Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Scooter, irresistível

 

 

Pare de olhar torto para os scooters, porque um dia você vai ter um

 

Tudo começou na Itália depois da Segunda Guerra Mundial, quando tudo estava de pernas pro ar e se tornou necessário criar um veículo simples, fácil de pilotar, mas acima de tudo acessível para a população arrasada financeiramente. A fábrica Piaggio, de Firenze, começou a desenhar o esboço do que viria a ser o veículo certo, a motoneta Vespa, que ganhou este nome por causa da traseira “gorda” que abrigava o motor dois tempos.

 

Em pouco tempo a pequena motoneta ganhou as ruas da Itália, foi exportada para quase todo o mundo e virou até objeto de desejo de artistas e celebridades. Quando completou 50 anos de existência, em 1996, a Vespa tinha acumulado 15 milhões de unidades vendidas no mundo, sobrevivendo inclusive à concorrência das marcas asiáticas, sobretudo as chinesas.

 

Mas só quem pilotou uma Vespa de verdade sabe como tecnicamente era um veículo cheio de restrições. Com o motor posicionado de forma assimétrica, tinha-se a clara impressão de que ela rodava enviesada, como um caminhão com o jumelo corrido! Além disso, o câmbio seqüencial na mão esquerda era um calvário, porque tinha de dobrar o punho em ângulos absurdos. Mas havia o salvador estepe preso na lateral, que já me salvou de uma enorme roubada durante um passeio em Santos, nos anos 90.

 

Se passear de Vespa já era difícil, imagine viajar. Precisava ter uma paciência de Jó e ainda nenhuma pressa, sem falar na fumaceira dos óleos dois tempos de péssima qualidade vendidos naquela época. O motor vibrava muito, mas era tão simples que se consertava facilmente em casa mesmo. Simples e resistente.

 

Graças a Vespa, o mundo percebeu que havia espaço para um veículo com esta concepção, mas devidamente atualizado. Hoje o scooter inspirado na Vespa é um dos veículos motorizados mais populares do mundo. A partir dos anos 90 pipocaram fábricas de por todo lado, sobretudo na China, que recebeu tecnologia dos japoneses e italianos. Hoje, na China, o scooter virou praticamente um veículo descartável, porque custam pouco, porém duram pouco e formam-se montanhas de sucatas de scooters nos ferros-velho.

 

As características que deram o maior impulso nas vendas de scooters foi a adoção do câmbio automático, pneus melhores e sem câmara e o compartimento porta-objetos sob o banco. Graças a estas melhorias, as motonetas ganharam praticidade, segurança e versatilidade. Mas ainda esbarrava em uma questão física: as rodas de pequeno diâmetro – geralmente de 10 polegadas – não oferecem muita estabilidade, principalmente no piso irregular.

 

Na Europa e Ásia as rodas pequenas nem representavam tanto problema, pois as condições de piso são boas e as pessoas se deslocam em pequenas cidades.

 

Mesmo assim, para contornar a instabilidade com a chegada dos scooters de rodas grandes, de 16 polegadas, como o Yamaha Neo 115, que deu ao veículo um comportamento mais próximo ao das motocicletas. Com isso, há vários anos que os scooters ganharam status de veículos motorizados de duas rodas mais vendido em vários mercados do mundo.

 

No Brasil, a Suzuki foi a que mais investiu neste segmento, primeiro com a Address 100 e 50 cc e depois com o Burgman 125 com motor quatro tempos. O sucesso desta Suzuki encorajou até a Honda a trazer o modelo Lead 110 que, juntos, já chegaram a 25.000 unidades vendidas de janeiro a outubro. Muito? Nada disso, porque este número representa apenas ¼ do potencial de mercado. Eu ouço periodicamente amigos querendo um scooter para fugir do inferno que se transformou o trânsito, ou mesmo para aquelas situações nas quais tirar um carro da garagem não compensa. É mais ou menos aquela distância longa para ir a pé, mas curta para justificar o movimento do carro de uma tonelada.


