Terça-feira, 6 de Julho de 2021

Frenagem de moto, desvenda esse mistério

frenagem_CG.jpeg

Como a frenagem correta e o freio combinado podem nos ajudar

Existem dois momentos de muita preocupação na pilotagem de moto: curvas e frenagem. As curvas porque nosso corpo precisa inclinar e isso assusta os iniciantes. A frenagem é por conta de dois fatores: o aprendizado incorreto e a lembrança dos tempos da bicicleta.

Boa parte da dificuldade de frear as motos vem da interpretação equivocada dos instrutores de moto-escola. Como o exame de habilitação é feito em um ambiente controlado, em baixa velocidade, a instrução é para usar apenas o freio traseiro. Não está errado, para aquela situação, mas depois que o candidato recebe a habilitação vai para a rua sem saber como usar o freio dianteiro.

Isso gerou uma enorme distorção nos motociclistas brasileiros, porque a maioria passa o tempo todo usando apenas o freio traseiro. Para piorar tem a lembrança (dolorida) dos tempos da bicicleta. Numa bike o uso exagerado do freio dianteiro pode causar um capotamento. Mas isso acontece pela diferença de massa entre o veículo e o condutor. Uma bicicleta pesa em média de 10 a 15 Kg, enquanto o condutor tem cinco, seis ou mais vezes essa massa.

No caso das motos, especialmente as pequenas, a massa do veículo normalmente é maior do que a do condutor. Mesmo quando é menor a diferença é muito pequena. Difícil ver uma pessoa de 240 Kg pilotando uma moto.

O medo de usar o freio dianteiro causou tanta distorção que em algumas regiões do Brasil é comum os motociclistas mandarem tirar a manete do freio dianteiro para não acionar acidentalmente! Principalmente se a moto tiver freio dianteiro a disco.

A consequência desse medo é usar apenas o freio traseiro que tem uma capacidade muito menor de frenagem. Só para exemplificar, fizemos uma experiência simulando várias situações de frenagem de emergência. Em todas elas o piloto estava a 45 km/h, uma velocidade absolutamente segura para rodar na cidade.

Utilizando uma moto 150cc com freio dianteiro a disco e traseiro a tambor, isolados, o piloto fez uma frenagem aplicando apenas o freio traseiro. A roda traseira travou e a moto percorreu 24 metros até se imobilizar. É uma distância inaceitável para uma velocidade de 45 km/h, porque equivale a cerca de cinco carros.

frenagem_03.jpg

Utilizando apenas o freio traseiro, a CG convencional percorreu 24 metros. A CG com freio combinado percorreu apenas 12 metros.

Depois, o mesmo piloto repetiu a frenagem, mas usando os dois freios ao mesmo tempo e a distância percorrida caiu para oito metros, que é menos da metade.

Mas como sabemos que a maioria não usa o freio traseiro, repetimos a experiência, mas com uma Honda CG 160 Start equipada com freios combinados a tambor nas duas rodas.

frenagem_01.jpg

Mantendo a mesma velocidade, usando os dois freios, mas acionando a embreagem, a CG convencional percorreu 12 metros e a CG com Combi-Brake percorreu 9 metros.

Simulamos a mesma situação do uso apenas do pedal de freio traseiro, a 45 Km/h e a moto percorreu 12 metros, que corresponde a metade do espaço percorrido com a moto de freio convencional. Depois repetimos a medição usando os dois comandos de freio e a distância percorrida foi de seis metros, que equivale a 1,5 carro médio.

frenagem_02.jpg

Finalmente, repetimos a frenagem com a CG 160 Start, a 45 km/h, sem acionar a embreagem e a distância percorrida caiu para 6 metros.

As frenagens!

Basicamente existem dois tipos de frenagem de qualquer veículo: a programada e a de emergência. A programada é a mais simples, porque a pessoa já sabe que precisa parar, onde vai parar e só vai modulando os freios e o câmbio para chegar no ponto programado completamente imóvel.

Na frenagem programada o motociclista pode reduzir gradativamente as marchas (sempre uma de cada vez porque câmbio de moto é sequencial!), até parar com a primeira marcha engatada. Neste caso o câmbio pode ser usado como AUXILIAR, apenas para manter a rotação do motor, mas não tem a finalidade de ajudar a moto parar, que fique bem claro!

A de emergência é a mais complexa e que gera muita confusão. Para começar se o piloto teve de frear de emergência é porque não prestou atenção em alguma coisa. Motociclistas não podem se permitir passar por uma situação de emergência, é quase um atestado de distração!

Em segundo lugar, saiba que a frenagem que visa imobilizar o veículo no menor espaço possível é diferente daquela programada descrita anteriormente. Deve-se esquecer o câmbio e acionar a embreagem apenas no final para o motor não “morrer”. Existem dois medos no momento da frenagem forte: o de forçar demais o freio dianteiro e a moto capotar ou o de exagerar no freio traseiro e a moto derrapar. Como já foi explicado, o medo de capotar vem da bicicleta, que realmente capotava e essa descoberta marcou a memória e a pele de muita gente.

CGStart_lombada.jpg

Se perceber que vai haver impacto (lombada ou buraco), o motociclista precisa soltar o freio e apoiar o peso nas pedaleiras.

O medo de derrapar a roda traseira vem também das bikes, que tem pneus muito finos com muita pressão (quase 100 libras/pol2), enquanto na moto o pneu é largo e tem apenas 30 libras/pol2 em média. O pneu de moto consegue mais aderência se comparado com os de bicicleta.

Começando pela derrapagem da traseira. Na verdade é fruto do EXCESSO do freio dianteiro. Quando o motociclista aplica o freio dianteiro com muita violência, a frente afunda, a traseira levanta e nessa hora, se pisar no pedal do freio traseiro a roda trava mesmo. Portanto, o freio combinado vem para também reduzir esse efeito, porque o piloto pode começar a frenagem sempre usando os dois freios ao mesmo tempo porque a roda traseira não trava. 

frenagem_cbr650.jpeg

Em motos com ABS o piloto deve manter a moto alinhada e pode acionar a embreagem enquanto freia.

O freio ABS.

Existe uma crença generalizada que o sistema ABS (antitravamento) reduz o espaço de frenagem. Na verdade o sistema ABS não nasceu com a finalidade de reduzir espaço de frenagem, mas permitir que os veículos mantivessem a trajetória durante a frenagem mesmo com piso escorregadio.

Historicamente, o ABS nasceu nos trens, que são super pesados e rodam em uma superfície lisa (os trilhos de ferro). Depois passou para os aviões, que tinham de frear forte mesmo no piso molhado, sem perder o controle. Depois passou para os carros, especialmente no hemisfério Norte por causa da neve e do gelo nas estradas, que reduzem drasticamente a aderência. Foi um grande alívio porque permitiu os carros frearem nas piores condições possíveis.

Finalmente chegou nas motos. Funcionou muito bem especialmente para frenagens no molhado, porque a moto mantém a trajetória. Mas esbarrou num detalhe: ao contrário dos trens, aviões e carros, que tem apenas um comando de freio para todas as rodas, na moto existem dois comandos de freios para duas rodas, ou seja, um para cada roda, de forma isolada. Para que o ABS tivesse a eficiência programada é necessário usar OS DOIS freios ao mesmo tempo. Se o motociclista não usar o freio dianteiro o ABS terá sua eficiência comprometida.

Neste caso o freio combinado mostrou-se eficiente porque corrige o erro humano no momento da frenagem. Mesmo acionando apenas o freio traseiro parte do freio dianteiro também atua, como ficou claro nos testes descritos anteriormente. Depois de vários estudos ficou claro que nas motos pequenas o freio combinado apresentava mais eficiência do que o freio ABS, a um custo bem menor.

CGStart_freia.jpg

O freio combinado veio para corrigir um erro comum de usar apenas o freio traseiro.

Mesmo assim vale esclarecer alguns pontos importantes. A frenagem é um momento onde a calma e a habilidade contam muito. Aqueles espaços de frenagem dos testes não levaram em conta um dado importantíssimo: o tempo de reação! O tempo de reação é o período entre o motociclista detectar um problema e a moto começar a apresentar uma aceleração negativa. Em pessoas normais, sadias, experientes e ativas, esse tempo de reação é de um segundo, em média. Se for uma pessoa sedentária, com sobrepeso, idosa ou sob efeito de drogas ou álcool, esse tempo pode chegar a quatro segundos!!!

Então, voltando àquele exemplo da frenagem a 45 km/h temos de levar em conta que a esta velocidade a moto percorre 12,5 metros por segundo. Mesmo freando com muita precisão, na melhor medida, que foi de seis metros, a frenagem total será de 6+12,5 metros, ou seja, 18,5 metros até imobilizar a moto, o que corresponde a três carros.

reacao.jpg

A frenagem total é igual à soma do tempo de reação + espaço de frenagem.

Essa informação é importante para entender a necessidade de rodar em velocidade reduzidas nos corredores entre os carros. A forma mais segura de evitar um incidente é reduzir a velocidade para poder frear no espaço correspondente a UM carro apenas, que equivale a seis metros.

Outra informação valiosa é com relação ao nosso comportamento inconsciente em algumas situações, quando aumentamos a velocidade sem perceber. São dois momentos que aumentamos a velocidade em cerca de 10% sem dar conta: quando estamos voltando para casa (perímetro de quatro quilômetros aproximadamente) e quando estamos no corredor e os outros motociclistas buzinam.

Sem perceber nós aceleramos a moto nestas duas situações. Um simples aumento de 10% na velocidade tem grande consequência na frenagem. Imaginando aquela velocidade de 45 km/h, se aumentarmos para 50 km/h o espaço de frenagem não aumentará os mesmos 10%, porque estamos lidando com conceitos da Física.

Um deles é a inércia, que será proporcionalmente maior quanto maior for a velocidade ou a massa do veículo. Além disso a frenagem é uma aceleração negativa e a grandeza da aceleração é metros por segundo ao quadrado. Quando juntamos a inércia e a aceleração negativa o resultado é que o aumento de 10% na velocidade corresponde a um aumento de 30% no espaço de frenagem. Aquela frenagem em 18,5 metros passa para 24 metros!

IMPORTANTE: Seja qual for a situação – lombada ou buraco – se perceber que não vai conseguir parar antes do obstáculo solte os freios, levante um pouco do banco da moto e espere a pancada! Jamais passe pelos obstáculos freando! Quando a moto freia a suspensão dianteira afunda e o curso vai quase a zero. Nesse momento, se a roda dianteira impactar num buraco ou lombada, não haverá curso de suspensão para dissipar a energia e a pancada na roda dianteira será agravada a ponto de até quebrar.

Enquanto as rodas estiverem girando a moto terá estabilidade. Em algumas situações às vezes é melhor não frear e apenas levantar um pouquinho, apoiar o peso do corpo nas pedaleiras e se preparar para a pancada. Com as suspensões livres a moto absorve o choque e não transmite para o corpo do motociclista.

A melhor forma de evitar tudo isso é manter 100% da atenção, rodar a uma velocidade compatível com a situação e treinar. Quanto mais o motociclista pilota, melhor ele fica.

 

 

publicado por motite às 19:32
link | comentar | favorito
Terça-feira, 29 de Junho de 2021

Tour de Quarta

hol_abre.jpg

Quartararo (20) está com a bola toda e pode ser o primeiro francês campeão da MotoGP. (fotos: MotoGP.Com)

Piloto francês dá um passo importante para um título histórico na MotoGP

Desde 1949, ano da primeira etapa do se conhece hoje como campeonato mundial de motovelocidade nenhum piloto francês conquistou o título na categoria principal. Itália, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos lideram o ranking de títulos. Mas em 2021, se continuar fazendo tudo certo, Fabio Quartararo (Yamaha) pode quebrar este tabu. E deu um passo importante no GP da Holanda, no palco sagrado de Assen, ao vencer a disputa interna com Maverick Viñales, autor de uma surpreendente pole-position. Eric Granado também carimbou o passaporte para categorias a combustão ao vencer de forma soberana na MotoE. Remy Gardner (KTM) e Pedro Acosta (KTM) também estão na caminhada ao título nas Moto2 e Moto3, respectivamente.

A notícia mais bombástica do fim de semana nem foi a vitória de Quartararo. Mas o anúncio do divórcio entre Maverick Viñales e a Yamaha, que vai para a Aprilia em 2022. O piloto espanhol teve uma experiência péssima na etapa anterior, no GP da Alemanha, ao ser o último a cruzar a linha de chegada. Na Holanda foi pra cima nos treinos, cravando a pole, mas na corrida viu seu companheiro (?) de equipe largar bem melhor e vencer em um momento importante do campeonato. Mais ainda por ver Johann Zarco (Ducati), seu rival direto, terminar na quarta posição. Agora Quartararo abriu 34 pontos de vantagem, o que dá uma folga para “respirar” mais tranquilo.

