(Um motociclista e sua NSU 500... será que pega fácil? foto: Mário Bock)
Mais uma pérola encontrada nos meus archivus. Este artigo tem muito a dizer sobre o motociclismo dos anos 80. É de 1984 e eu era um repórter colaborador da revista Duas Rodas.
1) Tínhamos matérias mais longas que eram uma forma divertida e agradável de ensinar um pouco de mecânica aos novos motociclistas.
2) Eu era escalado para fazer estes artigos porque meu estilo sempre foi mais livre, leve e solto, com um caráter mais cronista do que repórter. Aliás, eu ODIAVA entrevistar pessoas estranhas, por isso todas as entrevistas que você vai ler foram feitas só com meus amigos e pelo telefone! Ou nem isso, porque eu guardava as histórias que me contavam e usava nas crônicas.
3) A edição de texto era horrível, não tinha intertítulos – que coloquei agora – e misturávamos aspas com travessões, fazendo uma salada mista.
4) Naquela época a maioria das motos ainda usava pedal de partida e partida elétrica era um luxo.
5) Repare que tínhamos também muitas motos com motor dois tempos e em todo artigo ele é sempre lembrado.
6) E eram tempos difíceis de limpar, trocar e ter sempre uma vela de reserva... e nem citei o platinado, sabe o que é isso???
7) Nas corridas daquela época as motos alinhavam com motor desligado e tinham de pegar no tranco!
Boa leitura!
Partida!!!*
A dura operação de fazer uma moto pegar... nos tempos sem partida elétrica...
Um motociclista à antiga: capacete de couro estilo “Barão Vermelho”, botas de cano longo, casaco de couro impecável, luvas de couro italianas e óculos com lente de cristal. Ele se aproxima de uma NSU 500, fabricada em 1904, conservadíssima. Totalmente original e brilhante. Dá alguns golpes de leve no pedal de partida do lado esquerdo até sentir o pistão em ponto morto superior. Volta, observa a moto, limpa uma manchinha, acende um cachimbo, aprecia o fumo curtido em cherry brand e volta ao pedal de partida. Ainda não está no ponto certo; ajeita mais um pouco, regula o avanço da distribuição e se afasta novamente. Finalmente aciona o descompressor, guarda o cachimbo, sobe na moto e joga o peso do seu corpo em cima do pedal. Um ronco tranqüilo e redondo sai escapamento, o motor funciona como no dia em que foi ligado pela primeira vez, não se ouve uma batida anormal. A moto está ligada.
A arte de ligar uma moto pode ser um ritual tão complexo como o descrito acima, ou um hábito tão simples como tirar meleca do nariz. Vai depender de cada motociclista e, na maioria das vezes, dos caprichos a que a moto submete o seu dono. Ou do nariz. A coisa mais comum de se ouvir quando alguém pede para dar uma volta em uma moto estranha é o conselho do proprietário: “Para ligar precisa de uma manha”. Manha. Esta é a palavra-chave quando se fala em ligar uma moto. Teoricamente toda moto sai da fábrica igual, mas existem algumas que só ligam como pé do dono!
Carlos Eduardo de Escobar Coachman, dentista e profundo conhecedor de motos, principalmente as fora-de-estrada, e Ronny Hoennet, treieiro e recuperador de motos antigas, também concordam que além da técnica, a manha é fundamental.
Carlão começa contando a história de uma Yamaha XT 500, que apareceu aqui no Brasil durante a visita de dois canadenses.
- Para a moto funcionar era muito simples. Um visor no cabeçote do motor permite olhar o volante do comando de válvulas, que tem uma marcação. Esta marca deve coincidir com a do visor, e é sinal de que o pistão está no PMS, ponto motor superior. Aí o piloto liga o descompressor, não acelera e manda a botina no pedal de partida com toda a força. Com um pouco de sorte a moto pega. O canadense, dono da XT 500, levou um tombo fazendo trail e deu 23 pedaladas até a moto funcionar.
