Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Bola no pé... errado!

 

Quis o destino que eu nascesse no Brasil. E bem entre as duas primeiras conquistas da Copa do Mundo de Futebol entre 1958 e 1962. Nasci no momento mais futebolístico do País. E ainda vi a Copa de 1970 inteira, com transmissão ao vivo e em cores! Foi uma explosão de alegria tão contagiante que só conseguia me imaginar sendo jogador de futebol.

 

Minha carreira não deslanchou pelo motivo mais elementar possível: eu jamais consegui jogar futebol. Até tentei, afinal era uma instituição nacional e vivíamos o momento de maior ufanismo da história. Pra frente Brasil, salve a Seleção!

 

Hoje se alguém cantar "Noventa milhões em ação" já vão desconfiar que é desvio de verba e acabar em CPI.

 

- Senhores, acabamos de descobrir que foram desviados 90 milhões!

 

- Como? Verba de campanha?

 

- Não, parece que foi em ações ao portador...

 

Cresci na fase de ouro do futebol brasileiro, mas sempre fui uma verdadeira negação neste esporte. Para complicar nasci corintiano na época que o time passou 23 anos sem conquistar um título. Quando eu tinha entre 6 e 12 anos de idade a frase que eu mais odiava a ponto de querer matar era "Ah, você nunca viu seu time ser campeão"... culpa do Santos e do Pelé!

 

Até frequentei estádios, vi jogos ao vivo, conheci jogadores porque meu pai, ex-jogador, conhecia todo mundo. A gente chegava nos estádios e os porteiros cumprimentavam, deixavam entrar sem pagar e ainda descolavam um lugar especial. Vi treinos no Parque São Jorge, fui sócio do Corinthians, mas não conseguia jogar futebol nem por mágica.

 

Para minha sorte, em 1972, o Emerson Fittipaldi foi campeão mundial de Fórmula 1 e o automobilismo entrou para o cardápio de paixão nacional. Eu estava a salvo! Podia falar de outro assunto que não tivesse bola no meio e nunca mais assisti um jogo de futebol no estádio.

 

Na escola ainda era um inferno, porque os meninos eram praticamente obrigados a jogar futebol. Eu tinha vontade de gritar "eu odeio futebol!!!", mas isso soaria pior que comunismo. E olha que a época era especialmente perigosa nos temas políticos.

 

Era constrangedor me ver jogando. Eu corria de um lado pra outro rezando pra ninguém me passar a bola e se por acaso ela aparecesse na minha frente dava um chute de bico e mandava pro espaço. Como todo jogador sem jeito, minha sina era ir para o gol, o que piorava ainda mais. Jogando bola eu era tão ajeitadinho quanto uma casa de taipa. Até que o professor de educação física decidiu me tirar do time antes que eu acabasse morto e levou para a equipe de salto.

 

Magro como um maratonista etíope, até que fui bem nos saltos triplos e consegui me livrar pra sempre do futebol!

 

Quer dizer, não totalmente, porque na faculdade surgiu essa ideia idiota de jogar futebol. Eu queria dizer que não gostava, mas era como um americano subir no Empire State e gritar que odeia basebol ou basquete!

 

Depois de muita insistência fui jogar uma "partidinha só de brincadeira, entre amigos, colegas da classe, sem pressão, bla-bla-bla...". Saí do jogo com três dedos do pé direito quebrados! E só tinha amigos... jurei nunca mais jogar futebol.

 

Muitos anos se passaram, mas muitos mesmo, até que descobri na escalada o esporte da minha vida. Durante a semana escalava na academia e fins de semana na rocha. Em pleno século 21 as pessoas deixaram de tratar o futebol como o único esporte do mundo e no universo de escaladores menos ainda.

 

Até que surgiu alguém com a proposta de jogar futebol society uma vez por semana. Como era quase todo mundo ruim de bola, alguns péssimos e outros piores ainda, o futebol virou muito mais uma diversão do que um jogo. Também uma forma de não virar monoesportista só vivendo de escalada.

 

Tudo bem, tínhamos alguns ótimos jogadores, até com passagem por times oficiais e algumas mulheres - isso mesmo, mulheres, nosso futebol era misto - que jogavam tão bem que as outras quadras paravam para vê-las.

 

Depois íamos para uma lanchonete repor todas - e mais algumas - calorias gastas e rir muito das jogadas desengonçadas de pessoas com uma relação muito estranha com as bolas.

 

Péssimo como sempre, eu ainda jogava com um monitor de frequência cardíaca, regulado para apitar com 180 batimentos por minuto, por recomendação médica. Toda vez que meu relógio apitava os outros jogadores gritavam:

 

- Pára todo mundo que o tiozinho vai morrer!!!

 

Muito engraçados...

 

Não morri, mas ninguém me passava a bola porque sabiam que seria um desastre, mesmo assim levei a sério e comprei chuteiras, meias, camisa, caneleira tudo oficial. Antes dos jogos, durante o aquecimento, meus amigos tentavam me ensinar a chutar, driblar, correr com a bola, mas tudo em vão. Cachorro velho não aprende truque novo.

 

Até que uma noite houve um milagre.

 

Tudo começou com um escanteio pela direita. Meu colega fez sinal para eu correr para a área e obedeci. Ele jogou a bola que veio direto na direção da minha cabeça, bateu na minha testa e entrou no gol. Gol? Goooooooool...