20-fabio-quartararo_hol.jpg

Toda pressão do mundo nas costas do jovem Quarta.

A exemplo do que vimos em 2020, as motos não-japonesas, KTM, Aprilia e Ducati intercalam provas espetaculares, com desempenhos medianos. Esta falta de regularidade é uma das razões para apostar em Quartararo. Seus rivais diretos ao título alternam resultados muito bons, com outros regulares. A cada etapa que este desequilíbrio se repete é mais um passo para vermos ao primeiro título francês na MotoGP. A esperança galesa aumenta quando se olha a tabela e o segundo colocado é outro francês!

Nesta etapa da Holanda o destaque da categoria foi a ótima prova feita pelo campeão Joan Mir (Suzuki) que saiu da 10a posição para o terceiro lugar num sprint final que roubou o pódio do Zarco. Por outro lado, mais uma decepção para Valentino Rossi (Yamaha), um dos reis de Assen, que terminou a prova na caixa de brita. A registrar a estreia do americano com nome de vodca, Garrett Gerloff, piloto do mundial de Superbike, que correu com a Yamaha do italiano Franco Morbidelli (no estaleiro).

Moto2

Um dos pilotos mais experientes da categoria, Sam Lowes (Marc VDS) está vivendo um ano difícil. Começou arrasando com duas vitórias seguidas, mas depois foi um festival de quedas. Na Holanda ele tinha tudo para garantir um pódio, pena que tinha outros três pilotos igualmente bem dispostos: os KTM Brothers Raul Fernandez e Remy Gardner e o “colega” na equipe Marc VDS, Augusto Fernandez (que não é parente do Raul).

25-raul-fernandez_hol.jpg

Toca, Raul: Raul Fernandez venceu na Holanda e tirou diferença para Gardner.

Gardner foi cauteloso, pensando no campeonato, tentou seguir o mais perto possível de Raul Fernandez e conseguiu, porque o segundo lugar na prova o manteve na liderança do campeonato, com 31 pontos de vantagem. A meta é não deixar essa diferença cair demais! O terceiro lugar de Augusto Fernandez não mexeu muito com o campeonato, mas certamente deixou Lowes furioso, porque o inglês tem mais pontos e merecia uma “ajudinha” do colega. Só que, ao contrário do automobilismo, na motovelocidade pilotos de uma mesma equipe são igualmente rivais e não existe a menor chance de um favorecimento.

Moto3

Da maca ao grid de largada. Assim foi o fim de semana do espanhol fenômeno Pedro Acosta (KTM). Um tombaço nos treinos mandou o garoto pro hospital para uma checagem geral. Confirmado que não tinha nenhuma lesão grave, foi liberado para largar novamente lá no fundo do pelotão, em 18o lugar. Enquanto o pau comia no grupo da frente Acosta foi chegando, chegando, chegando até cruzar a linha de chegada em quarto lugar, minimizando os prejuízos.

dennisfoggia_hol.jpg

Foggia (7) uma vitória obtida nas voltas finais.

Destaque para o controverso italiano Romano Fenati (Husqvarna) que teve de pagar duas voltas longas como punição por mal comportamento nos treinos. Em uma recuperação fantástica, Romano ainda terminou em terceiro lugar. Depois daquela tradicional troca de posições em todas as voltas, Dennis Foggia (Honda) conseguiu uma microscópica vantagem a duas voltas do fim, seguido de Sergio Garcia (Gasgas), que reduziu a desvantagem para Acosta no campeonato para 48 pontos, a maior de todas as categorias. Continuo afirmando que Pedro Acosta só perde esse título se cair um meteoro na Terra.

MotoE

Além de Eric Granado (One Energy) quem mais chorou ao ouvir o Hino Nacional na Holanda? Pode confessar porque não é vergonha nenhuma sentir orgulho deste paulistano que batalha heroicamente no mundial de motovelocidade desde a infância. Depois de conquistar a quarta pole-position Eric largou cautelosamente porque numa corrida de apenas sete voltas não se pode errar. Quando sentiu que a moto estava correspondendo foi pra cima e assumiu a liderança para vencer a segunda prova e pular três posições no campeonato.

51-eric-granado_hol.jpg

Brasil na cabeça: Eric Granado pode ser o primeiro brasileiro campeão mundial.

Graças ao atual campeão Jordi Torres (Pons), o italiano líder do mundial, Alessandro Zaccone (Pramac) perdeu pontos importantes. Agora ele está apenas sete pontos à frente do constante Torres e a 17 pontos do brasileiro Eric. Parece pouco, mas este campeonato é curto. Continuo afirmando que todo circo do mundial já viu o imenso potencial do Eric. Pessoalmente acho que ele deveria focar sua atenção na Moto2, mas por uma grande equipe.

Para encerrar, um recado ao locutor e comentarista da ESPN/FoxSports: os pneus da MotoE duram muito mais do que as sete voltas da corrida. Parem de comentar sobre “o desgaste dos pneus” nesta categoria porque não existe!!!

 

publicado por motite às 17:51
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 21 de Junho de 2021

O ET voltou: como foi o GP da Alemanha de Motovelocidade

93-marc-marquez_abre.jpg

Fora de série, extreterrestre, biônico: este é Marc Márquez! (Fotos: MotoGP.com)

Marc Márquez vence o GP da Alemanha e volta ao Olimpo. Remy Gardner e Pedro Acosta dominam nas Moto2 e Moto3

Foram mais de 12 meses de sofrimento, dúvidas e ansiedade. Desde que fraturou o úmero na primeira etapa do campeonato de 2020 a vida do espanhol Marc Márquez virou um calvário. Graças à uma infeliz decisão – não se sabe de quem – ele tentou voltar apenas uma semana após a fratura, exagerou nos exercícios físicos e a placa de titânio que sustentava o osso quebrou causando sérias lesões. Depois de mais duas cirurgias, enxerto ósseo, infecção e quase perder o braço, surgiram dúvidas quanto à sua capacidade de recuperação. Mas veio o GP da Alemanha, no circuito de Sachsenring e tudo virou passado.

Marc largou bem e não permitiu nem que o compatriota Aleix Espargaró completasse uma volta na liderança com a surpreendente Aprilia. Na última curva antes da reta principal MM93 ultrapassou, assumiu a liderança e não perdeu mais. Quando começaram a cair pingos de chuva no meio da prova ele aumentou ainda mais o ritmo e abriu uma confortável distância para vencer nesta pista pela 11ª vez!

88-miguel-oliveira_ale.jpg

Miguelito Oliveira: segura esse português, porque a KTM está voando!

Após a prova, Fabio Quartararo (Yamaha), que chegou em terceiro, comentou “Ele é de outro planeta”. Quando até os pilotos concorrentes admitem que Marc Márquez é extraterrestre realmente é sinal claro de superioridade.

Tudo que aconteceu nessa prova, nas três categorias, perdeu importância perto desta vitória, mas vamos lá, resumir o que rolou. Na MotoGP finalmente a equipe Honda pôde voltar a sorrir, ou melhor, chorar, mas desta vez de emoção. Após a bandeirada foi um chororô dentro dos boxes e teve até japonês às lágrimas. Era a prova definitiva de que só tem uma pessoa no mundo capaz de dominar a Honda RC 211: Marc Márquez. Muitos tentaram, até com o mesmo DNA, como foi com Alex Márquez, mas ninguém conseguiu entender como fazer essa moto render mais que as outras.

A corrida teve ótima atuação – de novo – de Miguel Oliveira (KTM) que conseguiu passar todo mundo à sua frente quando a pista ficou úmida. Frustração para o francês Johann Zarco (Ducati) que fez a pole-position nos treinos, mas caiu logo após fechar a volta voadora. Os mecânicos deixaram a moto em ordem para a corrida, mas sabe como é, não ficou igual e o francês vai ter de esperar mais um pouco pela primeira vitória na MotoGP.

09-danilo-petrucci_queda.jpg

Que fase... Mais uma queda para o marrento Danilo Petrucci (Ducati). Ainda levou Alex Marquez junto.

Fique de olho na Aprilia! A marca italiana evoluiu muito, tem velocidade em reta, só falta um piloto que mantenha o ritmo por toda a prova. Aleix Espargaró ficou boa parte da corrida entre os quatro primeiros, mas cruzou a linha de chegada em sétimo. Quem cresceu na prova foi Quartararo, que ficou boa parte do tempo entre os seis primeiros e nas voltas finais subiu para terceiro, mantendo a liderança do mundial. Se o jovem piloto da Yamaha quiser ser campeão do mundo esta pode ser sua chance de ouro. Não pode mais desperdiçar pontos com zíper do macacão, síndrome compartimental, depressão, inferno astral, nada disso. Ou foca no campeonato ou será engolido.

Outro que partiu pra cima nas voltas finais foi o sul africano Brad Binder, confirmando a ótima fase da KTM. Ficou em quarto depois de largar em 13º. Decepção para as Ducati que renderam bem nas primeiras voltas, mas ficaram no limbo da metade para o fim. Mais decepcionante só mesmo as atuações de Valentino Rossi (Yamaha) e Maverick Viñales (Yamaha). O primeiro deveria realmente sair de cena com dignidade, porque não dá mais para ver um piloto deste quilate disputando posições abaixo de 15º lugar. Já Viñales, que corre com uma moto igual à do Quartararo, vai precisar mesmo é de trabalhar a cabeça. Porque equipamento tem de sobra. Foi o último colocado na pista! As motos são iguais, mas cada um tem seu próprio engenheiro, então Viñales precisa colocar uma plaquinha na porta do seu box: precisa-se engenheiro!

O campeonato ganhou um pouquinho de equilíbrio após essa etapa, com Quartararo na frente, com 22 pontos a mais sobre Johann Zarco. MM93 subiu muitas posições mas está ainda em 10º com 41 pontos. Muita água há de rolar sob a ponte ainda.

Moto2

Tem coisa mais clichê do que “filho de peixe”? Pode até ser, mas em 2021 o australiano Remy Gardner (KTM), filho do campeão mundial Wayne Gardner (1987), sacramentou o DNA campeão ao vencer a terceira etapa consecutiva, com uma ultrapassagem belíssima sobre o companheiro de equipe Raul Fernandez – que cairia logo depois. A corrida em si foi meio monótona porque é visível a superioridade das motos da equipe KTM Ajo. Aqui vale um esclarecimento: as motos não são da marca KTM, porque só tem quatro marcas de chassis: Kalex, Boscoscuro, MV Agusta e NTS. E os motores são todos Triumph de três cilindros. Então por que a KTM tem uma equipe?

87-remy-gardner_ale.jpg

Gardner venceu a 200ª corrida da Moto2 e vai em busca do título.

A resposta é para formar uma escada para seus pilotos. A KTM tem uma estrutura fortíssima na Moto3, aí sim, com chassis e motor da marca própria. Depois uma equipe na MotoGP também com equipamento da marca. Como fazer para levar um piloto da Moto3 para a MotoGP sem passar pela Moto2? Simples, montando uma equipe nas três categorias. Foi esta receita que fez nascer o português mais bem sucedido na história da motovelocidade, Miguel Oliveira.

A corrida em si só valeu pela segunda colocação do tatuado Aron Canet, com o chassis Boscoscuro, contra um batalhão de Kalex. O espanhol do team Aspar é muito veloz, mas sofre muitas quedas ao longo das temporadas. Quando acertar a cabeça pode ser uma promessa de vitória. O campeonato está todo desenhado para o filho de peixe, Remy Gardner. Abriu 36 pontos sobre o companheiro Raul Fernandez e pode administrar essa vantagem com calma. Gardner já tem vaga garantida na MotoGP para 2022.

37-pedro-acosta.jpg

El Pedrito: nasce um fenômeno na motovelocidade chamado Pedro Acosta (37).

Moto3

Depois do susto na última volta do GP da Catalunha, o espanhol fenômeno, Pedro Acosta (KTM) voltou a brilhar de forma imperativa. Largou no meio do bolo, como sempre, engoliu todo mundo e na sexta volta já era líder. Só que desta vez se concentrou nas voltas finais para não ser surpreendido de novo. Venceu, abriu mais de 50 pontos na liderança do campeonato e agora corre sem preocupação. Principalmente porque os segundos colocados nas provas se alternam demais, pulverizando os pontos. O segundo colocado no GP da Alemanha foi o japonês Kaito Toba (KTM), que está em 12º no campeonato. Já o segundo colocado no campeonato, Sergio Garcia (GasGas) chegou em sétimo na corrida. Se nenhum meteoro cair na Terra, nem ele se machucar, Pedro Acosta será campeão mundial da Moto3 em 2021.  

publicado por motite às 13:52
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 9 de Junho de 2021

À sombra das Harley, como é a Honda VT 600C Shadow

shadow600_2.jpg

Fala a verdade, você recusaria a ler um teste feito por este homem? (Fotos: Mário Bock)

Uma das motos mais clássicas da Honda, a Shadow 600, foi lançada no mercado mundial em 1983 com uma clara missão de combater as americanas Harley-Davidson. A ideia deu tão certo que nos anos 1990 a Shadow foi a moto mais vendida em vários mercados do mundo. Com uma mecânica simples, desenho minimalista, leve e estilo único, conquistou motociclistas no mundo inteiro e ainda hoje é uma das motos mais procuradas no mercado de usadas. Difícil encontrar uma totalmente original e bem conservada a um preço justo, porque o valor dela subiu demais depois da moda de customização.

