Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Lêndeas - A Xispa!

 

(Xispa TS 175: uma clássica feita no Brasil. Foto: Duas Rodas)

 

 

Lêndeas do Motociclismo – A Xispa!
 
A Xispa foi uma tentativa brasileira de termos uma moto genuinamente nacional. E teve uma vida longa pelas qualidades descritas neste teste de 1975! A Brumana-Pugliesi produziu vários modelos de Xispa, incluindo uma mais chopper e versões para a polícia e para os correios. Na minha juventude motorizada pilotei muito a Xispa 175 de um amigo e lembre que o câmbio no punho esquerdo era simplesmente sofrível e as marchas engatavam mais facilmente se desistisse de usar a embreagem. A Xispa tinha uma legião de fãs piores que os atuais donos de Twister! Curtam o texto do Josias Silveiras (sim, ele mesmo, diretor da Duas Rodas até hoje), mas que tive a liberdade de dar um tapinha para retirar algumas expressões esquisitas da época! Note também que os testes eram mais completos, inclusive com muitas críticas, no entanto ainda cheios de exageros como “excelente opação de transporte”, etc. Ah, o preço dela era Cr$ 9.980,00 e o exemplar da revista custava Cr$ 10,00. Façam as contas de conversão! Pelos programas de conversão de moedas, este valor em Cruzeiros de 1975 corresponderia a aproximadamente R$ 3.600, porém não está calculado aí a taxa de inflação neste período todo.
 
Boa leitura!
 
Xispa TS 175*
 
Utilitária, a Xispa tem características de motocicleta e está sendo muito usada como veículo de trabalho. Seu baixo custo e baixa manutenção tornam a Xispa excelente para o transporte urbano. Por isso ela aparece cada vez mais nas ruas de nossas cidades.
(Guidão largo e alto, como uma chopper. Foto: DR) 
 
Nos anos 50, um novo e estranho meio de transporte vinha da Itália e ameaçava o mercado das motocicletas: as motonetas, em especial a Lambretta. Depois de al­guns anos de rápido sucesso (inclusive com a implantação de fábricas no Brasil), as motonetas cederam novamente seu lugar às motos: é à invasão japonesa. Durante o período em que as motonetas dominavam, motocicletas como a Jawa mudavam seu estilo - enchendo-se de lata inútil - na tentativa de se assemelhar com as motone­tas que eram moda na época.
 
Agora que as motos voltaram definitiva­mente, o processo é inverso: baseada na mecânica das motonetas (Lambretta LI) surgiu no Brasil uma motoneta com características de motocicleta: a Xispa. Eli­minada boa parte da lataria e aparato desnecessário, a Xispa conseguiu resulta­dos, senão bonitos, pelo menos funcionais.
 
A Xispa
Sendo um veículo com finalidades utili­tárias, sua estética é razoável consideran­do-se que foi construída com a estrutura e mecânica básicas destinadas às motonetas e também visando a uma maior simplici­dade de manutenção e utilização. Um aspecto que merece destaque é o aperfei­çoamento contínuo que a Xispa tem recebi­do desde seu lançamento. O modelo testa­do por Duas Rodas Motociclismo foi lan­çado recentemente e pode ser notada a preocupação dos fabricantes com a melho­ria de qualidade em detalhes de acaba­mento e também de conjunto.
O modelo testado foi o de 175cc que é pouco conhecido, uma vez que sua produ­ção é em menor escala que o modelo mais popular, de 150cc. Apesar da eliminação da lataria que caracteriza as motonetas (com exceção da pedana) ainda existem as rodas pequenas e o estepe, que mantém a Xispa como uma intermediária entre as motos e as motonetas.
 
As rodas pequenas têm como vantagem estepe (que soluciona o problema de pneus furados) mas tornam a dirigibilidade da Xispa um tanto estranha para quem está habituado a pilotar motocicletas com rodagens normais.
 
Apesar disso, a Xispa permite boas manobras em baixa velocidade, mas quan­do se dirige com maior rapidez, é preciso bastante atenção nas mudanças de dire­ção: a Xispa responde com excessiva rapi­dez e o equilíbrio pode ticar comprometi­do.
 
