Quinta-feira, 11 de Maio de 2017

As marcas do consumo

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E desde quando sai água quente da cachoeira?

Os riscos de defender uma marca de forma religiosa 

Desde a adolescência tem um jingle não sai da minha cabeça: “Duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente”. Esse anúncio criado em 1972 permaneceu no ar por 12 anos e ficou gravado como tatuagem no meu cérebro, principalmente porque logo depois seria eu a criar comerciais e jingles publicitários. O mais incrível é que o filme foi gravado em uma cachoeira, aquele acidente da natureza que o mundo todo sabe só faz jorrar água gelada! 

Foi um sucesso tão grande que a marca Corona pra mim virou sinônimo de chuveiro e ponto final. Sabia que existiam outras marcas como Lorenzetti ou Fame, mas por mais de 40 anos só comprei chuveiro da marca Corona, independentemente de preço, KW, facilidade de troca de resistência, durabilidade etc. Era Corona sempre.

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 Esse era meu modelo insubstituível até ser substituído. 

Até que neste começo de outono me dei conta que já tinha trocado muitas resistências. Além disso, sempre escolhi um modelo que tivesse quatro temperaturas, mas nunca conseguia usar a quarta regulagem porque ou queimava a resistência ou caía o disjuntor (pense num nome estranho: se ele disjunta é um separador!). 

Para cada uma dessas “características” eu mesmo inventava uma desculpa. Para o excesso de resistência queimada era porque a peça, assim como a lâmpada tem uma durabilidade média de quatro a seis meses. Para a queda do disjuntor na temperatura mais elevada eu justificava a mim mesmo como sendo problema da minha casa – construída em 1969 – que está com o sistema elétrico já capenga. Em suma, eu me mantive sempre fiel à Corona e achava uma forma de justificar esses “problemas”, como sendo naturais. 

Até que... 

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Kit de resistência, fita isolante e teflon sempre à mão 

Um banho de água fria

Como estava explicando, neste ano os primeiros dias de outono derrubaram a temperatura e coincidiu com a quebra do regulador de temperatura do chuveiro. Já tinha trocado uma resistência dias antes, mas dessa vez era morte súbita. O cabo que faz a conexão com o chuveiro rompeu e babaus. 

Lá fui eu comprar mais uma ducha Corona. Como sou ariano legítimo tenho pouquíssima – na verdade, nenhuma – paciência para fazer escolhas. Detesto comprar roupas e fico veramente incazzato quando alguém me diz “escolhe você”, para qualquer coisa. Sou o melhor cliente das vendedoras, porque entro na loja, pego a primeira coisa que me agrada, pago e caio fora o mais rápido possível. Se a vendedora aparecer com mais de uma opção saio correndo!

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Esse super cano de 30 cm faz diferença... 

Para quem tem essa alergia à escolhas, uma enorme loja de material de construção é o inferno de Dante. Duas gôndolas cheinhas de chuveiros! Ohhh Diós, qual escolher? Sabia de uma coisa: não queria mais aquele Corona com a regulagem remota porque o cabo quebra. Naquele comichão de sair correndo da loja vi uma palavra que me atrai muito: OFERTA! Era um chuveiro desses maiores, com quatro temperaturas, reguláveis no próprio corpo e a um preço bem honesto. Nem vi a marca, coloquei na cesta e fugi da loja. 

Só quando cheguei em casa vi que era Fame. Uma marca que nunca me disse nada, nem fez jingle chiclete que viraliza por 40 anos. Instalei, liguei e... surpresa: um verdadeiro banho de alegria num mundo de água quente! E mais, deixei ligado na quarta regulagem por 20 minutos e o disjuntor não caiu, mesmo com a água numa temperatura bem próxima da lava vulcânica. 

Que beleza, passei 40 anos fiel a uma marca que não me atendia. Parabéns ao autor do jingle! 

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Simples e eficiente, como deve ser. 

Fidelidade relativa

Agora esqueça os chuveiros e pense nas motos. O mercado brasileiro de moto atingiu um patamar respeitável. Já estivemos por muito tempo na quinta posição em venda de motos no mundo, com chances reais de chegar a terceiro, não fosse a crise que nos aflige há uma década. 

Um mercado que desenvolveu a indústria local, com produtos competitivos em qualquer mercado do mundo, mas também recebeu uma boa leva de aproveitadores que tentearam pegar carona no crescimento exponencial, trazendo produtos de baixa qualidade e largando o consumidor falando sozinho.

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Você procura marca ou produto? 

Tirando esses aproveitadores – que já caíram fora com o afunilamento do mercado – podemos nos orgulhar do padrão de qualidade das motos produzidas e comercializadas no Brasil. Seria até uma ousadia e desrespeito chamar uma marca de “ruim”, porque não existe marca ruim em um mercado com consumidores esclarecidos. 