Este teste publicado na Revista Duas Rodas 234, de março de 1995, foi feito com um modelo do mercado americano com câmbio de quatro marchas. Quando a Honda trouxe para o Brasil em 1995 já veio com câmbio de cinco marchas, mesma configuração da versão que seria fabricada no Brasil até 2005, substituída pela Shadow 750, mas já sem o mesmo carisma.

Por mais de uma década foi a primeira moto custom da vida de alguém. Por ser leve, baixa e de fácil manutenção, era a custom ideal para iniciantes e o público feminino. No mercado de usadas os valores variam de R$ 10.000 a R$ 25.000.

Acompanhe o primeiro teste feito por mim mesmo!

 Honda VT 600C Shadow

Chega ao Brasil uma das custom mais vendidas no exterior: a Honda Shadow 600, com desenho à moda antiga, confortável e custando cerca de R$ 10.500.

Ela não é uma Harley mas é muito parecida: desde as rodas raiadas até a pintura, passando pelo tanque em forma de gota, pintado em duas cores e ainda pelos filetes nos pára-lamas. O ronco é silencioso e o motor de dois cilindros em V ajuda a confundir mais ainda. Quem olha para a Honda VT 600C Shadow não resiste a uma pergunta: “Que ano é essa Harley?".

Essa semelhança é proposital e a marca Honda aparece discretamente no tanque e atrás do banco, justamente para reforçar a idéia de um modelo americano, ou alguma personalização. Apresentada pela primeira vez no Salão de Colônia, na Alemanha, em 1988, ela se mantém praticamente inalterada, apenas com mudanças nas cores e grafismos.

O modelo avaliado com exclusividade por DUAS RODAS, na cor azul com filetes brancos, tem linhas suaves, realçando os contornos arredondados. Apesar de por enquanto só estar sendo importada por empresas independentes (com preços em torno de R$ 10.500,00) pode ser um modelo a ser trazido pelo própria Honda, como substituta importada na faixa entre as CB e CBR 450 e CBX 750.

shadow6_punho.jpg

Sofisticação nos punhos de alumínio polido.

O acabamento da Shadow é impecável, chegando a extremos como uma pequena cobertura de plástico na parte do quadro tubular junto ao tanque de gasolina. Os punhos dos comandos têm acabamento polido, combinando com a profusão de cromados espalhados por toda parte. Outro extremo de imitação são as aletas de "refrigeração" dos cilindros, que foram mantidas, mesmo com, arrefecimento líquido, para aumentar a semelhança com o motor das Harley americanas. Esse sistema misto de refrigeração ar-água permitiu o uso de um radiador pequeno, colocado entre os tubos frontais do quadro, e ainda melhorou o arrefecimento do segundo cilindro (o traseiro), que recebe menos ar frontal.

Os instrumentos se resumem ao velocímetro, com hodômetros total e parcial e as luzes de advertência de pisca, neutro, farol alto, pressão de óleo, temperatura e descanso lateral. O curioso desse painel são algumas luzes colocadas diretamente na mesa do guidão. O acabamento da mesa é de liga-leve, também polida.

shadow600_painel.jpg

Painel simples com apenas velocímetro e luzes de advertência.

A Shadow tem um quadro muito simples, com chapas de aço se transformando em tubos que sustentam o motor quatro tempos. O resto da parte ciclística segue os moldes das custom, com rodas raiadas, equipadas com pneu traseiro alto e largo com câmara. Aliás esse é um dos itens que merece reestudo por parte da Honda japonesa. O pneu com câmara fica mais sujeito a pequenos furos, como um caco de vidro que entrou no pneu dianteiro durante a avaliação e foi suficiente para esvaziar a câmara. Atualmente o pneu sem câmara oferece muito mais segurança e já existem rodas raiadas que aceitam pneus sem câmara.

CADÊ O AMORTECEDOR?

Quem olha a Shadow pelo lado direito contempla os dois escapamentos cromados, que dão mais um estilo à moda antiga. Mas quem vê pelo lado esquerdo leva um susto: "Ué, cadê os amortecedores traseiros?" A suspensão traseira é formada por um único amortecedor, que fica tão escondido que nem mesmo desmontando a lateral pode se vê-lo perfeitamente. Ele fica colocado horizontalmente, preso na parte superior do quadro elástico. Esse sistema reforça mais uma vez a aparência de motos "rabo duro", dos anos 50. Felizmente é só aparência, porque a suspensão traseira é bastante macia e progressiva.

shadow600_1.jpg

Ué, cadê o amotecedor traseiro?

Ao assumir a posição de pilotagem, a primeira boa impressão é a segurança: a pequena altura do banco do solo (690mm) permite colocar os dois pés no chão. As pernas contornam o tanque (de apenas 9 litros) e os pés repousam nas pedaleiras lá na frente. Os braços ficam abertos e com boa angulação, graças ao guidão largo e recuado. O banco largo e em dois níveis acomoda confortavelmente o piloto, mas o garupa sofre com um banquinho pequeno, estreito e que obriga a manter as pernas muito dobradas. Para realizar grandes viagens com garupa, pode se adaptar um encosto, tipo sissy-bar (disponível em lojas especializadas), para permitir ao menos relaxar as costas.

O silêncio de rodagen é um dos pontos altos da Honda VT 600C Shadow. Mesmo com a transmissão final por corrente, os ruídos são bem reduzidos. A corrente só faz um som de schilli, quando está com folga excessiva. Vários coxins colocados em pedaleiras, guidão e suportes do motor fazem um eficiente trabalho de redução da vibração.

Para eliminar boa parte das vibrações sem utilizar contrapesos no virabrequim (que comprometem a potência), a Honda colocou as bielas montadas em moentes (ressalto do virabrequim) defasadas em 77º, enquanto num motor em V, o normal é colocar as duas bielas no mesmo moente. O resultado é um efeito de motor em V a 90° (ângulo ideal para eliminar as vibrações do motor em V), mesmo tendo o ângulo entre os cilindros de apenas 52º. Esse motor é simples e econômico. O comando é único no cabeçote, com três válvulas por cilindro (duas de admissão e uma de escapamentos e também conta com duas velas em cada cilindro para otimizar a queima da mistura ar-combustível. Como resultado, a média de consumo na estrada é de 20 km/lito, correspondendo a uma autonomia de 180 quilômetros.

TORQUE DE SOBRA

O motor de exatos 583cc não é dos mais potentes, com 46 cv a 6.500 rpm, em compensação o torque é mais do que satisfatório, com 5.1 kgf.m a 3.500 rpm. Graças a esse torque, pôde se utilizar um câmbio de quatro marchas (versão americana), sendo que as duas primeiras são utilizadas basicamente para colocar a moto em movimento, ou enfrentar uma subida íngreme. Essa característica de grande torque proporciona uma impressão de ter câmbio automático, porque basta colocar em terceira e rodar pela cidade trocando de marchas em poucas situações. Se precisasse trocar de marchas muitas vezes, não seria problema, porque a embreagem é tão macia que na primeira engatada tem-se a impressão de que o cabo quebrou. Um detalhe curioso é o sistema de encaixe do cabo de embreagem na carcaça do motor, semelhante ao sistema da CG 125 Titan.

shadow600_farol.jpg

Farol simples, suficiente para enfrentar estradas escuras.

Infelizmente o painel não tem conta-giros, mas percebe se claramente que o torque começa a se manifestar em baixo regime de rotação. Depois é só girar o acelerador e sentir a moto ganhando velocidade, sem engasgos, até atingir a máxima de 150 km/h.

O freio é composto por um baita discão de 296 mm de diâmetro na dianteira e tambor na traseira. Apesar de simples, a frenagem é segura, completada pelo elevado efeito de freio motor. Em muitas situações o freio é só "beliscado" por questões psicológicas, porque poderia frear apenas reduzindo marcha.

A VT 600C Shadow é estável, na medida do possível para uma custom, com 2.356mm de comprimento. Pode-se inclinar nas curvas com tranquilidade, guardando as limitações das pedaleiras que raspam com facilidade. Para manobrar no trânsito intenso o comprimento exagerado causa os tradicionais problemas de manobrabilidade. Algumas vezes é preciso "encaixar-se" entre os carros. Subir na calçada ou passar sobre obstáculos também são manobras complicadas em função do pequeno vão livre do solo (140 mm).

shadow600_corrente.jpg

Transmissão por corrente é uma das "broncas" dos usuários que preferem cardã.

Alguns detalhes merecem um estudo para não prejudicar o funcionamento geral. O pára-lama dianteiro, por exemplo, é pequeno e não impede que o piloto seja atingido por grãos de areia ou água atirados pelo pneu dianteiro. Duas ausências foram sentidas: o lampejador do farol alto e um cavalete central. Para consertar o pneu dianteiro foi preciso improvisar um "macaco”.

Por enquanto a Shadow está sendo trazida apenas por importadores independentes, com preços oscilando entre R$ 10.300 e R$ 10.500. A Honda do Brasil deveria pensar mais seriamente na comercialização desta custom durante muito tempo ocupou a lista da mais vendida no concorrido mercado italiano (veja abaixo). Aqui no Brasil cada vez mais os motociclistas estão descobrindo as delícias de pilotar uma moto simples e que chama a atenção por onde passa.

A bem amada

Vários meses seguidos a Honda VT 600C Shadow foi a moto mais vendida na Itália. Esse status é muito importante porque trata-se de um mercado repleto de modelos de várias marcas e onde o consumidor compra motos há 75 anos. Por isso a apresentação do Shadow aqui no Brasil durante o último Salão do Automóvel, em outubro (DUAS RODAS 230 e 237) causou tanto furor no mercado. Principalmente agora que a Honda precisa encontrar um modelo para substituir a "descontinuada" CBX 750F Indy.

A Honda não confirma oficialmente o interesse pela importação da Shadow, mas seguindo a atual tendência de valorização dos modelos custom, tanto a Shadow, quando a VF 750C têm grandes chances de serem importadas e de conquistarem o público brasileiro. O segmento das esportivas já está servido pelas CBR 600F e CBR 1000F importadas, além das esportivas de outras marcas, só falta à Honda Brasil colocar na linha os modelos custom. Para ter idéia da importância desse mercado, durante alguns meses a Kawasaki Vulcan 750 foi a importada mais vendida em São Paulo e já se anunciou que vai chegar a Vulcan 800, que causou grande sensação no Salão de Colônia, na Alemanha (DUAS RODAS n 231). Está na hora de os executivos da Honda Brasil pensarem mais nesse filão.

shadow600_ficha.jpg

 

 

publicado por motite às 18:36
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 8 de Junho de 2021

De peito aberto, como foi o GP da Catalunha

88-miguelOliveira_.jpg

Miguel Oliveira (88) apostou em pneus duros e deu certo! (Fotos: MotoGP.com)

Miguel Oliveira (KTM) mostrou as armas no estranho GP da Catalunha

Posso dizer que já vi de tudo em matéria de esquisitices na MotoGP, mas um piloto com o macacão abaixado, de peito de fora, a 320 km/h, fazendo ultrapassagem eu nunca tinha visto! O mundo assistiu a esta inédita cena nas voltas finais da corrida da MotoGP, em Barcelona, no último domingo. A vitória foi totalmente calculada e merecida do dentista português Miguel Oliveira, mas quem mostrou o tórax imberbe foi o jovem francês Fabio Quartararo (Yamaha) que teve problemas com o zíper do macacão nas voltas finais.

A prova começou com mais uma pole-position de Quartararo, mostrando que está em ótima fase depois da cirurgia no antebraço direito. Ele dominou a primeira fila e ainda era o dono de um excelente ritmo nos treinos. Estava claro que chegaria entre os primeiros, só dependia de como andariam as Ducati de Johan Zarco e Jack Miller.

20-fabio-quartararotop.jpg

Pole nos treinos, Quartararo perdeu a prova por causa de um zíper!

Na largada todo mundo ficou de olho nestes três, mas quem partiu como um míssil Exocet foi o português Miguel Oliveira. Largou em segundo, passou pra primeiro na segunda volta e desapareceu. Enquanto isso Jack Miller, Joan Mir (Suzuki), Johan Zarco e Quartararo se engalfinhavam pelas sobras do pódio. Quartararo alargou um pouco a trajetória e baixou pra sexto lugar, mas foi recuperando, passando um por um até chegar no segundo lugar a mais de um segundo (uma eternidade da MotoGP) de Miguelito.

