Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Síndrome de super-herói

Para quem se acha imortal: a kryptonita do motociclista é o pára-choque de um caminhão

 

A síndrome de Highlander

 

Nos anos 80 o psicólogo e professor Dan Kiley surpreendeu o mundo científico com a publicação do livro Síndrome de Peter Pan, no qual defendia a doentia incapacidade de alguns homens em crescer, no sentido do amadurecimento intelectual e comportamental. Segundo esta teoria (já aceita como doença), os homens com esta síndrome tem dificuldade de aceitar que já entraram no mundo adulto e continuam se comportando como adolescentes, de forma irresponsável, rebelde e quase sociopata.

 

Bom, nem precisava escrever um livro, porque até a Eva já tinha percebido que o Adão e todos os homens que vieram a seguir nunca passaram dos 15 anos de idade!

 

Aquilo que as mulheres tanto detestam na mais evidente característica masculina, e causa principal das eternas crises conjugais, é também responsável pela fila cada vez maior nos hospitais e agências funerárias. Sim, quem me conhece sabe que não compartilho o tabu geral da mídia especializada ao tocar no tema morte. Motociclistas morrem sim.

 

Quando dava aulas de fotografia na faculdade de jornalismo costumava começar com uma pegadinha: qual a condição essencial para enxergarmos os objetos? A quase totalidade dos alunos respondiam “ter luz”. Então eu usava uma imagem comum nos filmes policiais: imagine que você está sendo interrogado em uma sala escura. À sua frente um detetive joga um facho de luz bem forte nos seus olhos, você será capaz de vê-lo? Não, obviamente, no entanto tem luz! A condição para vermos os objetos é que haja a reflexão da luz. A luz atinge o objeto que volta para meio e seus olhos podem vê-lo.

 

Hoje, no meu curso de pilotagem de moto SpeedMaster eu faço a seguinte pergunta: qual a condição essencial para um motociclista morrer? E as respostas são variadas, como imprudência, negligência, imperícia etc. Mas a resposta certa é apenas uma: a condição essencial para que qualquer pessoa morra é estar viva, apenas essa, mais nenhuma!

 

Mas é disso que muitos motociclistas esquecem: nós somos mortais!

 

A partir daí desenvolvi a teoria da Síndrome de Highlander, aquele personagem do filme do mesmo nome, que atravessa a história como imortal. Ele só morre se cortarem-lhe a cabeça. A imortalidade já foi tema de inúmeros livros, filmes e permeia a história da humanidade desde os primórdios. Um bom livro (e filme) a respeito é “Orlando, a mulher imortal”, de Virgínia Woolf.

 

O problema está na extrapolação da ficção para a realidade e pessoas agirem como se fossem imortais. É isso que vejo hoje em dia nos vários filmes na Internet com motociclistas em motos esportivas pilotando a 300 km/h nas estradas como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em um destes filmes pode-se ver o motociclista ultrapassando os carros pela direita a mais de 290 km/h e ainda por cima com a postura errada, equipamento inadequado e total ausência de técnica.

 

Pouca gente sabe, mas até para correr a 300 km/h na reta é preciso técnica, porque nós, pessoas, quando colocadas em cima da moto somos o pior apêndice aerodinâmico possível.

 

E não pense que estou falando de filmes europeus ou americanos, onde começou esta mania, mas são imagens feitas no Brasil, em estradas bem perto de suas casas.

 

Ah, doce adrenalina

A principal característica a Síndrome de Highlander é a prepotência, padrão de comportamento que transborda nos homens na faixa de 15 a 25 anos. É aquela famosa sensação de que as coisas ruins só acontecem com os outros. A fascinação pelo perigo vem daí e do fanatismo por histórias de personagens heróicos como Super-Homem e outros.

 

Por isso o exército recruta jovens na faixa de 18 anos. Tem nada a ver com o vigor físico, porque um adulto de 30 anos pode ser mais bem preparado fisicamente do que um sedentário de 18. Na real é para aproveitar essa prepotência e mandar o moleque em direção ao campo minado porque ele tem certeza de que só os outros explodirão pelos ares.

