Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Os dias eram assados. Como era ser criança na ditadura

contador.jpg

Meu pai recebendo o certificado de Ciências Contábeis 

 

Durante a mini série global “Os Dias Eram Assim”, minha mulher (12 anos mais nova) me pegou de surpresa com uma pergunta: 

- Você se lembra dessa época? 

A época que se referiu foi de 1964, com o golpe de Estado, até 1985, com o processo de abertura política. O golpe foi precisamente no dia 1º de abril, poucos dias antes de eu completar cinco anos. Foi difícil buscar alguma coisa na minha memória que tivesse marcado essa época, mas lembro de uma cena que nunca mais saiu da minha cabeça. Como nós mudávamos muito de casa eu aprendi a contar o tempo pelo endereço e em 1965 morávamos no Brooklin Paulista, um novo bairro classe média de São Paulo.

rua california.jpg

Nossa casa e nosso Gordini em 1965. 

Um dia qualquer daquele ano meu pai voltou para casa antes do horário normal. Entrou em casa, na rua Califórnia 612, sentou em uma poltrona de courvin e desabou a chorar. Ver meu pai chorando foi um choque, porque era o meu modelo de herói e heróis não choram. Mas naquela tarde de 1965 ele chorava e nunca mais, até a morte dele, eu o vi chorar novamente. 

Quando me aproximei dele para saber o que tinha acontecido minha mãe me pegou no colo, com muito carinho e explicou: 

- Ele está com saudades do pai dele. 

Não conheci meu avô paterno. Ele era natural de Figueira da Foz, uma adorável cidade no litoral de Portugal, que fica na foz do rio Mondego e realmente tem figueiras em várias casas. Durante o período da florada pode-se sentir de longe o cheiro de figo. Mas depois da frutescência o cheiro fica azedo por causa dos figos podres, caídos e atropelados pelas calçadas. Como foi invadida pelos mouros desconfio que herdamos alguns pigmentos do norte da África. Meu avô era praticamente mulato e quando meu pai tomava muito sol virava um negrinho, como minha mãe o chamou por toda a vida. 

Meus avós paternos saíram de Portugal depois da I Guerra, quando a Europa enfrentou uma grande crise econômica e a saída estava no “novo mundo”. Criados na tradição rural, os europeus chegaram ao Brasil para substituir a mão de obra escrava, mas com um pouco de dinheiro, conhecimento e experiência. E ainda com a condição de serem remunerados.

futebol.jpg

Futebol, a grande paixão do meu pai (à esquerda). 

Com os primeiros trocados que meus avós juntaram compraram um sítio em Suzano, cidade de tradição agrícola colada a São Paulo e deram início à tradição comerciante da família. Só que meu avô morreu muito jovem, com apenas 50 anos e meu pai e seus irmãos se viram obrigados a largar a escola para se dedicarem ao trabalho. 

Meu pai foi feirante, estampador, fez muitos bicos mas o que mais queria era estudar. Não se conformava apenas em trabalhar, queria se formar. E assim fez. Voltou a estudar na adolescência. Trabalhava de dia e estudava à noite. Dormia no trem entre Suzano, Mogi das Cruzes e Taubaté. Ele adorava contar a mesma história. Quando dormia no trem tinha um truque para não perder a estação. Em Suzano já funcionava a fábrica de papel – que existe até hoje e é uma potência no ramo – e que exalava um odor horrível, resultado dos rejeitos da celulose. Quando meu pai sentia o cheiro de enxofre acordava porque sabia que estava em Suzano. Até que uma noite alguém soltou um pum e ele desceu em Poá, uma estação antes! 

Depois de se formar técnico em contabilidade largou o trabalho nas fábricas e se dedicou aos números. Tinha uma capacidade fora do comum de fazer contas mentalmente sem uso de calculadora até pouco tempo antes de morrer aos 84 anos. Fazia os cálculos de alíquotas de impostos de aluguel sem uso de calculadora até o fim da vida. Desconfiado eu conferia na calculadora e estava tudo certo. 