Outro dado curioso no mercado brasileiro é que boa parte dos donos de scooter também tem motos. E adotam scooter por questões de praticidade – pequenos deslocamentos no bairro – ou mesmo por segurança, já que ter uma boa moto hoje significa municiar a bandidagem com veículos novos e velozes. Como a segurança pública não tem interesse em reduzir os roubos de motos, a solução é ter um scooter, veículo totalmente desprezado no mercado da criminalidade.

 

Mas no Brasil ainda enfrentamos um impedimento burocrático. Ao contrário da maioria dos países sensatos, onde existe equivalência entre a habilitação de carro e scooter até 125cc, aqui é necessário fazer moto-escola e tirar habilitação de moto (A) para pilotar scooter. E aí entra mais uma situação típica de Lisarb, este Brasil do avesso. Motos e scooters são veículos totalmente diferentes e as moto-escolas não oferecerem scooters para as aulas. É a mesma coisa que habilitar um piloto de helicóptero para voar de avião, a pretexto de os dois veículos voarem!


Mas ainda tem muita gente que usa o scooter como se fosse moto e isso representa um grande risco. Criado na Europa, onde as ruas – e calçadas – estão literalmente invadidas por scooters, é um veículo para deslocamentos curtos nas pequenas cidades, muita delas da época medieval, com ruas estreitas. Aqui no Brasil, até nas grandes cidades, podem-se ver scooters rodando em avenidas expressas ou mesmo nas estradas, inclusive com garupa, algo que deveria ser evitado e até contra-indicado. Para percursos longos já existem os maxi-scooters como o recém-lançado Dafra Citycom 300, que enfrenta até pequenas viagens.

 

O dono de scooter pequeno deveria evitar até avenidas de movimento intenso e rápido, pois são veículos pequenos, fáceis de serem ocultados pelos pontos cegos dos carros.  Estrada, então, nem pensar! Tenho um scooter desde 1994 (o mesmo!) e sempre evito as grandes avenidas porque o ideal é rodar sempre acima da velocidade do fluxo e acima de 70 km/h os scooters ficam muito instáveis.

 

A pilotagem também é diferente. Como o piloto fica sentado e não montado como nas motos, não pode contar com as pernas para ajudar nas irregularidades do piso. Por isso é preciso ficar ainda mais atento ao menor buraco. A distribuição de peso é maior na traseira, isso exige uma atuação maior do freio traseiro nas frenagens. E transportar garupa só mesmo para pequenos trajetos e com critério porque a estabilidade fica ainda mais precária.

 

Os maxi-scooters representam a geração luxuosa destes veículos. Já existem até scooter de 650cc no mercado, capazes de transportar duas pessoas em viagens, mas são difíceis de usar no trânsito e fogem um pouco do conceito de praticidade. Fiz uma viagem de Suzuki Burgman 400 na Itália e também aqui no Brasil e posso afirmar que ele enfrenta a estrada com conforto e boa velocidade, inclusive com garupa, só não espere muita estabilidade em curvas porque é um show de horror!

 

O Citycom 300 que a Dafra lançou pode esquentar o mercado neste segmento, principalmente pela relação custo x benefício bem interessante. Ele custa quase a metade do valor de um Burgman 400. Outra novidade que agitou o mercado dos scooters foi a chegada dos modelos de três rodas, como o MP3, que são ainda mais fáceis de pilotar, mas ainda muito caros.

 

Algumas características agradaram especialmente o público feminino, tais como a facilidade de pilotagem, dimensões reduzidas, câmbio automático e o escudo frontal. Graças a estes detalhes pode-se pilotar até de saia e com sapatos finos. Nas cidades da Europa é comum ver executivos de ternos e mulheres elegantes rodando de scooter, mesmo para eventos sociais.

