Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Simples folha de papel

 

(Ayrton e Nina. Foto: Tite)

 
Aquele primeiro de maio
É a primeira vez que escrevo sobre esse assunto: minha convivência com Ayton Senna. Na verdade a convivência foi bem pequena e reservada, porque os dois eram extremamente tímidos e vivíamos em lados opostos da cidade. Eu só via o Ayrton em dias de treinos e corridas no kartódromo de Interlagos, o que representava pelo menos uma vez por semana.
 
Quando comecei a freqüentar o kartódromo, em 1975, Ayrton já era praticamente um veterano. Já tinha vários títulos e todo mundo ali sabia que ele era um fenômeno na pilotagem e no acerto do equipamento. Só não era – nem nunca foi – muito paciente.
 
A primeira vez que vi Ayrton pilotando foi inesquecível. Assim que cheguei ao kartódromo, meu amigo Nelsinho Freire, que por um tremendo azar corria na mesma categoria do Ayrton, me levou na curva da balança e falou: “Olha o 42 fazendo essa curva!”. O 42 era o Ayrton! Ele veio na reta, meteu o pé no freio, travou a traseira e veio controlando a derrapagem até o meio da curva. Depois fincou o pé no acelerador e entrou na reta dos boxes. Olhei estarrecido pro meu amigo e perguntei:
 
- C*****, Nelsinho, eu também quero fazer isso. Você sabe derrapar assim???
 
- Mais ou menos, às vezes dá certo ...
 
Esse sentimento de resignação era comum em toda geração que correu na fase Ayrton: muito piloto ali podia até ser mais rápido do que ele; alguns tinham o mesmo estilo de pilotagem, como Chico Serra, mas só o Ayrton fazia isso com tanta naturalidade que parecia estar brincando de carrinho no tapete da sala.
 
Um ano depois era minha vez de sentar num kart e brigar horas seguidas para aprender a derrapar daquela forma. Em algumas curvas de algumas pistas eu até conseguia derrapar daquela maneira, mas em todas as curvas de todas as pistas só mesmo Ayrton conseguia. (Um parêntese: ele era conhecido como “Beco” entre os amigos daquela época, mas nunca consegui chamá-lo por esse apelido...).
 
Minhas conversas com Ayrton foram poucas, sempre sobre assuntos relacionados aos karts e às corridas, eventualmente falávamos de moto, autorama, mas sempre tinha corrida no meio. Uma vez estávamos tomando um lanche no domingo, esperando a largada das nossas categorias, quando as motos largaram no autódromo de Interlagos. Corremos pra subir no muro e ver as motos passando, saindo da Curva 2. Depois que as motos passaram o Ayrton olhou pra mim e comentou:
 
- Putz, tenho maior vontade de correr de moto!
 
Quem diria! Dez anos depois era eu quem estava passando naquela curva com uma moto de corrida...
(Irineu aos 18 anos, motorista, mecânico e segurança! Foto: Tite)
 
 
Brother
Eu fico doente quando leio comentários de jornalistas que apareceram muito tempo depois e escrevem verdadeiras cretinices sobre o comportamento do Ayrton. Ignorância, falta de documentação, mas sobretudo inveja alimentam muito desses comentários. Falar que Ayrton só ganhava porque era “filhinho de papai” e tinha uma montanha de equipamento é um atestado da mais alta inveja. Se existia alguém que podia ser chamado de “filhinho de papai” era Mário Sérgio de Carvalho Filho, ninguém menos que o filho do fabricante de karts Mini. Ele tinha um estilo maravilhoso de pilotar e contava com uma fábrica inteira à disposição. Com um estilo mais redondo e cerebral, era o único que fazia frente ao Ayrton. As corridas se resumiam ao seguinte: “quem vai ganhar, Mário Sérgio ou Ayrton?”
 
Se existe alguém neste planeta que pode dar o melhor depoimento do que foi Ayrton nesta época, sem dúvida, chama-se Mário Sérgio de Carvalho Filho.
 
A família do Ayrton tinha grana sim. Mais do que da maioria, mas menos do que muitos do que estavam ali! Tinha filhos de industriais, políticos, altos executivos de multinacionais, milionários tradicionais e outras categorias do topo da pirâmide e que nunca se tornaram piloto de carro. O pai do Ayrton era um comerciante que se deu bem porque abriu uma loja de material de construção em um bairro nobre que estava em plena expansão. E, ao contrário da maioria dos pais daquela época – inclusive os meus – não deixava Ayrton dirigir sem carteira de habilitação. Eu ia para a pista com meu próprio carro. Aos 17 anos! Sem habilitação!!! Para viajar pelo interior de São Paulo contava com meu primo Irineu, um ano mais velho e já habilitado. O Ayrton rodava pela cidade porque tinha um motorista.
 
Eu era mais “filhinho de papai” do que ele!
 
Duas cenas me marcaram nesta época. A primeira quando eu estava quebrando a cabeça para acertar meu kart, desesperado, tentando tudo e nada funcionava. Pedi pro Ayrton dar uma volta. Nem precisou, em meia volta ele descobriu que tinha quebrado um parafuso de sustentação do eixo. Essa ajuda iria se repetir em outra ocasião. Ele fazia isso várias vezes, com os novatos. Era o nosso grande irmão, no bom sentido.
 
A segunda cena foi numa pista do interior. O Ayrton estava sentado em volta de uma pilha de pneus, com uma fita métrica na mão, medindo o perímetro de todos eles. Olhei aquilo e perguntei:
 
- Mas que c*** você está fazendo?
 
- Escolhendo os pneus!!! Essa pista só tem curva para direita, os pneus do lado esquerdo vão gastar antes, por isso precisam ter mais borracha.
 
Voltei pro meu box, olhei pro único jogo de pneu que dispunha e sentei resignado, esperando a largada...
 
15 anos depois
Bom, a trajetória do Ayrton é conhecida do mundo inteiro. Só lamentei não ter pego o endereço dele quando foi pra Inglaterra, pois eu teria escrito e certamente ele teria respondido. Mas... sempre a timidez f**** minha vida!
 
Quando Ayrton foi bi-campeão mundial, em 1990, (ou quando foi tri-campeão, em 1991, admito que não lembro), ele fez uma super festa na fazenda de Tatuí, interior de SP. Nesta época eu era colaborador do jornal Shopping News e o assessor de imprensa do Ayrton, meu amigo Roberto Ferreira, me mandou duas credenciais. Uma delas era para Livio Oricchio, que abriu mão do convite. Olhei pra minha filha, Nina, então com 5 (ou seis) anos, peguei meu velho Opala Coupé 1981 e lá fomos pra Tatuí.
 