Um dos grandes orgulhos do meu pai foi ter aprendido a fazer cálculos usando o soroban, o ábaco japonês. A região que compreende Suzano e Mogi das Cruzes faz parte do cinturão verde de São Paulo e produz grande parte dos hortifrutigranjeiros vendidos na capital. Os grandes responsáveis por essa produção são os imigrantes japoneses, que também vieram para o Brasil em busca de oportunidades e encontraram vastas e baratas áreas de terra. 

Com tantos japoneses e dekasseguis logo surgiu um banco América do Sul, criado pela comunidade japonesa e meu pai era um dos poucos ocidentais aceitos na equipe de contadores. Pois não é que ele vencia todas as competições de soroban! Os japoneses ficavam loucos em ver que um não-japonês era capaz de usar o ábaco com mais rapidez e eficiência. E foi essa habilidade que fez do meu pai uma máquina de calcular mental. Raramente eu o vi usando uma calculadora. 

Dono de uma ambição acima da média, depois de casado meu pai se mudou com minha mãe e meus irmãos para São Paulo, onde nasci em 17 de abril de 1959. Mas para homenagear a cidade natal, meus pais decidiram me registrar como nascido em Suzano. Sou um cidadão suzanense no papel e no coração, apesar de ter morado lá apenas três meses. 

Em São Paulo meu pai continuou trabalhando no Banco América do Sul e conseguiu realizar o grande sonho de entrar na faculdade Mackenzie, para cursar direito. Ele se formou em 1971 e eu fui na formatura. Vi meu pai receber o diploma de bacharel em Direito no mesmo palco que cinco décadas depois minha filha mais nova receberia de bacharel em Biologia. É o ciclo da vida dando voltas. 

De volta àquela tarde de 1965 lembro que fiquei triste pelo meu pai sentir saudades do pai dele. Nunca se falava do meu avô em casa, não tinha fotos dele porque naquela época não se faziam tantas fotos quanto hoje. Eu só sabia que ele era um “homem bom e generoso”. E foi com essa imagem, do meu pai chorando de saudades do pai dele que vivi, até saber o verdadeiro motivo do choro, quase 10 anos depois, contado acidentalmente por ele mesmo. 

Naqueles dias de 1965 agentes da polícia civil haviam invadido o escritório do meu pai e levado um dos colegas. E naquela tarde do choro ele fora anunciado como “desaparecido”. Esta é a única lembrança que tenho do período pós-golpe, até chegar à faculdade, em 1977 e tomar conhecimento do que realmente estava acontecendo com o Brasil. 

Durante minha infância, enquanto o Brasil fervia politicamente, meus dias eram assim: esfolados e encardidos. Minhas ocupações eram brincar na rua até escurecer, construir carrinhos de rolimã, colecionar miniaturas Matchbox, jogar bola, empinar pipa e ralar os joelhos tantas vezes que mal dava tempo de secar as casquinhas para ralar tudo de novo. Em suma, nesta época meus dias eram assados.

publicado por motite às 22:30
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

Minhas copas & motos

 

O futebol perdeu para a paixão por esta moto...

 

O que eu fiz nestes últimos 50 anos com relação à Copa do Mundo

 

Ninguém nasce Tite por acaso. Esse não é meu nome de batismo, mas só fiquei sabendo disso com seis anos de idade, ao entrar na escola. Depois de uma semana reclamei pra minha mãe:

 

- A professora não fala meu nome na chamada! chama todo mundo, menos eu! Mas tem um tal de Geraldo que nunca vai na escola!

 

- Esse Geraldo é você, seu nome é Geraldo Simões.

 

Nunca me recuperei desse choque de me chamar Geraldo.

 

O apelido Tite nasceu comigo porque meu pai foi jogador de futebol, na época que futebol era uma paixão. Não teve uma carreira longeva porque num dado momento a vida o colocou diante de uma encruzilhada: ser jogador ou sustentar a família. Naquele tempo o futebol ainda não era uma caixinha de dólares e ele decidiu pela segunda opção. Mas o amigo dele seguiu carreira, se tornou  até uma celebridade no Santos FC e em homenagem a ele eu virei Tite. E filho de um ex-jogador de futebol.