Pela esquerda
Entre as veteranas que passam pelas mãos de Ronny a mais exigente para pegar é uma AJS 500cc: de 1951, “que tem um pedal duríssimo, e a manha para fazê-la funcionar é retardar o avanço até um ponto marcado na manopla. Depois é só puxar o descompressor e dar uma pedalada com toda a força”. O fotógrafo Ray Knowles, que já teve uma AJS quando ainda morava na Inglaterra, aconselha o motociclista a colocar o capacete antes de colocar esse modelo em funcionamento. Certa vez, ao tentar dar a partida, ele sofreu um contragolpe tão violento que foi atirado por cima do guidão e caiu de cabeça.
É só ter as manhas que qualquer moto pega na primeira, repete o piloto de motocross Carlos Ourique, o Scateninha, que tem uma receita especial para ligar as motos de corrida quando o motor está frio:
- O carburador da cross tem três respiros. Então eu sopro dois deles e deixo o terceiro livre. O combustível é infiltrado no cilindro e a moto pega na primeira.
A grande dificuldade é quando o piloto cai no motocross e fica cansado. Se a moto não pega na primeira tentativa vai ficando cada vez pior, principalmente no caso das Honda e Kawasaki que têm o pedal de partida do lado esquerdo.
(As Honda XL e XLX 250 eram um sufoco pra ligar. Foto: Mário Bock)
Não importa a marca da motocicleta e nem o uso a que ela se destina. Quando as primeiras XL 250R nacionais começaram a ser vendidas, era comum ver um até então feliz proprietário literalmente suando a camisa para ligar a moto.
O artista plástico Flávio Teles de Menezes já tinha andado de moto em Minas Gerais onde nasceu, mas quando foi para São Paulo comprou uma XL 250R e, no dia de buscar a máquina na casa do antigo dono, teve uma experiência meio desanimadora.
- A moto não pegava nem por decreto. Todo mundo tentou ligar, mas ela permanecia morta, Pedalamos, empurramos, puxamos afogador, limpamos vela, fizemos o diabo e nada. Então apareceu alguém, deu uma pedalada e a moto pegou. “Isso acontece geralmente porque o motociclista não consultou o Manual Proprietário antes de querer ligar a moto”, explica João Carlos Vieira Barreiros, gerente de assistência técnica da Honda do Brasil. Ele recomenda que tanto caso das XL, como nas 125 dotadas de carburador Ecco, não se deve acionar continuamente o acelerador, porque a gasolina é injetada conforme a abertura do acelerador, mesmo com a moto desligada. O motor afoga e dificulta a partida.
Outro detalhe que deixa os motociclistas apreensivos na hora de ligar a XL é o contragolpe. O exemplo mais radical é citado pelo assistente de editoração, Thomas Frey, que empregou muita força para ligar a moto e ficou semanas com o pé engessado, com os ligamentos rompidos.
FOGO!!!
Acidentes acontecem, até na hora de tentar fazer uma moto pegar. Depois de ter tentado colocar fogo em uma Graziela - que não pegava de jeito nenhum -, Alcides Casado Júnior comprou uma Velha Yamaha 125cc, ano 73. O dono garantiu que a moto “pegava mais fácil do que catapora em jardim de infância”. Numa tarde, Alcides resolveu tentar.
(A Yamaha 125 do Alcides pegou... FOGO!!! Foto: Tite)
Deu início ao ritual que todo motociclista segue, mesmo inconscientemente, antes de dar no pedal. Abriu a torneira de gasolina, puxou o afogador, pedalou. Nada. Depois de várias tentativas, desceu uma ladeira e quando a moto atingiu um bom impulso, subiu em cima, engatou a terceira marcha e soltou a embreagem. A moto pipocou e pegou. Feliz, voltou para sua casa para pegar um casaco, quando sentiu um calor estranho. A moto estava pegando fogo.
O chefe de assistência técnica da Yamaha do Brasil, Manoel Rodrigues Puertollano, recomenda a leitura do Manual do Proprietário e dá um conselho aos proprietários de motos com motor de dois tempos, que necessitam de menos força para ligar, porque a cada volta do virabrequim ocorre uma explosão. Deve-se então, puxar o afogador, não acelerar e acionar o kick starter (pedal de partida).
Caso o motociclista insista demais, o motor pode afogar e, como o óleo dois tempos é injetado com gasolina, fatalmente o motor vai ficar encharcado de óleo. A receita é retirar a vela, fechar a torneira de gasolina e pedalar com o acelerador aberto para retirar o excesso de óleo do cilindro. Depois de secar a vela, é só colocá-la no lugar e ligar a moto, ainda com a torneira fechada, já que a gasolina da cuba é suficiente para fazer o motor pegar.