 

Quando vejo essas imagens de motociclistas aparentemente adultos, muitas vezes esclarecidos, donos de empresas, bem posicionados financeiramente (uma moto destas custa mais de R$ 50.000) e até inteligentes não consigo entender em que parte da vida ele deu uma guinada de volta à adolescência.

 

Não é possível que um homem adulto, com dependentes à sua espera, com um futuro inteiro pela frente, muitas vezes calçado na competência profissional e intelectual seja capaz de se atirar numa estrada a 300 km/h disposto a matar ou morrer só pelo efêmero prazer da velocidade!

 

É inaceitável que a bordo destas motos estejam pessoas que dirigem uma empresa, que educam filhos, que controlam administrações públicas, mas que voltam à adolescência só para provar aos amigos que tem um brinquedo mais bacana ou é mais corajoso. Tenho a clara impressão de que no momento que este homem adulto veste o macacão de couro, luvas e botas ele incorpora o super-herói dos quadrinhos. O seu macacão é o equivalente à roupa do Super-Homem. Acorda, aquilo era ficção! A kryptonita do motociclista é o pára-choque de um caminhão!

 

Pode parecer inacreditável, mas eu, com toda experiência de 40 anos como motociclista, sendo 22 anos como piloto de competição e razoavelmente experiente morro de medo de correr na estrada! Meus amigos até brigam comigo porque sou muito lento para os padrões da maioria, mesmo quando estou montado em uma esportiva de 180 cavalos. Sem falar que odeio pagar multas.

 

E não me venham com aquele papo de que quem compra uma moto esportiva quer acelerar tudo que ela dá porque isso é desculpa muito da esfarrapada. Eu tive arma de fogo por mais de 15 anos e nunca matei ninguém! Lembro de ter comprado a arma (um rifle de caça) porque achei-a bonita, bem acabada e fácil de acertar os alvos que criava no sítio: latinhas de alumínio, garrafas pet e abacates. Mas vendi a arma porque concluí que seria incapaz de atirar em uma pessoa ou qualquer outro ser vivo.

 

Portanto é perfeitamente possível ter uma moto esportiva pela beleza das linhas, pela tecnologia, pelos aspectos mais diferentes, sem se deixar seduzir pela velocidade insana, em local inadequado.

 

Muitos psicólogos já tentaram definir esta necessidade que temos em competir com veículos em alta velocidade. Nenhuma destas teorias chegou nem perto da realidade, porque psicólogos não são pilotos. Mas Platão foi o que melhor definiu, ao dizer, quatro séculos antes de Cristo, que o sonho de todo homem é ser herói.

 

Os verdadeiros heróis são aqueles que perceberam a reles condição de mortais e decidiram curtir a velocidade de suas esportivas no local certo: na pista de corrida. Hoje já existem vários cursos de pilotagem específico para motos esportivas em várias cidades, realizados em autódromos seguros. Também são feitos track-days para que o motociclista possa extravasar essa sanha por velocidade, sem correr o risco de levar mais algum inocente junto.

 

Durante uma corrida, ultrapassar um adversário é o momento mais sublime. É a prova de coragem a habilidade ao mesmo tempo. E melhor: está todo mundo vendo o seu feito heróico. Subir ao pódio e levar para casa um troféu é a recompensa pelo heroísmo. E vencer é a glória total que nos coloca efetivamente na condição de super-herói para todo mundo ver e respeitar. Então porque fazer isso na estrada onde poucos estão vendo e a maioria odiando aquilo?

 

Aliás, quando vejo estes filmes no youtube de motos a 300 km/h na estrada, não consigo achar o sujeito corajoso nem habilidoso, só vejo um louco sem noção. O melhor lugar para provar coragem e habilidade é na largada de uma corrida, com 15 motos na frente, mais 15 atrás e você ali no meio, com o coração a 220 bpm, pressão arterial em 18:12, encharcado de adrenalina, mas absolutamente excitante. Confesso a você leitor(a) que uma das situações mais difíceis de um piloto é parar de correr, porque a adrenalina vicia, mas como qualquer droga pode matar! 