 

Já sentiu a carga de responsabilidade?

 

Cresci vivendo, respirando, almoçando e jantando futebol. Meu pai me levava aos jogos e quando o Corinthians fazia gol ele me jogava pra cima umas três vezes e até hoje lembro do frio na barriga a cada voo. Ganhei dezenas de bolas de futebol. Assistia jogos em estádios desde que me conheço por gente e minha casa era frequentada por jogadores de futebol. O primeiro contrato de publicidade do Pelé foi com uma cachaça! Isso mesmo, a Caninha Pelé e quem redigiu o contrato foi meu pai, então recém-formado em contabilidade.

 

Percebeu a minha situação? Mas... o futebol não pegou na minha veia. Nunca consegui jogar e até minhas primas jogavam melhor que eu!

 

Minha primeira Copa do Mundo depois de nascido foi 1962, mas juro que não lembro de nada, só tinha três anos. Depois a de 1966 lembro vagamente do meu pai de orelha colada no rádio de pilha, xingando e gritando. Mas aí veio 1970 e tudo mudou!

 

Até hoje lembro a alegria ao ver um aparelho de TV Telefunken entrando em casa. Meu pai apertou um botão e... ooohhhh televisão a cores! (eu ainda não sabia do meu probleminha com as cores... só descobri com 12 anos).

 

Tínhamos TV a cores, uma seleção com jogadores amigos do meu pai em campo e uma euforia deliciosa pelas ruas. Aí sim fui contaminado. Fizemos bandeiras enormes com resto de tecido, enfeitamos o carro, pintamos as ruas, bandeirolas, foguete, festa e o climax: Brasil tri-campeão! Acertei o resultado contra a Itália e ganhei o único bolão da minha vida. Todo dinheiro virou carrinhos Matchbox.

 

O futebol me pegou com tudo. E acho que toda geração que viveu o Tri foi contaminada.

 

Pena que durou pouco. Apenas dois anos depois meu pai apareceu com uma novidade que mudaria minha vida: comprou uma moto! uma Suzuki A 50II e o futebol - e todo resto - desapareceu do meu pensamento. Foi amor ao primeiro cheiro de óleo dois tempos. Adiós futebol!

 

As outras copas

A única coisa que me lembro da Copa de 1974 é que o Pelé não jogou, mas o Rivelino jogou e só sei disso porque ele também era amigo do meu pai. De resto nem sei onde foi realizada.

 

A de 1978 eu já trabalhava como redator publicitário em uma agência de propaganda. Tinha uma Honda CB 400Four e vida de mauricinho. Nesta copa os jogos eram realizados no horário do expediente, como a de hoje e os chefes nos dispensavam pra ver os jogos, só que tínhamos de voltar.

 

 

A partir de 1977 meu interesse por futebol sumiu de vez porque entrou a gasolina

 

Como eu não fazia a menor questão de ver jogo algum, reparei que uma bela diretora de arte também não saía pra ver os jogos e aproveitava para "adiantar o serviço". Eu também tratei de adiantar o meu serviço, entrei de sola e descobrimos que tem coisa muito mais legal pra fazer em 90 minutos de folga no trabalho...

 

Lembro que no jogo do Brasil x Argentina fomos almoçar numa cantina italiana e, claro, só tinha o casal de pombinhos arrulhantes, para desespero dos garçons extremamente mal humorados. Acho que todos cuspiram na minha comida, sem falar em coisa pior, porque, se não me falha a memória, o jogo acabou empatado. E eu fui despedido porque não sabia que a diretorinha de arte era reserva de mercado do dono da agência.

 

Já a copa de 1982 passou batida mesmo, não lembro nem sequer onde foi, quando foi e quem ganhou. Mas tudo começou a mudar em 1986...