 

Meu time explodiu... de rir! Até o goleiro adversário ajoelhou porque não conseguia parar de rir. Na verdade não foi um gol, foi uma encaçapada, porque usaram minha cabeça de tabela.

 

Quando conseguiram parar de rir reiniciaram o jogo. No segundo tempo eu estava parado quietinho na ponta direita, esperando meu batimento cardíaco diminuir e a bola apareceu bem na minha frente. Corri com ela pra perto da área, vi que o goleiro estava meio adiantado e chutei, de bico, entre ele e a trave. Gooooooooool, de novo!!!

 

Saí pulando pra comemorar, mas vi que os jogadores adversários estavam rindo de novo. E brigando com o goleiro:

 

- Pô, Minhoca, isso é hora de falar no celular???

 

- Ah, quando celular tocou vi que a bola estava com o Tite e atendi. Nunca imaginei que ele fosse chutar, muito menos acertar!

 

Desmoralizado com meu segundo gol acidental continuei correndo de um lado pro outro e tomamos um gol de empate. Faltava pouco para acabar e fui para o meio de campo dar a saída. Coloquei a bola no círculo central e falei pro meu companheiro:

 

- Só rola a bola...

 

Vi que o goleiro estava totalmente desatento e adiantado e mandei um bico na bola com toda raiva do mundo. Aconteceu o milagre. Ela fez uma parábola, uma curva totalmente doida, o goleiro se esticou todo mas a bola  entrou no gol bem no ângulo. Ninguém se mexeu. Silêncio total. Fiquei mudo só refazendo mentalmente o que tinha acabado de acontecer. Alguém correu pra mim aos berros:

 

- Golaaaaaaaaaaaço, gênio!!! Nem Pelé conseguiu isso!

 

Passado o susto de ter feito um gol de verdade tive uma crise histérica de riso e delirei imaginando que o mundo tinha perdido um grande jogador. De qubra meu time ganhou de virada.

 

Foram os únicos três gols da minha carreira como jogador. Nunca tinha feito nem um gol sequer e foram logo três em uma partida. Continuamos jogando por mais alguns meses até que algumas brigas por conta do calor da disputa acabou com nossas peladas. Pelo menos não passei pela vida sem fazer meu gol do meio do campo! Nem Pelé fez...

publicado por motite às 21:41
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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

Por um plus a menos

 (Ah a simplicidade de um cachorro quente com apenas pão, salsicha e mostarda!)

 

Não existe povo que mais capricha do que o brasileiro. Brasileiro coloca queijo na pipoca pensando que vai dar um gostinho especial e deixa com cheiro de meia suja. A pizza foi inventada para ser uma massa redonda de pão com recheios simples e de fácil digestão como molho de tomate, mussarela e uma singela folha de manjerona. Ah, mas brasileiro não aceita ser simples nem singelo. Brasileiro instala aerofólio em Chevette e precisa sofisticar a pizza que vem com oito tipos de queijos - que não combinam, lógico - uma boa porção de picanha, salpicada de coentro, maionese e o cliente ainda acrescenta mostarda e catchup.

 

Juro que não sei a origem dessa mania de querer sofisticar as coisas. Talvez esteja no sangue, tipo a genética do puxadinho. Começa com uma casa simples e termina cheia de puxadinhos por todos os lados como uma ilustração do Maurits Escher.

 

Já virou mania incluir cream cheese no sushi com peixe. Desde o milagre da multiplicação dos pães e peixes se sabe que peixe nunca combinou com queijo. Não harmonizam, que nem chantilly com costela de porco. Peixe combina muito bem com o arroz especial de sushi e alga. Mas aí veio a sofisticação brasileira e acrescentou primeiro a maionese, depois o maior dos sacrilégios: um temaki de atum com cream cheese, maionese, cebolinha, salpicado de gergelim. Só falta o catchup e mostarda.

 

Aliás, os portugueses e espanhóis morreram para buscar especiarias em rústicas embarcações no século 15, só para disfarçar o gosto de podre das carnes que eram mal conservadas sem a geladeira de hoje. O tempero nasceu para disfarçar o gosto. Se o cozinheiro errar a mão do tempero tudo fica com gosto de... tempero! Acrescentar queijo fundido em peixe cru faz o temaki virar um grande X-tudo!

 

Experimente pedir uma Coca-Cola em qualquer cidade do Brasil e o garçom em vez de virar as costas e buscar o refrigerante pergunta "gelo e limão?". Mesmo que responda em voz clara, alta e com a fonética perfeita que NÃO, seu copo chegará com uma rodela de limão dentro. Porque é mania nacional sofisticar o que é simples. É o plus a mais do refrigerante. Limão é um dos mais poderosos aromatizantes da natureza. Uma gota de limão em 25 quilos de mashmallow vai fazer tudo parecer torta de limão. Assim mesmo, por mais que implore, seu copo virá com a rodela de limão porque isso já se tornou uma instituição nacional. Aqui, Coca-Cola só é servida com uma rodela de limão e guaraná com uma de laranja. Não tente lutar contra.