A festa era tão suntuosa, grandiosa e fabulosa que os seguranças olharam muito desconfiados pra aquele Opala e não fizeram a menor cerimônia em revistar o carro todo, inclusive no porta-malas!
 
Não lembro muitos detalhes da festa: tinha uma dupla sertaneja cantando, várias tendas enormes, muitas celebridades na época pré-Caras e uma corrida de kart na qual Bruno Senna foi o vencedor. Eu estava animadíssimo porque comentaram que teria uma corrida de kart para jornalistas e eu era o papa-tudo destas corridas. Mas foi alarme falso.
 
E também lembro de uma cena engraçadíssima que virou lenda na família. Todo mundo ganhou um kit composto de boné, camiseta e credenciais. E todo mundo pedia pro Ayrton autografar na camiseta. A Nina olhou aquilo, sem entender muito bem o que se passava e perguntou:
 
- Por que aquele homem fica rabiscando a camiseta de todo mundo?
 
A explicação não a convenceu muito. Quando estava lá, zanzando o Ayrton me reconheceu, olhou pra Nina, com jaleco de “press” e fez algum comentário sobre a “menor jornalista do evento”. Foi quando ele a pegou pela mão para tirar uma foto. A Nina se escondeu atrás de mim e não queria de jeito nenhum. E eu:
 
- Vai, Nina, hehe, vai do lado do tio Ayrton, vamos fazer uma foto. Ele é piloto de Fórmula 1...
 
E praticamente empurrei a Nina, que fez maior cara de desconfiada, mas foi. A foto é esta que ilustra este artigo, mas repare como ela está toda torta, querendo fugir dali.
 
Feita a foto, perguntei:
 
- Mas Nina, por que você não queria tirar uma foto do lado do Ayrton???
 
- Porque eu não queria que ele rabiscasse minha camiseta!
 
Tive um ataque de riso que devem ter considerado como uma espécie de incontrolável histeria fanática... Abracei minha filha e fomos comer churrasco. (Sim, nessa fase a Nina ainda não era vegetariana, mas já olhava pra salada com mais volúpia do que pra lingüiça).
 
Na hora de ir embora, sem me dar conta de que estava presenciando um evento histórico, foi a vez da vergonha. Um engarrafamento na saída da fazenda fez o velho Opala ferver! E lá fui eu, com uma leiteira na mão, atrás de uma torneira, deixando o segurança de vigia porque a Nina dormia tranqüila no banco de trás.
 
Na manhã da segunda-feira, 2 de maio de 1994, na inocente tentativa de falar alguma coisa que diminuísse minha tristeza, Nina me telefonou e comentou:
 
- Agora aquela foto deve valer uma grana!
 
Só consegui responder:
 
- Eu preferia que ela continuasse valendo apenas como uma simples folha de papel.
 

 

publicado por motite às 17:47
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

De volta à FIAK

(O capacete é aquele mesmo do teste da GSX-R 750... Foto: Fábio Oliveira)

 

Desde 1999 meus amigos jornalistas especializados em automobilismo se reúnem para pegas nas pistas de kart indoor. O que começou com uma brincadeira virou campeonato em 2002, realizado pela então fundada liga esportiva FIAK - Federação Internacional de Andadores de Kart - com aval de órgãos desimportantes como CBA, FASP, FIA e contrária aos interesses de um certo baixinho metido chamado Bernie Ecclestone.

 

Nos primeiros campeonatos disputei algumas corridas esporádicas e cheguei até a vencer uma ou duas, sei lá, quando ninguém me roubava descaradamente, ou um destes escrevinhadores celerados se jogava em cima do meu kart.

 

A exemplo de qualquer campeonato monomarca o índice de cafajestice é do mais elevado patamar. Trapacear é mais importante do que vencer, apesar de um severo regulamento técnico desportivo.

 

(Largada com 21 karts. Eu sou o da direita, com duas rodas na grama. Foto: Fábio Oliveira)

 

Depois de alguns anos afastado do campeonato, voltei à ativa durante a Seletiva Petrobras, realizada em novembro, no kartódromo da Granja Viana, SP. E logo de cara tive de disputar contra 20 karts, completamente enferrujado.

 

(Meu kart saía muito de frente. Foto: Fábio Oliveira)

 

No treino percebi que meu kart saía muito de frente, mas preferi me adaptar ao kart a trocar de equipamento. Na última vez que troquei de kart o substituto era muito pior... Mesmo assim consegui me classificar em sexto para a largada, aliviado porque apenas os seis primeiros da corrida seriam qualificados para a final.

 

Na largada usei minha velha experiência (que já narrei aqui) e fui para o lado externo da pista, enquanto todo mundo se espremia no lado interno. Coloquei metade do kart na grama e consegui passar um piloto. No kart a transmissão atua diretamente no eixo traseiro, sem diferencial. Assim, se ao menos uma roda estiver no asfalto ele ainda consegue aderência para sair rápido.

 

Ainda na primeira volta consegui ultrapassar mais um piloto e ficar em quarto lugar, já traçando um plano de manter essa posição sem forçar, porque precisava chegar até sexto.

 

Mas aí veio o erro... Como o kart saía muito de frente eu precisava entrar nas curvas de alta velocidade levemente atravessado. Logo na primeira volta exagerei na atravessada e rodei na curva mais rápida. Até conseguir endireitar e voltar à pista vi todo mundo passar e fiquei em último.

 

Comecei a recuperar posições até terminar em oitavo e perder a vaga para a final...

 

(Depois dessa bela frenagem... rodei e fui pra último! Foto: Fábio Oliveira)

 

Foi mais uma lição da série "Vida Corrida": em torneios de apenas uma prova é proibido errar. É mais importante correr em cima dos erros dos outros do que tentar uma tática ousada e jogar tudo fora em uma curva.

 

Agora restam mais duas etapas para o final do acirradíssimo campeonato FIAK 2008 e vou participar delas só pra desenferrujar. Mas em 2009, aguardem-me, seus escrevinhadores, diagramadores e vendedores de reclames, porque já contratei um personal SpeedRacer e voltarei à velha forma.

 

Ah, o resultado da corrida não importa, nesta categoria cada um só se preocupa consigo mesmo!