 

Não, eu não passei a gostar de futebol, mas depois daquela experiência alternativa de 1978 com a diretora de arte comecei a entender que copa do mundo era sinônimo de horas de tranquilidade, vários dias. Essa copa ficou marcada para mim porque a Honda lançou a CBX 750F, a maior moto comercializada no Brasil da época, pelo menos à venda legalmente!

 

O Brasil iria jogar contra a França já na fase de mata-mata. Olhei pra garagem da editora na qual trabalhava, vi a CBX 750F preta implorando por um passeio e decidi que o dia certo era esse, assim pegaria a estrada vazia e sem polícia! Olhei pro mapa e pensei: "puxa, não conheço Brasília!"...

 

Graças à minha sorte, o jogo teve prorrogação, disputa de pênaltis, par ou ímpar, batalha naval e demorou uma eternidade pra acabar. Nunca Brasília foi tão perto, tudo por conta daquela velha equação de espaço sobre tempo etc. Se aquele motor não fundiu nesse dia nunca mais. Mas como sempre fui um cara que preza os próprios ovos, quando pra abastecer perguntava o placar, assim controlava o quanto de estrada livre teria. Até que um caminhoneiro deu a notícia: o Brasil foi eliminado. Decidi parar no primeiro hotelzinho e dormir porque sabia que a ressaca seria brava e a estrada estaria cheia de bebuns!

 

(A título de curiosidade, no dia seguinte o Ayrton Senna venceu o GP dos Estados Unidos de F-1 e para responder aos franceses da Renault exibiu uma bandeira do Brasil após a bandeirada e isso viraria moda em outras modalidades).

 

E chegou 1990 e mais uma vez dei a mínima pra Copa do Mundo e confesso que nem sei onde foi realizada, mas em épocas de Google fui lá pra saber: foi na Itália. Bella roba!

 

Até que veio 1994 e algo de mágico aconteceu...

 

Interlagos todo meu...

O ano de 1994 foi um marco na minha relação com o futebol. Novamente os jogos foram em um horário que permitia ser despachado pra casa. Eu era editor da revista Duas Rodas e com uma equipe reduzida tinha de me desdobrar para fechar as edições no prazo. Por isso lembrei daquela diretora de arte e aproveitava os dias de jogos do Brasil para ficar sossegadão, sozinho, adiantando meu lado, sem telefone tocando nem ninguém pentelhando. Uma beleza.

 

Só ficava eu e o diretor de redação, Josias Silveira, outro que estava nem aí pro futebol. Ele sabia que eu estava lá na redação todo tempo, sem TV nem rádio ligado e isso funcionava muito bem.

 

Além disso, era colaborador da revista Auto Esporte e recebi uma ligação do fotógrafo Luca Bassani, outro futeboless que teve uma ideia genial: precisávamos fotografar uma moto esportiva, a Yamaha R1 e seria ótimo aproveitar a cidade vazia!

 

- Boa, respondi, mas tenho uma ideia melhor: vamos pra Interlagos!

 

Depois da reforma que picotou o circuito de Interlagos sobraram algumas curvas do circuito antigo e eu costumava usar esses trechos para as produções de foto. E lá fomos nós!

 

O dia era 9 de julho, jogo do Brasil x Holanda. Assim que parei no portão do autódromo com a R1 e vestindo o macacão de couro o porteiro quase enfartou:

 

- Aaaaaaaahhhh não, hoje não! Hoje tem jogo do Brasil.

 

Fiquei lá argumentando, conversando e o tempo passando e o porteiro desesperado pra vazar e ver o jogo. Até que ele pegou a chave do cadeado, me entregou e despediu-se com um:

 

- Só me faz um grande favor: não morre nessa merda hoje!

 

Bom, atendi o pedido, mas imagine o que significa receber a chave de Interlagos por duas horas inteiras! Assim que passamos pelo portão o Luca falou:

 

- Pô, pra que usar a pista velha se estamos sozinhos e com a chave de casa! Vamos usar a pista toda!!!

