Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Contos descontados - vingança manauara

 

(Manaus, no coração da Amazônia, cheia de surpresas.)

 

Como o leitor sabe, as fábricas de motos instaladas no Brasil têm parque industrial instalado na Zona Franca de Manaus. Isso é resquício do regime militar, por meio da amaldiçoada Suframa, que pretendia “colonizar” a Amazônia propondo incentivos fiscais ad eternum às empresas.
 
Normalmente nenhum ser humano criado fora da Amazônia gostaria de trabalhar lá, afinal só samambaias e fungos apreciam o tempo quente e úmido. Em Manaus o clima é divido em dois períodos: um que chove todo dia e outro que chove o dia todo. Para secar uma calça jeans é preciso jogar em uma secadora sob risco de usar uma calça esverdeada decorada por liquens coloridos.
 
Como política de relacionamento, as montadoras de motos instaladas lá costumam convidar os jornalistas para visitarem as linhas de montagem ou testar algum produto pré-lançamento. Hoje em dia não é lá um passeio que estaria na lista de prioridade de viagem de férias, mas nos anos 80 era a única forma de adquirir produtos importados sem recorrer a contrabandistas nem atazanar a vida dos amigos que viajavam ao exterior.
 
- Oi, Alcides, soube que você vai pra Miami!
 
- Sim... porquê?
 
- Você pode trazer um vídeo-cassete de quatro cabeças estéreo e duas caixas de som de 70Watts? Ah, e aproveita para levar um berimbau, carne seca e uma goiabada cascão pra minha tia Miriã que mora em Boston!
 
Era a fase pré-Collor da abertura das importações. Por isso, quando pintava algum convite para ir a Manaus rolava até briga na redação. Era a chance de comprar batatas fritas Pringels, chocolates suíços, caviar russo e, claro, algum equipamento eletroeletrônico.
 
Minha primeira vez foi em 1988, quando me fartei de comidinhas gringas e trouxe um videocassete na mala. Já na segunda vez foi 1993, já no período pós-abertura comercial, o que transformou a zona franca em uma cidade fantasma. Não havia mais a cobiça pelos eletrônicos inacessíveis, mesmo assim compensava comprar até produtos feitos em Manaus por causa da isenção fiscal.
 
Assim, desci do avião sob o choque do calor e umidade típicos, disposto a adquirir apenas dois aparelhos: um telefone celular (oh!) e outro videocassete, dessa vez de quatro cabeças, estéreo, porque era mais moderno! Desde a primeira vez que ouvi falar em telefone portátil achei que era um sonho distante e impossível. Até que vi um ao vivo e achei que finalmente tínhamos entrado século XX. Imagine, telefonar na rua, no shopping-center, na estrada, no carro (bons tempos...)!
 
Visitei Manaus em dois momentos bem distintos da economia, o primeiro em 1988, quando a inflação era tão absurda que usávamos moedas virtuais sob siglas como ORTN, UFs etc. Na segunda visita a economia estava mais estável. O problema é que fiquei traumatizado pela primeira visita porque as lojas não aceitavam cartão de crédito, muito menos cheques, porque UM dia de inflação já corroia parte do lucro, imagine 30 dias!!!
 
Por conta desse trauma, na segunda visita levei um maço de dinheiro. Vivo. Vivinho da silva. Tão vivo que facilmente saía correndo das minhas mãos e ganhava a liberdade. Sobretudo em bobagens que nunca usei na vida, como abridor de lata a pilha... coisas de Zona Franca!
 
Como nossa programação foi muito apertada, sobraria apenas o sábado para ir às compras. E as lojas fechavam ao meio-dia. Peguei um táxi acompanhado de Josias Silveira (Duas Rodas) e Fernando Calmon (na época, Auto Esporte), dois dos maiores especialistas em tudo que já conheci na vida. No caminho pra ZFM fiz uma pergunta da qual me arrependi amargamente:
 
- Qual aparelho de celular vocês acham que devo comprar?
 
Durante os 25 minutos de viagem tive uma aula de telefonia celular, comparativo entre aparelhos, companhias prestadoras de serviço bla-bla-bla... até o motorista se meteu na conversa. Foi assim que me decidi pelo imbatível, moderno e super portátil Motorola PT 550. Com duas baterias de reserva. O aparelho era grande e desengonçado, mesmo assim muita gente metia aquela geringonça na cintura como se fosse um Colt 44 do caubói mais perigoso do Oeste. Pelo menos em termos de peso era bem próximo ao do Colt de verdade!
 
Aquela trapizonga custou-me algo equivalente a 500 dólares, que paguei em dinheiro. Hoje em dia nem um iPhone é tão caro! Resolvida essa parte corri atrás do videocassete. Faltava pouco para meio-dia e comecei a me desesperar porque não achava AQUELE modelo. E tinha de ser estéreo para representar um upgrade em relação ao anterior. Até que fui abordado por um sujeito, dentro de uma loja, com a garantia de conseguir o aparelho em outra loja ali pertinho.
 
