Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A seca e o trânsito

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Um exemplo de cidadania que pode chegar às ruas

 

Desde que me conheço por gente nossa família trata a água como um bem valioso. Meu avô italiano dizia, 50 anos atrás, que "vai chegar o dia em que se pagará mais pela água do que pela gasolina". Era um visionário! Por isso ele educou os filhos (e filhas) a usar a água com critério. Essa educação foi transmitida por gerações e lembro da minha mãe recolhendo a água usada da máquina de lavar roupa para lavar o chão e ainda explicava "ela já vem com sabão!".

 

Desde 2012 São Paulo começou a enfrentar uma onda de calor e seca sem precedentes na história da cidade. Mas só nos últimos meses vejo os paulistanos agindo como ensinava meu avô meio século atrás. Vejo carros sujos circulando pelas ruas e finalmente desapareceram as "vassouras hidráulicas", aquela mania típica paulistana de varrer a calçada com água!

 

Para chegarmos nessa mudança de hábito foi preciso sentir o desespero da falta d'água. Com as reservas chegando - literalmente - no fundo do poço, a população percebeu que não dá mais pra agir como se tivéssemos um Amazonas em cada Estado.

 

É disso que precisamos para reduzir os números de vítimas de trânsito: uma mudança no COMPORTAMENTO. Já escrevi centenas de vezes que o trânsito não é feito de veículos, mas de PESSOAS que conduzem veículos. Enquanto o material humano não mudar não haverá qualquer tipo de campanha que trará resultados efetivos.

 

A partir de 1 de novembro os valores das multas serão novamente aumentados e numa proporção assustadora. Algumas passarão de R$ 190 para R$ 900. Sabe o que isso vai mudar? Nos primeiros meses o cidadão vai prestar mais atenção, mas depois vão aumentar a inadimplência (que já é alta) e a arrecadação. Calcula-se que 30% dos veículos que transitam em São Paulo estão com algum débito com a Prefeitura ou Estado. Esse número vai aumentar.

 

Também vai aumentar a arrecadação. Hoje o município de São Paulo arrecada um bilhão de reais com multas por ano. Embora a destinação desse dinheiro não seja devida e claramente explicado, parte dessa verba deveria ser destinada à educação e sinalização de trânsito. Não é o que vemos pelas ruas...

 

O que poderia ser a "falta d'água" no trânsito? Um enorme basta! O único jeito de vislumbrar alguma redução nos acidentes de trânsito é trabalhar nas novas gerações, como meu avô fez com filhos e netos. Os atuais motoristas e motociclistas dificilmente se sensibilizariam com campanhas, por mais emotivas e premiadas que fossem. Em outubro viajei para três capitais do Brasil ministrando palestras de conscientização do trânsito, com foco no motociclismo. Gostaria de dividir algumas constatações com você, leitor:

 

- Existe um enorme, gigantesco, preconceito com relação aos motociclistas em qualquer lugar. Parte por influência negativa da mídia, que está sempre a reforçar o que tem de ruim e desprezar o que tem de bom. Mas também pelos cidadãos em geral. Os motociclistas, sobretudo os mais simples, ainda são vistos como marginais, trombadinhas motorizados, mesmo quando são trabalhadores. São muito poucas as empresas que investem na qualificação e treinamento desses profissionais porque ainda é visto como CUSTO e não investimento. Ouvi o seguinte depoimento de um executivo: "a gente dá treinamento para o motociclista e depois ele muda de emprego". Sim, mas o treinamento precisa vir acompanhado de uma valorização do profissional, dando equipamentos de qualidade, oferecendo motos sempre seguras e bem conservadas etc. E tentar criar critérios de pontuação que premiem os bons com benefícios como folga, adicional no salário, etc. Funcionário bem tratado se mantém na empresa.

 

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Empresas precisam investir na qualificação dos funcionários motociclistas 

 

- As manias absurdas se espalham como catapora em jardim da infância. Basta aparecer um motociclista usando o guidão encurtado para que isso contamine todos os outros. O mesmo vale para a postura e técnicas malucas de pilotagem.

 

- Falta de informação. Eu fico realmente desesperado quando vejo algumas teorias se difundindo sem que ninguém se questione a veracidade. Isso mostra como é fácil manipular o povo. A quantidade de motociclista que pneus riscados ou remoldados é assustadora. E NINGUÉM sabia que essas duas práticas são ilegais. Teve gente que até deu o nome da empresa que remolda pneu de moto! Pô, mas cadê a fiscalização?

