Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Simples folha de papel

 

(Ayrton e Nina. Foto: Tite)

 
Aquele primeiro de maio
É a primeira vez que escrevo sobre esse assunto: minha convivência com Ayton Senna. Na verdade a convivência foi bem pequena e reservada, porque os dois eram extremamente tímidos e vivíamos em lados opostos da cidade. Eu só via o Ayrton em dias de treinos e corridas no kartódromo de Interlagos, o que representava pelo menos uma vez por semana.
 
Quando comecei a freqüentar o kartódromo, em 1975, Ayrton já era praticamente um veterano. Já tinha vários títulos e todo mundo ali sabia que ele era um fenômeno na pilotagem e no acerto do equipamento. Só não era – nem nunca foi – muito paciente.
 
A primeira vez que vi Ayrton pilotando foi inesquecível. Assim que cheguei ao kartódromo, meu amigo Nelsinho Freire, que por um tremendo azar corria na mesma categoria do Ayrton, me levou na curva da balança e falou: “Olha o 42 fazendo essa curva!”. O 42 era o Ayrton! Ele veio na reta, meteu o pé no freio, travou a traseira e veio controlando a derrapagem até o meio da curva. Depois fincou o pé no acelerador e entrou na reta dos boxes. Olhei estarrecido pro meu amigo e perguntei:
 
- C*****, Nelsinho, eu também quero fazer isso. Você sabe derrapar assim???
 
- Mais ou menos, às vezes dá certo ...
 
Esse sentimento de resignação era comum em toda geração que correu na fase Ayrton: muito piloto ali podia até ser mais rápido do que ele; alguns tinham o mesmo estilo de pilotagem, como Chico Serra, mas só o Ayrton fazia isso com tanta naturalidade que parecia estar brincando de carrinho no tapete da sala.
 
Um ano depois era minha vez de sentar num kart e brigar horas seguidas para aprender a derrapar daquela forma. Em algumas curvas de algumas pistas eu até conseguia derrapar daquela maneira, mas em todas as curvas de todas as pistas só mesmo Ayrton conseguia. (Um parêntese: ele era conhecido como “Beco” entre os amigos daquela época, mas nunca consegui chamá-lo por esse apelido...).
 
Minhas conversas com Ayrton foram poucas, sempre sobre assuntos relacionados aos karts e às corridas, eventualmente falávamos de moto, autorama, mas sempre tinha corrida no meio. Uma vez estávamos tomando um lanche no domingo, esperando a largada das nossas categorias, quando as motos largaram no autódromo de Interlagos. Corremos pra subir no muro e ver as motos passando, saindo da Curva 2. Depois que as motos passaram o Ayrton olhou pra mim e comentou:
 
- Putz, tenho maior vontade de correr de moto!
 
Quem diria! Dez anos depois era eu quem estava passando naquela curva com uma moto de corrida...
(Irineu aos 18 anos, motorista, mecânico e segurança! Foto: Tite)
 
 
Brother
Eu fico doente quando leio comentários de jornalistas que apareceram muito tempo depois e escrevem verdadeiras cretinices sobre o comportamento do Ayrton. Ignorância, falta de documentação, mas sobretudo inveja alimentam muito desses comentários. Falar que Ayrton só ganhava porque era “filhinho de papai” e tinha uma montanha de equipamento é um atestado da mais alta inveja. Se existia alguém que podia ser chamado de “filhinho de papai” era Mário Sérgio de Carvalho Filho, ninguém menos que o filho do fabricante de karts Mini. Ele tinha um estilo maravilhoso de pilotar e contava com uma fábrica inteira à disposição. Com um estilo mais redondo e cerebral, era o único que fazia frente ao Ayrton. As corridas se resumiam ao seguinte: “quem vai ganhar, Mário Sérgio ou Ayrton?”
 
Se existe alguém neste planeta que pode dar o melhor depoimento do que foi Ayrton nesta época, sem dúvida, chama-se Mário Sérgio de Carvalho Filho.
 
A família do Ayrton tinha grana sim. Mais do que da maioria, mas menos do que muitos do que estavam ali! Tinha filhos de industriais, políticos, altos executivos de multinacionais, milionários tradicionais e outras categorias do topo da pirâmide e que nunca se tornaram piloto de carro. O pai do Ayrton era um comerciante que se deu bem porque abriu uma loja de material de construção em um bairro nobre que estava em plena expansão. E, ao contrário da maioria dos pais daquela época – inclusive os meus – não deixava Ayrton dirigir sem carteira de habilitação. Eu ia para a pista com meu próprio carro. Aos 17 anos! Sem habilitação!!! Para viajar pelo interior de São Paulo contava com meu primo Irineu, um ano mais velho e já habilitado. O Ayrton rodava pela cidade porque tinha um motorista.
 
