Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Pilotagem na chuva - Parte II

 

(Pilotar na chuva já é difícil, mas pode piorar com a neblina... Foto:Tite) 

Chuva – Parte II (A parte 1 está AQUI). 
Uma das vantagens da moto como veículo sobre os automóveis são os pneus. Além de termos apenas dois pontos de contato, o formato do pneu é semelhante à uma lâmina, que corta a fina camada de água, dificultando muito a ocorrência de aquaplanagem. Além disso, quem se lembra das aulas de Física? Quanto menor a área, maior a pressão. Como a área de contato dos pneus com o solo é muito pequena, a pressão sobre o piso é maior, cortando a água. Mas isso depende basicamente da profundidade dos sulcos dos pneus! Os pneus dos carros sofrem mais facilmente a aquaplanagem porque são largos e retos e quanto maior a área, menor a pressão sobre o solo.

IMPORTANTE: existe um preconceito muito difundido sobre pneus na chuva. Muita gente esvazia um pouco os pneus para “melhorar a aderência”. Isso é uma tremenda bobagem, porque se os pneus estiverem murchos os sulcos se fecham e a drenagem de água é menor! Também não vá encher o pneu mais que o necessário. A calibragem original já prevê o uso no seco o no molhado. Outro erro é montar o pneu ao contrário do sentido de rotação, porque os sulcos são feitos para drenar a água no sentido correto de rotação, por isso tem uma seta nos pneus. E, idiotice maior, JAMAIS faça rodízio de pneus porque o pneu dianteiro é desenhado para CORTAR a camada de água e o traseiro para TRACIONAR. Se inverter a moto fica descontrolada na chuva.

Da mesma forma que os pneus têm importância vital na estabilidade da moto com piso molhado, a moto também pode ser preparada para rodar na chuva com mais segurança. Normalmente, a motocicleta tende a afundar de frente nas frenagens e de traseira nas acelerações. Para evitar este afundamento, a suspensão reage às forças que empurram a moto para baixo, empurrando de volta a moto para cima. É isto que garante a estabilidade quando o piso está seco. Mas na chuva, a reação deve ser mais suave para a moto não derrapar. A solução é regular tanto a suspensão traseira quanto a dianteira (e também o sistema antimergulhante, quando houver) na posição mais mole, assim a moto fica mais estável.
 
(Pilotar na chuva é mais difícil, mas não impossível senão não haveria corrida sob chuva. Foto: motogp.com)

Nas motos de corrida existem centenas de regulagens, que a deixam tão estável para dirigir na chuva, que o piloto praticamente pilota da mesma forma que no seco, mas com mais suavidade. Nas motos de passeio, essas regulagens são limitadas e, em alguns casos, difíceis de acessar, por isso nem sempre é possível interferir na moto.

Uma das grandes lições que a pista pode oferecer ao piloto de rua é a sensibilidade ao pilotar. Quando digo que a pilotagem não muda muito na chuva, não é para entrar numa curva de 180º, inclinando da mesma forma que faria se o piso estivesse seco. O que quero dizer é que a postura do piloto em cima da moto será a mesma e a distribuição de força na frenagem continuará igual. Porém, a sensibilidade é muito maior e os limites são muito menores.

Começando pela postura. O peso do piloto representa boa parte (35%) da massa formada pelo conjunto moto+piloto. Quando o piloto se desloca em cima da moto, está deslocando peso e alterando a estabilidade do conjunto. Na pista seca, o piloto deve utilizar as pedaleiras como forma de distribuir o peso, forçando as duas pedaleiras para baixo numa frenagem, por exemplo, para deslocar o peso mais para trás. Quando a moto está desacelerando (numa frenagem) a tendência é o peso ser deslocado para frente, que pode chegar até a 100%, caso a roda traseira saia do chão. Nas acelerações, o piloto deve inclinar o corpo para frente, para anular parte da transferência de peso para trás. Já nas curvas, o piloto apóia mais na pedaleira correspondente ao lado INTERNO da curva, inclinando o corpo para o mesmo lado, ajudando a moto a vencer a inércia. Isto tudo é válido para pista seca.