 

publicado por motite às 20:39
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43 comentários:
De Péricles Monteiro a 17 de Maio de 2011 às 21:22
Parabéns pelo artigo! Por essas e mais outras (como por exemplo minha filha) que morro de vontade de entrar de cabeça na compra de uma moto bem maior que a minha, mas não acho que valha a pena! Afinal não é todo dia que vou poder ir a um autódromo para matar a vontade, sair nas ruas com uma moto de grande valor hoje representa um risco enorme que nem mesmo envolve a velocidade! E mesmo com uma moto que tenha quase 200cv e chegue aos 300Km/h, nos circuitos de SP dificilmente vai dar pra levá-la ao limite, pois a pista acaba antes! O mais certo penso eu que é ter uma moto em casa que atenda às suas necessidades além de te dar prazer, aquela moto que se você quiser ir e voltar ao trabalho pode fazer sem medo ou problemas, que se quiser andar com a esposa ou filha na garupa também seja feito com segurança e caso um dia tenha a oportunidade de andar numa pista fechada ela te dê o prazer de saber que você chegou ao limite dela sem ter se matado pra isso! Confesso que já andei em altas velocidades na estrada algumas vezes, e com certeza até pela influência de acompanhar amigos, mas sempre que cheguei em casa e refiz o trajeto na mente, fiquei imaginando o que poderia ter acontecido caso houvesse alguma falha mais minha que da moto! Realmente é loucura isso, até porque eu mesmo quase parado levei uma pancada de um carro na traseira da moto e embora não tenha sofrido nenhum arranhão sei que isso não me torna indestrutível!!

Abraços,

Péricles Cezar _PC
De Renato a 17 de Maio de 2011 às 21:54
Cara, acertou na veia. O único porém é que estes caras não passarão por aqui para ler este belo texto.

Eles querem, apenas, virar estatísticas!
De Fernando a 17 de Maio de 2011 às 22:16
Eu tomei juízo na estrada uma vez em que eu estava todo feliz e contente a 130 km/h na minha falcon e um cachorro, que na ocasião parecia mais um urso, saiu correndo do acostamento em direção à pista e me fez gelar toda a espinha. Eu freie o que pude, mas minha sorte foi que o bicho continuou atravessando a estrada, pra ser atingido por um caminhão que vinha na direção contrária. Depois dessa, dificilmente ando acima dos 110 km/h, e nas estradas vicinais, sobretudo a noite, mantenho-me próximo dos 90 km/h.

Na estrada são muitos os fatores não controláveis: óleo na pista, motoristas bêbados, caipiras que saem do meio da roça e entram na pista sem parar, animais, crianças, etc. Estes vídeos do youtube servem para mostrar o grau de incivilidade que toma conta das estradas. E não são só motociclistas não: motoristas (de carros, caminhões, ônibus e o que for) tambéem abusam da velocidade e do bom senso. Claro que a favor deles há o argumento de que estão "protegidos" em gaiolas de aço, enquanto no caso dos motoqueiros, só os anjinhos da guarda ficam a espreita.
De Gerson Campos a 17 de Maio de 2011 às 23:53
Sensacional, Titones! Por isso não passo de 120 km/h nas estradas. E não precisa ser velho ou andar muito para perceber que prazer pela velocidade e pela técnica, mesmo, só na pista.

Sem falar que os caras que andam a 300 km/h na reta não conseguem fazer uma curva a 60 km/h com qualquer técnica. Lamentável.

Abraços!
De Anónimo a 20 de Maio de 2011 às 20:19
"Sem falar que os caras que andam a 300 km/h na reta não conseguem fazer uma curva a 60 km/h com qualquer técnica. Lamentável."