Eu era mais “filhinho de papai” do que ele!
 
Duas cenas me marcaram nesta época. A primeira quando eu estava quebrando a cabeça para acertar meu kart, desesperado, tentando tudo e nada funcionava. Pedi pro Ayrton dar uma volta. Nem precisou, em meia volta ele descobriu que tinha quebrado um parafuso de sustentação do eixo. Essa ajuda iria se repetir em outra ocasião. Ele fazia isso várias vezes, com os novatos. Era o nosso grande irmão, no bom sentido.
 
A segunda cena foi numa pista do interior. O Ayrton estava sentado em volta de uma pilha de pneus, com uma fita métrica na mão, medindo o perímetro de todos eles. Olhei aquilo e perguntei:
 
- Mas que c*** você está fazendo?
 
- Escolhendo os pneus!!! Essa pista só tem curva para direita, os pneus do lado esquerdo vão gastar antes, por isso precisam ter mais borracha.
 
Voltei pro meu box, olhei pro único jogo de pneu que dispunha e sentei resignado, esperando a largada...
 
15 anos depois
Bom, a trajetória do Ayrton é conhecida do mundo inteiro. Só lamentei não ter pego o endereço dele quando foi pra Inglaterra, pois eu teria escrito e certamente ele teria respondido. Mas... sempre a timidez f**** minha vida!
 
Quando Ayrton foi bi-campeão mundial, em 1990, (ou quando foi tri-campeão, em 1991, admito que não lembro), ele fez uma super festa na fazenda de Tatuí, interior de SP. Nesta época eu era colaborador do jornal Shopping News e o assessor de imprensa do Ayrton, meu amigo Roberto Ferreira, me mandou duas credenciais. Uma delas era para Livio Oricchio, que abriu mão do convite. Olhei pra minha filha, Nina, então com 5 (ou seis) anos, peguei meu velho Opala Coupé 1981 e lá fomos pra Tatuí.
 
A festa era tão suntuosa, grandiosa e fabulosa que os seguranças olharam muito desconfiados pra aquele Opala e não fizeram a menor cerimônia em revistar o carro todo, inclusive no porta-malas!
 
Não lembro muitos detalhes da festa: tinha uma dupla sertaneja cantando, várias tendas enormes, muitas celebridades na época pré-Caras e uma corrida de kart na qual Bruno Senna foi o vencedor. Eu estava animadíssimo porque comentaram que teria uma corrida de kart para jornalistas e eu era o papa-tudo destas corridas. Mas foi alarme falso.
 
E também lembro de uma cena engraçadíssima que virou lenda na família. Todo mundo ganhou um kit composto de boné, camiseta e credenciais. E todo mundo pedia pro Ayrton autografar na camiseta. A Nina olhou aquilo, sem entender muito bem o que se passava e perguntou:
 
- Por que aquele homem fica rabiscando a camiseta de todo mundo?
 
A explicação não a convenceu muito. Quando estava lá, zanzando o Ayrton me reconheceu, olhou pra Nina, com jaleco de “press” e fez algum comentário sobre a “menor jornalista do evento”. Foi quando ele a pegou pela mão para tirar uma foto. A Nina se escondeu atrás de mim e não queria de jeito nenhum. E eu:
 
- Vai, Nina, hehe, vai do lado do tio Ayrton, vamos fazer uma foto. Ele é piloto de Fórmula 1...
 
E praticamente empurrei a Nina, que fez maior cara de desconfiada, mas foi. A foto é esta que ilustra este artigo, mas repare como ela está toda torta, querendo fugir dali.
 
Feita a foto, perguntei:
 
- Mas Nina, por que você não queria tirar uma foto do lado do Ayrton???
 
- Porque eu não queria que ele rabiscasse minha camiseta!
 
Tive um ataque de riso que devem ter considerado como uma espécie de incontrolável histeria fanática... Abracei minha filha e fomos comer churrasco. (Sim, nessa fase a Nina ainda não era vegetariana, mas já olhava pra salada com mais volúpia do que pra lingüiça).
 
