Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Titurismo clássico – parte II

SÃO JOAQUIM 

 

(Igreja de São Joaquim: passa o inverno lá, passa! Foto: Tite)

 
Lembra da primeira parte? Não? Então clica aqui: http://motite.blogs.sapo.pt/36483.html.
 
Escureceu. Começou a chover e ainda estávamos na parte asfaltada da escandalosa estrada que liga Floripa ao sul do País. Naquele longínquo 1983 essa estrada era o rascunho do inferno. Pior que nunca fizeram a arte-final! Quando chegamos a uma pequena cidade, porta de entrada da Serra do Rio do Rastro, fizemos uma pequena parada em um boteco. O único aberto naquela noite! (Desculpe, não lembro mais o nome das cidades e perdi a revista com o artigo original...).
 
Entre um gole e outro de um vinho local horrível – rascunho do inferno chega a ser elogio! – o balconista viu o capacete e fez a pergunta:
 
- Você vai posar onde?
 
E eu, ingenuamente, falei a verdade:
 
- Vamos subir pra São Joaquim! Temos uma reserva lá!
 
- Mas você vai colocar a moto na picape, não é? Perguntou o preocupadíssimo balconista.
 
- Não, vou pilotando mesmo. A picape está lotada.
 
A conversa parou dentro do bar. Silêncio absoluto. Não se ouvia uma mosca, apesar de o bar estar forrado delas. Os homens que estavam no bar olharam para baixo e começaram a sussurrar alguma coisa entre eles, o balconista ficou perplexo e desandou a falar:
 
- Capaz! Você é louco? Essa estrada é escura, perigosa, cheia de curvas, escorregadia, molhada, assustadora, assassina, mortífera, fatal, fatídica... 
 
Enfim, ele desfilou todos os sinônimos relativos à possibilidade de morrer! Absolutamente ignorados por mim, é claro, afinal eu era piloto de moto, experiente, corajoso, prepotente, arrogante e burro!!!
 

(Uma das várias cachoeiras de águas geladas. Foto: Tite)

 
Saímos do boteco em direção à serra deixando para trás uma legião de boquiabertos catarinenses. Vesti uma balaclava de lã, capacete, capa de chuva, bota, luvas, montei na moto e fui embora. A estrada era realmente ruim: de terra, cheia de buracos e com muitas curvas. O frio e a chuva castigavam meu corpo sem dar trégua. Quanto mais subia a serra, mais frio e molhado ficava meu corpo. Estava realmente desconfortável!
 
A certa altura caiu um raio daquele que ilumina tudo em volta. Tremi! Finalmente eu tive noção do que era aquela estrada. Com a luz do raio pude ver que eu estava alto. Muito alto. E a estrada não tinha guard-rails, nem qualquer proteção que impedisse uma moto de rolar serra abaixo em uma das centenas de curvas muito fechadas.
 
 

(Essa é  serra do Rio do Rastro: haja curva! Foto: Santa Catarina Turismo) 

 
A tensão já estava no limite e eu infalivelmente arrependido, lembrando de cada conselho do balconista do boteco quando, de repente, bem na entrada de uma curva muito fechada, tudo ficou escuro! O farol apagou inexplicavelmente! Em uma fração de segundo ele voltou. Depois, bem perto de outra curva ele apagou, voltou novamente e assim várias vezes até eu me dar conta de uma sucessão de causa-efeito. A cada vez que eu pisava no freio traseiro o farol apagava.  Era um curto-circuito no sistema elétrico, sem que eu pudesse fazer nada. Então tive de pilotar nessa estrada cheia de curvas, com crateras enormes, abismos ameaçadores e sem poder usar o freio traseiro. Fácil, se meus joelhos não parassem de tremer!
 
Enquanto isso o produtor Dinho Leme estava na picape, seco, com ar quente, duas modelos e o som ligado!
 
O meu terror demorou algumas horas até chegar à rua principal da vila de São Joaquim. A prova da existência de Deus se manifestou na forma de um lobby com lareira acesa. Pedi uma bebida bem forte, algo assim como querosene, e me atirei na frente da lareira até ver o vapor sair das minhas roupas, especialmente das minhas botas. O galego que trouxe a grappa avisou:
 
- Olha, cuidado com as botas na frente do fogo!
 
Mas que saco! Pensei. Pô, mas que terra é essa que todo mundo que passa por mim quer dar conselhos? Primeiro, o balconista, agora o garçom do hotel! Fiquei ruminando minha raiva enquanto via o vapor saindo da sola da minha bota, já sentindo o calorzinho gostoso na sola dos pés. Calorzinho que foi aumentando, aumentando até que decidi sair de perto e me sentar em um sofá. Assim que encostei o pé no chão senti algo muito quente na sola do pé. UUUUUUUUAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUU!!!
 
O que o galego queria dizer era muito simples: o calor do fogo aquece a sola do sapato, que é muito grossa. A gente não percebe, mas quando o calorzinho gostoso chega na pele é sinal que a sola está a uma temperatura muito maior do que se imagina. Bem que senti um cheiro de torresmo!
 
Até me dar conta que bastava tirar as botas para terminar o churrasco fiquei pulando no saguão feito louco. Depois disso achei melhor mergulhar num banho quente e encerrar uma jornada totalmente imprevisível e desastrada.
 
Bom... eu ainda não sabia, claro, mas nada é tão ruim que não possa piorar, né? Nós passaríamos uma semana nesta vila a espera da neve. Mas isso você só saberá na próxima parte!

 

publicado por motite às 16:47
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4 comentários:
De Maurício Fontes a 21 de Abril de 2009 às 21:10
Hahahhah, muito bom o conto! E a maneira com que vc relata sem dúvida ajuda (positivamente). Continua logo! :-)
Abraços
De Claudio a 21 de Abril de 2009 às 21:42
A SRR é um dos meus objetivos, quero conhecer aquelas curvas, mas em uma época mais quente claro, o problema é convercer a patrôa que eu devo ir sozinho!!
De Fernando a 22 de Abril de 2009 às 01:59
Tite:
Boa história, só espero que a terceira parte não demore tanto quando esta.
Um abraço.
De Fernanda Copertino a 22 de Abril de 2009 às 14:51
Cara, vc é campeão em deixar a gente morrer de curiosidade e de te matar!!! rsss
Não demora muito dessa vez....
abs

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