Quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

O Tigre, o menino, o trânsito, eu e você!

 

Devido ao caráter viral que se tornou o meu texto "O tigre, o menino e o trânsito", inesperado e até assustador, confesso, estourou a capacidade de comentários no provedor português Sapo. Por isso abri esse espaço extra para responder os tópicos mais comentados, pedir desculpas por não me apresentar, contar um pouco da minha atividade de convidar os leitores a ler os outros textos e até meu livro.

 

Pela ordem de chamada!

 

Deixa eu me apresentar: meu nome de batismo é Geraldo Simões, mas fui desde o nascimento rebatizado com o apelido Tite, por recomendação do meu pai, porque achava simplesmente Geraldo um nome grande demais para um ser tão pequeno. Tenho 55 anos, sou jornalista desde os 20, motociclista desde os 12 e viciado em escrever desde a época das Olivetti Lettera 32. Fui fotógrafo, redator, editor, revisor, professor de Redação e Língua Portuguesa na Fundação Cásper Líbero e desde 1999 me dedico a ministrar cursos de pilotagem para motociclistas. Tenho duas filhas do primeiro casamento, ambas com dupla nacionalidade (brasileira e alemã), que viveram a experiência de morar na Alemanha. Por causa delas mudei totalmente o meu conceito sobre educação, ensino, respeito e amor.

 

Os pontos mais comentados do texto foram:

 

- Quem sou eu pra escrever com tanta propriedade? Está respondido lá em cima, mas queria dizer que não sou especialista em ensino, mas estudei muito o tema porque vi-me dando aula para alunos que tinham quase a minha idade, acompanhei muito de perto o vida escolar das minhas filhas, fui casado com uma professora especialista em educação infantil, tive uma família equilibrada e meus pais vivem até hoje. Agradeço aos especialistas que me escreveram corrigindo alguns aspectos e conceitos a respeito de educação e ensino e lamento não poder responder a todos.

 

A exemplo da maioria dos meus textos eu escrevi este em pouco mais de meia hora e não aprofundei em nenhum conceito específico, porque para meus leitores habituais esses temas são exaustivamente conhecidos.

 

- O julgamento: queria deixar muito bem explicado que em momento algum me ocorreu julgar, mas apenas usar o "acidente" como exemplo do comportamento humano. Mesmo assim me assustei com a reação quase natural de as pessoas julgarem e sentenciarem os envolvidos. Esta é uma faceta do comportamento moderno criado a partir do excesso de exposição às redes sociais: a necessidade quase vital de achar um culpado. Como jornalista, conheço a ética da profissão que nos impede de julgar até um réu confesso antes de um juiz proferir a sentença. Por isso você lê sempre nos jornais que Fulano é SUSPEITO de...

 

- Patriotismo x conhecimento: também fui alvo de algumas demonstrações de todo tipo de preconceito. Se eu citei em vários pontos a expressão "os brasileiros" é porque vivo aqui, convivo diariamente com brasileiros e estudo o comportamento de motoristas há mais de 30 anos. Gosto do Brasil, mas tenho muita ressalva com relação ao comportamento social dos brasileiros. Não morei no exterior, mas como jornalista já visitei mais de 30 países e participo regularmente de fóruns e trabalhos sobre mobilidade urbana, que tem como ponto crucial o comportamento humano. Os exemplos que dei sobre EUA e Áustria não me contaram, eu vi pessoalmente e foi apenas dois exemplos. Claro que em todo lugar do mundo existe gente mal intencionada, mas o que pretendo chamar a atenção é que no Brasil estes estão aumentando exponencialmente e temos de encontrar a raiz desse crescimento, combatê-la e reverter essa tendência. Para mim o foco principal é na formação do caráter, que é um conceito que vem de casa e não apenas da escola.

 

- Alguns comentários eu simplesmente rapei fora porque eram ofensivos, preconceituosos, sem-noção ou apenas tinham a intenção de causar polêmica. Fui chamado até de nazista!!!