 

- Cadê a fiscalização? O Código Brasileiro de Trânsito é um dos mais completos do mundo. Pena que ninguém conhece e se conhece não respeita e se não respeita não é punido. A única punição aplicada pelo agente de trânsito é a multa, que nunca funcionou nem nunca funcionará como ferramenta disciplinadora. É preciso criar, ampliar e botar nas ruas o agente específico de trânsito capaz de fiscalizar, mas também educar. O Brasil tem um código de trânsito rigoroso, mas aos olhos de um marciano que desça em terras brasileiras somos uma terra sem lei. Todo mundo faz o que bem entende, anda onde e como quer, com veículo caindo aos pedaços. É um território livre. Pode mais quem grita mais.

 

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Fiscalização zero... 

 

- Vai piorar. Nem a mais santa das freiras carmelitas acredita que o trânsito vai melhorar no Brasil. Não vai! Em 2020 vamos passar (mais um) vexame perante à comunidade mundial porque será o encerramento da década mundial da segurança no trânsito. E a cerimônia será no... Brasil! Eu quero estar lá para ver o rubor na face dos ministros da Cidade e da Saúde ao apresentarem os números da violência no trânsito. A menos que os dados sejam maquiados (e isso nossos políticos são mestres) a vergonha será acachapante. E todo mundo tem sua parcela de responsabilidade.

 

Não sei qual será o paradigma que fará reduzir os acidentes e vítimas de trânsito, a exemplo da postura diante da crise de água. Mas uma coisa eu já sei: se por um milagre chover sem parar por meses em São Paulo e os níveis das represas voltarem ao normal nós veremos novamente as pessoas lavando o quintal, desperdiçando água porque se tem uma coisa que atinge todo mundo é a falta de memória para as coisas ruins.

publicado por motite às 16:24
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Sábado, 18 de Outubro de 2014

Se liga nessa parada

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(ATENÇÃO: NÃO COPIE E COLE ESSE TEXTO, PUBLIQUE O LINK, SÓ COM AUTORIZAÇÃO PRÉVIA!) 

 

Como entender a frenagem de motocicletas

É difícil, eu sei, porque a maioria das pessoas tem como primeira referência motorizada o automóvel, um veículo relativamente simples de manejar, tanto que muita gente aprende praticamente sozinho. Uma das facilidades é que existe apenas um pedal de freio. O motorista pisa no pedal e tudo se resolve. Mas na moto não. Tem um comando para o freio dianteiro (não mão direita) e um para o freio traseiro (no pé direito). Você nunca se perguntou porque essa diferença? Por que no carro tem um comando e na moto tem dois?

 

Bom, basicamente os freios de moto e bicicleta são separados porque são veículos que se inclinam nas curvas. Para vencer a inércia, que quer jogar todo corpo em movimento para fora da curva, motos e bicicletas precisam inclinar em relação ao plano vertical, sempre no sentido da curva. Se a curva é para a direita a moto precisa inclinar para a direita e vice-versa. Só por causa dessa inclinação os freios precisam ser isolados, porque em determinados momentos o motociclista não pode acionar o freio dianteiro e em outros não pode usar o freio traseiro.

 

Na curva, por exemplo, no uso estradeiro (ou seja, não em competição), se o motociclista aplica o freio dianteiro com força a moto levanta. É o tal efeito "stand-up" que significa exatamente "levantar" em inglês. E ela levanta porque na curva o ideal é manter a maior parte da energia cinética apoiada no pneu traseiro, que é mais largo e tem muito mais borracha em contato com o asfalto. Ao acionar o freio dianteiro parte da energia se transfere para o pneu dianteiro que é mais fino e "pontudo" que o traseiro e para que ele consiga dissipar essa energia acaba levantando a moto. É uma ocorrência totalmente natural e o piloto quase não tem interferência.

 

Já sei o que você está pensando: "mas e nas corridas"? Bom, primeiro você, leitor, tem de entender esse como um artigo escrito para quem vai pilotar nas ruas e estradas. Se eu for me estender a todas as situações (ah, mas e na terra, e na chuva, e na garagem do meu prédio, e no sítio da minha vó) esse artigo vira um livro e eu não quero escrever um livro. Segundo que em corrida é o próximo assunto para outro artigo.