Quartararo largou com pneu médio na roda dianteira e duro na traseira. Miguel Oliveira era o único entre os primeiros a arriscar dois pneus duros. A escolha portuguesa deu certo. Quartararo tirou a diferença, passou Miguel e quando parecia que ia faturar a terceira prova seguida começou a perder aderência da dianteira. Diminuiu um pouco o ritmo mas dava pinta que seria uma briga frenética pela vitória até que algo muito estranho aconteceu.

O francês da Yamaha começou a mexer em algo no macacão e vimos a cena bizarra do protetor de peito sair voando. Desconcentrado Quartararo perdeu o ponto de frenagem na curva 1, entrou pela área de punição, perdeu a terceira posição para Jack Miller, voltou pra pista com o macacão aberto e ninguém entendia nada. Mesmo com todo vento entrando pelo macacão a 300 km/h Quartararo ainda conseguiu ultrapassar Miller para cruzar a linha de chegada em terceiro, atrás de Zarco.

Antes mesmo de chegar aos boxes Quartararo já tinha sofrido uma punição de três segundos por ter “cortado” a pista. Injusta, porque, na verdade, ele fez o caminho mais longo e lento. E depois da prova foi punido com mais três segundos pela perda do protetor de peito, item obrigatório. Com isso ele ficou em sexto lugar. Heróico, porque pilotar com o macacão aberto já é difícil na estrada a 120 km/h, imagina a 300!

Ao final o piloto afirmou que não entendeu o que tinha acontecido, porque ele travou o zíper antes da largada. Sim, é verdade porque revi a cena da largada e realmente estava muito bem fechado. É um problema pra Alpinestar estudar e resolver. No entanto o correto seria ser retirado da prova com bandeira preta, porque o gatilho que aciona o acelerômetro do air bag macacão é justamente a trava do zíper. Com a trava aberta o air bag não acionaria em caso de queda!

Tirando essa estranha ocorrência, a etapa catalã mostrou mais uma decepção da equipe oficial Honda, com seus dois pilotos fora por queda. Aliás foi uma corrida com muitos tombos, um deles com o veterano Valentino Rossi (Yamaha) justo quando ele estava conseguindo um resultado entre os dez primeiros.

46-valentino-rossi_d.jpg

Talvez tenha chegado a hora de Valentino pendurar o macacão.

O campeonato ficou ainda mais equilibrado e emocionante, ainda com Quartararo na liderança com 115 pontos, seguido de Zarco com 101 (acho que nunca se viu dois franceses no topo da tabela na categoria principal) e Miller com 90.

Na segunda-feira após a prova as equipes voltaram pra mesma pista para treinos oficiais. Maverick Viñales foi o melhor testando uma nova balança traseira de fibra de carbono em sua Yamaha. Marc Márquez treinou bem mas acusou dores no braço direito. Acho que ele recupera a velocidade em breve, mas ainda falta ritmo. Bom desempenho das KTM, o que deixa ainda mais emocionante esta modalidade incrível chamada MotoGP

87-remygardner.jpg

Remy Gardner (87) mais uma vitória e um pé na MotoGP. 

Moto2

Enquanto o mundo vibra com a MotoGP, na Moto2 parece que as coisas ficaram mornas. As duas motos da equipe KTM, de Remy Gardner e Raul Fernandez parecem que são de uma categoria à parte, porque abrem uma confortável distância dos demais em poucas voltas. No começo até deu a impressão de alguma briga entre os dois e mais Xavi Vierge (Petronas), mas não durou muito. Na verdade as motos não são KTM, mas o chassi é Kalex e o motor é Triumph de três cilindros. O mais legal desta categoria é o ronco deste motor, que lembra as motos de quatro cilindros em linha quatro tempos dos anos 1970!

Mais uma corrida para apagar da memória para o veterano Sam Lowes (Marc VDS) que depois de um começo de temporada brilhante foi caindo (literalmente) de produção.

O campeonato também ganhou mais equilíbrio, com Gardner em primeiro com 139 pontos, seguido de Fernandez com 128. Decepção total com o campeão da Moto3 de 2020, Albert Arenas, que marcou apenas 10 pontos até o momento. O espanhol ainda não se entendeu na categoria.

Moto3

Definitivamente é a categoria mais desesperadora para quem assiste, narra ou comenta, porque em meia volta tem mais ultrapassagens do que toda a temporada de F-1. Chega a dar pânico ver a forma como os pilotos correm colados, esbarrando um no outro.

11-sergio-garcia-52-jeremy-alcoba_.jpg

O pega entre Sergio Garcia (11) e Jeremy Alcoba (52). 

Impossível acompanhar a posição dos primeiros colocados, porque a cada curva muda tudo. Desta vez dava a entender que finalmente o argentino Gabriel Rodrigo (Honda) conseguiria sua primeira vitória. Lutando sempre entre os primeiros o hermano liderou várias voltas, mas o que aconteceu na última volta foi digno de roteiro de filme de suspense.

O fenomenal Pedro Acosta (KTM) novamente largou na última fila. Foi escalando o pelotão até chegar ao primeiro lugar nas voltas finais. Os oito primeiros formaram uma fila única e qualquer um deles poderia cruzar a linha de chegada em primeiro. Até que veio a última volta! Logo na Curva 1 um show de frenagens e esbarrões fizeram Pedro Acosta perder várias posições, enquanto o pequeno turco Denis Oncu (KTM) era arremessado às primeiras posições. Jaume Masia (KTM), Jeremy Alcoba (Honda) e Sergio Garcia (GasGas) formaram um pelotão compacto e só se definiu a ordem de chegada a centímetros da bandeirada, com Garcia em primeiro, seguido de Alcoba e do emocionado Oncu. Acosta cruzou em sétimo e manteve a liderança do mundial com 121 pontos, seguido de Sergio Garcia (81) e Masia (72).

53-deniz-oncu_.jpg

Emoção no pódio: Deniz Oncu desabou em choro na entrevista.

Pensa que Pedro Acosta estava aborrecido com esse resultado? Nada, ele chegou a 3 décimos do vencedor e aprendeu mais uma lição: nesta categoria a última é a volta mais importante de toda a corrida.

MotoE

Nenhum especialista em motovelocidade duvida da enorme capacidade do brasileiro Eric Granado (One Energy). Ele está pronto para encarar uma temporada na Moto2, desde que por uma boa equipe, claro, porque o estilo dele casaria perfeitamente nesta categoria.

Mas enquanto isso não vem, continua sendo o mais rápido na MotoE. Fez mais uma pole-position nos treinos. Na largada a moto dele deu tilt: apagou e só voltou à vida depois de dar um restart. Pena que o regulamento o fez largar dos boxes.

71-miquel-pons_l.jpg

Miquel Pons (71) conseguiu sua primeira vitória na MotoE.

Largou, foi passando um monte de gente, fez duas vezes a volta mais rápida, mas caiu. Tudo bem, porque nesta categoria difícil não cair com uma moto que pesa quase 200 kg a mais do que uma MotoGP. O mundo já viu que Eric é o mais rápido da categoria. Falta apenas aquela pequena sorte de campeão.

Na corrida mais um arranca-rabo tradicional desta categoria que é a mais curta de todas. E consagrou um novo vencedor, Miquel Pons (LCR), seguido do veterano Dominique Aegerter (Dynavolt) e do campeão Jordi Torres (Pons). Este resultado embolou de vez o campeonato com a liderança ainda na mão do italiano Alessandro Zaccone, com 54 pontos, seguindo de Aegerter (53) e Torres (43). Granado está em sexto, com 28 pontos.

publicado por motite às 00:52
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 2 de Junho de 2021

A dor e a glória de uma paixão

 

20-fabioquartararo_.jpg

O sorriso de um fenômeno: Quartararo calou a boca dos seus críticos. (Fotos MotoGP.com_

Etapa italiana do mundial de motovelocidade foi marcada pela perda do jovem Jason Dupasquier.

Competições motorizadas tem um risco inerente. Isso todo mundo sabe, mas faz de conta que não sabe. Essa certeza salta à vista só quando o mundo recebe a pior das notícias: a morte de um piloto. O trauma é ainda maior quando acontece ao vivo e transmitido para todo o mundo. Neste momento aquela certeza do risco desperta tanto nos fãs quanto nos pilotos.

O GP da Itália, disputado domingo no circuito de Mugello, na bela região da Toscana, foi marcado por esta tristeza. Jason Dupasquier, suíço de 20 anos, sofreu um acidente na segunda perna da curva Arrabiata e teve graves lesões torácidas e cranianas. Chegou a ser socorrido para o hospital em Firenze, mas no domingo veio a má notícia: ele se foi. Filho de um grande piloto de motocross, começou no Supermotard, depois passou para a motovelocidade sempre com bons resultados e estreou na Moto3 em 2020. Nesta atual temporada estava evoluindo a cada etapa até sofrer o acidente em Mugello.

Ainda sem saber da notícia os pilotos da Moto3 largaram no domingo com expectativa de um grande duelo entre Jaume Masia (KTM), Gabriel Rodrigo (Honda), Pedro Acosta (KTM) e o surpreendente Denis Foggia (Honda). Com o tradicional pega entre os pilotos, esta é a categoria mais emocionante do fim de semana. O nível de competitividade é tão alto que menos de um segundo separaram o vencedor do oitavo colocado.

Para os italianos foi a única oportunidade de ouvir o hino nacional com a emocionante vitória de Denis Foggia, seguido pelo espanhol Jaume Masia e do argentino Gabriel Rodrigo. A grande sensação da categoria, Pedro Acosta, chegou a liderar, mas terminou em oitavo lugar. Mesmo assim ele continua liderando o mundial com muita folga (111 pontos) à frente de Jaume Masia (59) e Ayumu Sasaki (57).

07-dennis-foggia.jpg

Um pega por milímetros de asfalto que premiou o italiano Denis Foggia (7).

Moto2

É pódio ou chão! Assim pode ser resumida a atuação de Sam Lowes (Marc VDS) em 2021. Veterano da categoria, ele está sempre entre os primeiros. Mas constantes quedas comprometeram sua posição no campeonato. Na etapa italiana não foi diferente. Depois da largada, o espanhol Raul Fernandez (KTM) partiu com Lowes e Remy Gardner (KTM) na cola. Os três trocaram de posição até faltarem seis voltas, quando Lowes caiu e abandonou.

A partir daí a briga ficou entre os “colegas” Gardner e Fernandez. Nos últimos metros Gardner conseguiu uma microscópica vantagem e venceu a primeira do ano e pela nova equipe. A apenas 0,014 segundo chegou Raul Fernandez, muito distante do terceiro na linha de chegada, o americano Joe Roberts (Italtrans). Mas ele foi punido por ter “alargado” a pista e perdeu a posição para o italiano Marco Bezecchi (VR46). No campeonato, Remy Gardner continua liderando, com 114 pontos, seguido de Raul Fernandez (108) e Bezecchi (88).

87-remy-gardner_.jpg

Filho de peixe: Remy Gardner segue os passos do pai, Wayne Gardner.

MotoGP

O circuito de Mugello é o único do calendário mundial que eu conheço muito bem. Em 2012 passei um dia inteiro pilotando uma superbike da Ducati. É uma pista maravilhosa, que gira no sentido anti-horário e tem a maior reta dos circuitos do mundial. As motos passam de 350 km/h para uma forte frenagem no final. Além de sequências de “S” que confundem o piloto. Desafiadora é uma das pistas preferidas de quase todos os pilotos, especialmente os italianos.

Mais do que o quintal dos pilotos locais, Mugello é a casa da Ducati, a mais veloz moto do circo da MotoGP. Mas quem fez a pole-position foi o surpreendente e renovado Fabio Quartararo (Yamaha), seguido pelo esquadrão Ducati formado por Francesco Bagnaia e Johann Zarco.

20_Fabio_quartararo.jpg

Quartararo nadando de braçada na Itália e franco favorito ao título de 2021.

Foi nesta categoria que os pilotos receberam a notícia do falecimento de Jason Dupasquier. Fizeram um minuto de silêncio e os pilotos mostraram muita comoção antes de darem a partida nas motos.

Logo após a luz verde três pilotos se destacaram: Bagnaia, Quartararo e Zarco. Quando todos acreditavam que os três duelariam até a bandeirada Bagnaia caiu e deixou o caminho livre para o francês Fabio Quartararo vencer com larga vantagem. A boa surpresa foi o bom desempenho da KTM com o português Miguel Oliveira. Ele conseguiu passar Joan Mir (Suzuki) e terminar em segundo, com Mir colado na sua roda traseira. Curiosamente os dois foram punidos por terem excedido os limites da pista, mas como a punição foi para os dois acabaram mantendo duas posições.