Corre, corre!
Nas pistas, os problemas são semelhantes. O experiente piloto Denísio Casarini confessa que a largada é o momento de maior tensão para o piloto de velocidade, justamente porque ele não sabe se a moto vai pegar ou não na primeira tentativa. E explica que a situação é mais delicada no caso das motocicletas com motores de dois tempos.
- Como o motor trabalha em regime de alto giro, a moto não tem torque nas baixas rotações, e ainda por cima o óleo é misturado na gasolina. Se o piloto não consegue um equilíbrio entre o acelerador e as primeiras explosões, a mistura pode encharcar a vela e aí será preciso empurrar a moto por alguns metros. Nas motos da categoria esporte, com mais de 750cc, de quatro tempos, não havia este problema, porque a máquina saía ligada.
As mulheres com pés mais delicados encontram dificuldades adicionais quando tentam ligar as motos. Depois de “levar o pedal na barriga das pernas várias vezes”, a estudante Ana Alice Sampaio, proprietária de uma Yamaha TT 125, desenvolveu uma técnica especial para ligar a moto sem deixar marcas roxas na perna.
- Eu dou uma pedalada de leve antes. Depois pedalo com força e tiro o pé rapidinho. Quando a moto está fria, é só puxar o afogador que pega na primeira.
Há situações mais constrangedoras, algumas delas devido à falta de conhecimentos mecânicos do motociclista. O exemplo clássico é o de um piloto que passou horas tentando ligar uma CB 400, saída há poucos dias da fábrica. Pedalava, puxava o afogador, verificava a vela e nada. A moto recusava a dar a partida. Nervoso, telefonou para a revenda, exigindo até a troca da motocicleta. O gerente tentou acalmá-lo, oferecendo um mecânico para ir à sua casa verificar o que estava acontecendo com a moto.
Antes de examinar a motocicleta, o mecânico ainda teve que ouvir mais desabafos e manifestações iradas do proprietário. Afinal, foi autorizado a mexer na moto, para descobrir o “grave” defeito que impedia a ligação do motor. O corta-corrente no guidão estava desligado.
Quando a moto não pega e nem conta por que não funciona
Se a moto não pega de jeito nenhum é porque algo errado não está certo. Seguindo este roteiro, é possível saber se o defeito é de fácil solução ou se deve recorrer a uma oficina.
Primeiro, verifique se há gasolina. Às vezes o motociclista completa o tanque e não posiciona a torneira no on, deixando a marcação na reserva. Assim, quando a gasolina acaba não há jeito. Se há gasolina suficiente, observe se ela está chegando ao carburador. Para isso retire a mangueira que leva ao carburador ou solte o parafuso da drenagem na cuba do carburador. Se não sair gasolina, a válvula da cuba pode estar emperrada. Experimente, então, dar umas batidas leves com o cabo da chave de fenda no corpo do carburador. Se persistir o defeito, tire a tampa do tanque de gasolina, pois o respiro pode estar obstruído. Solte a mangueira da gasolina e repare se diminui o fluxo do combustível quando a tampa é colocada. Se a gasolina está saindo normalmente até o carburador, então o defeito deve ser na parte elétrica.
Veja, então, se a vela produz faísca. Retire a vela e prenda no cachimbo próximo ao cilindro. Dê umas pedaladas. Se a vela não produzir faísca, experimente limpá-la e regulara folga. Se não der faísca, é sinal de que a vela precisa ser trocada ou há outro defeito na parte elétrica. Persistindo a falha, o defeito é mais grave e o melhor a fazer é procurar um mecânico.
ATENÇÃO: Nas atuais motos com injeção eletrônica NÃO PODE EMPURRAR PARA PEGAR NOTRANCO, porque o sistema de alimentação não funciona sem eletricidade e pode provocar um baita problema ainda maior.
+ + +
* Publicada originalmente em junho de 1984. Os nomes foram mantidos originais. Carlos Coachman (Carlão) e Thomas Frey já faleceram, precoce e infelizmente...