 

Talvez seja uma herança da indústria automobilística que inventou os assustadores "opcionais". A título de customização, a loja oferece um carro pelado e vai anotando o que o cliente deseja. Na primeira vez que comprei um carro zero km na vida, lá no final dos anos 70, a vendedora mostrou as opções e escolhi o modelo mais simples porque a ideia era transportar kart, ferramentas, pneus e seria uma oficina ambulante. Aí começou:

- Vai querer rádio?

 

- Não!

 

- Vai querer tapetes?

 

- Não!

 

- Vai querer rodas?

 

- Bom, se eu não quisesse rodas compraria uma lancha!

 

- Eu quis dizer rodas opcionais!

 

- Pode ser essas originais mesmo, redondas, com três parafusos. E se vierem acompanhadas dos respectivos pneus seria melhor ainda. Bem simples como o resto do carro.

 

Finalmente ela entendeu e eu saí feliz com a versão mais pé-de-boi de uma Belina II 1978. Zero km!  

 

Em qualquer lugar do mundo o cachorro quente, hot-dog, sempre foi pão, salsicha e mostarda. Simples como bicicleta Caloi Barra Forte. Uma salsicha dentro do pão e pronto. Mas aqui no Brasil nada pode ser simples e começou a sofisticação: batata palha, purê de batata, molho vinagrete, queijo fundido, maionese, lascas de arenque defumado da Normandia, fatias de trufas brancas do norte da Escócia, champignons da Aix en Provence e um cream cheese de leite de iaque da Letônia. Simples assim!

 

Curioso é a cara de espanto quando viro para o dono do trailer e digo "Apenas pão e salsicha". É mais fácil acreditar que tem um disco voador descendo atrás dele do que um cliente pedir um hot dog com apenas pão e salsicha. Sempre vem acompanhado de um "nem batata frita? nem vinagrete? nem um purêzinho?".

 

O olhar de decepção é o melhor de tudo...

 

Parece que existe uma competição nacional pelo cachorro quente com mais recheios variados ou a pizza com a maior quantidade de ingredientes jamais assada no mundo. Eu defendo ferozmente a volta da simplicidade do cachorro quente. Nada além de um pão, uma gorda salsicha de qualidade e mostarda igualmente de ótima qualidade e fresca. Nada mais, nem menos. Como a vida deveria ser: simples, sem purê, nem milho cozido, ervilhas, nada. Com a mesma simplicidade que a vida merece ser tratada.

 

publicado por motite às 17:24
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Mentiras verdaderias

 (Você confiaria nesse médico?)

 

Não é de hoje que existem hoaxes

 

Acreditar em hoax, ou embuste, em inglês, não é privilégio dos frequentadores de redes sociais de hoje. Muito antes de Orkut e Facebook a gente chamava isso de mentira mesmo, ou lendas urbanas, como a loira do banheiro, as agulhas infectadas com vírus da AIDS em telefone público e outras inverossímeis como novela. No tempo dos meus pais a gente ouvia dizer que manga com leite era fatal e nunca demos a menor importância a tudo isso. Servia apenas para ter assunto nas rodas de amigos.

 

Algumas dessas lendas vinham acompanhadas de comprovação científica por doutores de instituições sempre de locais tão distantes quanto desconhecidos como a Universidade de Ciências Intestinais de Zirl, na Áustria.

 

Nos anos 80 a informação caminhava na velocidade dos jornais, rádios e TVs. Foi nessa época que uma amiga muito querida recebeu a notícia que estava com um enorme câncer no útero. Mesmo depois de retirar o útero as células já tinham espalhado e sua sobrevivência dependia de doses desumanas de químio e radioterapia.

 

Foi um choque para todos porque ela era uma espécie de líder da turma. A mais velha, mais bonita, inteligente e com um componente que mexia com a cabeça dos homens: pilotava aviões. Enquanto viajávamos de carro ou moto para a Ilhabela, litoral norte de São Paulo, ela chegava de avião! Chique, sexy e refinada.

 

Ninguém queria acreditar que ela estivesse sofrendo daquela forma. A quimioterapia provocava enjôos cruéis e ela passava muito tempo comendo e vomitando. Aquilo acabava com a alegria de todo mundo.

 

Foi então que li na conceituada revista Veja uma notícia na editoria de Ciência que prometia mudar aquela situação. Pesquisadores de uma universidade no interior dos Estados Unidos descobriram que a maconha cortava o enjôo da quimioterapia e que essa experiência havia aberto a discussão pela aprovação do uso medicinal da maconha.

 

Liguei para um amigo, grande consumidor da planta boliviana, e contei da necessidade. Como a maioria dos homens da turma, ele era apaixonado pela nossa amiga doente e rapidamente reuniu os amigos mais chegados para providenciar o medicamento. Conseguiu uma quantidade absurda do remédio 100% natural. Entregou nas minhas mãos um pacote prensado que devia ter cerca de meio quilo.

 

- Não precisa tudo isso! argumentei

 

- Ah, não sabemos quanto tempo vai levar o tratamento e uma parte você usa para subornar médicos e enfermeiros! Esses caras são tudo doidão, dããã...

 

- Sei não, mas pela maresia que está no seu apartamento prefiro acreditar que minha vida não depende de tantos doidões.

 

Surgiu o impasse: quem transportaria o medicamento, entraria no controladíssimo Hospital dos Servidores Públicos e ministraria a dose à paciente? Foi quando todos os olhos se viraram para mim!

