Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Lisarb - O chato sou eu

(Pãts, como sou chato! Foto: Chatite)

 

Fiquei sabendo pelo guarda noturno que sou considerado o chato da rua. Pra mim isso é o maior elogio que poderia receber desses estranhos que moram vizinhos à minha casa, porque deles eu só poderia esperar isso mesmo. Afinal, só eu gosto de acordar cedo nos finais de semana para escalar, dar aula de pilotagem, viajar de moto, cuidar das minhas mudas etc. E para acordar cedo é saudável DORMIR cedo. Todo mundo tem direito de fazer festas em casa, quem não faz? Mas não precisa entrar pela madrugada com som, gritarias e risadas. Como tenho sono leve, nestes casos chego a chamar a polícia porque não gosto de discutir sobre direitos e deveres com gente bêbada.
 
Fazer barulho e incomodar a vizinhança a noite toda é legal. Respeitar a lei, ser sensato e criar bons vínculos pessoais é ser chato. Aliás, respeitar os outros é chato pra caramba! Legal é cada um cuidar do próprio nariz. Não é assim que os donos de Monza com película escura filosofam: “Deus criou a vida para que cada um cuide da sua”. Genial a frase! Um monumento à educação!
 
Também sou o chato que pede para os moradores recolherem o cocô dos cachorros. Até fiz uma campanha: “Tenha educação, recolha a merda do seu cão!” Bem poético! Fiz faixa, pendurei nas árvores e passei a ser o chato. Porque é legal deixar cocô espalhado pela rua e calçada, Principalmente para quem passeia com carrinho de bebê (agora sou avô), ou quem se locomove por meio de cadeira de rodas. ISSO é legal, chato é recolher a merda do cachorro.
 
Outra chatice minha é pedir que vizinhos aprendam a destinar o lixo de forma responsável. Imagine que uma vizinha deixou várias latas de tinta ainda cheias pra fora do portão, na ingênua esperança de que o coletor de lixo as levasse. Adivinha o que os vândalos de plantão fizeram com a tinta? Respeitar os horários e tipos de coleta, separar lixo reciclável é ser chato. Legal é deixar lixo orgânico misturado com inorgânico para que catadores de lixo façam a maior sujeira na porta de casa. Mais legal ainda é deixar lixo com resto de comida ficar exposto na rua por dois dias para que cachorros, gatos, baratas e ratos tenham do que se alimentar. Mais legal ainda é queimar o lixo no quintal, porque além da beleza da fumaça ganhando o céu, ainda tem o cheiro de plástico queimado que é uma delícia!
 
Podar as árvores também é uma chatice sem tamanho. É muito mais legal deixar as árvores crescerem naturalmente e deixar o jardim do vizinho sem uma réstia de sol. É chato demais pedir que respeitem o direito à insolação natural. Legal é ignorar que o sol nasce pra todos.
 
E fazer silêncio? Quer coisa mais chata? Rodar com uma moto com escape original é tão chato que deveria ser proibido por lei! É infinitamente mais legal usar escape esportivo, sem silenciador e passar pelas ruas de madrugada acelerando e soltando pipocos. Isso é tão legal e divertido que deveria fazer parte do currículo escolar desde o jardim da infância!
 
- Hoje a titia vai ensinar a fazer barulho!
 
Ah, bastam 15 minutos dentro de um buffet infantil para perceber que já fazemos isso. Os adultos que tem a responsabilidade de educar pensam que criança gosta de barulho. Desde o teatro infantil – mal feito – até as festas temáticas de buffets, é quase obrigatório ter muito barulho. Assim a criança se tornará um adulto legal, barulhento e não um mala sem alça silencioso.
 
Na frente da minha casa mora uma família legal. Os pais tocam a buzina para a empregada abrir a porta e a perua escolar também buzina duas vezes por dia: na hora de recolher e devolver os pentelhinhos. Adivinhem qual tipo de comportamento estas crianças desenvolverão? O chato silencioso ou o legal barulhento?
 
Nos anos 80 um amigo trilheiro foi morar na Alemanha, seduzido por um bom emprego e salário idem. Nem precisou economizar muito para comprar uma moto de trilha e sair feliz pelas estradinhas de terra da pequena cidade que morava. No auge de sua felicidade uma surpresa: Der Polizei!
 
O policial educadamente pediu que ele procurasse uma pista de motocross e não circulasse por aquelas trilhas porque estava incomodando a vizinhança. Meu amigo olhou para todas as direções e não viu nem uma casa sequer. Foi quando o policial apontou lá longe, uma fumacinha saindo de uma chaminé e explicou:
 
- Lá mora UM senhor apenas. E ele tem direito ao silêncio!
 
No último final de semana fui passar o domingo na bucólica vila de Monte Verde (MG), com suas ruazinhas estreitas e plantações de pinus. Perdi a conta da quantidade de motos 125 com escape “estralador” que passava soltando pipoco. Pense numa coisa legal! A vida deve ser muito chata sem poder ouvir esses pipocos ou ver um bebê de seis meses pular de susto com os “POW” do escapamento. Que tédio não poder deixar as pessoas ouvir apenas os sons da natureza. Legal é soltar pipoco ou parar o carro em uma esquina, abrir o capô do porta-malas e deixar que todos ouçam funk a 1.000 watts de potência!
 