 

Outro motivo para os freios de moto serem isolados é dar ao piloto a capacidade de isolar e equilibrar o quanto de força quer aplicar em cada roda, de acordo com a situação. Aquela velha equação do 70% na dianteira e 30% na traseiro é um rascunho, porque se fosse uma regra as motos deveriam ter manômetros nas manetes e pedais de freios. Quando chegasse a 70% pára de frear!

 

Tem situações nas quais o freio traseiro deve ser aplicado com mais força:

 

x) Tipo de moto - Nas motos custom e scooters a maior concentração de massa é no eixo traseiro. Logo o melhor balanço da frenagem é aplicar mais intensidade no pedal. Claro que não significa usar SÓ freio traseiro, mas em baixa velocidade, em uma frenagem programada (você sabe onde quer parar) pode até inverter aquela equação e usar 70% do freio traseiro e 30% do dianteiro. Lógico que numa frenagem de emergência quem manda na parada é o freio dianteiro. Mas esse assunto vou tratar depois.

 

y) Carga - Quando estiver com garupa, seja qual tipo de moto, a concentração de massa adicional no eixo traseiro muda completamente a forma de pilotar. Aliás, eu defendo a teoria que motos super esportivas deveriam ser monopostos, sem permitir levar garupa porque desequilibra demais o conjunto, sem falar no desconforto! Imagine uma super esportiva feita para atingir 299 km/h. Os freios foram dimensionados para essa velocidade e com uma pessoa. Ao incluir uma segunda pessoa toda a moto muda e frear em baixa velocidade vai quase arremessar a garupa por cima do piloto. Quando estiver com garupa, use mais intensamente o freio traseiro porque equilibra a distribuição de energia e os miúdos do piloto agradecem, porque ficam ali espremidos contra o tanque... tadinhos! Aqui também pode inverter a equação e mandar ais de 70% pro freio traseiro e 30 no dianteiro.

 

z) Curva - Esqueça o que oskaras falam nas redes sociais e bate-papo de botequim. Se você meter o mãozão no manete do freio dianteiro no meio da curva a moto vai levantar e seguir reto. Tem vários filmes no Youtube mostrando exatamente isso. Depois do começo da curva, se o piloto tiver de reduzir a velocidade deve usar o freio TRASEIRO, porque ele não produz o efeito "stand-up" e ainda ajuda a trazer a moto mais para o interior da curva. Sim, eu sei o que você está se perguntando: "mas o pneu traseiro não derrapa?". Não, porque com a moto inclinada a uns 35º em relação ao eixo vertical, a área de contato do pneu com o solo praticamente triplica e aumenta o nível de aderência. Esse medo de derrapar vem da época das bicicletas, que tinham um pneu mais fino que bilau de recém-nascido. Na bicicleta se usar o freio com violência no meio da curva vai encher os joelhos de Band-Aids.

 

pneus_impronta.jpg

 (A imagem esquerda mostra o quanto de borracha do pneu dianteiro encosta no asfalto com a moto em linha reta. Na direita o mesmo pneu em curva, repare como aumenta a área de borracha com o asfalto)

Inclinado.png

 (Esta imagem mostra como o pneu deforma na curva e aumenta a área em contato com o asfalto, por isso pode usar o freio traseiro em curva)

 

Emergência é a mãe!

Basicamente existem dois tipos de frenagem de qualquer veículo: a programada e a de emergência. A programada é a mais simples, porque a pessoa já sabe que precisar parar, onde vai parar e só vai modulando os freios e o câmbio para chegar no ponto programado completamente imóvel. Na frenagem programada o motociclista pode reduzir gradativamente as marchas (sempre uma de cada vez porque câmbio de moto é sequencial!), até parar com a primeira marcha engatada. Neste caso o câmbio pode ser usado como AUXILIAR, apenas para manter a rotação do motor, mas não tem a finalidade de ajudar a moto parar, que fique bem claro! (depois vou comentar sobre o "freio-motor").

 

A de emergência é a cabeluda e que gera muita confusão. Pra começar se você teve de frear de emergência é porque não prestou atenção em alguma coisa. Motociclistas não podem se permitir passar por uma situação de emergência, é quase um atestado de distraído!

 

Em segundo lugar saiba que a frenagem que visa imobilizar o veículo no menor espaço possível é diferente daquela programada que escrevi lá em cima. Aqui você esquece o câmbio e a embreagem e foca nos freios! Existem dois medos no momento da frenagem forte: o de forçar demais o freio dianteiro e a moto capotar ou o de exagerar no freio traseiro e a moto derrapar. Como se vê, motociclista é bicho medroso à toa, porque se fizer tudo certo nem vai capotar nem vai derrapar.