 

- Mas por que eu??? Protestei.

- Porque você é o único careta da turma e ninguém vai desconfiar! qualquer outro que entrar naquele hospital vai estar escrito na testa "sim eu fumo maconha, e daí"...

 

Tínhamos de arquitetar um plano para transportar, não ser pego pela polícia com meio quilo de maconha, entrar no hospital em dia e horário proibido às visitas, enrolar o medicamento, acender, fazer a paciente fumar, analisar os efeitos, sair e tudo isso sem ser preso. Coube a mim... como sempre!

 

(Você desconfiaria dessa moto?)

 

Primeiro desafio: transportar a mercadoria. Eu tinha uma Honda CB 400Four que era o meio de transporte mais indicado para a operação Cannabis es Medicum. Analisei a moto de eixo a eixo e não conseguia imaginar onde esconder o remédio. Abri o banco e quando olhei pro filtro de ar veio a resposta. O pacote tinha exatamente o tamanho do filtro de ar. Retirei a peça, entreguei pro meu amigo e coloquei o pacote de maconha na caixa do filtro de ar, com o cuidado de deixar espaço para o motor "respirar". Encaixou perfeitamente.

 

Segundo desfio: entrar no hospital. Eu já tinha trabalhado em hospital e sabia o grau de esculhambação de gente entrando e saindo. Conhecia bem aquela rotina. Peguei um jaleco branco, surrupiei a malinha de médica da minha irmã, com crachá e tudo, colei minha foto com um baita cabelo de cantor de rock e lá fui pro hospital.

 

No caminho senti que a moto estava falhando, mas atribuí ao pouco ar que estava chegando aos carburadores. Fui girando apenas um tiquinho do acelerador para não estourar o saco e a maconha entupir os quatro carburadores e seus giclês. Fiquei imaginando aquela erva toda entrando pro motor, sendo queimada junto com a gasolina e eu passando ao lado de um carro da polícia com a fumaça de maconha saindo pelo escapamento que nem um defumador. É claro que nessas horas a gente vê um carro de polícia a cada 50 metros.

 

Consegui chegar no estacionamento do hospital, coloquei o medicamento dentro da malinha de médico, coloquei o estetoscópio em volta do pescoço como fazem todos os médicos. Amarrei o cabelo pra trás e enchi de gumex pra parecer um doutor yuppie e não um traficante colombiano. Fiz o ar superior de médico e fui passando por todas as portarias com meu coração quase saindo pela boca.

 

Subi o elevador e fui andando pelos corredores rezando alto para nenhuma enfermeira me agarrar pelo braço e gritar "doutor é uma emergência, tem um paciente precisando um cateterismo agora!!!". Se alguma enfermeira me olhasse eu jogava o estetoscópio na cara dela e sairia correndo.

 

Com um tremendo alívio cheguei no quarto. Fechei a porta atrás de mim, ela me olhou, desatou numa crise de riso nervosa e perguntou:

 

- O que você fez com o seu cabelo???

 

Nem se deu conta que eu estava vestido de médico, com uma mala de médico cheia de maconha e um estetoscópio no pescoço.

 

- Vim te medicar... e pára de rir antes que entre alguém!

 

Obviamente que ela não sabia do plano Cannabis es Medicum, mas expliquei do se tratava, citando a reportagem da Veja e convenci a fazer o teste. Assim que joguei o pacote em cima da cama ela gritou, deu um pulo e me agarrou pelo pescoço. Uma aranha preta, enorme, saiu de dentro da maconha e nós dois subimos na outra cama, um agarrado no outro, um gritando pro outro:

 

- MATA ELA, MATA ELA!!!

 

Matei. E fui enrolar um baseado.

 

As portas de hospitais não tem chave. E aquele remédio exalava muita fumaça. Por isso escorei uma cadeira na porta, tampei todos os vãos com toalhas molhadas e entreguei o remédio na forma de um baseado. Seria nosso primeiro medicamento via oral em forma de fumaça. Não conseguíamos parar de rir um segundo o que tornava tudo mais difícil e demorado. Por garantia deixei o balde do lado. Ela acendeu, tragou, tossiu e... vomitou que nem um chafariz da piazza Navona.

 

- Aqueles filhos da puta de americanos queriam mesmo é legalizar a marijuana! Filosofei em voz alta.

 

Não funcionou. O enjôo foi pior ainda.

 

- Talvez se fizesse um chá? argumentei

 

A resposta dela foi outro jato no balde. Achei melhor não tocar mais no assunto.

 

Aproveitei que já estava ali, me ajeitei na cama do lado e cochilei, vestido de médico, com um baseado jazendo no cinzeiro.

 

Claro que nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda mais comigo envolvido. Mal entrei em REM e a porta se abriu, a cadeira caiu e um médico de verdade entrou. Fingi que continuava dormindo e abri o olho bem pouquinho só pra ter a dimensão da tragédia.

 

- Quem é esse médico? Perguntou o médico verdadeiro, apontando pra mim, o falso.

 

- Ah, um amigo, ele deu plantão e capotou... respondeu minha santa amiga, enquanto empurrava o travesseiro pra cima do cinzeiro.

 

- Mas e essa cadeira, essa toalha...

 

- Voooosssshhhh!!!

 

Nada melhor para interromper um interrogatório do que um vomitão no chão!