Na hora de ir embora, sem me dar conta de que estava presenciando um evento histórico, foi a vez da vergonha. Um engarrafamento na saída da fazenda fez o velho Opala ferver! E lá fui eu, com uma leiteira na mão, atrás de uma torneira, deixando o segurança de vigia porque a Nina dormia tranqüila no banco de trás.
 
Na manhã da segunda-feira, 2 de maio de 1994, na inocente tentativa de falar alguma coisa que diminuísse minha tristeza, Nina me telefonou e comentou:
 
- Agora aquela foto deve valer uma grana!
 
Só consegui responder:
 
- Eu preferia que ela continuasse valendo apenas como uma simples folha de papel.
 

 

publicado por motite às 17:47
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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

O melhor piloto de todos os tempos

 

(seria ele o melhor piloto de F1 de todos os tempos? Na foto Ayrton está segurando minha filha mais nova, a Nina - banguela. Foto@ Tite)

 

 

O melhor piloto do mundo

 

Quando eu era adolescente, costumava gastar o dinheiro da mesada em duas manias: carrinhos Matchbox e revistas estrangeiras de automobilismo e motociclismo. Foi assim que aprendi meia dúzia de frases em inglês e francês e aprimorei o italiano. Mais que isso, passei a admirar alguns jornalistas especializados, sobretudo os das revistas Motoring News e Grand Prix International (a gringa). Naquela época o Brasil já tinha um campeão mundial de F1, Emerson Fittipaldi, mas as revistas brasileiras davam notícias apenas da F1 e eu queria saber tudo.

Em um anuário "O Ano do Automóvel", versão brasileira (infelizmente efêmera) do "Automobile Year" que circula até hoje, tinha um artigo que me chamou a atenção na época, mas que tinha esquecido completamente até recentemente. O título era "Dragster to Paradise". Era assinado pelo jornalista francês Johnny Rives, com um texto saboroso e sempre surpreendente. Infelizmente joguei o anuário fora, mas o tema da narrativa era "o melhor piloto de F1".

Eram tempos de Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Jacky Ickx, Ronnie Peterson, Niki Lauda e sua turma. Época em que um campeão conquistava título na última etapa, com 5 ou 6 vitórias no ano. Tempos em que os carros quebravam que nem desfile de DKW. Uma época tão legal que eu lembro praticamente de cada corrida que via pela TV e ouvia pela Jovem Pan.

Johnny Rives escreveu um texto mais ou menos assim:
 
"Numa noite dessas, fui dormir pensando qual seria o melhor piloto de F1 de todos os tempos. Sim, porque não consigo mais agüentar esses jornalistas comentando sobre a genialidade de Jim Clark, a frieza de Juan Manuel Fangio, comparados com os atuais Stewart, Fittipaldi, Peterson, Lauda ou Ickx. São épocas diferentes, carros diferentes, mas sempre aparece alguém para instigar e ficar falando que um foi ou é melhor que outro.

Durante a noite acho que morri. Ou sonhei, não sei. Mas subitamente me vi diante de Deus. Isso mesmo, Ele, em ectoplasma e osso! Quando me vi face a face com Deus, nem quis saber se estava morto ou não, só uma coisa me ocorreu. Ele certamente sabe tudo, afinal é onisciente! Então só Ele pode me responder essa pergunta que me persegue há décadas. Não tive dúvidas e assim que me vi diante Dele perguntei:

- Senhor, já que sabes tudo, me responda, qual é o melhor piloto de F1 de todos os tempos?

Deus me olhou de forma estranha. Acho que normalmente as pessoas perguntariam outra coisa numa situação dessas, como qual a minha missão na Terra, qual o mistério da fé e da paixão etc. Mas Ele nem pestanejou e respondeu:

- É Hans Strudel!

- Quem? Nunca ouvi falar dele! Em qual categoria ele corre? Já ganhou alguma corrida?

- Não, ele é austríaco, mora em Zirl, é lenhador e nunca correu de carro!

- Mas, er... não estou entendendo!

- Ele é o melhor piloto de F1 de todos os tempos, só que não sabe disso, porque não se interessa por corridas de carro.

- Desculpe, mas continuo não entendendo...

- Strudel tem todas as qualidades humanas e físicas para ser o melhor piloto de F1 de todos os tempos. Tem uma visão fantástica, é habilidoso com as mãos, tem a maior rapidez de reflexos de todos os seres humanos, tem a maior capacidade cerebral para ser piloto. Só que ele não sabe disso e passa seus dias cortando lenha! Se tivesse a chance de correr de F1 seria o melhor de todos.