E na chuva? Aí este balé continua o mesmo, mas com uma diferença: a nova condição de atrito (menor) obriga o piloto a reduzir seus limites. Nas frenagens, ele vai continuar se deslocando para trás, mas a força aplicada nos comandos será, no começo da frenagem, cerca de 60% no freio dianteiro e 40% no traseiro. Conforme a moto se aproxima da curva, a força no freio dianteiro vai aumentando até chegar à mesma proporção que normalmente se usa no piso seco, ou seja, 80% no dianteiro e 20% no traseiro. Tudo com muito cuidado, como se tivesse um ovo cru colocado entre a manete de freio e a manopla.

Na hora de voltar a acelerar, do meio da curva em diante, quando o piso estiver molhado, o piloto deve fazer de forma mais gradual para a roda traseira não derrapar. Resumindo: na chuva, a frenagem é antecipada e a aceleração é atrasada em relação ao piso seco. O ideal é usar uma marcha acima do que usaria no seco. Se fosse fazer a curva em segunda, no piso molhado faça em terceira e assim por diante. E a distribuição de peso nas pedaleiras também se altera, com o piloto fazendo mais força na pedaleira EXTERNA da curva.

Uma informação importantíssima: no piso molhado, o coeficiente de atrito muda constantemente. Em um determinado ponto da rua pode haver uma poça d’água e a moto literalmente desliza. Para aumentar a segurança na rua, quando estiver chovendo, o motociclista precisa evitar andar no centro da rua (ou da faixa), porque é onde ficam as manchas de óleo provocadas pelos vazamentos nos motores de automóveis e caminhões. O melhor lugar é onde passam os pneus dos carros, porque além de ficar menos encharcado, não há tanto risco de pegar uma mancha de óleo.

Outra coisa que diminui o coeficiente de atrito drasticamente são as faixas pintadas no asfalto, que são muito lisas. Quando o motociclista trafega no trânsito, num corredor de automóveis, está correndo um sério risco, porque na hora de frear pode fazê-lo justamente quando o pneu estiver em cima da faixa e a derrapagem é quase certa. Os motociclistas geralmente nem entendem porque derraparam.

Também dever ser evitado o trecho do asfalto muito perto das sarjetas. Quando chove, a água levanta o óleo da pista e como não se misturam, a água carrega o óleo para a sarjeta, porque as ruas são levemente inclinadas justamente para a água escorrer pelos cantos.

Finalizando, a conduta do motociclista na chuva deve ser a mais suave possível. Quando o motociclista é pego pela chuva, geralmente fica tenso, nervoso, e é justamente nestas condições que se assusta mais facilmente, e tem reações bruscas, rápidas. Aí é que acontecem os erros.

Para evitar esta tensão, o motociclista deve se conformar que vai chegar ao seu destino completamente molhado e pilotar com mais calma, mesmo porque não faz a menor diferença tomar cinco minutos de chuva a 100 km/h ou 10 minutos a 50 km/h.

 

publicado por motite às 18:18
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3 comentários:
De Ronaldo a 5 de Novembro de 2008 às 13:52
Tite, se você quiser ilustrar sua matéria com um belo vídeo, talvez daqueles: "o que não devemos fazer na chuva", dê uma olhada neste, vale o tempo:
"SBK 2008 - Donington Park - Kiyonari Show"

http://fr.youtube.com/watch?v=KycZk1M7g24

Abs
Ronaldo
De motite a 5 de Novembro de 2008 às 14:49
De Mário Sérgio Figueredo a 6 de Novembro de 2008 às 02:10
Tite,

Parabenizá-lo por mais estas preciosidades que são os seus textos, seria redundante.

Quem disse que não se ensima pilotagem por correspondência. Você está provando o contrário.

Aqui no sul (Curitiba) sofremos muito com o clima instável - chuva - mas o pior é a neblina que aparece com frequência no inverno, principalmente na estrada, tornando a pilotagem um exercício de paciência.

No meu blog (www.marios.blogs.sapo.pt) tem um Causo "Sob neblina torrencial" que relata o quão perigoso ficou um passeio curtinho, por causa de uma forte neblina.

Abraços

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