 

Olha, eu não morri, claro, mas se você quiser saber como é o paraíso passe duas horas dentro de Interlagos com uma Yamaha R1 debaixo do braço sem ninguém pra lhe aperrear!

 

As fotos ficaram maravilhosas porque o Luca é artista e louco. Nos tempos da câmera analógica, filmes cromo, sem os mecanismos de gripar máquina como hoje, nós prendíamos a máquina usando pedaços de tripés, rolos de silver tape e nenhum juízo. A máquina tinha acionamento por controle remoto e o Luca ia correndo a pé, ao lado do asfalto, disparando as fotos. Uma comédia.

 

E eu gastei um par de pneus sem o menor remorso. Cheguei a fazer várias voltas no sentido contrário só pra ver como era. Interlagos todo meu, nunca mais tive isso na vida!

 

Mas a grande revolução seria no último jogo, a final do Brasil X Itália. Ali tudo iria mudar... pra sempre!

 

Uma das pautas da Duas Rodas era o teste de uma Yamaha TDM 900. E o fim de semana de 16 de julho seria perfeito, porque a previsão de tempo era céu claro, zero de chuva e no domingo seria a final da Copa do Mundo. Ótimo, ninguém nas ruas e estradas...

 

Peguei a moto com a pretensão de moer a bicha, ver se ela era realmente uma fun-bike e se enfrentaria uma estrada de terra. Monte Verde, na divisa de SP e Minas parecia perfeito porque tinha estradas de asfalto com muitas curvas e uma estradinha de terra honesta.

 

Como previ, domingo amanheceu  ensolarado, mas estranho. Ninguém nas ruas e o jogo também demorou muito, com prorrogação, pênalti, jogo da velha, dardo etc. Passei o tempo todo rodando de moto e fotografando sem nem uma viv'alma por perto. Quando estava já escurecendo começou a bagunça: o Brasil tinha conquistado o título depois de um jejum de 24 anos. Imagine a festa!

 

Parei na vila e as pessoas estavam enlouquecidas mesmo! Mas um estava especialmente doidão. Um suíço, dono de um bar, pirou o cabeçote totalmente. No maior pileque do mundo - e devo dizer que donos de bares não devem ficar de pileque - ele beijava todo mundo, chorava de alegria e porque todo bêbado chora. Até que tomou a pior das decisões, subiu numa mesa e gritou com o sotaque alemão:

 

- Tzô tzanto feliz que agorra é open-bar! Podem beber o que quiserrem, non preziza pagar nada! É tudo por minha conta... e capotou!

 

Só pra conferir chamei o cabra de lado e perguntei:

 

- Spinnst du? Alles frei?

 

- Jaaaaa, mund frei!

 

Se tem uma palavra que vale a pena saber em vários idiomas é "grátis"...

 

Desnecessário dizer que foi um dos maiores porres da minha vida. Misturei tudo que era líquido e engarrafado. Acho até que tomei um gole de querosene! De repente me dei conta que não era o mundo que estava girando, mas eu mesmo. Por mais que me agarrava à mesa ela continuava girando que nem um carrossel. E percebi que a TDM estava lá fora, me esperando pra voltar pro hotel. Mein Gott!

 

Olhei pra moto e pensei: estou perto do hotel, conheço bem o caminho, acho que dá pra pilotar. Assim que conheci a TDM xucra, porque eu subia de um lado e caía do outro. Num frio de lascar, tremendo, percebi que não teria outro jeito senão voltar a pé, quer dizer, a pé, de joelhos, rastejando, de qualquer forma, mas a moto ficaria ali mesmo, no estacionamento do das boteken!

 

Não me pergunte como cheguei ao hotel, mas tinha terra até no ouvido. Ainda consegui tomar banho, deitar na cama e... nunca mais acordar!