Mas, com alguma prática, a Xispa pode ser manobrada com segurança: as características de dirigibilidade são causadas pelo fato de o centro de gravidade da moto ser bastante baixo e o piloto se colocar bastante acima dele, embora a posição do piloto seja bem mais próxima do centro de gravidade que nas motonetas.
 
Os comandos são razoavelmente acessíveis (com exceção do liga-desliga do farol, que é colocado no centro do guidão e deveria estar junto com os demais coman­dos elétricos ao lado do acelerador) e a troca de marchas é feita pela mão esquer­da junto com o comando da embreagem.
 
Os acessórios da Xispa incluem um selim confortável e um bagageiro (coloca­do sobre o estepe), além de uma caixa de ferramentas completa.
 
Apesar de sua estética estar bem mais próxima das motos que das motonetas (inclusive com um escapamento tipo trail, com saída para cima), o guidão é um ponto que merece um novo desenho: é muito alto (numa imitação das choppers) e a posição para dirigir torna-se bastante desconfortável. Com um guidão mais bai­xo e mais estreito, a Xispa pareceria uma mini-moto, o que lhe daria um conjunto mais integrado.
 
Como anda
Os motociclistas que já se habituaram com o comportamento da Xispa 150cc assustam-se com a 175: sua arrancada é bem superior às 150cc (que são bastante utilizadas para entregas pelo seu consumo de combustível ainda mais baixo). A Xispa TS 175 consegue sair na frente de grande parte dos automóveis nacionais. Sua me­cânica, apesar de não ser muito utilizada, é bastante resistente e a Xispa suporta bem pilotos não muito cuidadosos.
 
Seu motor tem bastante durabilidade e pode ser facilmente modificado para con­seguir melhores performances. Seu câmbio é bem escalonado (talvez a 4ª marcha pudesse ser um pouco mais longa para obter uma velocidade final mais alta) e pode-se confiar no conjunto câmbio-trans­missão. Aliás, a transmissão tem um siste­ma bem mais durável que a maioria das motos: a corrente é fechada e trabalha em banho de óleo (o mesmo óleo do câmbio), o que garante bastante durabilidade para a corrente e nenhuma preocupação para o motociclista quanto à tensão da corrente e falta de lubrificação.
 
(Painel e chave de ligar o farol. Foto: DR)
 
A suspensão traseira - que funciona acoplada com o motor - tem bom funcio­namento, pois a caixa de transmissão trabalha como berço da suspensão, dando um bom curso para a roda traseira. A suspensão dianteira é um pouco limitada, funcionando razoavelmente em baixas e médias velocidades, principalmente quan­do a Xispa leva apenas uma pessoa. Em velocidades mais altas, ou mesmo quando se leva garupa, a carga se torna mais traseira e a roda dianteira chega a levan­tar do chão em trechos esburacados, pois o curso da suspensão é pequeno. Mas ainda é um problema superável, uma vez que o tipo de utilização da Xispa (para trânsito urbano e pequenas viagens) per­mite que o proprietário se acostume com seu comportamento e se previna de si­tuações que possam comprometer a estabilidade do veiculo.
 
Um item que merece melhorias por parte dos fabricantes são os freios: o dianteiro tem pouca capacidade de frenagem e o traseiro trava a roda com facilida­de. Resultado: a distância necessária para imobilizar a Xispa é um pouco exagerada e pode comprometer a segurança em si­tuações de emergência. Realmente, o pon­to de destaque da Xispa é o conjunto motor-câmbio-transmissão que, além de bastante compacto, é também resistente e, o mais importante: é de manutenção sim­ples e de baixo custo (sua peças são, praticamente, todas nacionais e custam bem menos que as peças de outras motos).
 
(escapamento saindo por cima, como nas trails. Foto:DR)
 
Seu consumo é bom para um motor de 175cc. (44,0 km/l a 40 km/h), o que é bastante coerente com o baixo custo de manutenção da Xispa.
 
Sua estrutura básica (quadro e suspen­são) é bastante sólida e apenas alguns acessórios (como o cano de escapamento e silencioso que se soltaram diversas vezes durante o teste) mereciam melhor fixação.
 