 

publicado por motite às 16:22
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Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Vida corrida – Menos é mais

(Curva da Balança, Interlagos, 1977)

 

Durante uma entrevista com alguns pilotos e preparadores um depoimento me chamou a atenção. Meu amigo e piloto Gian Calabrese explicou que na primeira etapa do campeonato brasileiro de motovelocidade ele conseguiu o patrocínio na quarta-feira, comprou a moto na quinta, treinou no sábado e correu no domingo. E quase ganhou a prova!

 
Lembrei de várias situações semelhantes nas quais o piloto pega uma moto praticamente original e consegue um excelente desempenho. Depois, durante o campeonato, não consegue repetir os bons desempenhos. Durante um treino em Interlagos, muitos anos atrás, encontrei um preparador que estava tentando algo inédito: voltar a moto para a regulagem original de fábrica para começar tudo do zero. A maior surpresa é que a moto melhorou!
 
Este fenômeno é muito comum nas equipes iniciantes. Na busca por melhor desempenho alguns preparadores e pilotos mexem tanto na moto (ou carro) que se perdem.
 
É verdade que toda equipe – principalmente as líderes – devem sempre buscar melhorar a cada treino ou corrida, só que essa busca por performance tem de ser criteriosa e cuidadosa. Nas minhas primeiras corridas de kart ficava desesperado na tentativa de melhorar a cada treino, só que nem percebia que EU também melhorava como piloto e me tornava mais íntimo da pista e do equipamento a cada vez que entrava na pista.
 
Durante um treino discuti com o Waltinho Travaglini, maior especialista em kart do Brasil naquela época, afirmando que meu kart esta instável. Ele olhou minha planilha de tempos e comentou: “mas seus tempos estão melhorando, como o kart pode estar pior?” E eu respondi: “sim, mas é que comecei a fazer uma curva mais rápido”. Daí surgiu a dúvida: afinal, o que estava melhorando, o kart ou o piloto?
 
A resposta veio logo depois, quando meu mecânico saiu com o kart para amaciar o motor e conseguiu capotar no meio da reta! Era véspera da corrida do campeonato paulista e passamos a tarde, noite e madrugada para colocar tudo em ordem. Como tivemos de trocar eixo, mangas de eixo e até rodas, decidimos por instalar as peças novas todas na regulagem padrão (todo veículo de corrida sai de fábrica com uma regulagem padrão básica).
 
No treino livre antes da corrida veio a surpresa: o kart melhorou MUITO!  Eu não tinha consciência que meu desempenho como piloto estava melhorando a cada treino, independentemente das mudanças que fazia no kart. Certamente muitas das minhas alterações não surtiam efeito algum ou mesmo piorava o equipamento, mas como eu ganhava alguns décimos de segundo por conta de minha pilotagem, acabava acreditando que meu equipamento estava a cada vez mais equilibrado!
 
A ânsia por querer sempre tirar o máximo do equipamento pode acabar surtindo o efeito inverso. Naquela época o kartódromo ficava aberto para treinos quase todo dia e eu passava as tardes lá, rodando e rodando quilômetros de pista para treinar feito um maluco, mexendo em várias opções de regulagem para cada situação. E olha que eu treinava nem uma terça parte de pilotos de ponta como Ayrton Senna, Mário Sérgio de Carvalho, Maurizio Sala, Chico Serra e outras estrelas do kart.
 
Foi em um destes treinos que mais uma vez meu mestre Waltinho Travaglini chegou pra mim e disse: “você já se deu conta de que pode estar consumindo seu equipamento em vão?” Segundo ele, quando os tempos de volta começavam a se estabilizar ou mesmo piorar é porque algumas peças poderiam estar simplesmente gastas!
 
(Curva da Balança, Interlagos, 1989. Foto: Marcelo Sacco)
 
Caro ou barato?
Descobri que rolamento é o tipo de componente que é colocado nos projetos de carros e motos de acordo com o que já existe na indústria. Ou seja, nenhuma fábrica desenvolve o projeto de kart, carro ou moto e depois manda o fornecedor fabricar um rolamento para encaixar naquele projeto. É o inverso: os projetistas dos veículos analisam qual rolamento se encaixa naquele projeto. Muito raramente os fornecedores de rolamentos precisam fabricar um especial, a menos que seja um projeto totalmente novo com chances de grandes vendas.
 
Desmontei o kart inteiro, tirei todos os rolamentos, fui a uma loja especializada no centro de São Paulo e passei a tarde junto com o vendedor analisando uma montanha de rolamentos. Os rolamentos têm uma especificação gravada nas laterais que indicam a medida e o tipo de aplicação. Podem existir rolamentos com as mesmas medidas, porém mais leves, mais “soltos” ainda que menos duráveis. Achamos uma marca alemã, caríssima, que tinha rolamentos mais finos, mais leves, com melhor rolagem e saí da loja com uma caixa que custou uma pequena fortuna.
 
Montei tudo e fui pra pista feliz da vida. O resultado foi uma melhora muito pequena. Naquela época, para o circuito de Interlagos de 1.100 metros, nossa categoria virava em 59 segundos. Com meus caros e sofisticados rolamentos o tempo de volta melhorou pouco mais de um décimo de segundo. Pode parecer pouco, mas em uma corrida de 25 voltas representava uma bela diferença. Pelo menos foi essa justificativa que dei ao meu pai (e patrocinador) para explicar o cheque absurdo que eu tinha acabado de soltar.
 
Minha felicidade pelo parco retorno alcançado com o elevado investimento durou pouco, porque logo sem seguida troquei as mangas de eixo dianteiras para testar uma nova cambagem das rodas e a melhora foi IMENSA. E por um custo DEZ vezes menor! Pela primeira vez consegui entrar na casa dos 58 segundos, meu objetivo inicial.
 
Foi uma dura e cara lição, porque se tivesse testado a manga de eixo ANTES de investir em uma solução mais cara teria economizado tempo e dinheiro. Pode parecer inacreditável, mas muitas equipes gastam tempo e dinheiro tentando melhorar o desempenho e tudo que conseguem é perder tempo e dinheiro.
 
Fazer alterações pura e simplesmente para “ter o que fazer” é jogar dinheiro pela janela e, como já mostrei, pode trazer o resultado inverso. Normalmente o preparador e os mecânicos ficam buscando “pelo em ovo” só para mostrar ao chefe de equipe e ao piloto que estão “se esforçando ao máximo”. Nas categorias monomarcas é comum ver pilotos com motos praticamente originais obtendo melhor rendimento do que outro que gastou horas e uma montanha de dinheiro buscando melhorar o equipamento.
 