O ídolo local, Valentino Rossi (Yamaha) terminou em 10º já cada vez mais perto da aposentadoria aos 43 anos. E mais uma etapa que Marc Márquez (Honda) não marcou pontos após mais uma queda.

Não houve festa no pódio e Quartararo disse depois da corrida que pensava muito no jovem Dupasquier sempre que passava no ponto da pista onde houve o acidente. Ne teve como comemorar a consolidação de sua liderança na MotoGP, agora com 24 pontos de vantagem sobre Johann Zarco (que terminou em quarto) e 26 sobre Pecco Bagnaia.

Depois de uma temporada de altos e baixos em 2020, causada não apenas pelo problema - já corrigido - da síndrome compartimental no braço direito, Fabio Quartarato foi crucificado por uma boa parte dos "especialistas", embora tenha vencido três etapas. Em 2021 está em ótima fase e montado numa Yamaha capaz de se adaptar a qualquer circuito. Não é a mais veloz, mas é a mais eficiente. E nas competições nem sempre a mais veloz é a mais rápida.

Jason_Dupasquier.jpg

Uma carreira promissora interrompida por uma queda: RIP Jason Dupasquier.

A dor e a glória de uma modalidade que traz o risco ou o sucesso em cada curva.

 

publicado por motite às 01:54
link | comentar | favorito
Terça-feira, 18 de Maio de 2021

GP da França: dia de trovões

51-eric-granado.jpg

Eric Granado (51) foi brilhante na MotoE. (fotos MotoGP.com)

Dia de trovões

O GP da França foi marcado pelo mau tempo e vitória maiúscula de Eric Granado

Pode se orgulhar. O piloto brasileiro mais promissor dos últimos tempos, o paulistano Eric Granado, obteve uma vitória digna dos grandes pilotos na MotoE. Aliás, pra quem tem alguma cardiopatia não aconselho assistir MotoE. Este E deve ser de enfarte! A corrida não tem volta de apresentação, são apenas oito voltas e os pneus duram até depois da bandeirada. O resultado é que todo mundo larga como se não houvesse amanhã. Na base do tudo ou nada. Na primeira etapa deu nada pro Eric. Nesta deu tudo! Os demais vencedores foram Jack Miller (Ducati) na MotoGP, Raul Fernandez na Moto2 e Sergio Garcia (KTM) na Moto3.

O domingo no circuito de Le Mans foi palco de apresentações memoráveis para quem gosta de motovelocidade. Na categoria rainha, a MotoGP, o cenário não podia ser mais emocionante. Começou com pista úmida, choveu, muita gente caiu, levantou, voltou pra corrida, a pista secou e os pneus de chuva se esfarelaram. E sobrou punição pra quase todo mundo.

Na largada a Ducati é realmente de outro planeta. Miller sumiu, mas acompanhado de perto pelo pole-position Fabio Quartararo (Yamaha), Maverick Viñales (Yamaha) e todo pelotão muito embolado. Quando Quartararo assumiu a ponta começou a chover, bem de leve, mas a pista foi molhando discretamente. Este é o pior momento para o piloto, porque não dá para prever se a próxima curva estará seca ou molhada. Nesta agonia Marc Márquez (Honda) conseguiu ultrapassar várias motos para se estabelecer em terceiro. Mas a chuva apertou.

93-marc-marquez_.jpg

Marc Márquez: liderou, caiu, levantou, caiu de novo e desistiu.

Pilotar uma moto de corrida na pista molhada é uma coisa que não desejo nem ao melhor inimigo. Quer saber como é? Vá até um piso de ardósia, jogue água com sabão por cima e depois tente se equilibrar andando de patins. Fácil? Calma, porque tem a frenagem. Imagina aquele sistema de freios que para até pensamento, no piso molhado e com pneus slicks. A frenagem deve ser feita como se tivesse um ovo cru entre a manete e a manopla. O piloto tem de apertar a manete sem quebrar o ovo. É assim... com muito cuidado pra não virar omelete.

Na MotoGP não há trocas de pneus. Troca-se a moto toda! A moto de chuva fica esperando nos boxes com pneus riscados, mapa de gerenciamento eletrônico mais suave, suspensão mais macia. O piloto entra, troca de moto e volta pra corrida. Neste entra-e-sai muita coisa estranha aconteceu: Marc Márquez voltou na liderança! Jack Miller excedeu o limite de velocidade e até o Quartararo parou no lugar errado! Uma lambança.

Quando todos já estavam devidamente recolocados na pista vieram as punições por várias infrações. A motovelocidade está se inspirando na F-1 para distribuir punições, sem se dar conta que é isso que está matando a F-1 de tédio. Excesso de punições tira o brilho dos pilotos. O cara escorrega e, para não cair, tem de abrir a curva. Aí passa o limite, sem ganhar nem um milésimo de vantagem, mas é punido! Um saco!

Miller excedeu o limite de velocidade na entrada dos boxes e teve de cumprir duas voltas longas. Quartararo teve de cumprir uma volta longa. Francesco Bagnaia (Ducati) teve de pagar duas voltas longas. Uma baita confusão.

43-jack-miller_.jpg

Impecável Jack Miller: multado até na corrida!

Mas a pior punição foi de Marc Márquez: caiu pela primeira vez, quando estava liderando. Quartararo herdou a liderança, mas lá atrás as Ducati de Miller e Johan Zarco estavam muito mais rápidas. A explicação era simples: os pilotos da Ducati escolheram pneus de chuva médios nas duas rodas. Quartararo escolheu pneu dianteiro macio, achando que a chuva duraria mais. Não durou. Parou de chover e os pneus macios esquentam muito mais rápido, porém consomem mais rápido e praticamente desmancham no asfalto seco. Quando se pilota na pista seca com pneus de chuva a impressão é de estar escorregando em algo muito seboso. A moto derrapa muito mais e o piloto precisa ter muito controle para acelerar e frear sem destruir ainda mais a borracha. Foi nessa condição que MM93 caiu pela segunda vez, checou se estava tudo bem com o braço e desistiu de voltar pra pista.

Mesmo depois de perder tempo com duas punições Jack Miller conseguiu assumir a liderança e venceu de forma magistral. Quartararo viu sem compatriota Johan Zarco chegar como um raio e também passar. Mas a maior surpresa foi ver Pecco Bagnaia terminar em quarto depois de perder uma eternidade com as punições. Depois da bandeirada o mais eufórico era Quartararo, porque conseguiu completar a corrida sem apresentar os problemas no antebraço direito que atrapalharam sua corrida na etapa anterior. Ele aproveitou o intervalo entre as etapas para fazer uma cirurgia. Pela euforia no final da prova parece que a cirurgia deu certo.

Na entrevista após a prova, Miller era a pura felicidade estampada e brincou “toda vez que dirijo na França sou multado, até na corrida!”. Com esta classificação o Mundial ficou ainda mais embolado, com Quartararo na frente com 80 pontos, Pecco Bagnaia, com 79, Johan Zarco com 68 e Miller com 64.

As notas tristes do GP da França: mais uma atuação desastrosa das Suzuki, a queda logo no início do Franco Morbidelli (Yamaha) e outro desempenho claudicante de Valentino Rossi (Yamaha) que já está mais preocupado com a montagem de sua equipe em 2022.

As notas boas: a brilhante recuperação de Johan Zarco que poderia até ter alcançado Miller, mas preferiu usar a cabeça e pensar nos 20 pontos; os desempenhos consistentes de Nakagami (Honda), Alex Márquez (Honda) e Danilo Petrucci (KTM).  

25-raul-fernandez_.jpg

Segunda vitória de Raul Fernandez na temporada: pinta de campeão!

Moto2

O bicho pegou também na Moto2. Três favoritos saíram da prova logo no começo: o espanhol Aron Canet nem completou a primeira volta, o inglês Sam Lowes na terceira e o americano Joe Roberts voou na quarta volta. Quem soube administrar melhor a adrenalina no piso úmido foi Raul Fernandez, que conseguiu a segunda vitória na temporada e se apresentou como um dos favoritos. O australiano Remy Gardner soube se manter calmo para aceitar a segunda posição, pensando no campeonato e deu certo, porque saiu da França líder com 89 pontos, apenas um a mais do que Raul Fernandez.

Temporada difícil para o veterano Lowes. Depois de um começo arrasador, com duas vitórias seguidas foi ao chão em duas etapas e está vendo a nova geração comendo pelas beiradas. A cada etapa esta categoria fica mais emocionante. Nela não tem troca de moto em caso de chuva. Ou para todo mundo e troca pneu, ou segura o touro a unha e se mantém na pista com pneus slick.

11-sergio-garcia_.jpg

Sergio Garcia não se afobou na pista molhada e venceu na Moto3.

Moto3

Mais uma vez eu reforço: este Pedro Acosta (KTM) não é deste planeta. Foi punido nos treinos e teve de largar na distante 22ª posição. Nada demais, ele largou em último e venceu o GP de Doha. Desta vez ele largou no fim do pelotão, já estava em sexto lugar quando escorregou e caiu, sem deixar o motor morrer. Montou na moto e voltou pra pista em último. Chegou em 8º. Ainda lidera o mundial da categoria com folga: 103 pontos contra 49 do segundo colocado, Sergio Garcia (Gas-Gas), vencedor na França.

Foi uma prova atípica. A diferença do vencedor para o quinto colocado foi de quase 15 segundos.  O tcheco Filip Salac (Honda) foi o segundo colocado e o italiano Ricardo Rossi (KTM), que não é parente de Valentino, foi o terceiro.

51-eric-granadodsc_abre.jpg

Número 1: Eric correu como gente grande e recebeu elogios de todo mundo.

Moto E, de Eric, de Eletricidade e Enfarte

A nova equipe do brasileiro Eric Granado, a One Energy Racing, mostrou muita competência e seriedade. Desde que começou a temporada 2021 o brasileiro tem liderado todos os treinos. Fez a pole na primeira etapa, mas escorregou e não terminou a prova. Ficou aquele gostinho de vingança no ar.

E ela veio. Na França marcou a pole-position de novo. Mas desta vez fez tudo tão certo e calculado que mostrou aquela maturidade típica dos grandes campeões. Na MotoE a largada é muito importante porque são apenas oito voltas. Mas ninguém sabia como estava a pista depois da chuva e da chegada de uma ventania insana. Por isso Eric largou de forma cautelosa. Perdeu várias posições e chegou a ficar em quinto lugar.

Mas foi pegando confiança e enfileirando os concorrentes de forma tranquila e consciente. Até que chegou a última volta. Ele já tinha passado o líder, o italiano Alessandro Zaccone, mas levou o “xis”. Manteve a calma e faltando duas curvas para a bandeirada jogou a moto por dentro para deixar o lado externo mais sujo para Zaccone. Sem ter pra onde ir o italiano teve de abrir demais a curva, invadiu os limites e cruzou a linha de chegada em segundo. Porém foi punido por exceder o limite de pista e perdeu uma posição. O segundo lugar – terceiro na linha de chegada – foi o também italiano Mattia Casadei.

Esta temporada da MotoE promete ser eletrizante, sem trocadilhos, porque ficou patente que o piloto brasileiro está em uma estrutura campeã e ele evoluiu demais como piloto. A forma como pilotou nas primeiras voltas deixou o mundo da motovelocidade impressionado.

Um título mundial seria o passaporte para uma estrutura mais bem preparada para as categorias a combustão. Recomendaria a Moto2, por onde ele já passou, mas em uma equipe sofrível. Felizmente a vida permitiu que ele mostrasse que o problema nunca foi o piloto!

Com a vitória, Eric assumiu o quarto lugar com 28 pontos, contra 41 do líder, Zaccone. É um campeonato curto, com corridas curtas. Não pode zerar mais!

publicado por motite às 02:25
link | comentar | favorito
Sábado, 8 de Maio de 2021

Usada da vez: Honda XR 250 Tornado

Tornado_Lander.jpg

Um dos testes mais comentados: o comparativo com a Lander 250. (Foto: Tite)

Usada da vez: Honda XR 250 Tornado

Uma das motos mais versáteis e completas do mercado brasileiro

Sempre gostei mais de motos de uso misto. Tive dúzias delas, desde a 180cc dois tempos, até várias Honda XL e XLX 250R, Agrale, Suzuki, BMW e até uma problemática Cagiva. Mas a que sempre quis ter, mas nunca comprei, foi a Honda XR 250 Tornado. Desde o primeiro dia que vi foi amor à primeira vista. Nesta época eu tinha uma Suzuki DR 650RE que considero uma das melhores motos já produzidas no planeta Terra. mas eu morrida de vontade de ter uma Tornado.

Por conta da minha condição de testador palpiteiro, rodei trocentos mil quilômetros de Tornado nas mais variadas condições. Ouso dizer que devo ser o jornalista que mais rodou com esta moto em teste. No período de comercialização da Tornado eu trabalhei em duas revistas especializadas diferentes e nas duas fiz testes de longa duração. E quanto mais pilotava essa moto, mais apaixonado eu ficava. Mas nunca tive uma para chamar de minha.