O bagageiro é bastante útil e bem posi­cionado. Apenas seu sistema de fixação (o bagageiro é escamoteável para retirada do estepe) o torna um pouco barulhento.
 
Conclusão
A Xispa é um veiculo com características estéticas já bastante independentes da motoneta da qual foi originada, conser­vando, porém algumas boas qualidades mecânicas da Lambretta. Como a princi­pal utilização da Xispa se destina a trans­porte/serviço. - podendo também ser uma moto/motoneta para principiantes - será usada normalmente em baixas ou médias velocidades, nas quais seu comportamen­to é normal. Ela é bastante dirigível em trânsito intenso e tem facilidade de mano­bra em pequenos espaços (salvo pela lar­gura do guidão que é um pouco exagerada).
 
Apesar de sua aceleração firme e da possibilidade de andar durante bastante tempo em velocidades próximas da máxi­ma, não é um veiculo próprio para se conseguir boas médias em estrada. Em alta velocidade seu comportamento é pou­co estável e existe muita vibração quando o motor está em alta rotação. Apesar das limitações de sua utilização (algumas pró­prias de sua cilindrada) existe a útima compensação de seu baixo custo (tanto de compra como de manutenção) e do fato de ser um veículo inteiramente nacional, o que garante peças com preço acessível, independentemente das taxas de importação.
 

Aferição do velocímetro
Velocidade indicada
Velocidade real
(km/h)
(km/h)
40,0
43,3
60,0
61,2
80,0
77,1
100,0
95,4
 
Aceleração
 
 
Variação de
Tempo
Marchas
 
velocidade
 
utilizadas
 
(km/h)
(s)
 
 
0- 40
4,2
 
0- 60
7,2
1ª/ 2ª
 
0-80
12,0
1ª/2ª/3ª
 
0- 400 m.
24,3
1ª/2ª/3ª/4ª
 
Velocidade máxima nas marchas
 
 
(km/h)
 
1.
49,1
 
2.
68,7
 
3.
87,2
 
4.
105,4 (Velocidade máxima)
 
Frenagem
 
Velocidade real
Distância percorrida
 
(km/h)
(m)
 
40,0
7,65
 
60,0
17,80
 
80,0
32,20
 

 
MOTOR
Tipo - Monocilindrico, de 2 tempos;
Cilindrada - 175 cc.;
Diâmetro e Curso - 62,0 X 58,0mm;
Taxa de Compressão - 8: 1
Potência Máxima - 8,75 HP à 5300 rpm.
Transmissão - 4 velocidades, transmissão secundária por corrente em banho de óleo.
 
SUSPENSÃO
Dianteira - Bie­las oscilantes acionadas por molas helicoidas;
Traseira - Motor flutuan­te com amortecedores hidraúlicos conjugados com duas molas helicoi­dais.
 
DIMENSÕES
Comprimento - ­1785 mm.;
Largura - 910 mm.;
Altu­ra - 1.012 mm.;
Distância entre eixos -1.290 mm.;
A1tura mínima do solo - 152 mm;
Peso - 106 kg;
Capacidade do tanque de combustivel - 10,5litros.
Pneus -  Dianteiro e Traseiros ­3.50 X 10.
 
A Favor
  1. Conjunto mecânico resistente.
  2. Baixo custo de compra e manuten­ção.
  3. Maneabilidade no trânsito.
  4. Estepe.
  5. Bom acabamento em função do custo.
 
Contra
  1. Freios pouco eficientes.
  2. Motor vibra em alta rotação.
  3. Pequeno curso da suspensão dian­teira.
  4. Má fixação de alguns acessórios.
  5. Guidão desatualizado e desconfortável.
 
