tornou uma instituição nacional. Aqui, Coca-Cola só é servida com uma rodela de limão e guaraná com uma de laranja. Não tente lutar contra.

 

Talvez seja uma herança da indústria automobilística que inventou os assustadores "opcionais". A título de customização, a loja oferece um carro pelado e vai anotando o que o cliente deseja. Na primeira vez que comprei um carro zero km na vida, lá no final dos anos 70, a vendedora mostrou as opções e escolhi o modelo mais simples porque a ideia era transportar kart, ferramentas, pneus e seria uma oficina ambulante. Aí começou:

- Vai querer rádio?

 

- Não!

 

- Vai querer tapetes?

 

- Não!

 

- Vai querer rodas?

 

- Bom, se eu não quisesse rodas compraria uma lancha!

 

- Eu quis dizer rodas opcionais!

 

- Pode ser essas originais mesmo, redondas, com três parafusos. E se vierem acompanhadas dos respectivos pneus seria melhor ainda. Bem simples como o resto do carro.

 

Finalmente ela entendeu e eu saí feliz com a versão mais pé-de-boi de uma Belina II 1978. Zero km!  

 

Em qualquer lugar do mundo o cachorro quente, hot-dog, sempre foi pão, salsicha e mostarda. Simples como bicicleta Caloi Barra Forte. Uma salsicha dentro do pão e pronto. Mas aqui no Brasil nada pode ser simples e começou a sofisticação: batata palha, purê de batata, molho vinagrete, queijo fundido, maionese, lascas de arenque defumado da Normandia, fatias de trufas brancas do norte da Escócia, champignons da Aix en Provence e um cream cheese de leite de iaque da Letônia. Simples assim!

 

Curioso é a cara de espanto quando viro para o dono do trailer e digo "Apenas pão e salsicha". É mais fácil acreditar que tem um disco voador descendo atrás dele do que um cliente pedir um hot dog com apenas pão e salsicha. Sempre vem acompanhado de um "nem batata frita? nem vinagrete? nem um purêzinho?".

 

O olhar de decepção é o melhor de tudo...

 

Parece que existe uma competição nacional pelo cachorro quente com mais recheios variados ou a pizza com a maior quantidade de ingredientes jamais assada no mundo. Eu defendo ferozmente a volta da simplicidade do cachorro quente. Nada além de um pão, uma gorda salsicha de qualidade e mostarda igualmente de ótima qualidade e fresca. Nada mais, nem menos. Como a vida deveria ser: simples, sem purê, nem milho cozido, ervilhas, nada. Com a mesma simplicidade que a vida merece ser tratada.

 

publicado por motite às 17:24
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