 

Com a sustentabilidade em pauta, os scooters também foram apresentados como opção inteligente nas versões elétricas. Esta tecnologia já tem mais de 10 anos de desenvolvimento e com as novas baterias de lítio os veículos 100% elétricos já conseguem boa autonomia e velocidade. Pode ser uma solução para as cidades com restrição aos veículos movidos a combustível. Incluindo São Paulo. No Brasil já existem scooters elétricos em circulação, mas restritos a condomínios ou vigilância em ambientes fechados. Ainda sofrem com a baixa autonomia e pouco desempenho, especialmente nas subidas. Não deverá demorar muito para termos mais destas motonetas “verdes” em circulação.

 

 

publicado por motite às 22:56
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13 comentários:
De Gustavo a 7 de Dezembro de 2010 às 23:24
Tenho uns colegas que viajam de Vespa até hoje. Até de Lambretta. Se esse remake da Piaggio voltasse a ser vendido no Brasil, principalmente por um preço justo, eu pensaria em ter um scooter. Os atuais são muito sem graça.
De Ozzy Renato a 7 de Dezembro de 2010 às 23:50
"Pare de olhar torto para os scooters" Vc lê pensamento? rssrsrs
De motite a 8 de Dezembro de 2010 às 10:38
Pow, esqueci do mais importante: sou usuário de scooter desde 1997, quando comprei um Suzuki Address 100 que tenho até hoje! Agora estou com outro igualzinho, restaurado e funcionando todos os dias. Pena que já está cada dia mais difícil usar motores dois tempos, mas pretendo mantê-lo para sempre porque é muito prático, econômico e simpático!
De Roger a 8 de Dezembro de 2010 às 11:57
Acho até que deveriam haver incentivos para a aquisição dos scooters , já que cada scooter circulando é um carro a menos entupindo e poluindo.
Para os elétricos que estão chegando, os incentivos deveriam ser maiores ainda.

Mas além da questão da CNH, tem o seguro obrigatório das motos que é um roubo (colocando no mesmo saco uma mocinha de scooter e um motoboy enloquecido).
Dependendo do estado, o seguro + ipva de uma moto pequena é maior que o de um carro popular semi novo.


De Thiago a 8 de Dezembro de 2010 às 16:08
Sem querer fazer comercial, mas já fazendo.

Esse grupo vde vez em quando fazem algumas viagens de Vespa e Lambretta, para quem curtir.

Já conseguiram ir até CWB, e olha que as PX não são as mais rapidas motos para viagem.

abs.

http://scooteriapaulista.blogspot.com/
De a 8 de Dezembro de 2010 às 16:56
Tite, dei uma olhada no seu twitter e vi sua reclamação quanto ao INPI.

O que ocorre pelo menos a primeira vista, é que vc requereu sua marca em uma classe afim da marca alemã anterior.

Ai dificilmente será aceito o seu pedido, pois em breve analise, na marca anterior a sua, tem coo objeto produtos de carro.

Totalmente afim ao seu.

Mas caberia talvez, a epoca uma petição informando sobre o principio da especificidade, já que o seu nixo mercadologico é diverso do da empresa.

Quem sabe não dá certo?

Outro ponto, e se vc pedir para classe de educação? Seria mais jogo ou não?

Não sei, se serve como uma ajuda, ou um palpite de estranho mas .....
De motite a 8 de Dezembro de 2010 às 17:45
Mas a Speedmaster alemã não tem nada a ver com carro, muito menos moto, é uma fábrica de máquinas para impressão de papel!

Eu fiz o pedido como empresa prestadora de serviço de consultoria de segurança!!! nada a ver com impressão. Acredito mais na má vontade do INPI e da velha estratégia do Estado brasileiro de criar dificuldades para vender facilidades. Aposto que se eu contratar um despachante e pagar R$ 6.000 consigo registrar até Volkswagen!
De a 9 de Dezembro de 2010 às 11:30
Tite, não é bem assim.

Mesmo a empresa não sendo de carro, ela requereu a marca dela na classe que em um dos objetos é carro.

Ai o INPI logico que irá indeferir o seu pedido, pq é afim. Mas caberia um recurso dessa decisão explicando que as marcas não são afins.