 

Passado o susto, o médico de verdade saiu, me recuperei, peguei a malinha de médico e dei o fora antes que eu mesmo fosse internado para um cateterismo!

 

O resto do medicamento boliviano foi devidamente doado para os amigos, que aceitaram de imediato. Descobrimos pelo método mais empírico possível que maconha não tirava o enjôo da quimioterapia e minha amiga ainda vomitaria muito. Até morrer 18 meses depois aos 33 anos.

 

No dia do velório, assim que cheguei, encontrei os amigos que tiveram participação naquela operação Cannabis. Tentamos não lembrar detalhes para não correr o risco de uma gargalhada fora de hora. O irmão dela cobrou meu sumiço nos últimos meses. Inventei uma desculpa qualquer. Mas no fundo eu não queria admitir que evitei vê-la definhando, sofrendo, porque eu gostava muito dela. Era um misto de admiração, com respeito, amor, paixão, e eu guardava todo esse sentimento escondido, porque, tímido que sempre fui, nunca tive coragem de dizer para ninguém o quanto eu gostava dela. Foi então que abracei uma tia que me confessou:

 

- Nossa, Tite, ela gostava tanto de você!

 

Por nunca ter dito nada, continuei sem dizer nada.

publicado por motite às 12:38
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

O que nos leva para a estrada

(Pode ser até com garupa... Foto: Hugo Yamamoto)

 

Muita gente nem precisa, mas alguns motivos pra apenas viajar de moto

 

No dia 1º de maio de 1994, logo após a batida forte do Ayrton Senna no muro de Imola, percebi que a situação era grave. Assim que pediram o helicóptero tive certeza que era grave. Vi a corrida até o fim com os olhos na TV e os ouvidos na Rádio Jovem Pan, foi quando realmente soube que o desfecho caminhava para algo terrível. Da mesma forma que uma criança esconde o rosto e acha que ficou invisível, pensei que se desligasse todos os meios de comunicação a notícia não me atingiria. E a única forma de fazer isso foi sair de moto.

 

Peguei a moto e fui pra estrada sem rumo e longe de qualquer notícia, queria curtir as curvas do interior de São Paulo para não pensar em mais nada, apenas sentir o vento no corpo. Logo em seguida descobri que muitos motociclistas usam a moto com o propósito de rodar a esmo, sem direção, nem objetivo, só esvaziar a alma. Percebi ainda que existem vários motivos que nos leva à essa função desestressante da moto. Algo como um divã de analista, mas com várias vantagens como menor custo (apenas a gasolina), mais gostoso (não precisa chorar bem ficar deitado e ninguém culpa tua mãe) e muito, mas muito mais divertido!

 

Por isso enumerei alguns motivos que podem levar um motociclista à estrada com a finalidade exclusiva de relaxar a mente e esquecer a vida. Veja se você já não passou por isso:

 

1)    Você gastou 1.500 reais em um capacete importado super style e uma semana depois a loja começou uma liquidação e vendeu o mesmo capacete por 500 reais!

 

2)     Para impressionar a gatita que acabou de conhecer você oferece a ela o capacete caríssimo que acabou de comprar. E ela deixa cair bem na quina da calçada.

 

 

3)    Finalmente você conseguiu poupar a grana pra comprar a moto do seus sonhos, e um mês depois a fábrica lança uma versão muito melhor, mais avançada, linda e pelo mesmo preço!

 

4)    Você encontra uma caixa de pílula anticoncepcional e entrega à sua esposa, mas ela esclarece que não é dela. E a única outra mulher da casa é sua filhinha de 17 anos querida do seu coração, que ainda ontem você carregava no colo.

 

5)    Você foi promovido para um cargo de muito mais responsabilidade, mais trabalho, com 10 estagiários sob sua gerência, mas o salário continuou o mesmo.

 

6)    Sua esposa acabou de bater o carro, mas felizmente tem seguro. Mas descobre que a habilitação de motorista dela está vencida há dois meses!

 

7)    Sua filha querida do coração passa a noite fora, alegando que dormiu na casa da Marcelinha, a mesma amiga que ligou às duas da manhã perguntando pela sua filha!

 

8)    Duas gatas maravilhosas mudam para a casa geminada à sua e na primeira oportunidade que você se aproxima descobre que elas namoram. Entre elas! E uma delas ainda te convida pro futebolzinho de quarta no time no qual ela joga de zagueira.

 

9)    Seu pai, aos 84 anos, decide deixar tudo que tem para os filhos: um monte de conta atrasada!

 

10) Sua namorada te troca por um cara mais novo, mais forte, mais rico, mais bonito e com uma moto bem maior que a sua!

 

11) Aquela sua prima do interior, gatíssima, safada, sósia da Xuxa avisa que vai passar uns dias na sua casa. E traz o namorado junto.

 

12) Seu filho chega em casa saltitante e diz que teve a primeira experiência sexual. Animado, você diz “senta aí e conta como foi!”. E ele responde: “pô, pai, só que não tô conseguindo sentar!”

 

13) Você esquece o Messenger aberto e foi tomar banho. Sua esposa aproveitou e mandou apenas um “oi” para uma tal Vanessexy. Quando saiu do banho viu a tela do PC partida ao meio.