 

Pela segunda vez na vida tive aquela sensação da alma saindo do corpo, conversar com Deus, ter visões de minhas vidas passadas etc, mas era só ressaca mesmo. Quando o mundo parou de girar olhei pro relógio: era 13:00 horas da segunda-feira e meu fígado nunca mais esqueceu desse dia... Eu levantava da cama e capotava de novo. Foi assim até as 15:00 horas...

 

Enquanto isso, na redação da Duas Rodas todo mundo estava preocupadíssimo, porque todos os fanáticos foram trabalhar, menos o agnóstico de futebol. E tinha viajado de moto!

 

- Morreu, decretou Josias Silveira! Esse FDP morreu na estrada, deve ter rolado um barranco e ninguém viu o corpo. Só vão achar quando ele apodrecer! Como vou avisar a família?

 

Mais uma vez não morri, mas cheguei bem perto disso, porque viajar 220 km, de moto, com uma ressaca dos infernos é o mais perto que alguém chega da morte. Só apareci na terça-feira, amarelo, com a moto toda suja e quando eu pensava que ia levar o maior esporro o Josias me abraçou, quase me beijou:

 

- PORRA, VOCÊ ESTÁ VIVO!!!

 

So what?

 

Não foi a ressaca, nem a minha experiência de quase morte, nem o Galvão Bueno gritando éééeéé teeeeeeeeeetra, nem a festança que tomou conta do Brasil. O que me fez, depois de 26 anos, voltar a me interessar por futebol foi a alegria das minhas filhas.

 

Elas acompanharam os jogos, torceram, sofreram e se alegraram e o pai delas estava nem aí, passeando de moto. Não estava sendo justo com elas. Todos os filhos viveram aquela conquista abraçados aos seus pais, como eu vivi em 1970 e meu pai me jogava pra cima a cada gol do Brasil. Não podia tirar das minhas filhas o direito a um pai normal.

 

E foi assim, no outono de 1994, que passei a gostar de futebol, sem fanatismo, sem exageros, nem conhecimento - até hoje não entendo o impedimento. Procurei cumprir a minha divina função de pai e de filho e passei a acompanhar os jogos só para mostrar o interesse ao meu pai e não podar esse prazer das minhas filhas. Se me pego discutindo futebol é por mera inércia e se até alimento alguma simpatia por um time ou pela seleção brasileira é pouco ou nada a ver com fanatismo ou paixão, mas posso dizer que é simplesmente por amor e respeito às pessoas que gostam.

 

 

publicado por motite às 01:41
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Bola no pé... errado!

 

Quis o destino que eu nascesse no Brasil. E bem entre as duas primeiras conquistas da Copa do Mundo de Futebol entre 1958 e 1962. Nasci no momento mais futebolístico do País. E ainda vi a Copa de 1970 inteira, com transmissão ao vivo e em cores! Foi uma explosão de alegria tão contagiante que só conseguia me imaginar sendo jogador de futebol.

 

Minha carreira não deslanchou pelo motivo mais elementar possível: eu jamais consegui jogar futebol. Até tentei, afinal era uma instituição nacional e vivíamos o momento de maior ufanismo da história. Pra frente Brasil, salve a Seleção!

 

Hoje se alguém cantar "Noventa milhões em ação" já vão desconfiar que é desvio de verba e acabar em CPI.

 

- Senhores, acabamos de descobrir que foram desviados 90 milhões!

 

- Como? Verba de campanha?

 

- Não, parece que foi em ações ao portador...

 

Cresci na fase de ouro do futebol brasileiro, mas sempre fui uma verdadeira negação neste esporte. Para complicar nasci corintiano na época que o time passou 23 anos sem conquistar um título. Quando eu tinha entre 6 e 12 anos de idade a frase que eu mais odiava a ponto de querer matar era "Ah, você nunca viu seu time ser campeão"... culpa do Santos e do Pelé!

 

Até frequentei estádios, vi jogos ao vivo, conheci jogadores porque meu pai, ex-jogador, conhecia todo mundo. A gente chegava nos estádios e os porteiros cumprimentavam, deixavam entrar sem pagar e ainda descolavam um lugar especial. Vi treinos no Parque São Jorge, fui sócio do Corinthians, mas não conseguia jogar futebol nem por mágica.