(Largada em Interlagos, 1989, olha o público! Foto:Marcelo Sacco)
 
Pilotar uma empresa
No mundo corporativo eu vi esse mesmo erro em várias empresas, sobretudo nas grandes. Quando trabalhei na maior editora do Brasil fiquei pasmo ao ver como os diretores de redação se empenhavam para fazer uma revista “cada vez melhor”. Geralmente essas “melhorias” eram meramente cosméticas, sem mexer na estrutura principal, mas que tinham como principal finalidade mostrar aos diretores de grupo que eles estavam “se esforçando ao máximo para melhorar a revista”.
 
Do meu canto da redação não conseguia ver nada de tão diferente nestas mudanças superficiais que fizesse um leitor cair de queixo e se apaixonar pela revista a ponto de se tornar um assinante perpétuo. Em compensação deixava um clima péssimo na redação, porque tínhamos a sensação de que nunca a revista estaria “fechada”. Reinava um stress permanente para achar detalhes ridículos que deixassem a página mais bonita, enquanto os textos eram um festival de tédio sem fim. Eu mesmo não conseguia ler UM teste daquela revista sem bocejar a tarde toda.
 
O alinhamento das fotos não podia variar nem um milímetro, senão o diretor tinha um chilique, mas a mesma revista cometia erros conceituais tão graves ao testar carros que podiam decretar o fracasso de um modelo pela simples incapacidade de um jornalista em entender a função principal do carro testado. Essa revista teve o auge de vendas antes de começar essa neurótica busca pela “melhora”, mas perdeu muito mercado para as novas concorrentes que tinham menos primor estético, mas traziam informações mais fáceis e gostosas de ler.
 
Por outro lado, quando trabalhei em uma pequena editora (com apenas um título) fazíamos poucas mudanças no aspecto visual, mas nos empenhávamos em usar uma linguagem simples, divertida e informativa. O objetivo era agradar os LEITORES e não uma DIRETORIA. Os textos eram gostosos de ler, ilustrados por boas fotos e o resultado foram vendas sempre crescentes a ponto de chegar à liderança do mercado.
 
No entanto a melhor lição que tive do mundo corporativo não foi em uma editora, mas na multinacional eletroeletrônica Philips. Foi onde tive o melhor chefe, porque ele promovia as mudanças na estrutura do departamento sempre visando RESULTADOS, sem se preocupar em mostrar para a diretoria que “estava se esforçando ao máximo”.
 
Ele fazia as alterações com método e analisava o resultado de cada mudança. Se fosse um resultado positivo continuava na mesma direção. Em menos de um ano de administração esse chefe conseguiu reduzir os custos quase pela metade e obter o dobro de rendimento. Tudo que aprendi sobre a assessoria de imprensa foi com ele. Bom, não é coincidência: este chefe tinha sido piloto de automóveis nos anos 70, campeão brasileiro da antiga categoria Divisão 1. Ele praticava no mundo corporativo os mesmos métodos das competições de automóveis e os resultados apareciam.

 

publicado por motite às 21:23
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Sábado, 9 de Agosto de 2008

Corrida de jornalista

 

(Corrida promovida pelo Barrichello: notem os mullets dos dois, hoje ambos carecas, rs)

 

Lembram daquela história do campeonato de jornalistas. Bom, achei um jornal muito engraçado que era feito pela "cópula" do torneio. Era impresso em sulfite com as notícias redigidas pelos pilotos-jornalistas. O nome do jornal já era bom demais: "Boletim de Ocorrência". Hoje esses mesmos caras fazem o jornal com mesmo nome para a Stock-Cars e o que era brincadeira virou meio de vida. Quer coisa melhor do que trabalhar no que gosta, ganhar e ainda dar risada o dia todo? Só mesmo esses cacetas.

 

Leiam a notícia da minha ausência em uma das etapas (ah, notícia redigida por mim mesmo porque a filosofia era zoar com todo mundo, inclusive consigo mesmo!)

 

 

Eau du Pinheiros, SP - O Campeonato mundial de Andadores de Kart Indoor teve sua primeira etapa realizada em 26 de fevereiro, no Princi­pado do Jaguaré, Osasco. O resultado pouco importa, mas a notícia principal do dia foi a ausência da revelação interna­cional do kart (em 1967) Tite Della Latta. O veterano piloto havia conseguido uma autorização especial do asilo Piloti Che­genti, na Vila Matilde, para disputar a prova. No entanto, depois de sagrar-se campeão de kart nas categorias Sênior, Múmior e Fóssior, o veterano não pôde participar em função de uma lesão no joelho direito, provocada durante uma partida de tênis ... de mesa.
 
Como parte de suas atividades físicas, o experiente piloto joga tênis todas as quar­tas-feiras no National Bank of Saint Paul State, suntuoso clube localizado no nobre bairro de Saint Amaro. Nesta última quarta, o veterano piloto disputava uma animada partida com seus habituais par­ceiros Mario Lago, Austragésilo de Athay­de e Don Paulo de Evaristo Arns, quando torceu o joelho num difícil lance de back hand without ball.
 
O jornalista explicou: "os meninos esta­vam muito ariscos nesta quarta e isso exi­giu demais da minha condição física". Tite tem uma rigorosa rotina diária de ativi­dades para manter sua forma de cotonete. "Todas as manhãs eu acordo, faço minhas necessidades, as abluções, levanto da cama e vou para o banho antes de um reforçado carbon-fiber-breake-fast". O resto do dia passa jogando baralho, bilhar ou peteca. Quanto ao torneio de kart, ele se mostrou tranqüilo: “Posso entrar no meio da tem­porada que ainda tenho chances, isso já me aconteceu antes em 1971, ou foi em 67, ou em 52, sei lá, não lembro; enfim, aquele garoto gaúcho, Catarino Andreat­ta, ainda me opôs muita resistência, foi uma boa temporada”.
 
Para a próxima etapa ele promete uma vendetta à italiana. "Estou fazendo tra­tamento no joelho, à base de muito gelo e dois dedos de uísque, por favor".
 
publicado por motite às 15:40
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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Vida corrida: Razão & sensibilidade

(Kart é uma lição de vida... corporativa!)

 
Ainda no mesmo capítulo “como ser piloto” chegou a vez de deixar o lado técnico e comentar sobre algo que é impossível de ensinar: a sensibilidade. Não, não se trata de uma teoria romântica sobre a sensibilidade humana, mas sim a capacidade de interpretar tudo que o veículo transmite ao piloto.
 