 

14) É seu primeiro dia de trabalho em uma multinacional e você pergunta para uma secretária “quem é aquele cara ridículo de terno xadrez?” e ela revela: “é seu gerente e meu namorado!”

 

15) Finalmente aquela gata mega sexy aceita o convite pra passar o fim de semana no seu apê na praia. E ela está “naqueles dias”!

 

16) O São Paulo está na final da copa Libertadores da América contra um time argentino e bem na hora do Rogério Ceni cobrar a falta acaba a luz no seu bairro, sem previsão de restabelecer.

 

17) A sua colega de pós-graduação diz que você é um coroa charmoso, em ótima forma e vai te apresentar alguém muito especial: a mãe dela!

 

18) Cede seu lugar no metrô a uma moça fofinha e ainda explica todo simpático “as grávidas têm prioridade”, e ela amarra a cara e diz “mas eu não estou grávida”!

 

19) Resolve gastar uma nota preta num salão de beleza masculino para ficar com a cara do Gianecchini e sai com a cara do Renato Aragão.

 

20) Paga uma de gatinho, calça justa e camiseta descolada em uma rave e encontra seus três filhos e todos os amigos dele!

 

21) Move mundos e fundos para conseguir uma credencial para o GP Brasil de Fórmula 1 na ala vip e acorda domingo com uma tremenda gastroenterocolite (popular diarréia).

 

22) Encontra seu chefe na praia e comenta “que gracinha a sua filha” e descobre que é a amante dele.

 

23) Reencontra seu chefe algumas semanas depois em uma festa da empresa e comenta “nossa como sua mãe é conservada” e descobre que é a ESPOSA dele.

 

24) Depois de perder o emprego você descobre que sua ex-empresa foi fechada porque não depositava o fundo de garantia dos empregados, inclusive o seu.

 

25) Acorda num domingo de sol radiante e decide levar sua namorada para um agradável passeio de moto, mas a chama pelo nome da sua ex.

 

26) Os pais de sua namorada te convidam para um almoço de domingo e servem dobradinha. E você odeia dobradinha!

 

27) Para diminuir o mal estar seu sogro te convida para ver o jogo de futebol na TV e você explica que odeia futebol, que é tudo marmelada, com resultados arranjados e só então descobre que o sogrão é juiz de futebol dos quadros da FIFA.

 

28) Você acorda de manhã e descobre que seu rothweiller devorou os alforjes de couro caríssimos de sua Harley idem.

 

29) Na hora de colocar o cachorro de castigo descobre que suas botas de couro de jacaré também foram dilaceradas.

 

30) O cachorro morre de indigestão!

 

31) Você vota no PMDB para prefeitura da sua cidade, mas quem assume é um histérico do PFL e não faz diferença nenhuma, porque quem manda na cidade é o PCC.

 

32) Esquece o dia do aniversário de casamento. Pela última vez!

 

 

publicado por motite às 13:44
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Uma buzina para mudar

(Muita gente boa partcipou. Foto: Irineu Desgualdo Jr)

 

Motociclistas buzinam para pedir mais segurança

 

Quem estava na avenida Paulista ao meio-dia do domingo, 13 de janeiro, não deve ter entendido nada. No vão livre do MASP um grupo de cerca de 20 pessoas protestava conta o PT e o governo Lula. Mas do outro lado da avenida cerca de 350 motos passaram buzinando, em comboio, sem ostentar cartazes, nem reivindicação aparente. Só um buzinaço que acordou os insones e ressacados da região. Para entender o que foi isso, é preciso voltar mais de 40 dias no tempo.

 

No dia 19 de novembro o jornalista Geraldo Tite Simões foi assaltado a mão armada pela terceira vez em 12 anos. Mesmo modus operandi, mesmo bairro, levaram moto, capacetes, mochila, documentos e telefone celular. A diferença é que no último assalto eles ameaçaram abertamente atirar na vítima. Cerca de 15 dias depois um casal, a bordo de uma Honda CBR 1000RR foi assassinado friamente na avenida dos Bandeirantes em uma tentativa de assalto. Foi a gota d'água!



(Teve gente de todas as tribos. Foto: Irineu Desgualdo Jr.)

 

O jornalista foi para o Facebook e sugeriu uma manifestação no dia 21 de dezembro, na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. A data foi questionada porque era véspera de tudo: Natal, apocalipse, férias e reveillon. Por isso mudou para 13 de janeiro e o resultado foi bem maior do que se esperava.

 

O domingo de 13 de janeiro amanheceu ensolarado, sem a chuva intermitente do sábado, e a adesão foi muito grande. Das mais de 650 pessoas que confirmaram presença pela rede social calcula-se que haviam cerca de 350 motos e quase 400 pessoas. Um número ótimo para um domingo modorrento que ainda coincidiu com a corrida de motos em Interlagos.

 

Por um problema de última hora o evento ficou sem o gerador para o sistema de som. Por isso, foi improvisado um palanque e  Tite fez um pequeno discurso de agradecimento e com o verdadeiro mote do evento: a insuportável condição de reféns de um grupo criminoso que age abertamente em São Paulo.



(Invadimos a avenida Paulista. Foto: Miriam Gleice)

 

Segue um texto com a síntese do teor do discurso:

"Em primeiro lugar queria agradecer a todos pela presença a este encontro que tem por objetivo chamar a atenção das autoridades para o elevado número de roubos e assaltos vitimando motociclistas.