Não sei o que vai ser da minha vida. Um cara chato como eu está destinado a ser solitário, tratar da úlcera e ainda por cima sem receber visitas no hospital. Quem vai querer visitar um chato?
 
Como diz um vizinho, tão chato quanto eu, “todo brasileiro deveria fazer estágio na Europa para aprender o significado da vida em sociedade”.
 
Mas o que estou escrevendo? Nós vivemos um Lisarb. Onde legal é ser chato. E chato é ser legal.

 

publicado por motite às 18:06
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34 comentários:
De Thiago a 13 de Janeiro de 2009 às 18:35
Perfeito o texto, reflete a educação do povo brasileiro...uma vez perguntei num fórum de Harleys se não achavam que seus escapes incomodavam todo mundo. A resposta de uns 3 "acho que vc está no lugar errado seu chato", "deixa de ser chato e vai procurar o que fazer"...é isso, aqui ninguém tem noção dos direitos dos outros, país do jeitinho, e ainda acham isso tudo engraçado
De Daniel Chato a 13 de Janeiro de 2009 às 18:50
Você escreve muito bem, parabéns pelos seus excelentes textos. Eu também já fui chamado muitas vezes de chato, e com muita honra! Quem sabe conseguimos juntar mais à nossa turma, e um dia faremos esse país um lugar melhor para vivermos. Um grande abraço.
De Thiago Mariano a 13 de Janeiro de 2009 às 19:11
Perfeito. Já fui chamado de chato também por querer que respeitassem as regras de boa convivência.
De Orlando a 13 de Janeiro de 2009 às 19:36
É Tite... SOMOS chatos. Também já tive (ou ainda tenho, sei lá) essa pecha. Compartilho dos mesmos sentimentos em relação a tudo o que você escreveu.
De vidal a 13 de Janeiro de 2009 às 20:27
tudo mala...

Campanhas não funcionam, não adianta... um ou outro vê e já cai no esquecimento..
Brasil, fazer o que...


:D


abraços tite!
De Edu Di Lascio a 13 de Janeiro de 2009 às 20:40
Sem pessoas como vc ao mundo jea teria se acabado numa imensa bola de fogo. Sério cara, ser chato é fundamental. Mas não paga bem.
De Lucio a 13 de Janeiro de 2009 às 21:22
Tite chato atrai chato? rsrsr

Excelente texto Tite! Pena que nossas midias nao tenham espaço pra temas como esse. Opa... por que sera?

Mas você não esta nesse barco sozinho..rsrsr só que as forças pra remar andam faltando né? Precisamos de mais jovens chatos pra continuar a remar contra a mare...

Feliz 2009 com muita saude, porque o resto a gente corre atras.
De Wagner a 13 de Janeiro de 2009 às 21:46
Tite, muito bom o texto.
Pior que os escapamentos estraladores das cg's, foi uma "moda" que os motobarulhentos inventaram no natal, cortar o escapamento das motos pela metade, aqui onde moro quase todo cgzeiro tinha um "canela seca", nome que deram a tal escapamento, nas cg's. Coisa de gente sem educação, e sem o que fazer. Mas Deus deu uma força, e choveu a vespera e o natal inteiro, impedindo os motomaloqueirosbarulhentos de sairem de suas casas.
Da vontade de enfiar a orelha do vagabundo no escapamento e acelerar até travar o motor.
De André Coelho a 13 de Janeiro de 2009 às 22:57
Wagner, moro no Jardim São Luís e neste ano recebi a família da minha esposa em nossa casa para passar o Natal. Como de costume temos aqui no bairro a missa dos motoqueiros (que já foi muito legal mas virou uma tremenda baderna), motos com escapamentos abertos, fazendo uma barulheira só!. Graças a Deus, como você mesmo disse, caiu um toró só e espantou esse bando de malocas.
Moro em uma rua que liga o bairro a outras avenidas de acesso a centro e sofro com igrejas mal estruturadas (pastor que parece cantor de heavy metal), vizinhos sem noção (inclusive os do prédio onde eu moro), moleques com seus carros caindo aos pedaços mas com sons que custam uma fortuna tocando (música?) num volume tão alto que treme as janelas e afins....
Hoje estou trabalhando no turno da noite e dormir durante o dia, por incrível que pareça, tem sido mais fácil do que à noite. Coitada da minha esposa. E para piorar tudo, é verão, todos na rua até altas horas....
Tite, seu texto imprime com todas as palavras os meus sentimentos em relação ao lugar onde vivo e com as pessoas com que preciso "conviver".

Um grande abraço à todos
De Adalberto a 13 de Janeiro de 2009 às 23:37
Tite, moro na Inglaterra, pais com tradicao nas motos como voce deve saber, nunca vi um escape aberto, nunca vi usarem os corredores no congestionamento ensandecidos, nem tocarem os pes nos retrovisores.
Nao sei, eu me preocupo quando urino e deixo o tampo respingado (as vezes acontece), de deixar louca suja na pia (moro com outras pessoas), se o lixo esta cheio, trato de trocar, e nao socar...
Sei la, acho que estou errado...
De joaolmsilva37 a 14 de Janeiro de 2009 às 02:50
É realmente um prazer escutar novamente seus inteligentes comentários, já que vc saiu do motonline. Se Maomé não vai a montanha...

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