É muito manjada a frase “moto (ou carro) e piloto devem formar uma coisa só”. Mas como ensinar isso? É o tipo de sensação que não se ensina de forma didática, mas apenas na base da quilometragem percorrida. Demorou quase um ano de corridas, treinos e muita ralação para eu entender o significado dessa fusão de piloto com máquina. Posso resumir da seguinte forma: quando o veículo está 100% acertado dá a impressão de não haver nada entre o corpo e o asfalto. É meio esquisito de explicar, mas é como se o piloto flutuasse a dois centímetros do chão sem perceber a existência de um meio motorizado colado no traseiro.
 
Se alguma coisa não vai bem, se o veículo está instável, se os pneus não aderem, se a relação de marchas está errada, se a posição de pilotagem está desconfortável a sensação é de estar mancando. Como se alguma parte do corpo não funcionasse direito. Ou como se tivesse uma pedra no sapato.
 
Até desenvolver a capacidade de identificar cada elemento do veículo o piloto precisa treinar, treinar e... treinar MUITO! Quando o piloto pensa que tem total conhecimento da máquina surge um elemento novo para desequilibrar e colocar a cabeça em parafuso. Costumo dizer que um piloto novato precisa de um ano para entender o veículo e as técnicas de competição. O segundo ano para tirar proveito disso tudo e o terceiro ano para decidir se será, ou não, um bom piloto ou apenas mais um no grid de largada.
 
Na minha temporada de estréia no kart tive muita ajuda do meu professor Waltinho Travaglini e dos pilotos mais experientes, inclusive o Ayrton Senna, sempre disposto a ensinar e muito atencioso com os novatos. E sempre recorria aos mais experientes quando eu mesmo não conseguia desvendar algum problema.
 
Na metade da temporada de 1977, minha estréia, cheguei no kartódromo de Interlagos com meu kart exatamente igual à etapa anterior. Mesma pista, mesma condição de tempo, não precisava fazer nada, apenas acertar a carburação e treinar. No primeiro treino livre o kart estava muito instável. Saía de traseira, de frente e meus tempos de volta estavam dois segundos pior do que na corrida anterior. Fiquei desesperado porque não fazia sentido: não tinha mexido em nada entre uma corrida e outra, apenas lavei o kart e guardei!
 
Comecei uma série de ajustes na bitola dianteira, na manga de eixo, barra estabilizadora traseira, pressão de pneus e um mundo de coisa. Nada de melhorar o tempo! Pelo contrário, quanto mais mexia, mais piorava! Eu teria um intervalo de uma hora antes do treino classificatório. No kart a tomada de tempo é feita em apenas três voltas: o piloto tem uma volta para aquecer os pneus e duas para fazer a cronometragem.
 
Cheguei no Ayrton, como sempre, e pedi para ele me ajudar. Nem precisou mais de que dois segundos para dar o veredicto: pneus!
 
- Mas como?  Esses pneus ainda não estão gastos! Protestei.
 
- Não estão gastos – ele respondeu – mas estão VELHOS!
 
Foi assim que descobri que pneus ficam não apenas gastos, mas também velhos!
 
Liguei para meu irmão mais velho e pedi para ele pegar o talão de cheque e correr pra Interlagos porque eu tinha menos de 40 minutos para comprar e trocar os pneus. Foi como o filme Missão Impossível! Fui na loja em frente ao autódromo, já com as quatro rodas debaixo do braço, pedi para montarem os pneus novos e ainda escolhi uma versão mais macia (naquela época tínhamos apenas três compostos: duro, médio e macio). Quando meu irmão chegou foi o tempo de pagar (com dinheiro dele, claro!) e correr pro box pra montar tudo no kart e sair para as voltas de classificação.
 
Mas tinha um erro fundamental: eu havia alterado todas as regulagens do kart e não dava tempo de voltar tudo como estava antes. Aliás, aqui vai uma dica: todo bom piloto preciso anotar cada alteração que faz e depois ser capaz de recuperar a regulagem anterior para não perder a referência.
 
Saí com os pneus novos e tive uma volta para tirar a cera do pneu, a segunda volta para aquecer e a última pra classificar. Fiz um temporal de 59 segundos, mas naquela época a minha categoria tinha 26 caras largando. Era uma briga de foice no elevador. Mesmo melhorando em quase seis segundos eu fiz o 10º tempo no grid.
 
Teria cerca de 20 minutos antes da largada e corri para voltar a regulagem do kart para a posição que estava antes do meu ataque de desespero. Graças ao procedimento de anotar tudo, consegui voltar as regulagens para a posição anterior e fui pra classificação.
 
Na corrida larguei bem, perdi muito tempo para ultrapassar os que estavam à minha
frente e terminei de novo em 4º lugar.
 
A partir desse dia aprendi mais uma lição: ser mais racional e menos emotivo. O bom piloto precisa analisar os problemas partindo do mais simples para o mais complexo, sempre! Como eu não conhecia as reações do pneu velho não sabia onde estava o problema. Se eu tivesse agido de forma racional e menos emocional não passaria por todo esse sufoco. Foi uma atitude irracional me desesperar e alterar o kart todo, já que era o mesmo kart que eu tinha corrida 15 dias antes e terminado em 4º lugar. A postura correta de um piloto racional é PENSAR antes de agir. Se o kart não entortou, não caiu, não foi usado desde a corrida anterior não haveria motivo para estar com problemas no CHASSI! O meu lado emocional foi mais forte e quase me custou uma corrida melancólica. Na corrida virei 58 segundos e poderia ter ficado em segundo se tivesse largado nas primeiras filas.
 
Essa lição foi para toda a vida. Hoje, sempre que estou diante de qualquer problema, seja profissional ou pessoal, procuro partir da solução mais simples para depois a mais complexa. Ninguém troca um disjuntor quando queima uma lâmpada, mas se começar a queimar TODAS as lâmpadas aí o problema pode estar na caixa de luz.
 
Pena que no mundo corporativo os executivos não copiam esse modelo de comportamento. Vejo gerentes e diretores buscando soluções complexas para problemas tão simples que dá vontade de chegar no cara e aconselhar:
 
- Meu amigo, comece a correr de kart, por favor!  
 
(imagine 26 caras largando... eu sou o nº 17)
publicado por motite às 21:31
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Vida corrida – Como começar?

(Eu, com 18 anos, alinhando o motor no chassi di kart)

 

Já escrevi várias vezes que o verdadeiro candidato a futuro piloto não pergunta “como faço para ser piloto”, ele vai nas corridas e descobre pelos próprios meios. Ser piloto precisa estar na corrente sangüínea como um vírus. Não conheço um piloto bem sucedido que tivesse “descoberto” o caminho das pedras enviando carta para revistas. Foi sempre um processo natural.