 

O medo de capotar vem da bicicleta, que realmente capotava e essa descoberta marcou a memória e a pele de muita gente. Mas lembre que as bicicletas eram muito leves, não tinham suspensão e a gente ficava lá no alto do selim. Totalmente diferente da moto.

 

Vou dissecar essa coisa toda. Começando pela derrapagem da traseira. Na verdade é fruto do EXCESSO do freio dianteiro. Como você aprendeu aquela equação dos 70% na frente vai lá e alicata a manete de freio com fervor. A frente afunda, a traseira levanta e nessa hora, se pensar em pisar no pedal do freio traseiro a roda trava mesmo. Portanto, ou você começa pelo freio traseiro e depois dianteiro ou os dois ao mesmo tempo. Se juntar no dianteiro primeiro vai dar caca. Se perceber que a roda traseira começou a travar solte o freio traseiro e mantenha a frenagem só no dianteiro.

 

Quanto à capotagem, só rola mesmo se a moto tiver muito poder frenante ou se jogar 100% da carga no freio dianteiro com a fúria de um rottweiler esfomeado. Se usar os dois ao mesmo tempo ou começar pelo freio traseiro a chance de algo de errado não dar certo é menor.

 

Ou uma coisa ou outra.

Outra diferença com os carros é que graças aos sistemas anti travamento ABS é possível frear e desviar ao mesmo tempo sem perder o controle. No carro... que maravilha. E nas motos?

 

Quando você freia em linha reta, a resultante da energia frenante cai diretamente no pneu dianteiro. Mas se frear e inclinar a moto - pra desviar - ao mesmo tempo, a resultante da energia sai da linha do pneu dianteiro e a chance de a roda dianteira perder aderência é muito grande. Além disso, ao jogar carga na roda dianteira a moto perde capacidade de inclinação (o tal stand-up). Portanto, mesmo nas motos com ABS o piloto precisa pensar e agir rápido: ou freia ou desvia, porque as duas coisas ao mesmo tempo não funciona!

 

freiareto.jpg

 (Freando com a moto em pé a energia coincide com o pneu dianteiro)

freiainclinado.jpg

 (Com a moto inclinada a resultante cai fora da linha do pneu e a frente vai embora...) 

  

IMPORTANTE: Seja qual for a situação - lombada, buraco, animal - se perceber que não vai conseguir parar antes do obstáculo solte os freios, levante um pouco do banco da moto e espere a pancada! Quando a moto freia a suspensão dianteira afunda e o curso vai quase a zero. Nesse momento, se a roda dianteira impactar num buraco ou lombada, não haverá curso de suspensão para dissipar a energia e a pancada na roda dianteira vai ser desastrosa a ponto de até quebrar a roda.

 

Freio-motor que diabéisso?

Antes de mais nada vamos esclarecer as coisas. Motor é motor; freio é freio e eles tem finalidades bem diferentes. Freio não é feito para acelerar e motor não foi feito pra frear.

 

Quando se escreve (ou fala) de forma técnica sobre um assunto é preciso tirar da frente as crendices populares e o achismo. Por exemplo, se eu disser numa roda de amigos que a Terra é redonda ninguém questiona; mas se eu entrar em uma sala de aula de astronomia ou astrofísica e falar que a Terra é redonda eu serei jogado pela janela. Porque não é! Ela tem o formato geóide, quase elíptico. Essa é a diferença entre conversar na rua e dar aula, é preciso dar os nomes certos às coisas e fenômenos.

 

Já escrevi várias vezes que não existe o "freio-motor", porque essa expressão está ERRADA! É o mesmo que classificar a terra como redonda! Só que muito cabeça de pudim saiu por aí escrevendo que o "professor falou que não existe freio-motor, que retardadinho...".

 

Portanto vamos esclarecer esse trem duma vez. A expressão freio-motor é usada por caminhoneiros, pelo nossos avós, pelo motorista do trator, pelo motorista do ônibus etc. Mas em veículos leves (motos inclusas) o termo correto é EFEITO REDUTOR. Que pode ser resultado do motor e câmbio atuando ao mesmo tempo. Se você quiser continuar chamando de freio-motor, vai fundo, todo mundo diz que a Terra é redonda e tá vivo até hoje, só não venha escrever por aí que isso está certo!!!