Por isso ainda me assusto quando recebo mensagens pelas mídias sociais (e elas chegam todo dia) perguntando se determinada marca é boa. Como assim? Uma marca que está presente nos mercados mais competitivos do mundo pode ser ruim? O que normalmente acontece é um ou outro modelo não atender às expectativas do cliente (como no exemplo da Corona), mas daí a manter-se fiel a uma marca só pela marca me parece algo bem próximo do fanatismo religioso. 

Nunca tive preferência por marca de moto ou de carro. E aconselho todo mundo a seguir o seguinte raciocínio: pense no modelo que possa te atender, depois se preocupe com a marca. Tem gente que demoniza determinada marca, quando o problema estava na escolha errada do modelo. A moto era muito alta, por exemplo, ou consumia demais porque tinha uma verdadeira usina de força. 

Também não se fie em “títulos” como líder de mercado ou do segmento. Mais uma vez lembre do chuveiro. A marca Corona é líder de mercado há quatro décadas, mas eu deixei de ser fiel à marca. Estou muito feliz com o chuveiro Fame e sempre vou lembrar da minha ingenuidade cada vez que ligar a água na maior temperatura sem ter de sair correndo, pingando pela casa, para religar o disjuntor. 

Para saber a história desse jingle, clique AQUI.

publicado por motite às 20:37
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015

Seremos extintos?

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Harley elétrica: solução para acabar com a má imagem.

O interesse por veículos motorizados cai entre os jovens do mundo

Esqueça aquela imagem de adolescentes sonhando com carros e motos potentes, barulhentos e sedutores. Isso é coisa das gerações passadas. A consciência de políticas públicas de mobilidade mudou o perfil de jovens em todo o mundo, inclusive no Brasil e já começa a ditar uma nova regra de convívio social – felizmente.

A cada ano os fabricantes de veículos motorizados instalados no Brasil apresentam números “preocupantes” do mercado. Carros, motos e caminhões estão sendo consumidos em menor quantidade, gerando um desastre econômico em toda a cadeia produtiva, inclusive na arrecadação de impostos e mexe diretamente no caixa da União. Em suma, existe toda uma co-dependência dessa indústria que será afetada pela queda no consumo.

Essa dependência é tão forte que de tempos em tempos o Estado cria mecanismos de proteção à indústria e incentivo ao consumo, mesmo que do outro lado pague uma conta maior ainda pela necessidade de investimento em infra estrutura e das consequências indiretas do monopólio do transporte motorizado, como acidentes e poluição.

OK, quer dizer, então que vou cuspir no prato que comi por mais de 30 anos e demonizar os veículos motorizados? Não, só que não se pode ignorar o que está acontecendo bem debaixo de nossos narizes e cair na real que a redução no consumo de veículos não é apenas consequência de uma crise econômica, mas também de uma crise de identidade, afinal, nós seres humanos não nascemos motorizados.

Também não vou pregar ideias malucas de volta ao passado e uso de transporte por tração animal como os menonitas ou armishes, mas sociólogos e presidentes de multinacionais de veículos já perceberam esse movimento evidente de queima da imagem do transporte motorizado, especialmente carros e motos.

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CGs na sombra em Caitité, BA: moto por necessidade. 

O usuário de carro e moto, em breve, será tão mal visto quanto o fumante e essa é uma tendência sem volta. A geração que hoje está com menos de 25 anos já não vê esses veículos como uma paixão a ser alcançada, mas como uma necessidade e até como um mal necessário. A geração iPad faz contas, pesquisa, se liga em comunidades e já percebeu ser um “queimador de petróleo” é quase um palavrão. Sem falar no custo de aquisição e manutenção dos veículos que permitiria viajar, conhecer outros países ou investir em gadgets de comunicação.

Ou seja nós, adoradores de máquinas a combustão, viramos dinossauros!

Cerca de 15 anos atrás assisti a uma palestra – não lembro de quem – na qual foi citada uma afirmação de um ex-presidente mundial da GM. Segundo ele o automóvel como conhecíamos estaria extinto em breve. Da mesma forma que o cavalo já foi um importante aliado na construção das civilizações modernas e hoje é mantido por curtição, hobby ou esporte (na classe média), os carros (e motos) teriam o mesmo destino: se tornar objetos de curtição dentro de museus ou circuitos fechados.

Podemos observar muitos indícios desse fenômeno já hoje em dia. No recente Salão Duas Rodas vimos uma boa quantidade de produtos com aspecto vintage, resgatando as motos dos anos 70. No Salão de Milão também foram apresentados modelos com “cara de antigamente”, com vista ao público que hoje está acima dos 35 anos. Além disso, na Europa, a moto começa a ser vista como “coisa de velho”, até por culpa da publicidade que busca atingir o tal público alvo, mostrando cinqüentões pilotando Harleys e Ducatis.