Pouca gente sabe, mas o motor 250cc, quatro tempos, de quatro válvulas e duplo comando da Honda nasceu para equipar uma moto fora de estrada. O projeto caiu como uma luva para o nascimento, em 2001, da Honda XR 250 Tornado, grande sucesso de vendas da marca no Brasil. Só depois este motor foi adaptado a uma moto urbana, a Twister 250. Mas desde sempre ficou mais bem casado com a versão offroad. Para ser honesto, a Twister nunca foi um produto 100% bem projetado. Algumas falhas persistiram até o fim da linha.

Tornado_1.jpg

Que me desculpem as outras, mas Tornado tem de ser vermelha!

Revendo minha coleção de revistas acho mesmo que fui o jornalista que fez mais quilometragem em cima de uma Tornado. Além dos inúmeros testes, fiz várias viagens de longa duração montado no banco estreito e duro! Em uma delas, de Natal, RN, a Salvador, BA, até contraí um matrimônio! Em outra ocasião fui até Campo Grande (MS) e entrei no meio de um rally em pleno Pantanal Matogrossense. Também tive a chance de comparar com as principais concorrentes, desde a Yamaha XT 225 e depois com a Yamaha XTZ Lander 250, este último um teste que entrou para a história!

Só pra contar um pequeno (entre centenas) de causos, na viagem de Natal para Salvador eu usei um acessório para minha bunda aguentar o banco estreito e duro. Era uma almofada de gel que eu prendia com uma cinta de velcro. Num trecho de terra fui levantar do banco e zum, lá se foi a almofada. Só percebi alguns kms depois quando voltei pro banco. Voltei pela estrada, já á noite, com aquele farol fraquinho, sem esperança de achar minha almofada quando vejo um cachorro todo enroladinho no meio da estrada. Estava deitado na minha almofada. Recuperei a almofada e segui viagem. Sem ela seria muito difícil sobreviver àquele banco.

Tornado_preta.jpg

Rodas de alumínio deixam a Tornado mais aventureira ainda.

Desde sempre achei as motos de uso misto mais adequadas às estradas e ruas brasileiras. Lembre, apenas 13% de todas as vias do Brasil são asfaltadas. Isso mesmo, parece ficção, mas é a pura verdade. Nos 87% restantes é bom ter um veículo que enfrente bem estas condições. No caso da Tornado ela encarava tão bem o fora de estrada que várias vezes me joguei em trilhas pesadas com a moto original, sem nenhuma alteração em pneus ou relação.

Outro aspecto interessante deste modelo é seu desenho que permanece atual até os dias de hoje. Uma surpresa para quem ama a Tornado é que ela saiu de linha no Brasil em 2008, mas continuou sendo produzida até 2019 para o mercado argentino! Sim, era possível ter uma Tornado “zero km” em 2019! O que acabou com a venda da Tornado em terras brasileiras foram as regras de emissão de poluentes da PROMOT. Inviabilizou os motores com carburador e acelerou a chegada da XRE 300 com injeção eletrônica.

Tornado_2.png

A Tornado pode ser usada dentro e fora de estrada.

Um detalhe que fez muito sucesso foi o painel digital. De tão bem bolado e desenhado ele se tornou um item de customização entre as motos de outras categorias. Virou mania colocar painel de Tornado em todo tipo de moto! Por isso mesmo a Tornado foi por muitos anos uma moto muito visada pelos bandidos! Mas também porque é boa de fuga!

Como é

A Tornado 250 é uma moto muita balanceada para circular nos ambientes urbanos e rurais. O sistema de suspensão, derivado diretamente das motocross da marca, adota o conjunto traseiro Pro-Link monoamortecido regulável, com 224 mm de curso, enquanto a dianteira tem bengalas com tubos de 41mm de diâmetro e 245mm de curso.

O mais fantástico dessa suspensão é o comportamento no fora de estrada pesado. Eu mesmo tive a chance de comprovar em várias oportunidades, especialmente no rally em pleno Pantanal. Nesta ocasião, além de provar o bom trabalho da suspensão, pude comprovar a eficiência dos pneus de uso misto – muito mais off do que on road – Metzeler Enduro 3 Sahara. Porém no uso estradeiro estes pneus se mostraram exageradamente barulhentos. Neste caso não há o que fazer: para os pneus terem eficiência na terra precisam ter sulcos largos e profundos e isso causa ruído mesmo.

tornado_rali.jpg

Minha participação no rally com a Tornado. Na mesma trilha dos pilotos "de verdade". (Foto: Café)

Neste rally pantaneiro peguei um longo trecho de areião pesado e nem sequer diminuí a calibragem. Entrava e saía do asfalto para terra e vice versa várias vezes e pude confirmar o quão versátil é a Tornado. Podem ser barulhentos, mas os pneus são muito versáteis.

Se for usar na Tornado essencialmente no asfalto existem opções de pneus mais on e menos barulhento, como o Pirelli MT 60, por exemplo. Ele oferece a versatilidade com menos ruído no asfalto.

Entre as broncas mais comuns dos donos de Tornado a altura do assento é uma das mais ouvidas. Quando nova, essa distância do banco ao solo é de 880mm, muita coisa, o que acabou prejudicando muito a venda para o público feminino e entre os mais baixos. Como o amortecedor traseiro tem um curso bem grande, depois que o piloto assume a posição de pilotagem, a moto abaixa bastante.

Tornado_3.png

Acredite, a Tornado foi fabricada até 2019, mas para exportação.

Um dos destaques da Tornado é o câmbio de seis marchas, que atua como se a sexta marcha fosse uma espécie de “overdrive”. Além de manter o motor em rotação mais baixa na última marcha, ajuda bastante a melhorar o consumo. Nas dezenas de viagens que fiz com essa moto o consumo foi dentro do esperado para a categoria. A melhor marca foi de 36 km/litro rodando com toda paciência do mundo. E a pior foi de 14 km/litro quando precisei encarar mais de 1.000 km de estrada em apenas um dia de viagem.

Aliás, na viagem de Natal a Salvador passei um tremendo sufoco à noite. O farol da Tornado tem lâmpada de 35W, mas a lente pequena não espalha o facho e num trecho de rodovia sem as faixas pintadas no asfalto optei por dormir em um posto de gasolina a continuar em voo cego. No meio da noite fui salvo por um mecânico de moto que ofereceu para carregar a moto (e eu) até Maceió, AL. Consegui dormir numa pousada.

A polêmica velocidade

Uma polêmica envolvendo essa moto foi na minha viagem até Campo Grande. Num trecho da estrada peguei uma longa descida, com uma forte ventania de cauda e o velocímetro chegou a 163 km/h. Eu já tinha percebido que aquela Tornado tinha um motor mais forte do que as outras que tinha testado. Isso pode acontecer por vários motivos, em motos novas. Eu mesmo fiquei besta ao ver o número no painel. Uma das explicações é justamente o câmbio de seis marchas. Como a Tornado não tem conta-giros nunca soubemos se ela “enchia” a sexta até 7.500 RPM em condições normais. Com este vento de popa acho que foi suficiente para literalmente empurrar a moto até essa velocidade absurda.

Quando este teste foi publicado na revista da MOTO! o revisor vacilou a saiu 168 km/h. Isso gerou uma comoção nas redes sociais (Orkut, na época). O que os “haters” omitiram foi a parte que eu explicava que na mesma estrada quando pegava o vento contrário a velocidade máxima não passava de 90 km/h em quinta marcha, porque se engatasse a sexta a velocidade piorava mais. À noite eu vi o noticiário informando que a região tinha sido assolada por uma ventania incomum. Eu que diga, quase saí voando!

Tornado_painel.jpg

Painel tão moderno que serviu a muitos projetos de customização. 

Nos testes feitos em condições normais, ao nível do mar, nos dois sentidos, a maior velocidade máxima alcançada por esta Tornado foi de 142 km/h. O normal era por volta de 132 a 135 km/h. Isso pouco importa, porque este motor de 23,2 CV a 7.500 RPM tem um desempenho suficiente para uso normal e permitir uma viagem tranquila – como eu mesmo provei várias vezes. O câmbio de seis marchas ajuda nas respostas mais vigorosas. A aceleração de 0 a 100 km/h foi feita em média em 12,5 segundos.

Dois outros testes importantes realizados com a Tornado foram o de 24 horas sem parar na revista MOTO! e o de 10.000 km rodados. No primeiro teste chamou atenção o consumo de óleo que chegou a 300 ML para 1.640 km rodados. Pode parecer alto para um motor novo, mas nos testes 24 horas a moto é submetida o tempo todo na sua aceleração máxima. Além disso o motor arrefecido a ar consome óleo mesmo. Por isso é bom ficar esperto e verificar o nível de óleo a cada 1.500 km.

tornado_10K.jpg

Teste de 10.000 km: em busca do ruído do motor. (reprodução revista MOTO!)

Já no teste de 10.000 km o que mais chamou atenção foi o ruído no motor. Começou dentro do normal, mas depois aumentou e as explicações passaram pelo principal suspeito que era o rolamento de virabrequim com folga ou o pino do pistão também com folga excessiva. Estes dois “problemas” foram solucionados nas Tornado mais novas. Os dois testes foram realizados em 2001 no ano do lançamento.

Ao longo dos seus sete anos de vida a Tornado teve apenas pequenas mudanças na estética (grafismo, escapamento, o kit de plástico do tanque), mas na parte mecânica permaneceu sempre o mesmo confiável propulsor alimentado por carburador.

Uma das reclamações mais ouvidas dos proprietários era com relação ao freio traseiro a tambor. Essa bronca aumentou quando a Yamaha lançou a concorrente Lander 250 com freio traseiro a disco. Na prática o freio da Tornado, mesmo com disco apenas na frente, é mais eficiente do que o da Lander, porque a mangueira do freio dianteiro da Yamaha é meio “borrachuda”.

O que observar?

 Por ser uma moto de uso misto é importante saber se a Tornado usada frequentou muito as estradas de terra. Observe os rolamentos da caixa de direção, da balança traseira e das rodas. Os aros são de alumínio, um dos charmes dessa moto, verifique se estão sem amassados ou tortos. Também é bom conferir os retentores das bengalas porque o guarda-pó esconde os vazamentos.

A suspensão traseira pode ficar cheia de barulhos se não for feita a manutenção periódica. Basta subir na moto e forçar pra baixo em busca de ruídos. Também é bom trocar o óleo das bengalas se a moto avaliada tiver mais de 30.000 km.

Os preços variam de R$ 6.500 a R$ 13.500 (em São Paulo). Difícil é achar uma em estado original porque esta é uma das motos com mais equipamentos de personalização do mercado, principalmente o escapamento. Alguns de muito bom gosto, mas muitos de gosto bem duvidoso. É quase uma raridade encontrar uma Tornado com escape original. Outro desafio é encontrar com menos de 50.000 km rodados porque é uma moto feita pra viajar, mas com sorte tem até com 20.000 km rodados. As cores produzidas foram: branca, vermelha, azul, preta e amarela.

FICHA TÉCNICA

Motor

Tipo – quatro tempos, monocilindro, arrefecido a ar, quatro válvulas, duplo comando no cabeçote.

Cilindrada – 249 cc

Diâmetro/curso – 73x59,5 mm

Potência – 23,2 CV a 7.500 RPM

Torque – 2,41 Kgf.m a 6.000 RPM

Taxa de Compressão – 9,3:1

Alimentação –carburador 30 mm

Câmbio – seis marchas; embreagem acionamento mecânico

Transmissão – coroa, corrente (com O-rings) e pinhão

Quadro - tubular semiduplo de aço

Suspensão dianteira – garfo telescópico regulável. 245 mm

Suspensão traseira – monoamortecedor Pro-Link 224 mm

Distância entre eixos – 1.414 mm

Freio dianteiro – disco

Freio traseiro – tambor

Pneu dianteiro – 90/90-21

Pneu traseiro – 120/80-18

Comprimento total mm – 2.130

Largura total mm – 829 

Altura do assento – 840 mm

Peso seco – 131 kg

Tanque – 11,5 litros

Consumo de combustível – 25,5 km/litro (média geral); pior medida 14 km/litro, melhor medida 36 km/litro

Velocidade máxima (declarada) – 130 km/h

Aceleração de 0 a 100 km/h – 12,25 segundos

publicado por motite às 00:27
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 4 de Maio de 2021

Jack in the Box! A vitória de Jack Miller no GP da Espanha

43-jack-miller_abre.jpg

Vencer corrida exige estratégia, foi isso que a Ducati fez na Espanha! (Fotos: MotoGP.com)

Ducati domina GP da Espanha

Dobradinha com Jack Miller e Pecco Bagnaia levam a marca italiana ao topo

Tudo fazia parecer que o francês Fabio Quartararo (Yamaha) venceria mais uma etapa (a tarceira) e sairia do GP da Espanha ainda mais líder na categoria rainha da MotoGP. O roteiro foi muito bem elaborado: ele fez a pole-position, largou mal, recuperou, assumiu a liderança e colocou 1,7 segundo de vantagem sobre o segundo colocado Jack Miller (Ducati). Mas na metade da prova o rendimento do Quartararo foi piorando, começou a ser ultrapassado por quase todo mundo e terminou a prova em um inexplicável 13º lugar. Na Moto 2 vitória do experiente italiano Fabio Di Giannantonio (Gresini); na Moto3 outro show do espanhol sensação Pedro Acosta (KTM) e na MotoE o brasileiro Eric Granado caiu quando liderava, deixando a vitória no colo do italiano Alessandro Zaccone (Pramac).