 

Explicando mais fundo: tudo gira em torno dos significados de cada ação. Frear está implícita a idéia de parar, imobilizar. Quando o economista afirma que vai frear a evasão de divisas, não quis dizer que vai diminuir, mas parar mesmo! Já a expressão reduzir está implícito o conceito de diminuir, desacelerar. Se o objetivo for PARAR não adianta reduzir marcha, porque só aumenta o espaço de frenagem. Se a idéia for DIMINUIR a velocidade aí sim, a redução de marcha ajuda.

 

Já sei o que você está pensando: "mas o Valentino Rossi disse que usa o freio-motor pra frear lá dentro da curva". Ah é? ele disse isso mesmo em português? Ou em italiano que foi traduzido pro inglês e depois pro português? A reduzida de marcha em competição não tem objetivo de parar a moto, mas de auxiliar na frenagem, mas acima de tudo dar rotação para o motor na saída da curva. Motores de competição usam sistemas eletrônicos que controlam a atuação da embreagem na hora das reduções. Imagine um motor daqueles, de mais de 300 CV, com taxa de compressão altíssima, se o piloto acelerar tudo e tirar a mão do acelerador de uma vez a roda traseira até trava (como nas clássicas Honda CB 750Four dos anos 70).

 

Para evitar esse travamento a embreagem desliza mais ou menos, ao gosto do freguês para atuar na redução. E aprendam uma coisa, caras-pálidas, nem tudo que funciona em motores de competição dá certo na rua!

 

Ainda sobre o EFEITO REDUTOR eu costumo fazer um desafio no curso SpeedMaster: convido os alunos a darem uma volta inteira na pista sem encostar nos freios, usando só o motor e câmbio. É um sufoco danado, mas ajuda a curar uma doença chamada "frenite aguda" que é a mania de usar exageradamente os freios. O divertido é perceber o ar de surpresa ao descobrir que dá certo!

 

Portanto, se ouvir que a moto tem três freios: o dianteiro, o traseiro e o freio-motor, cuidado, porque esse terceiro só reduz, ele não pára!

 

Nos Estados Unidos, onde se usam carros com câmbio automático há séculos, eles tem uma explicação simples para esquecer essa bobagem de "freio-motor". Segundo eles, é muito mais barato, simples e rápido trocar as pastilhas de freio do que os anéis do pistão, então por que cazzo usar o motor pra frear?

 

Só recapitulando, a frenagem de emergência, que visa IMOBILIZAR o veículo no menor espaço, deve ser feita acionando os dois freios ao mesmo tempo (ou começando pelo traseiro, depois o dianteiro), sem reduzir marcha e só acionando a embreagem no finalzinho para o motor não apagar.

 

É importante acionar a embreagem no final porque se o motor morrer quem pode morrer junto é o motociclista. Imagine uma via de tráfego intenso e de repente um carro pára. A moto consegue parar, mas o motor apagou e quando o motociclista olha pelo espelho percebe a frente de um carro crescendo rapidamente e fumaça branca saindo pelos pneus! Se o motor continuar funcionando é só acelerar e sair da frente do doido!

 

No próximo episódio vou detalhar a frenagem no modo "racing", inclusive acabando com outro tabu: o do freio traseiro nas pistas!

 

 

publicado por motite às 23:53
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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

A segurança higiênica

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Houve um tempo que se morria por falta de higiene. Não existia esgoto, o lixo era jogado nas ruas, as pessoas não tomavam banho com frequência e as doenças pipocavam em pragas que atingiam caráter epidêmico como a peste bubônica, que no século 14 causou a morte de 75 milhões de pessoas na Europa.

 

O controle de pragas e o conceito de sanitarismo praticamente acabaram com a possibilidade de uma pandemia como a que varreu 1/3 da população européia 700 anos atrás. Hoje a epidemia que desafia a humanidade é a morte por acidente, seja no trânsito ou no trabalho e que vai exigir a mesma filosofia de combate aplicada nas doenças transmissíveis: a prevenção, que gerou a famosa frase "é melhor prevenir do que remediar".

abtrans.jpg

Neste mês de outubro participei da FISP 2014, uma feira internacional voltada à segurança e prevenção de acidente no trabalho. É quase 100% dedicada a empresas que produzem equipamentos ou fornecem serviços na área de segurança no trabalho. Participei com a Abtrans, empresa especializada em segurança do trabalhador, mas com uma enorme diferença: éramos o único expositor focado na segurança antes e depois do expediente!