 

Para minha sorte, em 1972, o Emerson Fittipaldi foi campeão mundial de Fórmula 1 e o automobilismo entrou para o cardápio de paixão nacional. Eu estava a salvo! Podia falar de outro assunto que não tivesse bola no meio e nunca mais assisti um jogo de futebol no estádio.

 

Na escola ainda era um inferno, porque os meninos eram praticamente obrigados a jogar futebol. Eu tinha vontade de gritar "eu odeio futebol!!!", mas isso soaria pior que comunismo. E olha que a época era especialmente perigosa nos temas políticos.

 

Era constrangedor me ver jogando. Eu corria de um lado pra outro rezando pra ninguém me passar a bola e se por acaso ela aparecesse na minha frente dava um chute de bico e mandava pro espaço. Como todo jogador sem jeito, minha sina era ir para o gol, o que piorava ainda mais. Jogando bola eu era tão ajeitadinho quanto uma casa de taipa. Até que o professor de educação física decidiu me tirar do time antes que eu acabasse morto e levou para a equipe de salto.

 

Magro como um maratonista etíope, até que fui bem nos saltos triplos e consegui me livrar pra sempre do futebol!

 

Quer dizer, não totalmente, porque na faculdade surgiu essa ideia idiota de jogar futebol. Eu queria dizer que não gostava, mas era como um americano subir no Empire State e gritar que odeia basebol ou basquete!

 

Depois de muita insistência fui jogar uma "partidinha só de brincadeira, entre amigos, colegas da classe, sem pressão, bla-bla-bla...". Saí do jogo com três dedos do pé direito quebrados! E só tinha amigos... jurei nunca mais jogar futebol.

 

Muitos anos se passaram, mas muitos mesmo, até que descobri na escalada o esporte da minha vida. Durante a semana escalava na academia e fins de semana na rocha. Em pleno século 21 as pessoas deixaram de tratar o futebol como o único esporte do mundo e no universo de escaladores menos ainda.

 

Até que surgiu alguém com a proposta de jogar futebol society uma vez por semana. Como era quase todo mundo ruim de bola, alguns péssimos e outros piores ainda, o futebol virou muito mais uma diversão do que um jogo. Também uma forma de não virar monoesportista só vivendo de escalada.

 

Tudo bem, tínhamos alguns ótimos jogadores, até com passagem por times oficiais e algumas mulheres - isso mesmo, mulheres, nosso futebol era misto - que jogavam tão bem que as outras quadras paravam para vê-las.

 

Depois íamos para uma lanchonete repor todas - e mais algumas - calorias gastas e rir muito das jogadas desengonçadas de pessoas com uma relação muito estranha com as bolas.

 

Péssimo como sempre, eu ainda jogava com um monitor de frequência cardíaca, regulado para apitar com 180 batimentos por minuto, por recomendação médica. Toda vez que meu relógio apitava os outros jogadores gritavam:

 

- Pára todo mundo que o tiozinho vai morrer!!!

 

Muito engraçados...

 

Não morri, mas ninguém me passava a bola porque sabiam que seria um desastre, mesmo assim levei a sério e comprei chuteiras, meias, camisa, caneleira tudo oficial. Antes dos jogos, durante o aquecimento, meus amigos tentavam me ensinar a chutar, driblar, correr com a bola, mas tudo em vão. Cachorro velho não aprende truque novo.

 

Até que uma noite houve um milagre.

 

Tudo começou com um escanteio pela direita. Meu colega fez sinal para eu correr para a área e obedeci. Ele jogou a bola que veio direto na direção da minha cabeça, bateu na minha testa e entrou no gol. Gol? Goooooooool...

 

Meu time explodiu... de rir! Até o goleiro adversário ajoelhou porque não conseguia parar de rir. Na verdade não foi um gol, foi uma encaçapada, porque usaram minha cabeça de tabela.