 
Quando perguntaram para o Pelé como ser um bom jogador de futebol ele respondeu: “você precisa ser jogador de futebol 24 horas por dia, dormir agarrado à bola, acordar e programar seu dia pensando na bola e não largar a bola por nada, nem pra comer!”.
 
Pois com piloto não é diferente. Um piloto de verdade respira competição 24 horas por dia. Precisa ser natural e não forçado por algum pai desesperado, nem empurrado por “padrinhos” por meio de patrocínios. São famosos os casos de pilotos fabricados, inclusive com plano de carreira programado e que resultaram em retumbantes fracassos.
 
O primeiro passo para ser piloto é conviver PESSOALMENTE com o mundo das competições. Era curioso notar que às segundas-feiras o número de leitores querendo ser piloto aumentava significativamente. Porque assistiam pela TV as competições no domingo e acordavam na segunda-feira com vontade de ser piloto!
 
Não é assim que a coisa funciona. Por isso vou dar umas dicas bem básicas para economizar tempo, dinheiro e frustrações.
 
1) Compareça às competições: ninguém vira jogador de futebol ou lutador de boxe apenas vendo pela televisão! Descubra o calendário de competições e veja quando terá corrida na (ou perto da) sua cidade. Nos treinos livres de sexta-feira é permitido entrar nos boxes. Vá até a pista e acompanhe o trabalho das equipes. Apresente-se como voluntário para ajudar em qualquer atividade, desde lavador de peça até cronometrista; essa é uma forma honesta de se conseguir uma credencial. Faça qualquer coisa que não atrapalhe e seja solícito para qualquer situação. Se precisar de alguém para buscar pão com mortadela na padaria seja o primeiro a se oferecer!
 
Na minha adolescência – antes de ser piloto – eu vivia nos boxes de Interlagos fazendo qualquer coisa para ajudar uma equipe. Fiz abastecimento, cronometragem, misturava gasolina com óleo 2T, emprestava ferramenta, inventava gambiarra, buscava comida, qualquer coisa só para ver de perto como funcionava a estrutura de uma competição. Quando o piloto entrava na pista era como seu EU estivesse naquele macacão pilotando aquela moto. Essa sensação ninguém tira de mim e é inexplicável.
 
Lembro de ter passado mais de 30 horas acordado para ajudar uma equipe do meu bairro (Moema) nas 24 horas de Interlagos. Leia essa história “Tempos de Glória” na página 90 do meu livro “O Mundo É Uma Roda”. Essa convivência com as competições é o primeiro passo para ser piloto.
 
(Já com 27 anos, preparando em casa uma moto de enduro)
 
2) Conheça o veículo – seja qual for sua paixão, kart, carro, moto, barco etc, a regra número um é estudar o veículo. No meu caso essa é uma situação quase congênita, pois meu avô materno, Seu Renato, sempre adorou mexer em carros e motos. Com 10 anos de idade eu já abria o capô do carro do meu pai e ficava olhando aquele motor tentando desvendar o que cada peça fazia. Finalmente com 14 anos fui cursar colegial técnico em mecânica e aí sim desvendei o mundo dos motores, bielas, carburadores, platinado (isso é antigo!), pistão, cabeçote, válvulas etc etc!
 
Todo piloto precisa ser um pouco mecânico. A maior lembrança que tenho do Ayrton Senna na época do kart era vê-lo sempre no meio dos mecânicos fazendo ele mesmo as alterações em chassi, transmissão, carburação e até limpando o kart. Lembra do conselho do Pelé? Ayrton respirava corrida 24 horas por dia e até nas poucas vezes em que tentei entabular uma conversa fora desse tema ele fazia questão de voltar para as corridas. Talvez isso explique o fato de ele ter se tornado o Pelé do automobilismo.
 
(Ayrton Senna era piloto e mecânico 24 horas por dia. Foto:Tite)
 
Por isso acho que o curso de mecânica é um dos primeiros passos de quem quer ser piloto. Se não quiser fazer curso (são poucos no Brasil) sempre existe a opção de se oferecer como ajudante em uma oficina. Também fiz isso no começo e passava horas dentro de oficinas, sem ganhar nada, só pra entender tudo e depois tentar fazer a mesma coisa na minha moto – o que invariavelmente terminava em tragédia! Ah, estourei alguns motores até entender que tudo na mecânica tem limites!
 
Por hoje é só! A série “Vida Corrida” continua em ocasião extra-ordinária qualquer dia desses!
 
(Minha primeira paixão: meu kart!)
publicado por motite às 19:05
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Sábado, 2 de Agosto de 2008

Vida corrida – Inteligência

(Kart, melhor escola para formar pilotos. esse sou eu em 1977)

 

Quando tive vontade de ser piloto de automóvel procurei a melhor escola de pilotagem da época, do Expedito Marazzi. O “velho” era uma figura adorada e sua escola de pilotagem uma adaptação dos ensinamentos de outro adorado piloto, o italiano Piero Taruffi, o inventor da escola de pilotagem. Deixando as traças de lado, posso afirmar que 50% de tudo que sei sobre competições aprendi naquele curso feito em 1980. Os outros 50% aprendi com o professor, Walter Travaglini, em 1977 na escolinha de kart, com Aurélio Barros, tio de Alexandre Barros e com Freddie Spencer no curso que fiz nos EUA, os dois últimos já nos anos 90. Como se vê, passei 30 anos aprendendo a pilotar – e acho que ainda faltou muita coisa, porque competição é um aprendizado eterno.
 
O Marazzi costumava arrolar as qualidades humanas que definiam um bom piloto. Dos cinco sentidos ele enumerava quatro, porque não conheço nenhum piloto que tenha de lamber uma vela para acertar a mistura:
 