 

Como se sabe há décadas, os acidentes de itinerário entre casa-trabalho-casa entram nas estatísticas de acidente de trabalho. E as vítimas recebem indenizações tanto da empresa quanto do Estado, dependendo do tempo de afastamento. No entanto entre as 700 empresas que participaram direta ou indiretamente dessa feira a Abtrans era a única voltada à segurança viária, aquela do ir e vir do trabalho.

 

Nesta feira, que é bienal, tive a oportunidade de conversar com vários especialistas em segurança no trabalho e o resultado dessas entrevistas (jornalista não conversa, entrevista) foram algumas pílulas de segurança:

 

- A preocupação com segurança no trabalho atingiu o ponto de quase uma paranóia. Desde o piso anti stress até equipamentos e sensores ultra modernos, existe uma cadeia de produtos que movimenta uma enorme quantidade de dinheiro. Prova de que o investimento na prevenção, apesar de parecer grande, é muitas vezes menor do que o gasto com indenizações por afastamento.

 

- Desde uma simples reforma em casa, até o trabalho em enormes usinas a preocupação com a segurança deve permear toda ação. Pena que essa preocupação ainda se limite ao perímetro do local de trabalho.

 

- O custo de um afastamento do trabalho não é só a indenização salarial, mas vai muito além: um funcionário a menos em uma linha de montagem pode atrasar a produção, mesmo que seja substituído. Causa problemas muito maiores do que só perdas materiais. Segundo uma diretora industrial, demora alguns dias até a linha voltar ao ritmo normal e afeta diretamente a produção.

 

- O impacto psicológico que um acidente - sobretudo fatal - causa no ambiente de trabalho demora muito tempo para ser absorvido. Em alguns casos é preciso trabalhar com psicólogos para retomar o ritmo normal.

 

- Centenas de jovens estudantes estão investindo na carreira de técnico de segurança no trabalho, que pode vir a ser um campo ainda em expansão nos países em desenvolvimento. Mas, conversando com o presidente de uma empresa multinacional ouvi a seguinte teoria: "a segurança no trabalho será um conceito tão arraigado quanto a higiene; ninguém precisa falar para tomar banho ou escovar os dentes, todo mundo aprende isso desde criança e pratica. Com a segurança a tendência é todo mundo aprender e praticar sem necessitar de um técnico. Hoje nos países desenvolvidos existe a auto-regulamentação espontânea: o colega chama a atenção de quem está se expondo a risco". Bingo é isto!

 

Já escrevi algumas vezes que em alguns países europeus existe essa auto-regulamentação inclusive no trânsito. Motoristas são advertidos por pedestres, que são advertidos por ciclistas que recebem bronca de motociclista e todos dividem a responsabilidade pela segurança da coletividade! E, ao contrário do que acontece no Brasil, ninguém considera a bronca como "tomar conta da vida alheia", pelo contrário, respeitam e agradecem.

 

Pena que essa consciência de segurança ainda não atingiu a mobilidade. A forma como os trabalhadores vão e voltam do local do trabalho ainda é tratada como uma questão secundária. Quem nunca viu caminhões da Prefeitura transportando funcionários na caçamba? Quem garante que ao usar o ônibus fretado da empresa o funcionário usa o cinto de segurança? Quem fiscaliza se os veículos particulares (carros, motos ou bicicletas) usados pelos funcionários estão conservados?

 

E anote aí para cobrar depois: com o incentivo ao uso das bicicletas o número de acidentes pode aumentar porque não estou vendo investimento na instrução desses ciclistas que, por enquanto, percorrem ruas e avenidas como se não houvesse regra.

 

Nos últimos cinco anos o Brasil apresentou um dado alarmante, com média de mais de 55.000 mortes/ano. O que pouca gente sabe é que só se considera tecnicamente "morte no trânsito" a vítima que vai a óbito no local do acidente. Se for transferida para o hospital essa vítima não entra na estatística fatal. Portanto esse número é muito maior e mais assustador. É uma epidemia, claro, porque não se conhece uma doença que provoque 55.000 mortes por ano no Brasil.

 

Acredito que um dia a segurança pessoal chegará ao mesmo patamar de naturalidade da higiene, como previu o presidente da multinacional. Mas até lá é preciso investir na informação e qualificação. Segundo dados de especialistas em segurança de trabalho, para cada um real investido na qualificação e prevenção são economizados quatro reais em indenização.

