Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Minha história de natal

(Obra do Aleijadinho. Foto: Tite)

 

 

Amigos internautas. Sábia invenção que nos poupou de envelopar, selar e levar cartões até a agência do Correio. E mais, podemos nos dar o sabor de escrever além das frases feitas e prosaicas. Neste Natal lembrei de um livro alemão, onde o autor convidou vários escritores modernos para contarem uma história de natal. Algumas ficaram muito marcadas na minha memória e minha primeira idéia era simplesmente dar um copy/paste e resolver meu cartão de final de ano. Mas lembrei que há alguns anos eu  vivi minha própria história de Natal e fui escarafunchar neste HD para resgatá-la. Aqui está ela, escrita em 1989. Espero não ter sido muito piegas e preparem o saquinho, porque é uma looooonga história.

E, para não fugir aos costumes:

Feliz Natal e um novo ano cheio de realizações

 

Tite

 

Uma história de Natal

 

É um hábito antigo nas empresas. Na véspera do Natal, o departamento de recursos humanos distribui brinquedos aos funcionários que têm filhos. Usando da mais complexa pedagogia e lógica, os filhos meninos ganham carrinhos ou bolas. Às meninas são reservadas bonecas, panelinhas, Barbies, Xuxas e outras. Na ocasião,  eu já tinha as duas filhas, que foram contempladas com um conjunto formado por boneca mamãe, com bebêzinho, portanto duas bonecas em uma. De plástico.


Filhos de mães antroposóficas não brincam com coisas de plástico. Para os antropósofos são muito artificiais. Todos. Mães, filhos e plásticos. Não poderia jamais aparecer com aquele presente em casa, sob risco de ser esconjurado da doutrina antroposófica por toda eternidade. Era um problema a mais para resolver neste natal de 1988.


O outro problema ainda não tinha digerido a ponto de pensar numa solução. Poucos dias antes do Natal, fui convocado para uma reunião na Quatro Rodas, onde exercia o cargo de editor-assistente, para receber a notícia de minha demissão.

A primeira demissão é difícil de engolir. Principalmente quando foi anunciado o motivo:


- Seu texto não se encaixa no padrão Abril.


- Tudo bem, eu posso piorar, se preferirem.


Não entenderam a ironia e não preferiram. Recebi um bilhete azul, defenestrado, butato via, demitido. Não foi tão ruim. Recebi uma bela grana da indenização e comprei uma moto nova, que usaria para correr o campeonato Paulista em 89.


Mas e a boneca?


Saí do prédio da Abril, com a boneca no banco traseiro do carro. No primeiro semáforo dei com uma cena cada dia mais integrada ao cenário urbano: meninos de rua. Motoristas fecham a janela, outros dão uns trocados. Outros, criativos, dão balas (doces). Há os que gostariam de dar balas (de chumbo), mas não podem.


Na minha janela vieram duas meninas. Praticamente da idade das minhas filhas. A mais velha tinha os joelhos esfolados e sujos, cabelos longos e sujos, o rosto magro e sujo, a pele manchada e suja. O futuro incerto e sujo. A mais nova segurava a maior pela mão, como se fosse seu único porto seguro na Terra, seu píer, sua tábua de salvação. Ela obedecia a irmã mais velha como se fosse a diretora neste teatro insano que tem as ruas como cenário, os motoristas como platéia e a miséria como coxia. A pequena sugava uma chupeta e o nariz escorria a eterna coriza de quem vive muito perto dos escapamentos.


Não tinha nada para dar. Lembrei das bonecas.


Quando a mais velha pegou o pacote nas mãos sujas seus olhos se acenderam como duas luzes, fracas, mas brilhantes. A caixa tinha tampa transparente e podia-se ver as bonecas, com todo aquele colorido que enfeitam caixas de bonecas. Era um coup de theâtre naquela rotina de esmolas.


Não tive tempo de ver o resto. Tocaram a buzina da intolerância e fui embora.