a)      Visão – um bom piloto precisa necessariamente ter uma ótima acuidade visual e preferencialmente ser isento de qualquer lente corretiva. Hoje as cirurgias de correção são simples, baratas e rápidas. Mas 30 anos atrás quem usava óculos sofria para ser piloto!
b)      Audição – claro, é preciso ouvir cada rotação do motor, não basta ler o conta-giros, é preciso ouvir se tem qualquer alteração no som do motor. Mesmo com tampões de ouvido o piloto consegue ouvir quando um escapamento trinca, por exemplo.
c)      Olfato – você pode me achar louco, mas sim, é preciso perceber se tem alguma coisa queimando, porque até sentir o calor na bunda pode ser tarde demais. Ou então “farejar” quando o carro ou moto à sua frente está queimando óleo demais, sinal e quebra iminente.
d)      Tato – que pode ser substituído por sensibilidade, é a capacidade de sentir na pele todas as reações do veículo.
e)      Memória – sim, essa é uma parte importante, porque o bom piloto precisa decorar cada detalhe da pista o mais rapidamente possível para depois usar o tempo de treino apenas no acerto da máquina. Enquanto o piloto não estiver com 100% da pista na cabeça não consegue definir nem a relação de câmbio que vai usar. Todo mundo viu como o desempenho do Nelsinho Piquet melhorou quando chegou às pistas que ele conhecia. Claro, isso facilita a vida de qualquer um. Além disso, durante a corrida o piloto só sabe seu tempo com uma volta de atraso (quem não tem cronômetro no painel, nem comunicação com o box). A equipe mostra a placa com o tempo da volta anterior. Então o piloto precisa refazer a penúltima volta mentalmente para saber onde acertou ou errou e se concentrar em acertar a volta atual. Complicado? Isso não é nada!
f)        INTELIGÊNCIA – Assim mesmo, tudo em maiúsculo, colorido e grifado porque é a principal característica humana que faz a diferença entre o bom e o mau piloto. Nesse capítulo engloba tudo: rapidez de raciocínio, estratégia, sensatez, calma, capacidade de previsão, concentração e uma dezena de outros atributos.
 
É sobre inteligência emocional que vou comentar hoje. Como já escrevi antes, piloto burro nasce morto, mesmo assim até os gênios têm seus dias de antas. Quem não se lembra do Ayrton Senna batendo no retardatário Satoru Nakagima em Interlagos? Ou do Michael Schumacher simulando uma batida no treino de Mônaco para impedir o Alonso de fazer a pole-position. Ninguém está imune a erros, mas errar é diferente de persistir no erro.
 
Não há qualquer dúvida que o kart é a melhor escola de pilotos porque depois da largada o piloto tem pouco auxílio da equipe. O piloto tem de decidir tudo sozinho, bolar a estratégia, analisar os adversários, controlar os tempos de volta, as diferenças entre os adversários próximos e até saber quando é hora de mudar a estratégia.
 
Quando surgiu a moda do kart indoor eu participei de várias corridas, mas sem levar muito a sério. Correr de kart indoor para mim é como um jogador da seleção brasileira de futebol disputar uma pelada entre amigos. Eu aceitava correr, mas sempre com muito fairplay, inclusive dando várias colheres de chá aos meus amigos e adversários. Porém, mesmo nessas brincadeiras eu praticava tudo que havia aprendido em décadas de competição.
 
Eu chegava mesmo a largar em último de propósito só pra dar mais emoção às provas. Ou então simulava uma quebra, entrava no box, esperava alguns minutos e saía para passar todo mundo e ganhar a corrida. Como bom ariano não gosto de entrar em qualquer competição se não for para ganhar.
 
Até que a editora na qual eu trabalhava realizou um campeonato de kart indoor. A maioria dos jornalistas já tinha experiência e isso elevou o nível das disputas. Isso serviu de estímulo para levar a sério. Não tinha prêmio, nem troféu. Ou melhor, tinha um prêmio sim: a secretária era uma dessas lolitas de virar a cabeça de qualquer marmanjo. Ela estava meio arrastando a asa para mim e outro colega e isso esquentava mais ainda a briga pelas vitórias, já que ela era torcedora fanática e ainda fez uma planilha para controlar os resultados das provas e do campeonato.
 
Por força de vários compromissos profissionais eu e meu mais direto adversário tivemos de faltar em algumas etapas. No final das seis etapas eu estava liderando o campeonato com 4 pontos de vantagem. Para ele ser campeão precisava vencer e eu terminar até terceiro lugar. Com essa combinação de resultados terminaríamos empatados e ele seria campeão pelo critério de desempate. Ambos tínhamos uma vitória cada um e um descarte de resultado. Tudo estava rigorosamente empatado. Essa última prova adquiriu contornos de uma final de mundial de F1.
 
Quando chegamos ao treino meu adversário apareceu com um “convidado”. Espertamente ele contratou um amigo para me atrapalhar, mas eu estava confiante porque era muito rápido naquela pista da decisão. Ao final do treino o “convidado” fez a pole-position para espanto de todo mundo. Como a largada era logo após o treino não pude contestar o resultado, mas depois ficamos sabendo que ele tinha cortado caminho!
 
Ele largou ao meu lado e assim que deu a luz verde o cara veio pra cima e me fechou para deixar o meu adversário passar pra primeiro. Fiquei louco da vida, em terceiro e quase voei na traseira dele pra acabar a corrida dos dois, mas quem tinha a perder nessa história era eu mesmo.
 
Nessa hora começou o que chamo de “jogo de xadrez” das competições. Precisei analisar todas as jogadas para dar meu xeque-mate. Era impossível ultrapassar o segundo colocado porque ele me colocaria pra fora da pista sem a menor dúvida. Se a corrida terminásse naquela posição eu perderia o campeonato. Precisava ultrapassar o cara de qualquer jeito.
 
A corrida tinha 40 voltas e isso me dava bastante tempo para pensar na estratégia. A pista tinha um painel luminoso com o tempo de volta de todos os pilotos. A cada volta eu analisava aquele painel e percebi que demoraria algo perto de 20 voltas para chegarmos nos retardatários. Era uma chance: aproveitar algum retardatário para passar o segundo colocado. A estratégia era arriscada porque deixaria poucas voltas para partir pro ataque.
 
Pelo painel eu vi que nas primeiras voltas o meu adversário era em média de 2 a 3 décimos de segundo mais rápido, mas que perto da metade da corrida os tempos eram quase iguais, ou seja, ele estava com a corrida sob controle, com quase 10 segundos de vantagem. O quarto colocado estava também a uns 10 segundos atrás de mim e eu grudado no pára-choque do segundo colocado esperando um erro ou os retardatários.
 
Quando chegamos nos retardatários os bandeirinhas foram exageradamente eficientes ao sinalizarem – fato raro – e os pilotos abriam para passarmos. Meu plano “A” tinha ido pro vinagre.
 
Foi então que, ao passar pelo painel das voltas, caiu uma enorme ficha! Nosso regulamento previa um ponto extra ao pole-position e para o autor da volta mais rápida. A pole já tinha sido feita pelo convidado, sobrava o ponto extra pela volta mais rápida e isso eu ainda podia conquistar. Principalmente porque o primeiro colocado estava num ritmo confortável ciente da minha terceira posição.
 