No recente curso de pilotagem organizado pela Ducati, na Itália, só havia UM aluno – entre 60 – com menos de 25 anos. O instrutor – de 28 anos – comentou comigo que era a primeira vez que tinha um aluno mais jovem que ele!

Aqui mesmo no Brasil já se percebe que os novos usuários de motos começam a migrar para scooters ou motos de grifes caras como BMW ou Ducati, para fugir da imagem de “motoboy”. Mesmo nas cidades do Nordeste, onde o mercado de moto quase não foi afetado pela crise do setor, o jovem de 18 anos que compra uma moto não o faz por paixão, mas por pura necessidade e nem sempre está feliz porque, na verdade, queria mesmo um carro!

Qual instituto de pesquisa eu me baseei? No meu mesmo. Comecei primeiro a notar uma mudança no perfil dos meus alunos nos cursos SpeedMaster e Abtrans. Em vez de jovens apaixonados comecei a ser procurado por pessoas mais maduras que vêem na moto uma forma de fugir do trânsito infernal das grandes cidades. Ou até de senhores sessentões que decidiram comprar uma moto para “curtir o fim de semana” com os amigos.

Outra observação em campo foi nas recentes viagens ao interior da Bahia, por cidades com pouca ou nenhuma via asfaltada, mas que em cada esquina se vê as motos estacionadas, debaixo de árvores, como se fazia com os cavalos nas décadas passadas. Esses usuários sonham com uma moto não pela prazer, nem curtição, mas porque representa um ganha-pão como entregador ou moto-taxista. É ferramenta de trabalho, só que mais divertida (e rentável) que uma pá ou enxada.

Tesla-cars.jpg

Tesla Elétrico: sexy sem ser vulgar.  

Na tomada

Sinceramente não acho que os mercados de veículos automotores voltarão aos patamares de 2012, ano de recordes de vendas. Parte pela falta de dinheiro em circulação, mas também por essa mudança no comportamento. Se dividirmos o Brasil em dois planetas, do Sul/Sudeste e Norte/Nordeste/Centro Oeste posso prever que no Brasil “do sul” os segmentos que continuarão crescendo serão o do scooter – que desconhece crise – e o Premium, de motos acima de 450cc que só viu a primeira queda nos últimos meses de 2015.

O scooter seguirá firme porque não é veículo de apaixonado e atinge um novo tipo de consumidor que geralmente nunca teve moto e olha para esse “brinquedo” com o mesmo interesse que olha para uma nécessaire, só que é uma nécessaire Louis Vuitton. Também o público feminino adotou o scooter pela sensação de segurança, facilidade de pilotagem e fashionismo.

Já as motos acima de 450cc são sim objeto de desejo, porém por serem mais caras acabam nas mãos de um público mais velho que consegue pagar as contas e ainda sobra algum para a diversão motorizada. Mas esse público também está diminuindo.

E temos ainda a pressão mundial pela redução de emissões. Não dá mais para aceitar passivamente que um veículo seja causador de doenças respiratórias. Assim como o cigarro os veículos fazem sim mal à saúde, com a diferença que no caso do cigarro existe o livre arbítrio: fuma quem quer! Já a poluição é uma doença autoritária, porque atinge até quem anda a pé. Não dá escolha.

Com toda essa pressão sobre os veículos a sociedade começa a mudar o comportamento. Aprendemos nas aulas de psicologia básica que existem dois tipos de comportamento: o herdado e o adquirido. Ninguém nasce motorista ou motociclista, mas todo mundo nasce pedestre. Se adquirimos o comportamento motorizado é porque o meio assim nos fez. Mas é isso que está mudando: já não aprendemos mais que carro e moto é um grande barato!

Cada dia vejo mais jovens estimulando o uso de bicicletas e de transporte público. E sem alarde! Não precisa uma série de reportagens no Jornal Nacional para ver isso. Basta conviver com jovens para sentir esse movimento pela “mobilidade cidadã”. Assim que as grandes cidades entenderem essa necessidade de compartilhamento de modais de transporte e esse conceito se converter em votos poderemos ver uma mudança geral no perfil urbano.

E o que será de nós, jornalistas especializados em carros e motos? Seremos extintos?

Claro que não, porque os motores elétricos são uma realidade já aqui na nossa porta. Carros, motos e bicicletas movidos a eletricidade estão pipocando e deverão conquistar esse público que olha para os gastadores de petróleo como sociopatas móveis. No mundo inteiro as fábricas pesquisam e desenvolvem produtos com essa tecnologia e carros como os da Tesla ou motos como a Harley LiveWire são exemplos de que pode-se curtir sim veículos sem os efeitos colaterais da queima de combustível.

Portanto temos muito assunto ainda para escrever e muitos veículos para testar. Caso a profecia do ex-presidente mundial da GM se realize e os veículos particulares deixem de existir, sem problemas, porque um bom jornalista escreve sobre qualquer assunto, até sobre carros autônomos!

 

publicado por motite às 13:27
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