Acho que acordei. Ou ressuscitei, não sei. Mas logo em seguida estava em meu quarto, pensando nisso. E uma luz se abriu sobre essa discussão sobre o melhor piloto de todos os tempos. Isso não existe. Não existe o melhor em qualquer coisa de todos os tempos. O que podemos qualificar e dimensionar é qual o melhor piloto de determinada categoria naquele momento. É estupidez querer comparar esportistas de épocas diferentes. Isso é perda de tempo".

Bom, isso é o pouco que lembro daquele texto. Note que foi escrito antes de Prost, Piquet, Senna, Alonso e Schumacher. Logo, mais que um texto, é realmente uma visão! E é a MINHA versão, pois não me lembro bem dos detalhes.

Sempre vejo essa discussão tola sobre quem é ou foi o melhor piloto de todos os tempos. Isso não tem o menor cabimento, mas parece que a humanidade é movida por esse afã de revelar quem é melhor. A meu ver, isso é uma caretice sem tamanho. Cada esportista bem sucedido tem seu valor, dentro de um contexto e de sua época. Qualquer coisa que extrapole a contemporaneidade é uma bobagem sem tamanho. Como bem disse o meu amigo Marcus Zamponi: "Essa disputa entre Senna e Schumacher posso resumir da seguinte forma: Senna FOI o melhor piloto de F1, Schumacher É o melhor piloto de F1". Nada mais genial.

Além de calar essa discussão estéril, esse texto do jornalista francês serve pra abrir os olhos de todo mundo para o risco de cometer a bobagem de comparar pilotos de épocas diferentes. Lembro que uma das situações mais constrangedoras que presenciei no jornalismo foi justamente a tentativa de comparar pilotos de épocas distintas. Em uma festa de entrega do prêmio Capacete de Ouro, a jornalista diretora do evento, ao lado de Rubens Barrichello cometeu a gafe de colocar Rubinho em um patamar acima de Gilles Villeneuve só porque o piloto brasileiro tinha maior número de vitórias. Na hora me virei para o Zampa, sempre ao meu lado e cochichei:

- Porra, alguém precisa avisá-la que Villeneuve morreu!
 
A comparação só não foi mais constrangedora do que o texto que o jornalista diretor de redação da revista Racing cometeu ao impor um artigo ridículo na revista, no qual ele promovia uma corrida hipotética, organizada nos céus, entre os melhores pilotos de todos os tempos. O texto (chatíssimo do começo ao fim) resumia um campeonato entre pilotos como Fangio, Clark, Prost, Senna, Piquet, Schumacher etc e o campeão, claro, foi Senna. Essa tortura saiu na capa da Racing e ainda teve continuação em uma segunda edição.

Assim que vi a capa da Racing lembrei do texto do Rives, que li na adolescência. Se o jornalista leu aquele artigo, fez mal ao reescrevê-lo daquela forma insossa e desrespeitosa com a memória de outros pilotos. Se não leu, foi uma coincidência que serviu apenas para submeter os leitores de Racing àquela barbaridade. Sei de fontes seguras que as cartas criticando o artigo foram sumariamente censuradas. Mas as (poucas) elogiosas foram publicadas. Coisas da imprensa.

Voltando ao artigo original do jornalista francês, aquele texto me abriu a mente para esse fato de que não existe O melhor. Existe uma conjunção de fatos que levam a um resultado positivo. Nada filosófico, mas vou exemplificar. Quando eu mantinha meu curso SpeedMaster de pilotagem, recebi um aluno chamado Marcelo Mistrorigo, então com mais de 30 anos. Ele tinha ganhado uma moto esportiva em uma rifa e decidiu fazer o curso para aprender a pilotá-la. Logo nas primeiras aulas percebi que o cara tinha algo de especial. Ao final do curso de dois dias ele estava pilotando muito rápido. Algum tempo depois treinamos juntos em Interlagos e ele foi mais rápido que eu! Mais tarde se inscreveu para correr de 600 Supersport e um ano depois foi o campeão brasileiro de Motovelocidade naquela categoria. Tudo por causa de uma rifa!

Por isso eu pergunto: e se o Milton Silva, pai do Ayrton, nunca tivesse construído um kart para o filho de quatro anos? Se o pai de Michael Schumacher tivesse feito um campo de futebol, ao invés de uma pista de kart indoor? Não haveria essa discussão tola sobre qual o melhor piloto de F1 de todos os tempos.

 

 

publicado por motite às 21:15
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