Na minha afobação de conseguir o aparelho antes de meio-dia não notei no sujeito. Aquilo era mais suspeito do que freira de biquíni. Quando entramos num beco percebi que tinha caído na arapuca. Virei pra trás e tinha não mais um, mas sim dois sujeitos, um deles com um daqueles facões de matuto na mão. Nem precisou dizer palavra, adiantei:
 
- Vocês aqui na zona franca têm uma metodologia estranha de vendas...
 
O mais baixo, com cara de boto cor de rosa, abriu a carteira e quase levou um choque: tinha uns 500 reais, grana equivalente a 1000 dólares em hoje. O mais alto e gordo, com cara de beluga cor de rosa, apontou pro meu tênis novinho e mandou tirar. E eu:
 
- Nem a pau! Está fazendo 40ºC e o asfalto está fervendo, pega a grana e compra um!
 
O baixinho tirou a grana e jogou a carteira longe. Quando fui buscar os caras desaparecerem.
 
Lá estava eu, literalmente em um beco sem saída, sem grana e sem moral! Levaram só o dinheiro. Deixaram o celular, a máquina fotográfica e, felizmente, meus tênis, porque tive de andar a pé sob o sol tórrido manauara até a delegacia. Foi nesse calvário que comecei a bolar minha vingança.
 
Na delegacia estava apenas um plantonista e um escrivão. Suavam mais que tampa de marmita, mesmo com o preguiçoso ventilador se esforçando para espalhar mais o calor. O escrivão começou a tomar o depoimento e quando ouviu a descrição dos botos matou a charada:
 
- Ah, conheço esses dois, eles ficam dentro das lojas caçando os otá..., digo, vítimas!
 
- Legal – argumentei – então vamos pegar a viatura, sair em diligência e dar um flagrante nos meliantes! (adoro usar esses termos técnicos com policiais).
 
O escrivão usou uma série de desculpas esfarrapadas para não sair, alegou que não tinha contingente, nem viatura etc e tal. Diante do muxoxo oficial e da cara do delegado plantonista saquei que tinha caído na segunda arapuca. Se eles conheciam os bandidos era óbvio que bastava eu virar as costas para que a dupla fosse pegar a “comissão” deles. Foi aí que veio a vingança. Finalmente o delegado, entre goles em um copo de guaraná gelado, fez a pergunta que eu estava aguardando:
 
- Quanto dinheiro você tinha na carteira?
 
- Seis mil reais!
 
O delegado cuspiu metade do guaraná, o escrivão deu um pulo da cadeira e arregalou os olhos:
 
- Mas porque você estava com tanto dinheiro assim, homem?
 
- Porque na última vez que visitei Manaus ninguém aceitava cartão nem cheque!
 
Afoito, o escrivão abriu a carteira, pegou um trocado e me deu:
 
- Ó, aqui tem uma grana pro táxi até o centro, lá você pega um ônibus pro hotel! Tchau e obrigado por registrar a ocorrência!
 
Eles praticamente me expulsaram da delegacia a pontapé!
 
Já no ar condicionado do meu enorme quarto no hotel Tropical, fiquei deitado na cama king-size imaginando o tanto de cascudos que aqueles dois ladrões levaram para confessar onde estavam os outros 5.500 reais que pegaram do trouxa paulista! 

 

 

publicado por motite às 16:50
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5 comentários:
De Deyvedy Bernardes a 6 de Janeiro de 2009 às 17:37
AHuahuahuahuahuahua... ótimo texto, os botos devem ter levado uns belos cascudos mesmo hauhuahuahuahu!!

Parabéns pelo blog!
De André Coelho a 6 de Janeiro de 2009 às 21:22
Procurei na net o tal celular PT 500, que tijolão!!.

Pense no lado bom, videcassete de 4 cabeças sempre davam mais trabalho!!

Abraço!
De nishimura (do Japão) a 7 de Janeiro de 2009 às 05:31
Karakas! Ô Doc Tite! Lembra que pedi para entregar 10 exemplares do seu livro de crônicas aqui no Japão? Se você escrever o livro "Vingança Imediata, o Doce Sabor do Veneno", vou pedir um contêiner inteiro! Realmente preciso de umas aulas contigo! Além do curso Speedmaster de pilotagem, você deveria ministrar um Speedvingança ou um Fastvingança! Eu faria um intensivão com direito a reforço!
De Remerson Andrade a 7 de Janeiro de 2009 às 15:40
Sei não... se eu procurar aqui em casa, devo ter umas baterias de PT 550 ainda.... hehehehehe

Otimo texto, e bem feitos pros "meliantes"!
De Sebastião Segundo a 7 de Janeiro de 2009 às 20:34
Texto muito bacana! Ja estou imaginando o pessoal de manaus descer o pau (uiii) no Tite! rs

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