 

Quando conseguiram parar de rir reiniciaram o jogo. No segundo tempo eu estava parado quietinho na ponta direita, esperando meu batimento cardíaco diminuir e a bola apareceu bem na minha frente. Corri com ela pra perto da área, vi que o goleiro estava meio adiantado e chutei, de bico, entre ele e a trave. Gooooooooool, de novo!!!

 

Saí pulando pra comemorar, mas vi que os jogadores adversários estavam rindo de novo. E brigando com o goleiro:

 

- Pô, Minhoca, isso é hora de falar no celular???

 

- Ah, quando celular tocou vi que a bola estava com o Tite e atendi. Nunca imaginei que ele fosse chutar, muito menos acertar!

 

Desmoralizado com meu segundo gol acidental continuei correndo de um lado pro outro e tomamos um gol de empate. Faltava pouco para acabar e fui para o meio de campo dar a saída. Coloquei a bola no círculo central e falei pro meu companheiro:

 

- Só rola a bola...

 

Vi que o goleiro estava totalmente desatento e adiantado e mandei um bico na bola com toda raiva do mundo. Aconteceu o milagre. Ela fez uma parábola, uma curva totalmente doida, o goleiro se esticou todo mas a bola  entrou no gol bem no ângulo. Ninguém se mexeu. Silêncio total. Fiquei mudo só refazendo mentalmente o que tinha acabado de acontecer. Alguém correu pra mim aos berros:

 

- Golaaaaaaaaaaaço, gênio!!! Nem Pelé conseguiu isso!

 

Passado o susto de ter feito um gol de verdade tive uma crise histérica de riso e delirei imaginando que o mundo tinha perdido um grande jogador. De qubra meu time ganhou de virada.

 

Foram os únicos três gols da minha carreira como jogador. Nunca tinha feito nem um gol sequer e foram logo três em uma partida. Continuamos jogando por mais alguns meses até que algumas brigas por conta do calor da disputa acabou com nossas peladas. Pelo menos não passei pela vida sem fazer meu gol do meio do campo! Nem Pelé fez...

publicado por motite às 21:41
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Ronaldo chega ao Corinthians para jogar em posição inédita

 

(Camiseta do Ronaldo: apenas R$ 169,00 em 3 vezes!)

 
 Agora sim, o glorioso Timão voltará com força total ao Brasileirão. Não, não, deixe de ser ingênuo, não se trata do Campeonato Brasileiro de Futebol, mas o anuário Brasileiro de Propaganda e Marketing. No campo gramado o Corinthians certamente continuará a ser surrado como em 2007, mas no campo do marketing vai nadar de braçada.
 
O Corinthians estava desesperado precisando de grana, depois de uma administração envolvida em escândalos. O título da Série B, Segundona, ou qualquer nome, serviu para remediar o caixa. Mas o que salvará a administração é a contratação do Ronaldo Nazário.
 
O jogador fora de forma, entrará em uma posição inédita em sua carreira: na prateleira! Isso mesmo, sua grande atuação não será em campo, mas na vitrine. Só um marciano acredita que Ronaldo tenha condições de jogar 90 minutos, mas ele tem um nome. E este nome vende até areia no deserto. Em menos de uma semana as camisas número 9 do Corinthians, com nome Ronaldo, já estão na lista das top10 entre os presentes de natal. Cada camiseta custa a bagatela de R$ 169,00. Se vender um milhão de camisetas terá pago toda transação e ainda sobrará um troco para ajudar a estabilizar as contas.
 
Você não tem noção do que significa um ícone como Ronaldo Fofômeno. Quer vender qualquer coisa? Contrata Gisele Bündchen ou Kaká, Ronaldinho e Ronaldão. Vende e qualquer estagiário de marquetching pode confirmar. Essas pessoas cobram um milhão de dólares? Não importa, porque vendem 30 vezes mais!
 
Vamos ver o Ronaldo em 2009: o melhor vendedor de camisetas do mundo!

 

publicado por motite às 14:29
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