 

Portanto, se não for pela fator humanitário, que seja pelo financeiro!

 

 

 

publicado por motite às 23:51
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Peanuts

abtrans.jpg 

(Ó nóis da FISP)

 

Já que estou sem inspiração para escrever nada muito comprido, aqui vão algumas notinhas da semana na forma de amendoinzinhos!

 

Moto do Ano

Rolou a festa de 40 anos da revista Duas Rodas em conjunto com a Moto do Ano. Baita festa, comidinhas e bebidinhas e todo mercado reunido sob o mesmo teto. Ótima oportunidade para catar aqueles caras que não respondem meus e-mail e dar um "qualé" ao vivo!

 

Honda, Yamaha, Kawasaki, BMW e Triumph ganharam prêmios. A moto mais da hora eleita pelos jurados foi a nova Kawasaki Z-1000 que achei com cara de Transformer. A festa é legal, aquela babação de ovo de sempre e eu nunca na minha vida soube de alguém que tivesse decidido comprar uma moto (ou carro) porque venceu algum concurso "qualquer-coisa-do-ano". Por isso é um evento para deleite dos fabricantes mesmo.

 

Outro destacável foram as duas bailarinas do Faustão autografando o pôster de borracheiro chique. Claro que entrei na fila duas vezes... Já gafe do ano foi a tentativa de fazer graça da apresentadora Glenda Koslowski. Alguém precisa pedir pra ela maneirar nas piadas... mas só a visão dela já compensa.

Como foi em São Paulo, sugeri criar a categoria "Moto Mais Roubada do Ano", mas minha idéia foi severamente rechaçada.

 

FISP 2014

Com a Abtrans estou participando da FIPS - Feira Internacional da Proteção e Segurança - no Espaço Imigrantes, em São Paulo. É a mais importante feira de segurança no trabalho do mundo. Isso mesmo! do mundo todo!!! Vem gente de tudo que é lugar pra ver capacetes, bouldries, cordas, vestimentas, guindastes, extintor de incêndio de todo tipo e tamanho, roldanas, mosquetões etc etc etc. Todas as mais de 300 empresas do setor que se preocupam com o acidente de TRABALHO. Mas a única empresa expositora que se preocupa com a segurança ANTES e DEPOIS do trabalho somos nós! E percebi que esse tema ainda é tabu. Parece que o funcionário não existe antes e depois do expediente. É bom cair a ficha desses gerentes de RH e cipeiros porque a lei trabalhista está para mudar em breve e o SUS está pedindo para que as indenizações por acidente de percurso sejam responsabilidade integral da empresa. SUS precisa cuidar de gente doente e não de jovens machucados em acidentes de trânsito. É aquele círculo vicioso: o Estado não ensina, não fiscaliza e depois reclama de pagar a conta dos remendos...

 

Abraciclo

E também foram apresentados os (assustadores) números de vendas de motos nos primeiros nove meses. A coisa ainda está esquisita, com o maior segmento (motos até 500cc) em queda livre por causa da Copa do Mundo, das Eleições, do rebaixamento do Palmeiras, da margem de erro do Ibope, etc. Seja qual for o motivo como tudo na vida esses números tem dois lados: se cai num segmento cresce em outros. Os scooters tiveram um aumento de 35% em relação a 2013 em função da chegada da Honda PCX 150 (16.786 unidades). E a categoria acima de 450 cc deu um salto também provocado pela chegada da linha 500 da Honda (9.000 unidades somando todos os modelos). Como se vê a marca da asinha ainda dita o humor do mercado.

 

Agora dois dados chamaram a atenção: a brutal corrida ladeira abaixo da Suzuki, que perdeu nada menos que 47,6% de mercado em relação a 2013 e a escalada fantástica da Triumph que ganhou 74,4%. Tudo bem que a base da inglesa era muito baixa mas fala se você não tem visto mais Triumph nas ruas? A Yamaha conseguiu crescer 7,6%, pouco mais que a BMW (6,6%) e a Honda caiu 11,5% praticamente a mesma queda da Harley-Davidson. Aliás, a Yamaha conseguiu sair dos eternos 10% para chegar em 13,5% do mercado, um ótimo sinal, que continue assim!

 

Em suma, se quer investir no mercado de motos foque nos scooters e nas motos grandes.

 

 

publicado por motite às 10:31
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