 

Sempre que uma moto é roubada a única vítima que perde dinheiro é o cidadão. O Estado não perde dinheiro porque todos os impostos que incidem sobre o veículo na produção e comercialização já foram pagos pelo contribuinte e eles devolvem apenas parte do IPVA, proporcional ao tempo de uso do veículo. O Município também não perde dinheiro porque as taxas de circulação e comércio já foram pagas. O sistema financeiro não perde dinheiro porque a dívida com o banco precisa ser honrada mesmo se a moto for roubada. A fábrica não perde dinheiro porque a moto já estava faturada para o concessionário e até tem lucro, pois vai vender mais uma. A rede de concessionários também não perde dinheiro porque a moto foi paga pelo proprietário ou pelo banco e também terá de repor essa moto roubada. As polícias não perdem dinheiro, porque não há um sistema de remuneração pela eficiência. As seguradoras não perdem dinheiro porque os valores praticados no Brasil já são absurdamente maiores do que em qualquer outro país do mundo. Algumas motos chegam a ter a cotação equivalente a 1/3 do valor do bem, o que projeta a inacreditável estatística de um roubo a cada três motos seguradas. Além disso, as empresas de seguro simplesmente se recusam a aceitar alguns modelos. Ou seja, no Brasil a atividade de seguradora é 100% segura e lucrativa e não representa risco como nos países normais. Sem falar no DPVAT de moto, que é mais caro de todos os veículos e que não é devolvido em caso de roubo. E tem mais: o leilão de motos sinistradas também alimenta o comércio clandestino.

 

Em suma, de toda cadeia produtiva o único que perde dinheiro com o roubo de moto é o proprietário, o cidadão, o contribuinte. Por isso que não há uma ação específica para combater esse tipo de roubo, porque não afeta o fabricante, nem o Estado, nem os comerciantes, nem os bancos e muito menos as seguradoras.

 

Se o Estado e município perdessem dinheiro trabalhariam para reduzir os roubos. Se as fábricas perdessem dinheiro criariam uma forma de evitar os roubos. Se as financeiras e seguradoras perdessem dinheiro os roubos reduziriam com certeza. Como o único prejudicado é o cidadão, que não tem voz ativa neste sistema, os roubos de motos nunca serão combatidos.

 

O Estado vive anunciado que gasta milhões de reais com os acidentes de motos. Que os leitos de hospitais públicos são ocupados por motociclistas acidentados. Mas quando um motociclista é assassinado durante um assalto a família não cobra do Estado os milhões de reais que essa dor causou. Os filhos que crescerão sem pai não deixarão de pagar os impostos que deverão sustentar os hospitais públicos.

 

A única vítima do roubo de moto é o proprietário. Inclusive quando é assassinado.

 

Mas tem uma cadeia "produtiva" que é a maior beneficiária deste caos na segurança pública: os comerciantes clandestinos, que vendem peças de motos roubadas. Eles atuam em vários segmentos da atividade ilícita, desde o roubo em si, passando pela receptação e terminando na comercialização. Este comércio a céu aberto alimenta a segunda maior vendedora de peças e motos do Brasil: a robauto!

 

O que queremos chamar a atenção com o Buzinaço da Paz é não só cobrar mais empenho no combate ao roubo e na fiscalização sistemática, mas também propor mudanças na forma que são promovidos os leilões de motos sinistradas. Fiscalização pesada sobre as lojas que comercializam peças usadas. Aumento da pena para quem adquire peças roubadas (receptação) e a inevitável alteração na maioridade legal para acabar com os assassinos de 14, 15, 16 e 17 anos!

Mais uma vez obrigado pela presença de todos"



(Ganhei uma homenagem do José Carlos Taddeo. Foto: Irineu Desgualdo Jr)

 

O discurso não foi exatamente esse, mas foi uma adaptação das pautas sugeridas. O roteiro do Buzinaço começou com o encontro na praça Charles Miller, no Pacaembu, seguiu pela avenida Paulista, desceu a Joaquim Eugênio de Lima e estacionou na frente da Assembléia Legislativa. Ocorreu no mais completo senso de responsabilidade, sem ocorrências e a Polícia Militar acompanhou de perto com a presença discreta e constante de um helicóptero.

 

Ao final ficou a certeza de que novos buzinaços serão promovidos, durante a semana, para que a cidade realmente pare e entenda quais são as reivindicações.

 

Agradeço pessoalmente a todos que participaram, que apoiaram, que registraram, aos colegas jornalistas, aos meus alunos, à Soul Moto, que reuniu uma turma, à Associação Paulista de Motociclismo, aos velhos amigos treieiros do Poeira, ao Irineu que acordou cedo pra tirar as fotos! ao José Carlos Taddeo, que fez uma singela homenagem na forma de um troféu simbolizando a Harley-Davidson que roubaram dele, nas pessoas que espalharam o encontro pelas redes sociais e ao Tonhão, um simpático agente do CET que nos ajudou, orientou e deu uma demonstração rara de cooperação comovente.