Não é que seja má vontade, pode até existir, mas nesse caso as classes são realmente afins.

E a analise do INPI se baseia na classe requerida e não no dia a dia da empresa.
Imagina ao contrario?

Só para exemplificar, olha as especificações do seu pedido: COMÉRCIO DE ARTIGOS PARA MOTOCICLISTAS, TAIS COMO MOCHILAS, BOLSAS, CASACOS, ADESIVOS, LIVROS, FITAS DE VÍDEO, CAPACETES, ACESSÓRIOS PARA MOTOCICLISTAS

E olha a classe da empresa alemã:60 - Partes, componentes e acessórios de máquinas, veículos, implementos, dispositivos e meios de transporte.

Ai o INPI no alto da burrice, só analisou VEICULOS, com o seu VEICULOS, ai claro indeferiu o seu, mas em um recurso vc conseguira reverter facil facil, ainda mais que a sua empresa já está no mercado, né?



E não é tão caro assim, e nada de despachante por favor, se for requerer faça por advogado da area bem mais seguro.

Seria o mesmo que eu ter aula de pilotagem com um "corredor" de estrada, ele até sabe um pouco, mas nada como ter com um profissional da area, não acha?

Abs.
De fernando a 10 de Dezembro de 2010 às 11:24
Kibada????

http://www.osmotoqueiros.com.br/?p=2262
De Marco Nishimura (do Japão) a 12 de Dezembro de 2010 às 01:49
E aí, grande Doc! Realmente scooter é muito prático! Tenho carro, moto e uma scooter 250cc e o veículo que mais uso é esta última! Ágil no trânsito, protege de todo vento frontal e chuva e de toda sujeira das ruas, faço viagens tranquilas pois cabe tudo no porta-objetos e no baú traseiro! Muito versátil! Não posso viver sem uma moto (contraí a doença muito antes dela ganhar "nome"), mas não consigo imaginar minha vida sem um scooter! Se voltasse hoje ao Lisarb, compraria imediatamente a Citycom300, mas espero que tenhamos mais opções no futuro nessa faixa de cilindrada!
De Raphael a 14 de Dezembro de 2010 às 03:31
O detran criou uma categoria chamada ACC para atender aos pilotos de scooter, porem nunca ouvi falar de uma auto escola que tenha as tais scooters para atender essa categoria, e detalhe que o exame é idêntico ao exame da categoria A, logo fica inviável alguém ter a categoria ACC que tem suas limitações.
De Hugo a 14 de Dezembro de 2010 às 19:13
Muito bom o texto! Infelizmente, vários dos problemas administrativos apontados não serão solucionados, pois dependem do governo. E vocês sabem, "O sistema existe para resolver os problemas do sistema", e atender à população não é parte dos "probema" do sistema.

Sobre o citycom 300i, não tenho garagem coberta, e minha "ronda" biz está à anos nessa situação, sempre com manutenção em ordem, claro, e não tem ferrugem alguma. Vejo muitas motos que não são honda ou yamaha praticamente dissolvendo depois de dois meses de chuva. Será que a citycom sofre desse mal?
De Leo Dueñas a 15 de Dezembro de 2010 às 16:26
Gostei dos comentários bastante sensatos sobre o absurdo de se colocar motonetas e motocicletas num mesmo balaio em termos de taxas e legislação. Eu incluí a categoria "A" na CNH e nunca mais toquei numa motocicleta, só conduzo minhas Vespa PX200S e Bajaj Classic 150. Elas freiam mal, não empolgam com o desempenho, pouco estáveis mas me dão um prazer ao conduzir que nenhuma enceradeira de asfalto me proporcionaria.

Só discordo mesmo de se considerar no Brasil como sendo scooters veículos que no mundo todo são classificados como Cubs, nitidamente de outra categoria. Já li esse erro em diversos lugares, inclusive na mídia especializada, o que me assustou um pouco.

Abraço,
Leo
http://motonetaseafins.blogspot.com/

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