43-jack-miller_.jpg

Festa do Jack: piloto australiano voltou a vencer e convencer!

O nome em inglês é “arm pump”, quando os antebraços ficam endurecidos pelo esforço excessivo. Além da dor, as mãos perdem sensibilidade e a capacidade preênsil. Também conhecida como síndrome compartimental, ataca pilotos de moto, tanto de velocidade quanto de motocross. Foi essa reação que fez Fabio Quartararo perder uma vitória certeira em Jerez da La Frontera e despencar para a 13a posição. Um golpe duro para este jovem francês que venceu duas etapas em seguida. Após a chegada o mundo viu pela câmera on-board o choro dele, que sabia que seu futuro dependia de resolver um problema físico.

Conheço bem esse problema porque eu mesmo vivi isso na minha última temporada de motovelocidade, em 1999. O problema é maior no antebraço direito, por causa dos comandos de freio dianteiro e acelerador, os mais usados nas provas. Depois de 10 voltas eu não sentia mais a mão e não conseguia controlar a frenagem. Perdia mais de meio segundo por volta e qualquer chance de vitória. No meu caso a moto era uma Honda RS 125 que pesava apenas 60 kg, então eu conseguia relaxar nas retas, abrir a mão e fazer circular o sangue, mas numa MotoGP isso é impossível. Imagino o sofrimento do Quartararo, mas a equipe deveria saber disso e exigir a cirurgia para corrigir. A maioria dos pilotos de motocross fazem essa correção e resolve!

Melhor para a Ducati que conseguiu uma dobradinha nas mãos do esforçado australiano Jack Miller, escoltado por Pecco Bagnaia, que assumiu a liderança do mundial na categoria MotoGP. O italino Franco Morbidelli (Yamaha) conseguiu um excelente terceiro lugar, seguindo uma série de resultados convincentes. Olho nele em 2021, porque dos pilotos Yamaha é o mais bem preparado física e mentalmente.

63-pecco-bagnaia.jpg

Grande resultado pra Bagnaia, que lidera o mundial!

A etapa espanhola também marcou a segunda participação do espanhol Marc Márquez (Honda). O piloto teve uma queda no treino, mas não comprometeu fisicamente. Marcou o 13º tempo atrás dos seus companheiros de equipe Pol Espargaró e Stefan Bradl. Na corrida as posições se inverteram e Márquez foi o piloto oficial Honda mais bem colocado, em nono lugar. Depois da corrida ele declarou que sentia dores em todo o corpo. Mas que estava achando o ritmo. Acredito que até a metade da temporada vamos ver o fenômeno disputando as primeiras posições.

É cada vez mais melancólica a situação de Valentino Rossi. O italiano multicampeão mundial não consegue encontrar um ritmo veloz na sua Yamaha. Largou na 17a posição e não passou disso na corrida, terminando na mesma posição. Para piorar viu seu companheiro de equipe, Franco Morbidelli subir ao pódio. Se eu fosse o manager dele aconselharia a sair fora agora. O contrato dele permite parar quando bem entender. Acho que chegou a hora.

Em uma corrida sem muita emoção, destaque para Takaaki Nakagami (Honda) que largou em quinto e terminou em quarto, colado em Morbidelli. Foi o piloto Honda mais bem colocado. Numa equipe satélite, o que fica ainda mais evidente que as Honda oficiais não acharam o ritmo vitorioso. 

93-marc-marquez.jpg

A fera à solta: ainda falta um pouquinho de preparo físico para Marc Marquez. 

Parece que depois do ano esquisito de 2020, o mundial de Motovelocidade começa a voltar ao normal, sem os resultados inesperados do ano passado. A Suzuki parece ter perdido o desenvolvimento, enquanto a Aprilia subiu muito de rendimento, mais acertada e repetiu seu melhor resultado com Aleix Espargaró, terminando no sexto lugar, depois de ocupar a quarta posição por muitas voltas.

A tabela ficou mais equilibrada, com Bagnaia liderando apenas dois pontos à frente de Quartararo, que disse em entrevista coletiva não saber qual será seu futuro na categoria. Na verdade a síndrome compartimental pode ser tratada com cirurgia. Mas deveria ter sido feita antes de a temporada começar, claro. Agora é tarde demais.

Digianantonio.jpeg

Di Gianantonio era só alegria depois de uma vitória tranquila!

Moto 2, um baile de Digia

Depois de zerar na etapa de Portugal, o inglês Sam Lowes (Marc VDS) parece que esfriou a cabeça a fez uma corrida bem controlada, visando o máximo de pontos. Soube esperar o momento de atacar e controlar os adversários, especialmente o estreante Raul Fernandez (KTM), o italiano Marco Bezzecchi e o australiano Remy Gardner (KTM).

A meta foi comprida à risca e Lowes conseguiu um ótimo terceiro lugar, atrás de Bezzecchi e do vencedor Fabio Di Gianantonio (Gresini). Digia fez uma corrida perfeita, abrindo mais de dois segundos de vantagem sobre os demais, o que é uma enormidade na motovelocidade. Gardner terminou em quarto e passou a liderar a categoria com três pontos a mais sobre Lowes, em segundo, e Raul Fernandez em terceiro com 63 pontos.

37-pedro-acosta_.jpg

Quem segura esse moleque? Pedro Acosta, 16 anos, é fenomenal!

Moto3, histórica

Ninguém mais duvida que o espanhol Pedro Acosta (KTM) é a sensação da temporada. Pela primeira vez em 73 anos de existência da motovelocidade nenhum outro piloto estreante tinha alcançado quatro vezes o pódio nas quatro primeiras corridas. A forma como ele partiu do 13º lugar para chegar na liderança foi tão limpa, calma e precisa que já pode se considerar um artista e absoluto favorito ao título.

A corrida foi a emoção de sempre. O turco Denis Oncu (KTM) teve a chance de conquistar a primeira vitória, mas nas últimas curvas da última volta errou e acabou levando Jaume Masia (KTM) e Darryn Binder (Honda) juntos. Com essa lambança o segundo lugar caiu no colo de Romano Fenatti (Husqvarna) e o terceiro lugar ficou para Jeremy Alcoba (Honda).

Agora Pedro Acosta, de apenas 16 anos, lidera o mundial com 95 pontos dos 100 possíveis e três vitórias consecutivas. Sim, ele já é comparado a fenômenos como Marc Márquez e Valentino Rossi.

51-eric-granado.jpg

Eric Granado: é só esfriar a cabeça e engolir esses caras todos!

MotoE, quase Eric

Emoção não faltou na abertura do mundial de MotoE. Para nós, brasileiros, era esperado um show do paulista Eric Granado (One Energy) porque ele foi sempre o mais rápido nos treinos desde as seções pré-temporada. Na Espanha fez a pole-position com três décimos de vantagem, o que é uma eternidade nesta categoria. Mas veio a corrida!

As corridas da MotoE são curtas, apenas oito voltas, por isso não permitem erros. Eric largou bem, estava na liderança, mas errou. Caiu, voltou pra pista e terminou em 13º. Deixou o caminho livre para a vitória apertada do italiano Alessandro Zaccone (Pramac), seguido do veterano Dominique Aegerter (Dynavolt) e do campeão de 2020, Jordi Torres (Pons Racing). Se fizer tudo calculado como no ano passado, Torres já é o favorito para 2021!

Depois da corrida Eric admitiu o erro e prometeu se controlar nas próximas. Ninguém dentro do circuito mundial da motovelocidade tem dúvidas quanto à capacidade e velocidade do brasileiro. Só precisa um pequeno ajuste fino no temperamento para ser imbatível nesta categoria.

publicado por motite às 14:34
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 22 de Abril de 2021

Especial, o dia que pilotei uma Ducati 916 em Interlagos

duca_sennapista.jpg

Este dia foi louco: uma Ducati 916 zero todinha só pra mim em Interlagos! (Fotos: Mário Bock)

O ano é 1995, logo após completar um ano da morte do tricampeão mundial de F-1 Ayrton Senna, ídolo de toda uma geração de brasileiros. Qualquer brasileiro, gostando ou não de automobilismo, sentiu uma ponta de tristeza pela morte do Ayrton. Minha mãe disse que só tinha visto tamanha tristeza quando morreram o cantor Francisco Alves (em 1952) e depois o presidente Tancredo Neves, em 1985. Por isso a imprensa explorou o quanto pôde a morte do Ayrton. Qualquer publicação que trouxesse a foto dele na capa era certeza de sucesso de vendas.

Claro que isso respingou na redação da revista Duas Rodas. A vontade de colocar uma foto do Ayrton na capa era enorme, mas cadê que aparecia oportunidade? Até que ela surgiu por meio de um importador independente, na época envolvido com a marca Ducati. Ele me ligou com duas bombas: tinha acabado de chegar a primeira 916 em solo brasileiro e ele que receberia a moto na caixa. A outra bomba: ele conseguiu permissão para fotografar a versão Senna número 001, mas apenas parada.

Não foi difícil criar uma situação para justificar meter a foto do Ayrton na capa: teríamos a 916 normal à disposição para teste dinâmico e a Senna para fotos. Foi assim que me vi em Interlagos, num dia de semana, pilotando uma Ducati 916 novinha, algo inimaginável e ainda com autorização para acelerar à vontade. Claro, este importador já me conhecia há décadas e sabia que eu jamais mandaria uma moto daquelas pro espaço. Aliás, que fique registrado: eu nunca caí durante um teste nestes 40 anos de rala e rola.

Ser jornalista da Duas Rodas sempre dava muitos privilégios, mas exigia muita responsabilidade. Perdi a conta de quantas vezes eu peguei motos diretamente da caixa para a rua. Sempre com liberdade para andar à vontade. Pena que isso não tenha mais nenhum valor hoje em dia!

Para criar uma ilusão no leitor, nós fizemos as fotos da 916 Senna com o mesmo capacete, botas, luvas e macacão que usei na pista. O Mário Bock usou um filtro na máquina que dava a sensação de velocidade, mas esqueceram dos tijolinhos da parede ao fundo! Ah e quem estava na Senna não era eu, mas o Edson Perin.

Curta a leitura do mesmo jeito que eu curti demais acelerar essa moto em Interlagos. Ah, a edição em questão vendeu bem!

Francisco_Alves_1942.jpg

O cantor Francisco Alves, em 1942, também curtia as motocas. (Wikipedia)

n.d.r: As fotos são todas do grande Mário Bock, mas nesta fase a revista Duas Rodas foi impressa em uma gráfica nova que demorou para acertar o padrão de cores e de qualidade bem duvidosa. Melhorou o papel, mas a impressão ficou pior. Por isso as fotos estão com resolução muito ruim. A culpa não é do Mário, tá?

DUCATI 916, o mito!

EXCLUSIVO! Revelamos a Ducati Senna 916, versão 001, feita especialmente para o piloto brasileiro. E andamos na Ducati 916, a mais esportiva das italianas, avaliada pela primeira vez no Brasil.

A Ducati 916 Senna tem a mesma mecânica e ciclística da Ducati 916. As diferenças estão em algumas peças feitas de fibra de carbono, pintura e menor peso. O mais importante é a exclusividade da Senna: foram feitas apenas 300 unidades, como uma obra de arte dedicada a um grande artista.

Prepare-se. Pela primeira vez a Ducati 916 vai entrar em uma pista brasileira. O cenário é o circuito de Interlagos, palco de incontáveis proezas motorizadas. Com absoluta exclusividade DUAS RODAS avaliou a mais esportiva das italianas, lançada recentemente no mercado mundial. Sua produção é pequena, o que eleva o preço a níveis estratosféricos. A 916 avaliada estava sendo vendida a R$ 35.000. Sem dúvida, um prazer para poucos e sortudos motociclistas.