 

publicado por motite às 17:17
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

Motoqueiro ou motociclista é ponto de vista

(A motoca do Tarcísio Meira)

 

Parece que a humanidade tem uma necessidade vital de criar novos nomes para velhas funções. No universo da motocicleta essa tendência já é observada na classificação dos tipos de motos, passando pela especificidade de cada função. Por exemplo, as motos "nakeds" (nuas, em inglês), que são simplesmente as motos como sempre conhecemos desde a invenção da roda, sem qualquer artifício aerodinâmico. Portanto, não precisava receber nenhuma classificação, porque já a chamávamos simplesmente de... moto!

 

Agora começou a surgir também a identificação do tipo de motociclista. Os proprietários de motos esportivas começaram a se identificar como "bikers", como se isso os fizessem diferentes de outros motociclistas. Já as motos esportivas passaram a ser chamadas de "bikes", que no idioma original significa simplesmente bicicleta! Mas a classificação que mais gera controvérsia, desnecessária, claro, é a de motociclista e motoqueiro.

 

Vou voltar no tempo. Lá nos anos 60, quando as motocicletas começaram a ser vistas como objeto de prazer e não apenas de locomoção nem de facilitação de transporte urbano. Naquela época, no Brasil, as motos eram praticamente brinquedos de luxo, ligadas a uma vida de playboy.

 

No começo dos anos 70, mais precisamente em 1973, a Rede Globo exibiu uma novela chamada "Cavalo de Aço"que tinha uma Honda CB 750F como uma das personagens mais marcantes (pelo menos para mim!), pilotada por Tarcísio Meira. Ela popularizou a moto que chegaria em grande escala até 1976 e o duro golpe da proibição de importação.

 

Neste época as motos eram chamadas de motocicletas só pelo meu avô e seus colegas. A juventude chamava simplesmente de moto ou pelo carinhoso apelido de motoca. Que tinha o componente charmoso de lembrar outra coisa bem cobiçada, as cocotas (que veio do francês cocotte). As minas, as gatas, eram chamadas de cocotas e a associação com motoca foi imediata.

 

Daí que os jovens que saíam com suas motocas à caça das cocotas eram chamados de motoqueiros. Podia ser motoquista, assim como quem trabalha com estoque é estoquista e não estoqueiro. A etimologia da palavra motoqueiro remete exclusivamente à motoca. Para quem gostava de se referir ao veículo como motocicleta, podia continuar se definindo como motociclista e pronto.

 

O termo motoqueiro tinha nada de pejorativo até meados dos anos 80 quando uma revista especializada começou uma desnecessária campanha para separar os recém motociclistas profissionais, que hoje chamamos de motoboys, dos outros que usavam a moto como meio de transporte e lazer.

 

E assim surgiu a diferenciação entre motoqueiros e motociclistas. Segundo essa campanha, os motoqueiros seriam aqueles que demonstrassem um mal comportamento no trânsito, usavam a moto como meio de renda ou donos de motos pequenas, criando uma espécie de "classe baixa" dos donos de motos. Já os motociclistas seriam aqueles que exibiam um bom comportamento, usavam motos grandes, como meio de lazer ou transporte de luxo, pertencente a uma "classe alta".

 

O resultado é isso que temos hoje: uma inútil e fabricada sociedade de classes entre os usuários de motos, muito mais ligada ao puro preconceito do que à língua portuguesa em si. No nosso idioma, os sufixos "ista"e "eiro" se referem àqueles que trabalham ou vivem de alguma atividade. O jornalista trabalha na produção da matéria prima para o jornal, que é a informação. E o jornaleiro é quem vende o jornal. Nenhum é mais ou menos importante que o outro.

 

Em São Paulo o estabelecimento que lava motos anuncia "Lavagem de Motos". No sul do Brasil, lavagem é a palavra usada para comida de porcos, por isso eles anunciam como "Lavação de Motos". E a máquina que está na sua área de serviço é uma máquina de lavar e não de lavagem nem de lavação. Portanto tem muito mais de etimológico do que de sociológico nos termos motoqueiro e motociclista.

 

Pena que o ser humano tem essa necessidade quase vital de criar rótulos e separar os indivíduos em castas. Os proprietários de barco à vela são "contra" os donos de barco a motor e vice-versa. Quem voa de asa delta se acha mais especial do que quem voa de parapente. Todos dividem o mesmo meio, aquático ou aéreo, mas precisam se dividir para ter assunto nos clubes e associações.

 

Voltando aos motoqueiros e motociclistas, não existe esse conceito de que o motoqueiro é bandido e o motociclista é o mocinho. Tudo papo furado, criado por uma imprensa preconceituosa e desinformada. O que existe são bons e maus motociclistas ou bons e maus motoqueiros. Estou cansado de ver donos de caríssimas BMW ou Harley-Davidson furando farol vermelho, rodando na calçada, fazendo conversão proibida, quebrando espelhos retrovisores dos carros, mas que na rodinha de amigos se proclama motociclista e tem ojeriza de motoqueiros. Da mesma forma vejo todos os dias motociclistas profissionais (hoje chamados de motofretistas) dando exemplos de bom comportamento  e cortesia no trânsito, mas que são chamados de motoqueiros.

 

A questão é: por que estimular a criação de estereótipos preconceituosos se todos usam e são apaixonados pelo mesmo veículo?

 

Eu gosto muito de me referir à minha moto como motoca, logo eu sempre fui, sou e serei um MOTOQUEIRO e com muito orgulho! 

 

publicado por motite às 20:33
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