Certa vez quase me choquei com um fdp numa superesportiva que errou uma curva da estrada que vai até a Cachoeira dos Pretos em Joanópolis , o "piloto" errou e entrou na contramão . Escolhi este roteiro no fim de semana justamente para me ver livre destes caras e por azar tinha um bando deles. O pior de tudo foi ver um cara com uma Z1000 colocando gasolina na moto e álcool no estômago em um posto em Piracaia .
De Vitor Rolf Laubé a 18 de Maio de 2011 às 00:16
Parabéns. Mais um artigo certeiro e muito lúcido, mesmo partindo de um piloto doidão " adjetivo seu mesmo!). Pena, como acima dito, que muitos que deveriam ler esse seu escrito não o farão.
Parabéns, Tite.
Abraços do
Vitor
De Marco Cipolla a 18 de Maio de 2011 às 11:59
Bom, eu chamo de Síndrome do Pinto Pequeno.
Mais um excelente post.
De motite a 18 de Maio de 2011 às 20:26
Sim, pode chamar por esta síndrome porque tb serve, rs!
De Genésio a 25 de Maio de 2011 às 16:59
Não é verdade, se fosse por isso eu andava correndo ahuahuahuehaueh
De Nilton a 18 de Maio de 2011 às 12:25
Lúcido e verdadeiro artigo.
Tenho moto há mais de 30 anos.
Já tive acidentes, todos de pequena gravidade.
O segredo é reconhecer a fragilidade do veículo e saber que em qualquer acidente o maior prejudicado será sempre quem está na moto.
Portanto faça tudo para evitar que ele aconteça.
Quem abusa da velocidade chega mais rápido ao acidente, que pode atrasar tudo.
Seja prudente e se mantenha VIVO!!!
Parabéns!
De Paulo Filipin a 18 de Maio de 2011 às 13:09
Seu post me fez lembrar uma situação que via nos circos. Os acrobatas faziam as suas acrobacias e em dado momento retiravam a rede de proteção, para aumentar o perigo. Mas, analisando, só aumentava o risco e, claro, a adrenalina do publico. Mas não aumentava o grau de dificuldade. Óbvio que lá eles sabiam o que faziam (acho). Mas é igual ao seu texto. Correr nas vias públicas aumenta o risco, não a dificuldade. Pois ultrapassar um gol, uno, etc, com uma R1, 600RR, etc, é fácil. Quero ver ultrapassar, com uma R1, outra R1!
De alphachimi a 18 de Maio de 2011 às 14:53
Tite

As pessoas leigas param e olham os Highlander com aquela indumentaria de R$ 10 K e suas maravilhosas maquinas.
Isto é uma massagem no ego.
No autodromo todos tem a mesma roupinha e o publico não é leigo o que vale é a competencia chegando em 1º.

O mais engraçado é ver condutores de esportivas raspando joelho a 70 Km /h em curvas que o menino da Pizza passa a 90 Km /h sem encostar a pedaleira da 125 cc.

Pura VAIDADE que esta custando muitas vidas.

De Luiz a 18 de Maio de 2011 às 16:13
Pessoal, o meio de transporte mais eficiente é a motocicleta. A pesquisa está nesse link http://www.businessinsider.com/pop-quiz-whats-the-most-energy-efficient-mode-of-transportation-in-the-world-2011-5.




De George Matos a 23 de Maio de 2011 às 17:17
Mais um excelente texto. Tenho 27 anos e me "habilitei" a dois, tenho orgulho de dizer que se não sou um motociclista habilidoso, sou pelo menos consciente, e na medida do possível vou fazendo minha parte, comprando equipamentos de segurança e pilotando com respeito a vida, tentando influenciar meus amigos a fazerem o mesmo. Ah!! Também sofro críticas constantes porque só ando no limite permitido pela lei, mas prefiro chegar tarde do que nunca chegar, e mais, se dizem que gostam tanto de andar de moto, por que têm tanta pressa de chegar ao destino?

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