Quando faltavam cinco voltas parti para o plano “B”: fazer a volta mais rápida! Para isso eu precisava me afastar do segundo colocado para ele não me travar, fazer uma volta derrapando bastante para aquecer bem os pneus e eu teria duas voltas para minha flying lap.
 
Em uma volta eu forcei todas as frenagens e saídas de curva para aquecer os pneus e me afastar do segundo colocado. Na volta seguinte – a penúltima – ainda dei um espaço maior para não dar chance de ser atrapalhado e joguei tudo na última volta, porque assim o líder não teria tempo de revidar. Entrei na última volta absolutamente concentrado: não pensava em nada, apenas em frear-virar volante-acelerar. Foi a volta perfeita, daquelas que ficam na memória por dias seguidos. Cada centímetro de pista foi completamente aproveitado. Foi uma pilotagem limpa, sem nem um errinho sequer.
 
Recebi a bandeirada em terceiro e respirei aliviado porque tinha certeza de ter feito a volta mais rápida. Meu adversário e seu convidado estavam festejando o título, todo mundo cumprimentando o “campeão” enquanto eu desci do kart, totalmente suado, e fui na torre de cronometragem. Peguei a folha de tempo, olhei, dobrei e fui me encontrar com os meus adversários. Cheguei perto do “campeão” e perguntei:
 
- Você lembra do regulamento todo?
 
- Claro, por quê?
 
- Lembra que o autor da volta mais rápida ganha um ponto?
 
Silêncio total...
 
- Então – continuei – sinto estragar a festa, mas o campeão sou eu!!!
 
E mostrei a folha da cronometragem, com uma estrelinha na frente do meu nome e a devida observação: * volta mais rápida. Meu adversário pegou a folha, olhou um tempão, bateu na testa e gritou:
 
- PQP, NA ÚLTIMA VOLTA!!!
 
Inteligência, meus caros, um bom piloto precisa ser mais do que rápido, precisa pensar sempre um passo à frente dos outros. É como um jogo de xadrez: você precisa antecipar as jogadas do seu adversário.
 
Quanto ao prêmio, bom, ganhei um fim de semana na praia com a secretária, mas essa história fica para uma ocasião menos pública!
 
(Esse aí na frente sou eu, 20 anos depois...)

 

publicado por motite às 00:51
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Vida corrida de jornalista

 

(Corrida de kart indoor pra jornalista - sou eu pilotando!)

 

Corrida de jornalista
 
Logo que parei de correr de kart, em 1979, ingressei no jornalismo e todo ano o Mário de Carvalho (dono da fábrica de karts Mini) convidava alguns jornalistas para uma corrida de confraternização. Quando não me boicotavam eu ganhava fácil. Depois inventaram o kart indoor e as corridas pra divulgar as pistas. Nas primeiras eu ganhava tudo. As três mais importantes e que eu queria ganhar de qualquer jeito consegui vencer: uma organizada pelo Rubinho e que tinha como prêmio o capacete do próprio, que repousa na minha estante de troféus. Outra promovida pela Fiat, na qual o prêmio era um notebook e uma terceira, que merece detalhar.
 
Era uma pista ruim de dar dó, em um lugar mais feio ainda. A programação foi atrasando e boa parte dos jornalistas se mandou P*** da vida. Mas eu tinha visto o prêmio para o vencedor: um troféu de cristal, coisa mais linda do mundo. Babei na hora e só sairia dali com aquela estatueta. A última bateria da noite seria a nossa, mas não tinha mais do que quatro pangarés escribas. Então enfiaram uns convidados no meio, inclusive alguns artistas globais e ex-pilotos, e eu já via meu troféu indo pra cucuia. Nas primeiras voltas do treino saquei que a pista tinha sido pulverizada com uma meleca grudenta, mas nas baterias anteriores os karts tinham retirado boa parte da geleca. Então, para fazer uma volta rápida era preciso andar fora do traçado, coisa que ninguém se ligou. Larguei em primeiro, ganhei apertado, mas perdi o troféu!

Fizeram pódio, entregaram a bela estátua e eu já estava imaginando aquela peça magnífica no meio de um monte de troféu vagabundo de lata velha. Até que encostou um sujeito do meu lado e lascou:

- Você não é o Geraldo Simões?

- Depende, você é da polícia?

- Ah, você é o Tite, da Duas Rodas, da Motoshow...

Não havia dúvidas que eu estava diante de um fã. E não é que o maluco olhou pro troféu e ficou excitado! Quis comprar a peça na hora.

- Nem a pau – ameacei - acabei de ganhar, é o troféu mais bonito que já ganhei na vida!

O cara chamou a namorada, cunhada, mãe, todo mundo para fazer a foto ao meu lado e eu querendo sumir dali porque já passava das duas da madrugada e estava de moto! Fui saindo de fininho e o cara atrás:

- Pô, me vende o troféu, eu sou seu fã, li todas as matérias... E passou a recitar um monte de histórias da minha vida de cor e salteado. Era doido varrido e daqueles enormes.

De repente o sujeito enfiou a mão no bolso interno do casaco e eu tive uma crise de megalomania ao me imaginar fuzilado como John Lenon em frente ao edifício Dakota. Amarelei e fiquei de joelho mole. O doidão tirou um talão de cheque e mandou uma oferta que só mesmo banqueiro de bicho ou traficante faria algo parecido. Em valores de hoje seria algo como R$ 2.000!

- Caraca, é grana pra cacete! Não pensei duas vezes, joguei o troféu na mão do cara e fiz o desmiolado colocar telefone, CIC, RG, endereço atrás do cheque com ameaça de matá-lo caso não tivesse fundo. E não é que tinha fundo! Rapaz, até hoje nunca recebi tamanho prêmio em dinheiro por uma vitória tão ridícula!

Só que o tempo passou e os jornalistas aprenderam a pilotar kart. Hoje tem uns nanicos que chegam na pista de macacão importado, capacete de 5 paus, luva antichama, sapatilha, balaclava e eu de macacão vermelho de mecânico da Alfa Romeo. Fiquei sabendo que uns espertinhos treinam nas pistas antes da corrida e há suspeitas de favorecimento de equipamento em troca de uma cédula de 50 mangos ao fiscal de pista. Marmelada da pior espécie.

Parece que essas corridas ainda continuam, mas eu confesso que fiquei cansado de pilotar kart de aluguel. Os equipamentos são muito mal conservados e odeio perder corrida por causa de equipamento capenga. Sou ariano e se tem uma coisa que arianos odeiam é perder. Mesmo que seja par ou ímpar!

 

 

publicado por motite às 23:08
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