 

-0-0-0-0-

 

Em janeiro voltei à Abril para receber o que faltava da indenização. Caminhava pela calçada quando vi duas meninas vindo na minha direção. Estavam de mãos dadas. Eram elas. Sempre unidas por aquele cordão umbilical da verdadeira e incondicional fraternidade. Nas outras mãos traziam as bonecas. A mais velha ficou com a boneca maior. A pequena segurava o bebê boneca bem próximo ao rosto. Procurei não olhar muito, pois jamais imaginei que pudessem me identificar. A mais nova olhou-me bem nos olhos. Ela ficou olhando, olhando e depois de cruzarmos eu me virei e vi as duas paradas, olhando para mim. A pequena sorriu, tentando equilibrar a chupeta entre os dentes. Um sorriso contido, ingênuo. Um sorriso único, autêntico. A expressão da mais profunda gratidão que já recebi por um presente de Natal.


Nunca mais as vi.

 

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Esta é a segunda vez que escrevo esta história. A primeira ficou muito melhor, mais cheia de descrições, mais completa. Só que a perdi em algum HD qualquer e tive de reescrevê-la. Tudo bem.


Toda vez que me lembro daquela manhã, na calçada da Abril, me vem exatamente a mesma emoção, que começa no abdômen e espalha pelo corpo. Até hoje lembro daqueles quatro olhinhos e, principalmente, do sorriso cúmplice da menina menor. Ela sabia quem eu era. Você nem imagina como é emocionante ver brotar o brilho nos olhos de uma criança. Crianças de rua não se emocionam facilmente. Elas são empedernidas pela miséria. Aprenderam a controlar o desejo para não alimentar frustrações. São ingênuas e maliciosas. São autênticas. São carentes. De tudo: desde uma boneca, que para outra criança seria apenas mais uma, até comida, material mais essencial à existência do que qualquer brinquedo. Por isso a antroposofia funciona tão bem com crianças ricas. Elas já têm tudo, conseguem digerir um pouco de filosofia. Pobres não precisam filosofia. Precisam comida, roupa, carinho,  brinquedo. Crianças pobres numa cidade como São Paulo precisam daquilo que filosofia nenhuma seria capaz de lhes oferecer: a infância.


Para estas crianças, escrevi:


Abandonadas

Olh’elas de novo nas ruas

rasgadas, suadas, nuas

Da vida só levam trocados,

pobres anjos abandonados

Queriam muito ser suas

juntar-se também às tuas

Casa só têm a esquina,

respiram ar-gasolina

E aqueles que devem escusas

voltam para suas reclusas

e  dormem o sono-morfina

 


 

 

 

publicado por motite às 13:57
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6 comentários:
De Claudinei Cordiolli a 24 de Dezembro de 2011 às 14:33
Nunca uma história tão antiga foi tão atual.
Outra coisa: CHUPA editora Abril

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo

PS: você faz da pra um bom poeta rs rs
De Orlando a 24 de Dezembro de 2011 às 17:42
Tite, já havia lido essa história, naquela versão anterior. A cada vez que leio, choro. Choro porque já tive essa visão de olhos brilhantes de crianças, o brilho fugaz da alegria que vem tão raramente. Um brilho que a pobreza, o desprezo, a vida, dará conta de que fique mais e mais raro, até que, ainda crianças, já não seja mais possível acender.
De Marco Cipolla a 24 de Dezembro de 2011 às 17:43
Um Feliz Natal prá você também.

Ah ... de todas as histórias do seu livro, essa foi a que mais marcou. Por quê ? Sei lá ...
De The Crow a 25 de Dezembro de 2011 às 06:24
Ultima historia do primeiro livro. fechou com chave de ouro. Uso ela sempre pra me lembrar do que importa.
De L de Leonardo a 27 de Dezembro de 2011 às 16:38
Lembro dessa história...
De Laurí a 28 de Dezembro de 2011 às 14:56
Fala Tite. Cara, sempre leio seus textos, gosto muito da tua maneira de escrever, além de compartilhar da maioria das tuas opiniões. Quando escrevi pra ti, ainda morava na Alemanha e você estava no Motonline. Hoje moro em Santa Rosa/RS, estou sem moto no momento mas a paixão pelas 2 rodas é imortal...
Desejo a você um excelente 2012, com muita saúde e paz. Obs.: Ainda tens exemplares de teu livro pra vender? tenho interesse em comprar. Forte abraço.

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