* Publicado originalmente em nov/dez de 1975

 

 

publicado por motite às 16:45
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10 comentários:
De Gustavo a 12 de Novembro de 2008 às 21:21
Pô, e tem algum argumento além de redução de custos pra essa corrente em banho de óleo não ser mais usada nas CGs da vida? Parece uma baita mão na roda, porque ficar passando graxa na corrente é um porre.
De motite a 13 de Novembro de 2008 às 11:56
Sim, Gus, esse tipo de motor tem a transmissão blindada junto com o motor que fica colado na roda traseira. O motor da CG fica quase na roda dianteira... A corrente da Xispa é pequena, fina e ficava colocada praticamente dentro do motor, como se fosse um conjunto só. Mas exigia manutenção periódica sim, não é bem assim como o Josias escreveu. Precisava repor o óleo.
De Sergio CJR. a 12 de Novembro de 2008 às 22:48
Fico imaginando como era o trânsito intenso, citado na matéria, naquela época...

Não é surpresa que hoje mudou sua denominação para trânsito caótico...
De Mais bonita qDouglas Studzinski de Souza a 13 de Novembro de 2008 às 13:26
Mais bonita que uma POP!
De Youssef a 13 de Novembro de 2008 às 15:48
HeHe, eu li este teste quando saiu na revista. Sim, em 1975, com cerca de 12 anos de idade. Já era devorador de Duas Rodas. Lia tudo num dia. Depois ficava dois meses esperando a próxima.
Aração Tite. Valeu pela lembrança
(eu estou para colocar algo sobre a Xispa no meu blog. Estou esperando umas fotos de um cara que restaurou uma)
De Marco Leal a 20 de Novembro de 2008 às 15:55
O primeiro veículo que dirigi por mais de 6000Km foi uma Xispa ts 150 -75, aos meus 15 anos.

Naquele tempo o preço era um pouco inferior ao de uma RD 50 e Zanela 175.

Meu vergonhosa pela feiura, extranha , com um cambio que no primeiro dia de uso, perdi a pela entre os dedos.

Era ruim, muito pior que uma 50inha , mas peguei o virus do motociclismo.
De Samuel Scur Paim a 4 de Agosto de 2009 às 17:57
Tite, dê uma olhada http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=12172044209148792952&aid=1220020027&p=0
o apelido do meu pai é Xispa, graças a uma igual, estamos terminando de restaurar
De adriano crvalho a 18 de Maio de 2011 às 21:00
tenho 42 anos, aprendi a andar de moto numa brumana do pai de um amigo, quando eu morava em Brasilia em 1981. e ela ja era muito antiga, mais eu cortava a grama da casa do pai dele so pra andar de lambreta muito legal parabens pela materia.Adriano Cuiaba MT
De Fabio Elorza a 28 de Maio de 2011 às 06:20
Meu pai tinha Xispa azul-clara uma em 1980, eu tinha 08 anos e passeava com ele sentado no tanque, a moto pra mim era enorme!
Morávamos na vila militar da Base Aérea de Cumbica, passeávamos nas alamedas arborizadas e ele me deixava acelerear! lembro-me do câmbio no punho esquerdo e da fumaceira do 2t... essa motinho marcou a minha infância, mas não me causou "motite": só comprei a minha primeira moto em 2000, com 28 anos; hoje ando de moto à 11 anos, de domingo a domingo, faça chuva ou sol...
De José Ricardo Zani a 11 de Novembro de 2012 às 12:43
Que coisa engraçada. Estou vendo uma matéria antiguinha que, por sua vez, aborda outra mais antiga ainda. Um duplo flashback! Bem, é gostoso lembrar da Xispa. Tive uma, que comprei zero km, em 1979, mas acho que já não trazia o nome "Xispa" e incorporava alterações na estrutura, embora fosse essencialmente a mesma coisa. O que eu mais gostava era exatamente do motor valente e do sistema de transmissão secundária em banho de óleo. No design, me incomodava esse vazio entre o tanque e as pedaleiras. Então, dei um jeito de transferir o estepe para aquele espaço, mantendo a mesma posição de fixação original. Na nova posição, o estepe funcionava como mata-cachorro e protetor do motor, além de encher um pouco o melancólico vazio sob o tanque... Mas fiquei pouco tempo com ela. Não suportei as irregularidades do carburador, a ineficiência da suspensão dianteira e as falhas elétricas... Esse teste do Josias está muito generoso com a Xispa. Lembro-me que, na época, saiu uma avaliação na Moto-Quatrorodas (se não me engano), em que o repórter detonou a motinha. O único elogio dele foi para o banco...

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