 

- A Bíblia, Adão, Eva e a religião: não sou um religioso praticante, mas cresci em uma família católica. Na minha primeira faculdade estudei Teologia e gostei tanto que depois continuei por conta própria. Alguns teólogos mais experientes corrigiram o texto e agradeço a todos pela disposição. Aos fanáticos e mais exaltados queria lembrar que Adão e Eva não existiram, assim como Papai Noel e Saci Pererê, portanto não percam seus preciosos tempos comentando o que eles fizeram ou quiseram fazer porque a própria Bíblia é uma grande ficção e recebeu várias interpretações, foi escrita cheia de questionamentos éticos e se eu fosse o editor teria cortado pelo menos 70% de texto!

 

- A passividade das testemunhas: um dos itens mais comentados foi com relação ao rapaz que fez a filmagem e o motivo de ele não ter interrompido a ação do garoto, chamado a atenção etc. Bom, aqui mais uma vez eu chamo a atenção para a inversão de valores que estamos vivendo, especialmente no Brasil. Por que no Brasil? Primeiro vou contar como funcionava na Alemanha, durante a época que minhas filhas moraram lá. Cada cidadão adulto se preocupa consigo e com quem está em volta, seja no trânsito, na empresa, na escola etc. Se uma criança se coloca em risco, o adulto mais próximo intervém, independentemente da reação do pai ou tutor mais próximo. O mesmo ocorre com relação aos idosos, sempre tem alguém ajudando e orientando, mesmo quando ninguém pede ajuda. Eu vivi isso pessoalmente e posso atestar que esse comportamento é reflexo de uma história de 2.000 anos vida em sociedade. No Brasil a vida em sociedade existe há pouco mais de 100 anos, sendo que nos últimos 50 deu um salto quantitativo exponencial. Ainda engatinhamos nessa coisa de viver em sociedade e é natural que surjam problemas. Um deles é o egoísmo expresso nas atitudes mais simples e que aparece muito mais claramente no trânsito. Nos mais de 30 países que visitei - a trabalho - nunca vi um adesivo no carro com frases como "Deus deu a vida para que cada um cuide da sua"; ou "Este carro é meu, foi pago por mim e ninguém vai me dizer como dirigir(sic)". Estas frases explicam o que eu quis dizer com a deterioração da vida em sociedade.

 

Por isso eu entendo a reação das pessoas. Existe um medo natural de alguém simplesmente ser agredido se chamar atenção ou até usar a força para impedir que uma criança se acidente. Eu tenho certeza que esta seria a reação da maioria dos pais, por causa dessa inversão total de valores.

 

Em suma, nos países com uma longa história de relação social existe uma espécie de auto-regulamentação, um cuida do outro, e isso não é motivo de briga. Enquanto no Brasil uma simples advertência pode acabar em crime, porque não se admite a interferência externa. Já escrevi sobre isso aqui mesmo e uma simples busca por palavras-chave como paradigma, educação, trânsito pode resultar em vários textos sobre o tema.

 

Recentemente um ciclista filmou a reação agressiva de um motorista que estacionou de forma irregular na ciclovia. Foi um exemplo de como a convivência social está ruindo e isto tem um nome: sociopatia, uma reação quase doentia em relação à sociedade, como se o mundo todo conspirasse contra aquele indivíduo.

 

Muito conceito escrito naquele artigo foram citados superficialmente, claro, porque é uma coluna publicada em alguns sites e a internet hoje exige textos curtos (mais um resultado dos tempos atuais: ninguém tem saco de ler nada com mais de 5.000 caracteres). Não é uma tese de doutorado. Portanto não cobre aprofundamento deste ou daquele conceito. Neste blog - que teve 150.000 visitantes pela primeira vez! - tem mais de 1.000 artigos. Fique à vontade para pesquisar os temas, ler e discutir quanto quiser. Recomendo alguns:

 

http://motite.blogs.sapo.pt/o-medico-e-o-monstro-109333

 

http://motite.blogs.sapo.pt/a-criminalizacao-da-vitima-108940

 

http://motite.blogs.sapo.pt/106621.html

 

E se você gosta de moto e quiser adquirir meu livro O Mundo É Uma Roda, basta escrever para tite@speedmaster.com.br aqui mesmo tem várias crônicas do livro.

 

Obrigado pelos comentários

 

Tite

 

publicado por motite às 12:14
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