O primeiro contato com a Ducati 916 surpreende. Ela tem dimensões reduzidas, menor do que a Honda CBR 600F. A cor só poderia ser o tradicional vermelho-Ferrari, já que esta Ducati está sendo chamada na Itália de "a Ferrari em duas rodas”. O estilo é o mais esportivo possível, com as duas lentes do farol em formato amendoado incrustadas na carenagem de formas retas. Duas entradas de ar sob os faróis reforçam o aspecto agressivo da frente.

A análise visual revela ainda outros detalhes de extrema esportividade. A suspensão traseira monoamortecida é regulável na mola e amortecedor (da marca Showa japonesa). Um braço articulável permite ainda regular a altura da traseira. Tudo isso é completado com o monobraço oscilante, permitindo o saque rápido da roda traseira, soltando apenas uma porca. Esse sistema monobraço é um aviso do pessoal da Cagiva (atual “dona" da marca Ducati) para os japoneses de que logo deverá surgir uma 916 especial para competir no mundial de endurance (provas de longa duração). Atualmente a Ducati é bi-campeã mundial de superbike e podem aguardá-la vencendo também nas provas de longa duração.

A esportividade se estende por todo projeto, incluindo o banco monoposto e suspensão dianteira invertida da Showa. A carenagem integral é fixada por presilhas de engate rápido, semelhante às utilizadas em competição. Por tudo isso pode-se dizer que a Ducati 916 é a moto atual mais próxima de uma moto de corrida. É como se pegassem um Fórmula 1, instalassem faróis e piscas e saíssem por aí passeando pelas ruas.

duca_sennadetalhes.png

O maravilhoso conjunto de escapamento e a centralina eletrônica que gerencia o motor.

Ronco mágico

A segunda surpresa da Ducati 916 é na hora de ligar o motor. Acionada a partida o ronco é impressionante. Esqueça as velhas Ducati barulhentas e vibrantes, essa versão tem o ronco grave, como se fosse um caminhão, mas um caminhão que pode chegar a 11.000 rpm. O motor de dois cilindros tem a configuração em V a 90º (n.d.r. quando um motor em V tem 90º o correto é chamar de motor em L), considerada a forma ideal para eliminar as vibrações sem necessitar dos enormes contrapesos do virabrequim que prejudicam a potência. O comando de válvulas é o eterno e funcional desmodrômico, que dispensa as molas de retorno dos balancins. Os ressaltos do comando abrem e fecham as oito válvulas (quatro por cilindro), melhorando muito a eficiência do ciclo entra-mistura-saem-gases. Para completar a eficiência deste propulsor, a alimentação é por injeção indireta eletrônica, pondo fim aos carburadores e suas complexas regulagens.

duca_senna2.jpg

O belíssimo quadro de treliça tubular, uma obra de arte!

As dimensões compactas servem sob medida para pessoas de 1,70m. Os semi-guidões ficam presos diretamente nas bengalas, numa posição baixa, forçando as mãos e punhos. As pedaleiras são recuadas e não há pedaleiras para garupa. O banco é praticamente uma camada fina de espuma e o piloto é obrigado a ficar constantemente com a barriga encostada no tanque. Os comandos elétricos seguem o padrão convencional.

Pouco convencional é o quadro. Enquanto a maioria absoluta das esportivas japonesas utiliza quadro do tipo delta-box de alumínio, a Ducati foi buscar inspiração em seus modelos mais antigos e criou um quadro de treliça tubular de aço-cromo-molibdênio, capaz de combinar resistência e flexibilidade, além de ser mais leve que os quadros integrais. O motor fica "pendurado" nesta estrutura complementando o quadro. Uma das novidades desse quadro é o ângulo de cáster regulável, podendo variar entre 24° e 25º, o que corresponde a um trail de 94 a 100mm. Mais uma vantagem para quem for correr com a Ducati 916, já que é possível adaptar a melhor geometria de quadro de acordo com o tipo de pista.

duca+sennadetalhe.jpg

Na versão Senna algumas peças são de fibra de carbono e o quadro é dourado.

Rainha do asfalto

O projeto da 916, assinado pelo engenheiro Massimo Tamburini junto com o centro de pesquisas da Cagiva em San Marino, levou quase cinco anos para ser concluído. O motor é uma evolução natural do 888, que nasceu em 1986, com quatro válvulas por cilindro e refrigeração líquida. Para crescer até 916 cc foi preciso alterar o curso em 2mm, passando para 66mm, mantendo o diâmetro de 94mm. A potência extraída desse bicilíndrico chega a 114 cv a 10.000 rpm, o que representa 4 cv a mais do que a versão de 888cc.

O mais impressionante dessa moto não é sua velocidade máxima, que chega a 263 km/h reais, mas a forma "redonda” com que cresce de rotação, desde 2.000 até 10.500 rpm, quando entra em ação o corta-ignição que limita as rotações do motor. Uma das maiores vantagens do motor de dois cilindros em V a 90° é conseguir transferir a potência para a roda traseira com máxima eficiência. Por isso as Ducati, com sua tecnologia dos anos 80, conseguiram chegar a 100a. vitória nas provas de superbike, passando na frente das marcas japonesas.

duca_sennamonobraco.png

Balança traseira monobraço já de olho nas provas de longa duração.

A aceleração não chega a ser tão estúpida quanto às superesportivas japonesas de 1.100cc. A Ducati faz de 0 a 100 km/h em 3,35 segundos, atingindo essa velocidade em apenas 40 metros. De 0 a 200 km/h é preciso pouco mais de 10 segundos e menos de 400 metros. Para uma moto de corrida, a velocidade máxima não é muito importante. Parece contraditório, mas dificilmente um circuito permite rodar em velocidade máxima por muito tempo. Em Interlagos, por exemplo, quando o motor atinge os 10.000 rpm em sexta marcha, na placa de 100 metros em frente a reta dos boxes, já é momento de frear para fazer o “S do Senna”.

Em compensação a Ducati 916 é muito veloz na aproximação e saída de curva. A frenagem é garantida por dois discos dianteiros flutuantes de 320mm, enquanto na traseira o disco simples de 220 mm fica no centro do eixo da roda, obviamente todo sistema de freio é da marca italiana Brembo. A capacidade de frenagem é assustadora! Em baixa velocidade é recomendável não "alicatar” de vez a manete para a roda dianteira não travar. Em alta velocidade os freios são moduláveis e funcionam melhor quando já aquecidos. Mesmo em situações críticas não aparece tendência ao travamento.

duca_sennapista2.jpg

Pra quem não  conhece Interlagos antigo esta é a saída da Curva 4, eu estava a uns 190 km/h. Nós usamos trechos do circuito antigo para facilitar as fotos!

Nas curvas a Ducati 916 merece nota 10 com louvor. Ela se mostrou a esportiva mais estável já avaliada рог DUAS RODAS. As suspensões são rígidas, ideais para rodar no asfalto liso, mas que provoca um certo desconforto para pilotar na rua. Os pneus Michelin oferecem aderência acima de qualquer suspeita. Pode-se inclinar nas curvas com a segurança de que os limites da moto estão acima dos limites de um piloto "normal". O pneu traseiro tem medidas nunca vistas em uma moto de série: 190/50-17. Para se ter uma idéia, é mais largo que os pneus do Fiat Tempra (185). Na dianteira a medida é 120/70-17, com o mesmo desenho quase de competição. Parecem pneus slick (lisos) riscados.

Não bastasse a aderência excepcional nas curvas, a resposta do motor na retomada de velocidade em saída de curva garante a vantagem que a Ducati precisa para ser mais rápida nas pistas do que as esportivas japonesas. Pode-se despejar a potência praticamente no meio da curva em diante sem correr risco de ver a traseira ir embora. Como a transferência de potência é mais gradual do que nos motores de quatro cilindros em linha, o piloto fica seguro para girar o acelerador mais cedo. E acelerar mais cedo significa ganhar tempo e mais velocidade na reta.

duca_senna1.jpg

Esta foto foi feita no escritório do Ayrton Senna, em São Paulo. Para dar esse efeito o Mário Bock usou um filtro na máquina. Teria dado certo, não fosse os tijolinhos parados ao fundo!

Resultado: mesmo sendo menos veloz em reta, a Ducati 916 é mais rápida em circuito misto, principalmente de média velocidade, como Interlagos. O amortecedor de direção (colocado numa inédita posição entre a mesa superior e o tanque de gasolina) garante que a frente não ficar sacudindo como uma maluca na hora de sair “rasgando” das curvas de baixa velocidade.

A bela nua

Terminada a euforia da seção freia-inclina-acelera chega o desagradável momento de devolver a 916. Primeiro decidimos tirar a “roupa" da belezinha. A operação é simples: basta tirar as presilhas de engate rápido e fica tudo a mostra. Debaixo do banco fica a "centralina” eletrônica que comanda a injeção de gasolina e o tempo de ignição. Essa central explica a razão de respostas tão eficientes. O sistema funciona com sensores que "lêem" os parâmetros de rotação do motor, abertura do acelerador, condições atmosféricas e outros detalhes para enviar a quantidade ideal de mistura e controlar o tempo exato de ignição nos cilindros. Como resultado tem-se um motor que nunca engasga e acelera prontamente.

duca_sennaparalama.png

Na versão Senna pára-lamas de fibra de carbono.

Não foi à toa que na hora de colocar seu nome em uma moto, o perfeccionista Ayrton Senna escolheu a Ducati 916, batizada de 916 Senna. As diferenças entre a versão normal e a Senna estão nos detalhes, com alguns componentes feitos de fibra de carbono e acabamento ainda melhor. As cores também são diferentes, com grafite e vermelho. Outra diferença está no preço. Enquanto a Ducati 916 "comum” custa R$ 35 mil, importada por empresas independentes, a Ducati 916 Senna, com produção limitada a 300 exemplares, já estava sendo cota da a US$ 75 mil. Tudo pela exclusividade e um nome.

duca_sena_capa.jpg

Ayrton Senna na capa: certeza de boas vendas.

DUCATI SENNA 001

Quando Ayrton Senna decidiu colocar seu nome numa moto, escolheu uma que fosse mais próxima de sua filosofia de "driven to perfection” (pilotar para a perfeição). A Ducati 916 Senna é a perfeita tradução dessa filosofia em motos esportivas. O projeto é assinado por Massimo Tamburini, fundador da Bimota (outro exemplo de moto esportiva e exclusiva) e atual diretor do Centro Ricerche Cagiva (centro de pesquisas Cagiva), considerado o centro de projetos mais avançado da Itália. Já no momento do nascimento da 916 "normal”, no final de 93, um dos protótipos recebeu alguns componentes feitos de fibra de carbono, como pára-lama dianteiro, laterais e ponteiras de escapamento, que deixaram a 916 ainda mais exclusiva e cara, caríssima. Além das peças de fibra de carbono, a 916 Senna tem pintura com grafismo diferenciado e, claro, a marca Senna na carenagem.

Outra aproximação da Ducati com a Fórmula 1 também se deu no desenvolvimento do motor de dois cilindros em L. Para conseguir um bom resultado no cabeçote de quatro válvulas, Massimo Bordi, engenheiro diretor da Divisão Moto do grupo Cagiva foi buscar auxílio da Cosworth. Esta empresa inglesa se especializou em preparar os motores Ford V-8 da Fórmula 1. Foi a Cosworth quem deu as informações necessárias para o melhor ângulo de inclinação das válvulas em 40°. Com isso a Ducati conseguiu colocar os dutos de aspiração, alimentação e escape mais retilíneo possível.

duca_senna_selo.jpg

A unidade 001 ainda está com a família de Ayrton. Virou peça de museu, deve permanecer pra sempre.

Existem somente 300 unidades da Ducati 916 Senna em todo o mundo. E como nenhuma outra Ducati Senna será fabricada, essas 300 motos se tornaram sinônimos absolutos de exclusividade. Contudo uma delas tem um charme a mais que o das 299 outras e também uma pitada maior de importância. É a Ducati 916 Senna número 001, fotografada com exclusividade por DUAS RODAS. Ela foi fabricada em Bolonha, na Itália, especialmente para o piloto brasileiro Ayrton Senna, que nunca chegou a pilotá-la. Aliás, o protótipo apresentado para que Senna desse suas últimas sugestões de acerto, em 7 de março de 1994 (semanas antes da morte do piloto), era exatamente a moto que se transformou na número 001. Agora ela pertence à família do piloto Ayrton Senna e eventualmente poderá ser vista em algumas exposições.

duca_senna_ficha.jpg

 

publicado por motite às 14:16
link | comentar | ver comentários (6) | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.Procura aqui

.Julho 2021

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Frenagem de moto, desvend...

. Tour de Quarta

. O ET voltou: como foi o G...

. À sombra das Harley, como...

. De peito aberto, como foi...

. A dor e a glória de uma p...

. GP da França: dia de trov...

. Usada da vez: Honda XR 25...

. Jack in the Box! A vitóri...

. Especial, o dia que pilot...

.arquivos

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Julho 2019

. Junho 2019

. Março 2019

. Junho 2018

. Abril 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds