Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

A criminalização da vítima

 

(Aaaah se eu te pego!!!

 

Recentemente a opinião pública ficou chocada com o resultado de uma pesquisa que mostrou um lado cruel do comportamento humano. Segundo a pesquisa, a maioria dos entrevistados acredita que a mulher é culpada em caso de violência sexual, porque sai de casa de minissaia ou decote. Ou seja, transfere para a vítima a violência praticada pelo algoz.

 

Este tipo de raciocínio serve para medir como o senso comum pensa e reage, mas naturalmente não reflete o pensamento de todos. Fosse a pesquisa realizada em uma universidade certamente a resposta seria diferente (ou não, né Geisy Arruda?). Mas o incômodo das pesquisas é que elas revelam o comportamento médio de uma parcela da sociedade, de diferentes níveis. O que os teóricos da sociologia chamam de "comportamento de massa".

 

Transferindo esse tipo de pensamento para o trânsito podemos perceber o quão distorcida é nossa sociedade. Basta o exemplo simples da linha de pipa com cerol, que já vitimou motociclistas e ciclistas por todo o Brasil. Usar cerol (vidro moído colado na linha) é proibido e está na Lei. Mas o Estado é incapaz (ou desinteressado) em fiscalizar e transfere para a vítima o ônus desse acidente, obrigando o uso de antena anti-cerol por motofretistas. E quem não usar é multado!!! É como se amanhã fosse criada uma lei que impedisse as mulheres de saírem de casa de minissaia ou vestido decotado. Trata-se do mesmo tipo de ação.

 

Quando esse tipo de atitude vem do senso comum, daquele comportamento de massa é totalmente compreensível, porque massa, seja ela de bolo, de argila ou de pessoas é facilmente moldável. Pode-se dar à massa o formato que quiser, mas quem molda a massa? No caso do bolo é o confeiteiro, no caso da argila é o artista, mas e no caso do povo?

 

Até duas décadas atrás creditava-se essa capacidade de moldar o pensamento aos meios de comunicação de massa. Pedagogos e intelectuais condenaram a televisão como o demônio do século 20. Há quem indique a religião, outros o Estado, mas não dá para definir como um comportamento se espalha e altera a psique de uma sociedade.  

 

Atualmente o vetor que mais facilmente tem alterado o comportamento é a internet, por meio de textos apócrifos com falso conteúdo "científico" e espalhados como se fossem verdadeiros até mesmo por pessoas inteligentes e de formação superior! Porque sabe-se há décadas que uma mentira bem contada repitas vezes se torna uma verdade.

 

Mas e quando essa distorção da realidade vem dos profissionais que deveriam combatê-la?

 

Recentemente uma grande rádio de São Paulo deu espaço para um "especialista", que atua na área de saúde pública, para falar sobre o "problema das motos". Claro que o depoimento foi carregado de preconceitos e temperado com expressões como "legião de mutilados", "estropiados" e por aí a fora. Todo o discurso do médico foi no sentido de condenar o veículo motocicleta como o algoz, sem jamais, em momento algum trazer ao público o papel do motociclista, ou seja, da pessoa que monta em cima da moto. Ou ainda, devolver ao Estado a culpa por formar maus motociclistas e motoristas.

 

Só para exemplificar: em dado momento o entrevistado afirmou ter medo de pilotar motos porque um parente próximo foi vítima de um acidente fatal. Daí vem dois questionamentos:

 

1) Você já viu qualquer alguém afirmar que vendeu o carro porque um parente próximo morreu em uma acidente de carro?

 

2) O número de vítimas fatais por atropelamento é maior do que em motos, mas ninguém nunca veio a público, em um meio de comunicação, afirmar que andar a pé é perigoso ou que vai parar de atravessar as ruas porque um parente próximo morreu atropelado!

 

A motocicleta, enquanto veículo e meio de transporte, está sendo criminalizada como a grande responsável pelo que se convencionou chamar de "carnificina", quando na verdade o alvo deveria estar no SER HUMANO!

 

Sempre tem aquele discurso monocórdio que afirma: "ah, mas na moto a pessoa está vulnerável em caso de acidentes nos quais o motociclista não teve responsabilidade".  Sim, é parcialmente verdadeiro, mas esse tipo de acidente representa 4% de todos. O restante 96% teve influência direta de quem estava pilotando, seja no comportamento de risco (68%), seja na falta de um comportamento preventivo (28%). Basta analisar a quantidade espantosa de pessoas pilotando motos sem habilitação ou auto-didata.

 

Em suma, a moto está pagando o preço de uma sociedade cada vez mais violenta, mal educada e especialistas mal informados. O pior é que visões distorcidas geram respostas igualmente desfocadas, como os recentes casos de linchamentos que nos levaram de volta à Idade Média. Com base nestes pensamentos retrógrados políticos criam e votam leis que geram mais preconceito contra o veículo motocicleta, como a agressiva proibição de entrar em postos de gasolina vestindo capacete! Bem vindo à Idade Média!

 

Só para finalizar, como esperar uma resposta séria e responsável da categoria política se ela é formada por seres humanos que vieram da sociedade? Político não veio de outro planeta, não nasceu em laboratório, ele veio do povo. O mesmo povo que trata a mulher vítima de violência sexual como a culpada e o estuprador como vítima! O mesmo povo que promove linchamento. É nesse tipo de pessoa que está condenado o nosso destino...

publicado por motite às 12:59
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6 comentários:
De DIGITAL-INFERNOXV a 21 de Maio de 2014 às 17:13
A opinião pública,os pseudo-especialistas em qualquer coisa, os politicos, o povão em geral (leia-se classe E, D, C, B e A, ou seja todos) e o Estado de maneira geral é formado por uma maioria de imbecis, sem pensamentos próprios, sem coragem de ir contra a corrente,de pensar além, bando de ovelhas, de manada de bois...se bem que isso seria ofender os bois e as ovelhas..
Esse lance de comportamento de massa, psique inconsciente do coletivo, etc são coisas para mentes fracas, vide um exemplo bem básico, bem simplório... por exemplo da maneira que os habitantes da periferia (principalmente os mais jovens) se vestem...tudo igual parece produção em massa, com os mesmos cortes horriveis de cabelo (culpa do Neymar) e as "roupinhas" de mano...
O mesmo acontece nas classes mais altas com os mauricinhos e patricinhas do mesmissimo jeito...pode parecer uma bobagem essa coisa de roupa, mas reflete a incapacidade do ser humano pensar diferente.
Não sei se, as tv´s, a internet, a religião, a musica, ou jogos são culpados..hoje em dia mais do que em qualquer época voce tem liberdade de escolha...quer ver merda, asimilar merda, comer merda é problema seu..ou seja a culpa é do ser humano mesmo...como aquele caso do menino que foi acusado de matar a familia de pm´s...rapidamente os "especialistas" trataram de colocar a culpa no jogo que o moleque adorava em que o personagem principal era um assassino...culpa do jogo? com toda certeza não mas sim da cabeça fraca e da falta de educação que o garoto teve.. o mesmo serve para todo o resto da humanidade ovelha da massa...
parabens pelo texto!
De Dan Mello a 22 de Maio de 2014 às 15:25
Como sempre, falou e disse, Tite! Como diz o VP de meu MC: "a moto, lá na garagem, não faz mal praninguém. O problemas são algumas mulas que tiram elas da garagem". Muito bom o artigo! Um abraço de um fã seu desde a década de oitenta na Motoshow (lembrei da bípede, hehehe).
De Gustavo a 23 de Maio de 2014 às 13:24
Acho que uma grande influência nesse sucateamento da reputação das motos vem do fato de ser um veículo de baixo custo, utilizado por uma parcela da população que não é levada em conta.

Os usuários de trens, por exemplo, também são extremamente maltratados, e em boa parte por eles mesmos, por não terem visão de que um uso respeitoso do transporte poderia melhorar as coisas pra todo mundo. A estação Guianases é um bom exemplo: todo mundo se espanca (literalmente) pra entrar e pra sair dos trens, o que poderia ser completamente contornado com uma simples plataforma extra, ficando uma para saída e uma para entrada, a exemplo da Luz e de várias outras estações de metrô. Mas existe essa idéia de que o trem é assim mesmo: encare-o ou deixe-o. E é enxergado pelos que deveriam melhorá-lo como algo a ser mantido em fluxo, não melhorado.

As motos sofrem efeito semelhante. Motociclistas são largamente vistos como custos operacionais, hospitalares e criminosos. E, em vez de mudar a paercepção, o motociclista ou as condições de segurança, tapa-se buracos com proibições estapafúrdias como a proibição da via expressa da marginal (o que nos leva a ter que trafegar entre caminhões que mal nos vêem ao entrar e sair da pista expressa) e esse absurdo do capacete.

Aliás, tem-se alguma notícia sobre essa lei? Se está sendo contestada de alguma forma pela inconstitucionalidade de o estado legislar sobre o trânsito? Não encontro nenhuma informação a respito e acho incrível que ninguém tenha ainda a contestado.
De Ricardo Sant\'Anna a 3 de Junho de 2014 às 09:55
Como sempre, o Tite foi brilhante ao escrever.

O Estado trata os motociclistas tal qual uma vaca com carrapato: se a vaca tem carrapato, sacrifica-se a vaca.
De Katia a 6 de Agosto de 2014 às 17:34
Acho que devia valer pros motociclistas identificação facil, tipo no capacete a placa da moto.
E acho andar entre as faixas com carros em movimento aumenta muito o risco, especialmente em sp, onde tenho visto motos circulando em cima de todas as linhas de faixas.
De Fernando a 1 de Abril de 2015 às 14:47
Oi Tite,
Um bom texto, como sempre.
Gostaria de saber qual a fonte dessa estatística de que somente 4% dos acidentes não houve "culpa" do motociclista.
PS: interessante o botão "Verificar Ortografia".
sds

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